Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 22 de março de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 3

 

[Nota – Lembramos que neste (s) texto (s) não se pretende fazer a história da Foz do Douro. São apenas Visões Urbanas, em que apenas se pretende considerar alguns elementos urbanos (edifícios, espaços públicos, pessoas ou locais), como são (ou eram) vistos pelos seus contemporâneos e como sobre eles se exprimiam, seja pela escrita ou pela poesia, seja pelo desenho, pela pintura, fotografia ou escultura. Por defeito utilizaremos algumas imagens que embora não se refiram à Foz do Douro, com ela tem evidentes afinidades.]
 

II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio 2

fig. 1 – A Barra do Douro antes da edificação dos novos paredões. http://www.theperfecttourist.com/oporto/?p=16




fig. 2 – A Barra do Douro após a edificação dos novos paredões. http://www.archdaily.com.br/br/01-75903/molhes-do-douro-carlos-prata-arquitecto/75903_75922

A Cantareira dos Pescadores (conclusão)
 
Georges! Anda ver o meu paiz de marinheiros,
O meu paiz das Naus, de esquadras e de frotas! (*)
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que extranho é!
Fincam o remo na agoa, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda ahi, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos à uma “ Agôra! agôra! agôra!”
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
[1]

(*) Na edição de Paris de 1892 o segundo verso é Traze o teu livro, toma as tuas notas:

fig. 3 - Bonifácio Lázaro Lozano (1906 1999), Galerna 1990, óleo s/tela, 54 x 81cm. Inter-Atrium Galeria.
 

[1] António Nobre, Só, 4.ª Edição Tipografia de A Tribuna, 108, Rua Duque de Loulé, 124, Porto 1921. (pág. 27).
 
Naufrágios e salva-vidas


fig. 4 – Jean Pillement (1728-1808), Bateau sur une mer agitée pastel 45 x 65 cm. Chateau-Musée de Dieppe.

 
Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho de 1829 é publicado um Edital com data de 10 de Julho e referenciado ao Porto.[1]
O Provedor e Deputados da Illustríssima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro:
Fazemos saber: Que, tendo esta Illustríssima Junta levado ao Soberano Conhecimento d’ElRei Nosso Senhor, em consulta de 7 de Janeiro de 1828, a necessidade de huma providencia para salvar as vidas dos míseros naufragantes que, à mingua dos necessários socorros, perecem nos frequentes naufrágios acontecidos aos navios mercantes, lanchas de pescadores, e outras embarcações que entrão e sahem pela barra desta cidade. O Mesmo Augusto Senhor, por hum acto de summa Justiça, e próprio de Sua reconhecida Humanidade e Religião, Houve por bem, por sua Resolução de 21 de Abril do ditto anno, crear hum Estabelecimento para salvar a vida dos naufragados, sancionando o Plano do theor seguinte:
Artigo 1.º Haverá huma embarcação – Salva-Vidas – fornecida de todos os aparelhos e utensílios próprios para acudir prontamente a qualquer navio ou barco a tomar as pessoas em perigo, ou colher do mar as que houverem naufragado.
Artigo 2.º Haverá huma casa para – Asylo dos naufragados – a fim de se lhe ministrarem os convenientes socorros. Esta casa deverá ser estabelecida sobre a praia do rio Douro, na maior proximidade possível da barra…
Segue-se um conjunto de artigos que estabelecem as responsabilidades e a quem compete o conteúdo do Asylo e a utilização do Salva-vidas, até ao 9.º que define: As despesas deste Estabelecimento serão todas pagas pelo Cofre das obras da barra do Porto, à excepção das que se fizerem com a construção e mais pertences do Salva-Vidas, o qual esta Illustríssima Junta oferece por parte da Companhia.
Em 1832 José Avelino de Castro, matemático e professor da Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto, publicou uma Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados, dirigida a D. Miguel, onde sublinha esta decisão do monarca.
Nessa Exposição considerava que a cidade do Porto, taõ importante por sua posiçaõ geografica ao Commercio deste Reino, tem desgraçadamente testemunhado muitos casos de naufragio, devidos naõ só á estreiteza e pouca profundidade da sua Barra na embocadura do Douro, se naõ tambem á existencia do grande Banco d'arêa, e numerosos rochedos que no mesmo lugar difficultaõ em summo gráo a entrada e sahida das embarcações. (…) Saõ pois nella frequentes os naufragios; e em taes circunstancias, naõ só os interesses da Navegaçaõ, mas, muito mais ainda,os deveres da humanidade, reclamaõ altamente o emprego de todo o genero de soccorros para salvar as victimas daquelles desgraçados acontecimentos.
E continua referindo o requerimento que a Junta da Companhia Geral do Alto Douro, com tanta gloria sua, como proveito e utilidade para todo o Reino, merece o mais distincto lugar a Consulta que no anno de 1828 fez subir á Real Presença de Sua Magestade, propondo a creaçaõ d'hum similhante Estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na Barra do Porto, cujas obras estaõ commettidas á sua Inspecçaõ. [2]
D. Miguel como vimos por uma Resolução de 21 de Abril de 1828, e como resposta a esta solicitação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, manda edificar a Real Casa d’Asylo dos Naufragados na Foz do Douro.


fig. 5 - José Avelino de Castro (1791-1854) Desenho de Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados.

 
O Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro confirma que Esta casa/asilo localizada em S. João da Foz, foi criada por resolução régia de 21 de Abril de
1828, na sequência da consulta efectuada pela Companhia nesse sentido, propondo tal estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na barra do Porto, cujas obras estavam cometidas à Junta da Companhia. A construção foi da responsabilidade da Junta, que pagou a mesma, assim como o salva-vidas, passando as despesas do estabelecimento a serem pagas pelo cofre das obras da barra do Douro.
A Junta da Companhia foi encarregada, em 1807, de construir um barco salva-vidas, utilizando como modelo outros da mesma natureza que o cônsul inglês Guilherme Warre havia mandado vir de Inglaterra. Em 1828, foi novamente incumbida a Junta de construir outro barco semelhante ao primeiro, que tinha ido para Lisboa, o qual foi executado por Manuel Gomes da Silva, mestre da Ribeira do Douro, na cidade do Porto. [3]


 
fig. 6 - Asylo dos Naufragados.

[1] Edital, Porto. 10 de Julho da Junta da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho do Anno 1829. (pág. 698).

[2]José Avelino de Castro (1791-1854), Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados: que sua magestade fidelissima, o senhor D. Miguel Primeiro, mandou erigir em S. Joaõ da Foz do Douro, á entrada da barra da cidade do Porto, debaixo da inspecção da illustrissima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro. Porto: Viuva Alvares Ribeiro & Filho, 1832. (pág. 4 e 5).

[3] Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, ponto 9.4 – Asilo dos Naufragados de S. João da Foz do Douro e Salva Vidas (Sub- secção). (pág. 281).


As consequências do naufrágio do vapor Porto
  
Em 28 de Março de 1852, o vapor “Porto” naufraga na barra do Douro e morrem 29 tripulantes e 37 passageiros do navio, entre os quais personalidades conhecidas da cidade.


fig. 7 – O naufrágio do vapor Porto.Desenho da época.

 
Com a emoção que a tragédia provocou, alguns meses depois é publicado um decreto do Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria,considerando que sendo mui frequentes na barra do Douro os naufrágios e perdas de vidas; e cumprindo providenciar para que em casos taes sejam prestados todos os possíveis auxílios e soccorros; Considerando que para este fim se conseguir é necessario dar ao estabelecimento denominado= Salva- vidas= uma administração estavel e regular é criada uma comissão 'Artigo 1." A inspecção e fiscalisação do estabelecimento Salva-vidas, fundado na cidade do Porto, é encarregada a uma commissão permanente, composta do Governador Civil, presidente; do Intendente da Marinha, vice-presidente; de dois vogaes, nomeados pela Sociedade Real Humanitaria; e de dois outros vogaes nomeados pela Associação Commercial d'entre os seus sócios. Art. 2. Na casa de asylo para naufragados, sita no Passeio Alegre de S. Jo da Foz do Douro [1]
 
E o reconhecido engenheiro José Vitorino Damâsio (1806-1875), professor da Academia Politécnica do Porto, fundador da Fundição do Bolhão e da Associação Industrial Portuense, vivamente impressionado pelo naufragio do vapor Porto succedido na barra do Douro em 29 de março d'aquelle anno, fez (…) pelo mesmo tempo na Foz varias experiencias, com o fim de descobrir o meio de lançar de terra um cabo de salvação para um navio em perigo. O resultado d'essas experiencias, se não foi inteiramente satisfactorio para o fim a que se propunham, deu origem a uma interessantissima descoberta, que, mal de nós, a sua modestia occultou por alguns annos, vindo depois a apparecer publicada em jornaes estrangeiros, sem que nós possamos reivindicar a gloria da prioridade, que nos pertencia. [2]

[1] Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria, Preambulo e Artigo 1º e 2º do Decreto de 22 de Dezembro de 1852.
[2] Annuario da Academia Polytechnica do Porto. Anno lectivo de 1889-1890, Typographia Occidental, 66, Rua da Fabria, 66, Porto 1890. (pág. 101).
 
O naufrágio do brigue Diana em 1864
 
Apesar destas medidas os naufrágios, com perdas de vidas, continuavam a ser frequentes.
Como exemplo o naufrágio de um brigue relatado no Annuario do Archivo Pittoresco de Dezembro de 1864,em que apenas se salvaram três tripulantes recolhidos na casa do salva-vidas.
“No dia 26 do mez ultimo naufragou no Porto o brigue sueco Diana. Da participação do intendente da marinha extrahimos a seguinte curiosa noticia: “ No dia 26 appareceu ao SO. Da barra, sendo o vento N; às 4 horas e meia da tarde deitou em cheio para terra, vindo com todo o panno largo, e com a bandeira a pedir socorro: a distancia a transpor ate ao logar onde encalhou seria de 7 a 8 kilometros. Entre o acto do navio deitar para a terra e desfazer-se nas pedras, decorreram poucos momentos; entretanto logo acudiram ao Cabedello parte da corporação dos pilotos e remeiros das catraias, e alguns que se poderiam adiantar salvaram o capitão do brigue, o carpinteiro, e um moço, que a nado tinham vindo para cima das pedras. Estes náufragos seguiram logo para o Cabedello, não havendo tempo para chegar ao logar do naufrágio o tenente Crespo e mais pessoas que iam acudir, porque às 6 horas estava tudo concluído.
A lancha que o brigue trazia a reboque, virou-se com a arrebentação do mar submergindo um homem que vinha dentro.
Dos outros três náufragos que faleceram, ainda foi visto um que nadava, e para o salvar deitou-se ao mar o vareiro Manuel Branco, atado a um cabo que outro segurava em terra; porem n’esta ocasião, trazendo o mar sobre elle grande parte dos destroços do navio, mergulhou, e quando voltou à superfície, já não viu o naufrago, que provavelmente foi morto pelos mesmos destroços.
Os três náufragos salvos, foram recolhidos na casa do salva-vidas, prestando-se-lhes todos os socorros, actos a que tem sempre comparecido o benemérito cidadão Eduardo Mozer, como membro que é da comissão do salva vidas.” [1]



fig. 8 - Ivan Konstantinovitsch Aivasovski (1817-1900) naufrágio do Arco-iris1873. Óleo s/tela. Galeria Tretiakov Moscovo.

[1] Annuario do Archivo Pittoresco, publicação mensal, n.º12, Dezembro de 1864. (pág. 95).
 
O naufrágio de 1872
  
Assim os meios de socorro aos frequentes naufrágios continuavam a ter pouca eficácia.
Por isso, 8 anos depois, em 1872, Eça de Queiroz, em As Farpas escreve um irónico e, por isso, violento texto em que critica a incapacidade do salva-vidas e da comissão que o dirige.
Escreve Eça de Queiroz: na Foz, há pouco, voltou-se uma lancha. Morreram 14 homens.
Os socorros foram dados por uma lancha de pilotos, que se apressou corajosamente, e por outro barco, que veio, num risco agudo, da praia do Cabedelo. Conseguiram salvar 10 homens: 14 morreram. A 10 passos do mar, repousava placidamente o salva-vidas. O salva-vidas não desceu ao mar.
E Eça depois de ferozmente criticar o inactivo salva-vidas que podia descer, molhar-se, navegar um instante: não; conserva-se agasalhado na sua habitação onde, dizem rumores gloriosos, ele está embrulhado em algodão, num cofre.
Termina descrevendo uma bela e romântica Foz, que contrasta com as perdas de vidas causadas pelos frequentes naufrágios.
A areia do Cabedelo reluz ao sol, as senhoras passeiam na Cantareira, as gaivotas voam, e os que naufragam morrem. [1]
 
Um quadro de Eugène Boudin pode ilustrar este ambiente das praias do século XIX.

fig. 9 - Eugène Boudin (1824-1898) Élegantes sur la plage. Colecção particular.
 
Também Júlio César Machado, de uma forma talvez mais subtil, critica a incapacidade desse salva-vidas, motivo da curiosidade dos que iam à Foz.
Tudo quanto havia rico e elegante no Porto reunia-se na Foz. A curiosidade, n’aquelle tempo, era o salva-vidas, uma casita com um pequeno jardim de entrada, situada de modo que ouvia de um lado as queixas do rio, e do outro as iras do Oceano; não tinha sahida para o mar: havia apenas uma portazinha, e, quando o barco devesse ser empregado no serviço dos náufragos, chamava-se povo, e era arrastado pela areia até à beira-mar; essa operação levava uma hora, hora e meia: o suficiente a um salva-vidas para poder salvar os mortos. [2]

fig. 10 - Lázaro Lozano (1906 1999), Três mulheres e o Mar s/d Óleo s/ tela 62 x 51 cm Museu Dr. Joaquim Manso.

 
Dez anos passados, Oliveira Martins, em requerimento (que nunca teve resposta) dirigido ao Rei D. Luís e significativamente datado de 22 de Agosto de 1882, antevéspera do dia de São Bartolomeu, exprime a sua preocupação pela comunidade piscatória da Foz do Douro, descrevendo (mais) um naufrágio.
Ao tempo em que no Porto corria um delírio de embriaguez enthusiastica, ao que os jornaes dizem, lá para além, a seis léguas da cidade triumphante, havia um grupo de mulheres soluçando, e um bando de crianças espantadas, com os olhos mudos que as crianças tem diante das grandes afflicções. Eram viúvas e órfãos na praia dura e negra.



fig. 11 - B. Lázaro Lozano(1906 1999),, Viúvas na praia, 1946, óleo s/ platex, 75 x 63 cm. Museu Dr. Joaquim Manso.

 
(…) Foi uma lancha que se virou. Era de noite. O mar banzeiro espreguiçava-se em ondas maciças. Uma d’essas ondas, tomando de lado um barco, invade-o, quebra-se, e devora-o.
Foi o que succedeu. Uma lancha sobre o mar é como um desafio a um monstro. O bruto estende a garra, e por desenfado esmaga e engole…Era de noite. Soprava apenas um vento pesado e quente. Sob um ceu negro, o mar como breu tinha malhas lívidas quando na encosta de uma onda vinha outra desmanchar-se. Dir-se-hiam alvas mortuárias sobrepostas na abobada de um carneiro sepulchral – liquido, falso, oscilante, onde a lancha vasou a gente que a gente que a tripulava.


 




























fig. 12 – Lancha Poveira.


A praia é só: a villa fica distante. Estavam na praia as mulheres da companha esperando o barco, para o ver sossobrar… Então o silencio despedaçou-se em gritos lancinantes, como o ranger de velas quando no meio dos temporais o vento furioso as despedaça em fitas.Era um rasgar de almas afflictas, soando em ais selvagens, que o mar livido, impassível, não escutava.
(…) Que laços os ligam à comunidade nacional? Que lhes dá o estado? Nenhuns. Nada. Authoridades conhecem apenas duas: a Senhora da Lapa que os socorre nos temporaes, e a Sant’Anna, ou outra vareira, que lhes compra o peixe e lhes dá dinheiro sobre as redes, de inverno, nos dias de fome. [3]

 
E se nos anos 80 do século XIX, também num catálogo enviado à Exposição Industrial Portuguesa de 1888, José Cândido Correa afirma que Com effeito, em toda a costa do continente do reino, unicamente no districto do Porto (na foz do Douro), se encontra uma estação de soccorros a naufragos regularmente organizada.
Com referencia a este districto maritimo (Porto), diz o chefe do departamento maritimo do norte 4, ha na foz do Douro os precisos meios de soccorro para naufragos, e constam elles de: hospital
com tres enfermarias devidamente montadas, guarda-roupa com vestidos de agasalho, barretes, calçado proprio, etc., casa de banhos quentes, botica com os medicamentos mais necessários aos naufragos, escovas e outros utensílios para fricções, machinas electrica, pneumática, e objectos de cirurgia.
Fóra do armazém estão dois barcos salva-vidas e um saveiro também salva-vidas, competentemente resguardados. Os tripulantes para estas embarcações engajam-se na ocasião em que são precisos, pagando-se-lhes depois com generosidade os seus serviços. [4]
 

[1] Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre de As Farpas 1872, Volume II, XXIX Julho 1872. Lello & Irmão, Editores, Porto 1979. (pág.169).
[2] Júlio Cesar Machado (1835-1890), A Vida Alegre. (Apontamentos de um folhetinista). Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, 67, Praça de D.Pedro,67, Lisboa 1880. (pág. 29).
[3] [Joaquim Pedro de ] Oliveira Martins (1845-1894), Politica e Economia Nacional, Magalhães & Moniz Editores, 12, dos Loyos, 12, Porto 1885. (pág. 192, 193 e 194).
[4] José Cândido Corrêa, Catalogo Official dos Objectos enviados à Exposição Industrial Portugueza em 1888, precedido de uma memória acerca das construcções e armamentos navaes e dos Estabelecimentos de Ensino que lhes dizem respeito. Elaborada por José Cândido Corrêa, primeiro tenente da armada, secretario da escola naval, lente interino da mesma escola e professor do instituto industrial e commercial de Lisboa. Ministério dos Negocios da Marinha e do Ultramar, Imprensa Nacional, Lisboa 1888. (pág. 314).
 
A tragédia de 27 de Fevereiro de 1892



fig. 13 - A. Silva, Na Póvoa do Varzim – O dia 27 de Fevereiro. In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
No Sábado de Carnaval de 1892, dia 27 de Fevereiro, o mar fora da barra do Porto tomou um aspecto medonho, terrível, e ameaçando de morte horrorosa os mil e tantos pescadores da Povoa de Varzim, da Affurada, de Mathosinhos, de Buarcos que nas suas companhas andavam arrancando ao mar traiçoeiro o pão de cada dia para si e para os seus. (…) À hora em que escrevemos faltam-nos ainda notícias minuciosas da colossal catastrophe que veiu encher de lucto, de lagrimas e de miséria as povoações mais sympathicas, mais trabalhadoras, mais heroicas de Portugal, mas o que se sabe já pelos últimos telegramas é que o numero de mortos ascende já a 108 e que parece que não ficará por ali. [1]
 
E a notícia de O Occidente assinada por Gervasio Lobato (1850-1895) refere ainda que S. M. El-Rei e Sua M. a Rainha a Sr.ª D. Amélia apenas souberam da terrivel desgraça que cahiu sobre as povoações marítimas do norte mandaram chamar o sr. Presidente do Conselho de Ministros para que lhes desse notícias minuciosas da catástrofe declarando suas Magestades a S. Ex.ª que queriam contribuir, quanto lhes fosse possível para minorar a desgraça das famílias dos infelizes pescadores. [2]
 
O Occidente dedica ainda todo o número seguinte de 11 de Março de 1892 à tragédia dos pescadores, em que colaboram entre outros, os conhecidos escritores e poetas, Ramalho Ortigão com o artigo O Poveiro retirado de As Praias de Portugal, e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), o autor da letra do Hino Nacional, com o poema Os Afogados escrito sobre o acontecimento.

Os Afogados
Sonhei que um baixel negro me levava
Pelo mar, pelo mar, verde campina;
Vibrava a lua da luzente aljava
Flechas de ouro na vaga esmeraldina.
De repente surgiu no Oceano imenso,
Como sinistro vómito do abysmo,
Um tropel de fantasmas, denso, denso,
Dansando em contorsões de galvanismo.
Então sob o medonho torvelinho,
O mar largo, sem fim, desaparece;
A custo abre o baixel o seu caminho
Pelos meandros d’essa extranha messe.
E um lamentoso côro se levanta,
Quebrado, soluçante, gemebundo,
Como se lhes entrassem na garganta,
Ás golfadas, as aguas do profundo.
E esse côro fantástico dizia:
“Ah! malditas as furias da tormenta!
“Naufragos somos! nossa campa é fria!
“Ah” bemdito o luar que nos aquenta!”
E emquanto o meu baixel ia seguindo,
Regelavam-se os raios do luar;
E reboava o clamor no espaço infindo:
“Maldito seja o mar, o mar, o mar!”


O mesmo número de O Occidente é ilustrado por gravuras uma das quais reproduz um quadro de Silva Porto (1850-1893) e uma outra uma fotografia de Emílio Biel (1838-1915).

A Póvoa do Varzim

fig. 14 – [António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893)], Silva Porto Bairro de Pescadores na Povoa de Varzim (Quadro de Silva Porto). In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
Existe um quadro bastante semelhante de Marques de Oliveira.

fig. 15 - João Marques de Oliveira (1853-1927) Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim 1882/90. Óleo s/ madeira 23 x 37 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea, Museu do Chiado.

 
Existe, tratando o mesmo tema, um outro quadro de Silva Porto intitulado Praia da Póvoa de Varzim.

fig. 16 - António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893), Praia da Póvoa do Varzim 1884. Óleo sobre madeira 20,9 x L. 31,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis.

Em todos estes quadros as estruturas de madeira para pendurar as redes, conferem à composição uma horizontalidade, acentuada pela linha do horizonte.

A Afurada

Quanto à gravura de Domingos Cazellas (1855-?) reproduzindo uma fotografia de Emílio Biel, conhece-se a fotografia original.

fig. 17 – [Domingos] Cazellas, A Afurada (Segundo photographia de E. Biel) In O Occidente de 11 de Março de 1892.


fig. 18 - Emílio Biel (1838-1915), A Afurada 1885, no blogue Porto, De Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias.

 
Ramalho Ortigão descreve estes barcos do Douro de proa comprida e alta, própria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais análogo ao das embarcações portuguezas de há trezentos ou quatrocentos anos. [3]
 

[1] Gervásio Lobato in O Occidente n.º 475 de 1 de Março de 1892.
[2] Idem.
[3] Ramalho Ortigão, O Culto da Arte em Portugal, Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor, 50, Rua Augusta,52, Lisboa 1896. (pág. 129).

O Real Instituto de Socorros a Náufragos
 
Essa catástrofe em que perderam a vida 105 pescadores da Póvoa de Varzim e da Afurada, pela enorme vaga de solidariedade que se constituiu na sociedade portuguesa, contribuiu para a criação do Real Instituto de Socorros a Náufragos por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892 de D. Carlos e pelo Decreto-Lei de 9 de Junho de 1892, publicados nos Diários de Governo nº 131 e 132, de 1892. A Presidência deste novo Instituto foi atribuída à Rainha D. Amélia que se empenhou no desenvolvimento deste organismo até à proclamação da República.
No Passeio Alegre na Foz do Douro é então criado um estabelecimento salva-vidas, no local do Asylo dos naufragados.

fig. 19 - Planta de Telles Ferreira 1892.Pormenores da folha escala 1:5 000, com a localização do Salvavidas.

fig. 20 - Planta de Telles Ferreira 1892. Quadrícula 52 do levantamento colorido, escala 1:500, e pormenor da localização do Salvavidas.



fig. 21 – A Estação de Socorros a Náufragos.



fig. 22 – A Estação de Socorros a Náufragos antes da remodelação. 2011. Foto Seref Halicioglu in Panoramio.

fig. 23 – A Estação de Socorros a Náufragos na actualidade. Imagem do Google Earth.

 
A Estação de Socorros a Náufragos vista de nascente. À direita num postal do início do século XX. [1]
 
fig. 24 – Postal. Porto – Foz do Douro – Passeio Alegre (antigo).

[1] Os postais Estrela Vermelha começam a ser editados em 1905.
 
O naufrágio de 1947
 
Já no século XX são muitos, demasiados, os naufrágios na barra do Douro. [1]
Não podíamos deixar de assinalar aqui o naufrágio de 1947 que foi o mais trágico, pelo número de vidas que se perderam em diversos portos da costa portuguesa. Quatro traineiras naufragaram e morreram 152 pescadores.

fig. 25 – Uma traineira.



fig. 26 - Augusto Gomes (1910-1976), Tragédia do Mar, óleo s/ tela, 124 X 164 cm. ??

 
Num fundo ondulado de nuvens de tempestade e mar agitado, cinco figuras femininas, quatro das quais trajando de negro e uma quinta com uma saia purpura, caminham para a praia gritando e chorando a sua aflição perante a tragédia. As três figuras centrais erguem os braços enquanto nas pontas uma leva a mão ao peito e com a outra segura uma criança, e na outra extremidade uma ajoelha tapando o rosto com as mãos.
No tratamento dos braços robustos e musculados e das mãos e dos pés grandes e calosos, significando a dura vida das mulheres dos pescadores, nota-se a influência da Guernica de Picasso.

fig. 27 - Pablo Picasso (1881-1973) Guernica 1937, óleo sobre tela, 349,3 x 776,6cm. Museu Reina Sofia Madrid.

 
Essa influência é do mesmo modo visível no Enterro na rede de Candido Portinari, um quadro de 1944 e que faz parte de uma série de pinturas intitulada Retirantes. Não tendo como tema uma cena de pescadores exprime contudo a dor e o desespero dos que se vêm impotentes perante a sua condição de miséria. Como afirmou Jorge Amado sobre Portinari de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pinceis, ele tocou fundo em nossa realidade...



fig. 28 - Cândido (Torquato) Portinari (1903-1962) Enterro na rede, 1944 óleo sobre tela 180 x 220 cm. Museu de Arte de São Paulo MASP.

 
Baseado naquela pintura de Augusto Gomes, o escultor João José Brito realizou uma escultura em bronze intitulada “Tragédia no Mar” numa homenagem ao naufrágio de 1947, inaugurada em 2005.


fig. 29 – João José Brito (1941), Tragédia no Mar ing. 2005, bronze, Praia junto à Av. General Norton de Matos, Matosinhos.
 

[1] Ver Rui Picarote Amaro (1937-2014), A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro, O Progresso da Foz 2007 e o blogue Navios e Navegadores http://naviosenavegadores.blogspot.pt/
 
A lancha salva-vidas
 
Deve-se a Henry Greathead (1757-1816) o primeiro barco construído para nos mares agitados de South Shields nesse dia desolador - 30 de janeiro de 1790. Baptizado de o "Original", era o primeiro barco salva-vidas.

fig. 30 – Joyce Wells Mr Henry Greathead's Life Boat going out to assist a Ship in distress, água tinta 13,6 x 18,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, Londres.


fig. 31 – Lancha salva-vidas Visconde de Lançada na Cantareira.
 
O Salva-vidas Visconde de Lançada [1] foi construído em Inglaterra em 1908 e estava estacionado no cais do Marégrafo. Era mareado por 10 remadores comandados por um arrais.
Serviu até aos anos setenta do século XX e foi então colocada junto à Estação de Socorros a Náufragos.

fig. 32 - Rui Amaro O salva-vidas Visconde da Lançada junto da Estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro, 02/1981.http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.pt/2011_12_25_archive.htm

fig. 33 - Uma das lanchas dos pilotos, a P5.
 
Rui Picarote Amaro recorda este salva-vidas e as lanchas dos pilotos.

Neste mesmo local, assisti a naufrágios de pequenas embarcações de pesca em que os seus desventurados camaradas perecerem engolfados por montanhas de ondas traiçoeiras e muitos outros foram resgatados pelo salva-vidas Gonçalo Dias da Afurada e pelo Visconde de Lançada, da Cantareira, este timonado pelo seu patrão, o carismático Zé Bilé e pelo seu sota Rodrigo, e nomeadamente pelas lanchas de pilotar P4, P5 e P9, conduzidas pelos cabos-piloto Manuel de Oliveira Alegre (Marage), Aires Pereira Franco e pelo seu mestre Eusébio Fernandes Amaro (Colega), coadjuvados pelo seus motoristas e camaradas, que eram alternativa àqueles dois salva-vidas do Instituto de Socorros a Náufragos. Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo! [2]

Para homenagear esta “Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo”, em finais de 1936 o Comércio do Porto noticiava a decisão da Câmara Municipal de colocar a escultura “O Lobo-do-Mar” ou o “Salva-Vidas”, nome porque ficou conhecida, da autoria de Henrique Moreira no Jardim da Avenida Brasil, para com a estátua do Homem do Leme completar o conjunto artístico. A escultura foi inaugurada em 1937. [3]


fig. 34 - Henrique Moreira (1890 - 1979), O Lobo do Mar O Salva-Vidas 1937, Avenida do Brasil, Nevolgilde Porto.
 

[1] Visconde de Lançada foi um título criado por D. Maria II em 1849 para Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (1778-1856). Suponho que o nome da lancha se refere ao 3.º Visconde de Lançada, D. Domingos de Sousa e Holstein Beck (1897-1969) 5º duque de Palmela e 4.º Conde de Calhariz, 3.º Conde da Póvoa, ou a um seu parente.
[2] Rui Picarote Fernandes Amaro, Discurso de apresentação do livro A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro em 14.04.2007 no blogue Navios à Vista 2008. http://naviosavista.blogspot.pt/2008_02_24_archive.html
[3] Cf. José Guilherme Pinto de Abreu, A Escultura no Espaço Público do Porto no Século XX, Dissertação de Mestrado em História de Arte em Portugal, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1996/98.Porto 1999.
 
CONTINUA em
Da Cantareira à Senhora da Luz



 

quarta-feira, 8 de março de 2017

o rio e o mar na foz do Douro 2






II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio

Agua, ¿dónde vas?
Riyendo voy por el río
a las orillas del mar.
Mar, ¿adónde vas?
Río arriba voy buscando
fuente donde descansar.
  [1]

Na I Parte evocou-se que “Do Porto contam os nossos bem-aventurados antiquários que foi colonia grega; e dos gregos contou Horacio que falavam ore rotundo”. [2]
A frase é de Almeida Garrett citando a expressão de Quintus Horatius Flacus, Graijs dedit ore rotundo Musa loqui (A Musa concedeu aos Gregos falar com eloquência). [3]
 
fig. 1 – A Barra do Douro e a Foz do Douro vistas do lado de Gaia. AHMP.

A entrada pelo mar
Muitos viam como terrível a barra do Douro, como a personagem do inglês mister Rawts que, debruçado na janella, principiou a fallar d'aquella péssima barra do Douro, que tanto mal fazia ao commercio! E, abanando a cabeça muito branca, com um ar triste, lamentava: —Oh! uma peste de barra, captain! Uma peste de barra! [4]
 
fig. 2 - View of the Bar of Oporto
 
E Raul Brandão descreve a entrada na barra do Douro.
Atrás de nós fica uma larga estrada de prata. Na poalha de ouro descobre-se um risco indeciso. E a terra. Primeiro, nuvem distante. Um momento e acentuam-se os traços deslavados da areia. Mais cor agora… E a terra, a princípio desvanecida e roxa e depois verde nos eternos pinheirais. Um areal dourado, um ponto branco que estremece - o Senhor da Pedra. O vento enche a vela e, pouco a pouco, todo o panorama transparente sai do mar e escorre tinta. No fundo, ergue-se a costa com manchas escuras de pinheiros, que não se distinguem ainda. Faísca envolta em névoa a brancura das casas, e toda a larga paisagem renasce em tons de aguarela. A terra voluptuosa - cabedelo de ouro, montes pálidos que saem da água como seios - entreabre-se para nos acolher. Eis os gigantescos braços de Leixões, tão leves que a luz os trespassa, a penedia afiada de Carreiros, onde o mar escachoa, e o pontilhão coberto de espuma, ao sul, Lavadores, o areal de Espinho, bruma afastada e cor de cinza. Cai a tarde. Vamos entrar a barra. Quase toco de um lado no velho castelo roído de salitre e, do outro, no bico do Cabedelo, onde as gaivotas apanham o último sol. - Eis a barra. Agora, o leme firme! [5]
 

fig. 3 - Postal Costumes Portugueses – Porto - Rio Douro – Pescadores voltando do mar c.1910.

Vilhena de Barbosa descreve, para quem se aproxima do Porto vindo do mar, e passada a terrível e temível Barra do Douro, como é muito agradável, (…), ver os arvoredos que fazem caixilho de verdura a povoação da Foz, e que vão assombrando a estrada á beira do rio. É bello ver ambas as margens montuosas vestidas de bosques, em que ora se mostram, ora se escondem, aqui uma habitação esplendida, alli uma casa humilde, além uma aldeiasinha, mais longe um estabelecimento fabril. Enlevam-se os olhos contemplando por entre os pinhaes, ou através dos renques de carvalhos, toucados de vides, viçosissimos prados, ou estendidos como alcatifas ao longo do rio, que na estação invernosa os inunda e fertilisa, ou dispostos em throno nas quebradas dos montes de Sampaio. Porém todas estas bellezas são singularmente realçadas pelas fragas inhospitas do monte da Arrabida. [6]
 
O texto de Ignacio Vilhena de Barbosa era acompanhado pela seguinte imagem. 

fig. 4 - O Douro visto do monte da Arrabida in Archivo Pittoresco 1867.
 


[1] Frederico Garcia Lorca (1898-1936), Agua ? Donde Vas?, in Obras Completas Recopilacion y notas de Arturo del Hoyo. Prólogo de Jorge Guillen. Epílogo de Vicente Alexandre. Aguilar, S. A. de Ediciones Juan Bravo, Madrid 1969. ( pág. 416).
[2] Almeida Garrett na Nota J ao verso Que o rotundo fallar da nossa origem, poema XV As Férias. A um amigo, datado: Porto, Junho 15, 1819. Em Lyrica, Livro Primeiro de Obras Completas de Almeida Garrett. Grande edição popular ilustrada. Prefaciada, revista, coordenada e dirigida por Theophilo Braga. Volume I, Poesia e Theatro (prosa e verso). H. Antunes, Livraria Editora, 145, Rua de Buenos Ayres, 145, Rio de Janeiro e 9, Travessa da Espera, 11, Lisboa M DCCC LIV. (pág. 69 e pág. 99).
Citado também por Alberto Pimentel in O Porto na Berlinda Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.33).
[3] Quintus Horacius Flacus (65 a.C.-8 a.C.), Ars Poetica, versos 323 e 324.
[4] Alberto (Leal Barradas Monteiro) Braga, (natural da Foz do Douro, 1851 - 1911), Amores à Beira Mar in Contos Escolhidos. Illustrações E. Casanova. M. Gomes, Livreiro Editor, 70, Rua Garrett (Chiado), 72, Lisboa 1892. (pág.5).
[5] Raul Brandão (1867-1930), A Foz vista do mar in Guia de Portugal, Rntre Douro e Minho I – Douro Litoral, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.376).
[6] Ignacio de Vilhena Barbosa (1811-1890), Archivo Pittoresco. Tomo X, 1867. (N.º 16 pág. 121).
 
 
Da cidade para a Foz pela margem do rio 

[nota – Nos primeiros textos colocados neste blogue ocupamo-nos dos transportes. Por isso, aqui apenas nos ocuparemos dos transportes para a Foz.]

fig. 5 – Postal dos início do século XX. Vista sobre a Barra do Douro.
   

De barco

Eu quero o mapa das nuvens
e um barco bem vagaroso.
 [1]

Quando a Foz se tornou uma procurada estância balnear, para quem, do Porto, seguia de barco (como os turistas de hoje), percorrendo o mais antigo dos percursos que ligavam a cidade à foz do Douro, fazia-o em pequenas embarcações à vela ou em pequenos escaleres a remos. 



 
































fig. 6 - Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


 
fig. 7 - Uma lancha poveira de dois mastros e uma bateira de cabotagem Pormenor de Manoel Marques de Aguilar, Vista da Cidade do Porto, desde a Torre da Marca athe as Fontainhas, tomada da parte de Filia Nova do sítio chamado Choupello. 1791.



fig. 8 – Postal do início do século XX.

 
Mas com o aumento da procura, em 1855 foi criado um serviço de barcos a vapor, entre a cidade e a Foz. [2]
Assim, nos meados do século XIX, quem do Porto queria ir para a Foz, dizia adeus ao Porto ao gageiro Néctar louro, / Que produz o fertil Douro [3], e dirigia-se à Porta Nobre, a porta da muralha da cidade que abria para a ocidente, como em verso refere Theotonio Xavier da Cunha: [4]
 
Assim, por ser d’ Apollo previdente
À nova fundação vaticinada,
Do muro pelo Heróe ao Sol luzente
A porta oriental foi dedicada.
Outra porta, q'olhava no occidente,
Na praia, onde ancorou a grega armada,
Em memoria d'acção, q'executárão,
Com o nome de Nobre decorarão
.
[5]

Aí embarcava num vaporzinho que fazia carreira entre a cidade e a Can­tareira, [cuja] empresa não deu bom resultado, tal era o apego ao burro, no Porto daquele tempo, como meio de transporte. [6]
 


fig. 9 - Pormenor de Vista da Serra do Pillar, e Ponte Pênsil sobre o Rio Douro na Cidade do Porto. Joaquim Manuel das Neves, dez. do Nat. e grav. Porto.

 
O vaporzinho era o Duriense, pequeno barco, movido a vapor, que morreu de paixão por não poder andar tanto como um carroção puxado a bois, como refere Faustino Xavier de Novaes, no seu poema Um passeio à Foz.
Nele descreve o regresso desse passeio.

…Immensa multidão lá se descobre
No logar onde esperam passageiros,
Que o vapor os vá pôr na Porta Nobre,
Ri-se a gente do tom, dos cavalleiros
Que, sem que áureo metal assaz lhe sobre,
Fidalgos querem ser, e não caixeiros;
Em quanto que o patrão, lá na cidade,
Ficou de mãos erguidas na Trindade…
Faustino de Novaes contudo, por medo, não embarca.
O Duriense partiu; marchei, por terra,
Porque sou mui cobarde nos revezes,
E escuto como alguma gente berra,
Quando o lindo vapor, não poucas vezes,
Com pedras, água e vento, em crua guerra,
Se dispõe a mangar dos portuguezes:
O passeio findei, bom de saúde,
Se mal o "descrevi, fiz o que pude. 
[7]


No postal vê-se ao fundo, navegando no Douro, um navio a vapor, (o Veloz?), chegando à Cantareira. 


fig. 10 – Postal dos finais do século XIX.


[1] Mario Quintana (1906-1994), Canção de Barco e de Olvido.Para Augusto Meyer. Do livro Canções 1946, in Poesia Completa  Organização, preparação do texto, prefácio e notas: Tania Franco Carvalhal. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro 2006. (pág.160).
[2] Sobre o barco a vapor ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-8.html
[3] Composições Poéticas, oferecidas ao Sereníssimo Regente de Portugal Senhor Dom João, Principe Regente de Portugal, por BMCS, sócio da Academia Tubuciana entre os Arcades Belmiro Transtagano. Na Regia Officina Typografica, Porto M DCCC III. (pág. 156).
[4] Poesias de Theotonio Joze Xavier da Cunha. Na Offic. De Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de 1796. (Estrofe 32, pág.391).
[5] Com uma especial saudação para o Nuno Cruz autor do magnífico blogue A Porta Nobre!
[6] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto Há Trinta Annos. Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Porto 1893.
[7] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág.37).
 
 


Pela estrada junto ao rio.

Vesti a casaquinha afiambrada,
E da soberba Foz segui estrada
. [1]

No seu Romance os Tripeiros, que se desenrola no século XIV, António Coelho Lousada refere que
O espaço que se estendia desde os muros até onde a Arrabida deixava apenas um caminho de cabras, aberto na rocha para quem se quizesse dirigir á Foz do Douro, não foi pois transposto em menos de uma hora, pela vanguarda: uma grande parte do exercito popular nem lá chegou. [2]
 
E nos finais do século XVIII, apenas existia um tortuoso caminho até à Foz que prolongava a estrada entre a cidade até Massarelos.
Mas apenas em meados do século seguinte, ao construir-se o paredão da Cantareira, se abriu uma verdadeira estrada, permitindo que os portuenses pudessem deslocar-se a banhos nas praias da Foz. 

A estrada em macadame é assim descrita por Lady Jackson, nos anos 70 do seculo XIX:
É uma estrada cheia de vida; assim tivesse menos pó, que forma sobre ella uma nuvem continua, em consequência do tranzito constante dos carros de bois, passando e repassando, de cavalgaduras, de pequenos carros de cortinas com gente da província, ou banhistas que não chegaram a tempo ou não acharam logar nos Americanos. [3]
 
De facto, e como em outros países, os portuenses que iam para a Foz partiam em caravanas, montados em burros e cavalos, ou em carros puxados por bois ou por cavalos, até ao aparecimento da tracção eléctrica.
[Nota – Pela dificuldade de encontrar imagens destas iniciais deslocações às praias da Foz, socorri-me de imagens de outras paragens que, de algum modo, mostrassem o ambiente desses passeios e deslocações.]


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 32).
[2] António Coelho Lousada (1828-1859), Os Tripeiros. Romance-Chronica do século XIV, por A. C. Lousada.Typographia de J. J. Gonçalves Basto, Largo do Corpo da Guarda n. 106, Porto 1857. (pág.3).
[3] Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág. 302).

 
 
De burro

Em tysicos jumentos, abatidos
Ao pêso de pomposas bagatellas,
Vi damas. Com esplendidos vestidos,
Com lindas fitas brancas e amarellas.
 [1]

fig. 10 - Jan Verhas (1834-1896) Donkey Ride At Heist, 1884 óleo s/tela 41 x 64 cm. Royal Museum of Fine Arts, Antwerp.

 
Ramalho Ortigão refere que os burros da Foz eram muitas vezes provenientes da Rosa das burras, cujo nome provinha do seu estabelecimento, em que se alugavam as mulinhas cavalgadas, estabelecimento que ostentava a seguinte tabuleta: 

Aqui se alugo vurras para passeio e para leites com albarda e com selim de homem e de senhora. [2]
 
Alberto Pimentel refere essas alegres burricadas.

Os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras orga­nizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras caíam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquele vul­gar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia de banhos, onde os burros ficavam descansando enquanto as pessoas que eles haviam transportado iam tomar banho.
Estas caravanas que chegavam ou que partiam contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos. [3]
 



fig. 11 –Antes da partida do Raid. Caldas da Rainha in Illustração Portuguesa, n.º 138, 12 de Outubro de 1908. Cliché de F. Mathias.
Os burros, esses simpáticos e tão, injustamente, desprezados animais, eram sobretudo cavalgados por senhoras e crianças. 


fig. 12 - Isaac Israels (1865-1934) Donkey riding (1898 - 1902) óleo s/tela 80 X 100,6 cm. Museu Municipal de Haia.
Sobre a figura feminina montada num burrico, quem não se lembra do poema de Cesário Verde, magistralmente dito por João Villaret, sublinhando toda a musicalidade dos versos do poeta! 

N’aquelle “pic-nic” de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
………………………………………………….
 [4]


fig. 13 - Isaac Israels (1865-1934) Girl riding a donkey, c.1898. Kröller-Müller Museum, Otterlo.
Charles Sellers descreve como eram utilizados os burros e os carroções pela colónia inglesa, na Foz do Douro, onde possuíam a sua própria praia (a praia dos Ingleses) e os seus próprios burros. 

When I was a boy, before caleches had commenced running between Oporto and Foz, the narrow esplanade at the back of the bathing-station was the standing ground for numberless badly equipped and sorry looking donkeys, which were waiting the return of their riders from their morning ablutions. Many families would engage a huge carriage, something like our country
omnibus, but drawn by oxen, and for these, while the family bathed, there was a space reserved in the neighbouring streets. Our young people of today may not feel inclined to credit that in this fashion their ancestors had to travel to Foz for their sea-dip; the ladies used to ride on an andilha, a sort of cushioned chair on donkey back. And as we English had a separate bathing place from the Portuguese, so we had our own donkeymen and women who provided us with our mokes. [5]
 
[Quando eu era criança, antes que as caleches começassem a circular entre o Porto e a Foz, a estreita esplanada por trás do balneário era o local para inúmeros asnos mal equipados e desesperados, que esperavam o retorno dos seus cavaleiros das suas abluções matinais. Muitas famílias alugavam uma grande carruagem, algo parecida com os omnibus rural do nosso país, mas puxadas por bois, e para aquela, enquanto a família se banhava, havia um espaço reservado nas ruas vizinhas. Os nossos jovens de hoje podem não se sentir inclinados a acreditar que, desta forma, os seus ancestrais tiveram de viajar para Foz para o seu mergulho no mar. As senhoras costumavam andar numa andilha, uma espécie de cadeira sobre a sela do burro. E, como nós os Ingleses tínhamos uma praia separada da dos Portugueses, também tínhamos os nossos próprios rapazes dos burros e mulheres que nos forneciam os nossos burros.

As senhoras montavam à amazona, sentadas em andilhas, pequenas cadeiras de vime, servindo de sela. 


fig. 14 - William Woodhouse (1857-1939) The Donkey Boy. Lancaster Maritim Museum.
 
Os burros ficavam nas praias, sob o olhar vigilante dos seus tratadores. 


fig. 15 - Lodewijk 'Louis' Soonius (1883-1956) Ezeltjes op het strand wachten op badgasten. oil on canvas 50.5 x 70 cm. (Coll. Christies.com).
 
Como se vê na capa desta revista Ilustração, em 1926 o passeio de burro na praia era já apenas divertimento. De reparar nos fatos de banho e na maneira como as jovens já cavalgam o burro. 




 































fig. 16 - Capa da revista Ilustração Ano I, n.º 16 Agosto de 1926.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.23).
[3] Alberto Pimentel (1849-1925) O Porto Há Trinta Anos, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Porto 1893.
[4] Cesário Verde (1855-1886) De Tarde in O Livro de Cesário Verde 1873-1876. Reimpressão textual da primeira edição feita pelo amigo do poeta António da Silva Pinto (1848-1911). Terceira Edição. J. A. Rodrigues & C.ª, Editores, 186, Rua Áurea, 188, Lisboa 1911. (pág.86).
[5] Charles Sellers (?-?), Oporto old and new being a Historical Record of The Port Wine Trade, and a Tribute to British Commercial Enterprize in the North of Portugal by Charles Sellers. Edted and Published by Herbert Edward Harper (The Wine & Spirit Gazette), 39, Crutched Friars, London 1899. (pág. 9 e 10).
  



De cavalo 

Em soberbos cavallos, bem montados,
Vi correrem galhardos cavalleiros…
 [1]


fig. 17 - Anton Mauve (1838 –1888) Promenade matinale à cheval sur la plage, 1876, óleo sobre tela 43,7 × 68,6 cm. Rijksmuseum. Amesterdão.

 
No cavalo, vai o janota que usa bigode torcido, que põe gravatas garridas, que é do typo de chicotinho e de cavalicoque. [2]
 
Mas a mulher montava, diz Ramalho Ortigão, como a inglesa: hombros fortes, peito chato, vestido abotoado como um veston, collarinho liso, cabello escondido na copa do chapéo posto em cheio na cabeça e inclinado para traz, uma bengala atravessada sobre o pescoço do cavallo e segura pelo meio na mão da rédea. [3]

 
fig. 18 - Charles Auguste Emile Durant ou Carolus-Durant (1837-1917) Portrait equestre de mademoiselle Sophie Croizette en amazone 1873, óleo s/tela Musée des Beaux Arts de Tourcoing Lille

Muitos jovens divertiam-se exibindo os seus belos cavalos.


fig. 19 - Lucy Kemp-Welch (1869-1958) Horses bathing in the sea 1900, óleo s/tela 152,9 x 306,5 cm. National Gallery of Victoria, Melbourne Austrália.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes(1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), John Bull, depoimento de uma testemunha, 2.ª edição, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, Porto 1887. (pág. VII)
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), John Bull, depoimento de uma testemunha, 2.ª edição, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, Porto 1887. (pág.72).
    



De carroção [1]
……………………………….. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...

Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
 [2]


Para servir de alternativa aos jumentos utilizados para estes percursos, e como viatura familiar, surgiu o Carroção.
O Carroção, pesado e vagaroso, puxado por uma junta de bois, tornou-se conhecido pelo transporte de passageiros da cidade para a Foz do Douro, então tornada estância balnear. 

fig. 21 – O Carroção numa gravura da época.

 
Faustino Xavier de Novaes sublinha ironicamente a lentidão da viatura.
Enquanto carroções de antigas eras,
Divagam, a dormir, por essas ruas!

O marido infeliz que a esposa veja
Em capoeiras tais tomar assento
Dirigindo-se à Foz, a tomar banho,
Logo de negra cor vestir se deve,
E desse instante, já, crer-se viúvo;
Porque as vidas, bem vês, são curtas hoje
E não deve supor caso possível
Viver até que um dia a esposa volte!
[3]

Camilo Castelo Branco descreve os carroções, referindo o mais conhecido dos seus proprietários.
Os Carrocões de Manoel José d'Oliveira, repletos de gente, arrastavam-se para a Foz. Os carroceiros picando as vaccas derreadas para puxarem aquellas famílias, mu­giam uns êhs prolongados, plangentes, d'uma grande caracterisacão selvagem, prehistorica, anterior à forma­ção das línguas. [4]
 
E Ramalho Ortigão descreve como as famílias, incluindo a sua, se deslocavam para a Foz nos carroções de Manel Zé, o mais conhecido dos carroceiros.
Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matozinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes, e penso para os bois! Para este fim havia nas bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidade, poderia arrumar-se — outra família.
Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções por um pinto, como os quartos da hospedaria do Damião.
Por tão módica quantia teve o Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pêlos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.
Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro deles e de se pôr a olhar para fora pêlos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.
Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento.
Consagrando estas modestas linhas à história da antiga viação portuense, não posso omitir a descrição do notável carroção da minha família.”
[5]

 
fig. 22 - Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), O Carroção.
O Carroção é ainda criticado por José Gomes Monteiro
A verdade é que este capacíssimo vehiculo, a que o nosso engenho inventivo se lembrou de applicar a força motriz do boi, ao mesmo tempo que os inglezes applicavam o vapor às carruagens; estas commodas ar­cas de Noé que transportam para o theatro e para a Foz os amos, as creanças, as criadas, os cães e os ga­tos, o papagaio e o cochixo — este vehiculo, digo, era in­venção mui superior ao desenvolvimento intellectual de nossos antepassados de ha cem annos. [6]

 
fig. 23 – Carroção particular no blogue A Porta Nobre.

 
Havia carroções de aluguer, e carroções particulares. Famílias abastadas tinham carroção como hoje podem ter coupé. Na minha rua, a de Sovella, ao pé da minha casa, havia dois carroções particulares: o das snr.as Menezes e o do Bento Ribeiro de Faria. Em toda a rua não havia menos de sete ou oito carroções de família. [7]
 


[1] Sobre o Carroção ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010_04_01_archive.html
[2] Otacílio de Azevedo (1892-1978), Carro de boi in Réstia de Sol: Poesia. Fortaleza Tip. Iracema, 1942. (pág.42).
[3] Faustino Xavier de Novaes(1820-1869), Epístola in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 166).
[4] Camillo Castello Branco (1825-1890) A Corja, 1880 in Historia e Sentimentalismo I Eusébio Macário (continuação) II. Poetas e Raças Finas II. Livraria Chardron de Lello & Irmão, Editores, Porto 1903. (Cap. IV, pág. 41).
[5] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 26).
[6] José Gomes Monteiro - Folhetim do Nacional, 1851 - citado por Alberto Pimentel (1849-1925) no Porto na Berlinda, Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa Editora M. Lugan, Successor, Porto1894. (pág.66).
[7] Alberto Pimentel O Porto na Berlinda. Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.73).
     

 
De Omnibus [1]

L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,…
[2]

 [o omnibus, furacão de sucata e de lama / Que range, mal assente nas suas quatro rodas,…]
Ramalho Ortigão refere-se ao omnibus como substituto do carroção sobre os quais as senhoras regressavam do banho com os narizes frios e os seus chapéus postos em cima de seis lenços atados na cabeça, foi ampliado por fim com o serviço dos omnibus... [3]


 
fig. 24 – Um omnibus passando junto à capela de N.ª Sr.ª da Lapa na Cantareira. Pormenor de Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.

E Augusto Gama descreve mesmo o omnibus.
Entre nós — falo no Porto — vive só no tempo dos banhos... e como vive, meu Deus? Quereis que vo-lo diga? Ora olhai.
Vedes essa caixa com feições de arca de Noé — seis vidraças e sobre o tecto um assento a que chamam varanda; puxada por quatro machos azamelados, guiados por um boleeiro de jaqueta de chita e cha­péu de ferro, tendo na porta de entrada postado um salafrário da mesma edição? É o ónibus do Porto”. [4]

 
fig. 25 – David W. Bartlett (1828-1912) Omnibus.
 


[1] Sobre o omnibus ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/05/os-transportes-terrestres-2-o-omnibus-o.html
[2] Paul Verlaine (1844-1896) La bonne chanson. Alphonse Lemerre, Éditeur. Passage Choiseul, 47. Paris M.D.CCC.LXX. (pág. 29).
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 30).
[4] Augusto Gama, Dois Escritores Coevo, Camilo e Arnaldo Gama, Coimbra Editora, Limitada. Coimbra 1933.

 
 
De Char-à-bancs [1]

…Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,…
[2]

Ramalho Ortigão escreve em As Praias de Portugal que aos omnibus seguiram-se os chars-a-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento de banhistas aumentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna.[3]

 
fig. 26 – Um char-à-bancs inglês.
 
Dos carroções, omnibus e char-à-bancs que partiam do Carmo, fala Júlio César Machado:
A cidade n’essa epocha não poderia dizer-se bella, mas as camélias, o Douro, a Foz, compemsavam tudo. Uns omnibus, uns char-à-bancs, uns diabos de carros fantásticos, venciam a passo por minuto a légua do Porto à Foz; porém, logo que desciam a Restauração, começava a deleitar-se a vista n’um panorama admirável, que se descobria em todo aquelle passeio à beira do Rio. [4]
 
E João Peres Abreu, no seu Guia do Viajante de 1865, indica que na Porta Nobre, para além do vapor que desaconselha, há um serviço de char-à-bancs.
Do Porto, do sítio da porta nobre, partem todos os quartos de hora char-à-bancs, que pela módica quantia de 80 réis conduzem diariamente milhares de passeadores.
Quem a preferir, tem a via fluvial; mas não a aconselharemos a ninguém. [5]

 
fig. 27 – J. Nogueira, char-à-bancs.

 
E Alberto Pimentel lembra:
Era da Porta Nova que partia uma das carreiras de caleches para a Foz – a 80 reis cada passageiro. Nos que sahiam do largo do Carmo o transporte era mais caro: seis vinténs por pessoa. A não ser o barco e o carroção, não havia outro meio de conduccção para a Foz. [6]
 
E em Atravez do Passado escreve: A Foz não era então, como hoje, uma cidadezinha balnear, com hotéis, com bilhares, com chalets, jogos e lojas; mas continha já o núcleo do seu desenvolvimento actual. De tarde, algumas famílias ilustres ou que se presumiam taes, iam passear a Carreiros, então um deserto, ou á Cantareira por onde entravam na povoação os char-à-bancs que traziam gente do Porto, a 80 ou 120 réis por cabeça, não segundo o tamanho e o peso da cabeça, mas segundo partiam da estação do Carmo ou da Porta Nova. [7]

 
No postal da praça dos Voluntários da Rainha (hoje Gomes Teixeira mas sempre conhecida pela praça dos Leões) vemos no canto inferior esquerdo em frente da igreja do Carmo um char-à-bancs. 



fig. 28 – Postal. Porto, Praça dos Voluntários da Rainha.
 


[1] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/05/os-transportes-terrestres-2-o-omnibus-o.html
[2] Cesário Verde (1855-1886), Desastre in O Livro de Cesário Verde 1873-1876. Reimpressão textual da primeira edição feita pelo amigo do poeta António da Silva Pinto (1848-1911). Terceira Edição. J. A. Rodrigues & C.ª, Editores, 186, Rua Áurea, 188, Lisboa 1911. (pág.86).
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.30).
[4] Júlio Cesar Machado (1835-1890), A Vida Alegre. (Apontamentos de um folhetinista). Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, 67, Praça de D.Pedro,67, Lisboa 1880. (pág. 28).
[5] João António Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. Por João António Peres Abreu, Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.50).
[6] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto na Berlinda Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.64).
[7] Alberto Pimentel (1849-1925), Atravez do Passado, cap. Matosinhos. Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial : 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.11).
    



Em outros transportes de tracção animal

Era domingo, despontava a aurora,
As seges e carrinhos já voavam,…
 [1]

As seges e outras carruagens, para além das particulares, quando de aluguer, constituíam os chamados trens de praça, e no Regulamento dos trens de Praça do Porto de 1869, são definidos os seus locais de estacionamento, entre os quais o da Foz do Douro.
Art. 109.° As estações publicas de trens, destinados a conducção de passageiros serão nas praças da Batalha, — de D. Pedro, — da Trindade,—de D. Pedro V, — ruas, Occidental do Campo dos Martyres da Pátria, — dos Inglezes, — de Miragaya,— Campo Pequeno,— e na Foz, ao fundo da rampa do Castello.
[2]
 

fig. 29 – Um trem de praça na rampa do Castello. Postal sob fotografia de Emilio Biel.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um Passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] Código de Posturas Municipaes do Porto 1869.
    



De bicicleta
Ó ágil e frágil bicicleta andarilha.
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar !
[1]

Na transição do século XIX para o século XX, a bicicleta torna-se um meio de transporte e de laser.
 

fig. 30 – Ciclistas no início do século XX.
 
Em 1880 no jornal O Primeiro de Janeiro uma notícia dá conta de uma corrida de bicicletas, entre Matosinhos e a Foz e organizada pelo Club Velocipedista Portuense. Refere o jornalista: No Passeio alegre, subida a Esplanada do Castelo, era tal a multidão que tornava difícil o trânsito.
Pela estrada de Carreiros até Matosinhos estendiam-se duas longas filas de povo para ver passar os contendores.
As janelas estavam adornadas com as damas da nossa melhor sociedade e a tarde apresentou-se magnifica. (…) Antes da corrida estiveram os prémios expostos na Chalet do Sr. Carneiro. Durante a diversão tocou no Passeio Alegre a Banda de Caçadores 9.
É digno de aplauso a iniciativa do Club Velocipedista Portuense para com este género de recreios. O êxito das primeiras corridas foi completo, e assim será também, segundo cremos o dos subsequentes. [2]
 


[1] Alexandre O'Neill (1924-1986), Elogio Barroco da Bicicleta in A Saca de Orelhas, 1979. In Poesia Completa, Assírio & Alvim 2012 (pág. 348).
[2] O Primeiro de Janeiro de 20 de Julho de 1880.
   
 

De americano [1]

O serviço dos caminhos-de-ferro americanos, explorado com talento, converterá em pouco tempo a Foz num bairro do Porto. [2]
 
Nas décadas de 70 e 80 do século XIX, começa a circular no Porto o transporte urbano público sobre carris, com a constituição das empresas do carro Ripert e do Americano.
Este cuja primeira linha, significativamente, será instalada entre a rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique) e a Foz, irá ter um particular impacto no desenvolvimento da Foz. 


fig. 31 – O americano. Foto do Guia do Porto Illustrado 1910 de Carlos de Magalhães.
 
E Lady Jackson descreve a multidão que vem ou vai para Foz e que aqui sai e entra no americano.
Uma nuvem de poeira avisa que o americano está a chegar. A jornada desde Mathozinhos até à parte superior da cidade termina á entrada d'este jardim. Espera-o muita gente. Vem completamente cheio, mas tam depressa descarrega a sua carregação de banhistas da Foz, que se enche immediatamente e parte.” [3]



fig. 32 – Um americano na Foz do Douro.
 
E José Augusto Vieira no Minho Pittoresco refere a importância das duas companhias do americano contribuindo para transformar a Foz como a praia de excelência do Porto.
Mas que os progressistas da vida velha e vida nova me perdoem, se, não obstante a sua preponderância na cidade, os sacrifico, juntamente com os regeneradores do sr. Serpa, a esquerda dynastica e todas as nuances republicanas, ao appetite de um passeio á FOZ em um dos americanos da Companhia de baixo, a primeira companhia d'este género instituída no paiz, tão recommendavel pela sua pontualidade ingleza, ou em um dos carros da Companhia de cima, tão recomendáveis exactamente pelo contrario, o que não deixa de ser para o touriste um episodio agradável. O melhor conselho practico é ir por um lado e vir pelo outro, tendo-se occasião assim de gosar os dois aspectos panorâmicos das estradas, por onde correm as linhas do rail-road.
A Foz é hoje, graças às duas companhias, um verdadeiro bairro do Porto. Vive-se lá todo o anno, um pouco por economia, um pouco por amor da saúde, um quasi nada por gosto, e sobretudo muito por causa da massada da mudança no período fixo dos banhos. Com a sua preocupação de imitar John Bull, o portuense acha encantador ter ali a Foz á mão, para fingir de bairro affastado, e adoptou-a de preferencia a qualquer outro arrabalde. A Foz merecia a preferencia, deve concordar-se pelo que tem de recolhida e silenciosa no inverno, e pelo que tem de pitoresca e deliciosa no verão, n'esta estação sobretudo, visto que ella é a praia por excellencia do Porto, e a miniatura mais fielmente reproduzida do seu movimento e costumes. [4]
 


[1] Sobre o Americano ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/06/os-transportes-urbanos-sobre-carris-1.html
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 33).
[3] Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág. 298).
[4] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Livraria de Antonio Maria Pereira, 50, Rua Augusta, 52 Editor, Lisboa 1887. (pág. 727 a 729).
   

 
De eléctrico
Há electricos que com cores diárias
Percorrem nossas vidas…
[1]

O americano esteve em actividade até 1904, altura em que foi definitivamente substituído pelos veículos de tracção eléctrica e a vapor. No entanto a designação de americano durante alguns anos ainda designou qualquer dos transportes urbanos sobre carris. Significativamente a primeira linha de carro eléctrico, também ia da praça do Infante até à Foz e daí seguia para Matosinhos.
Hoje o carro eléctrico para a Foz, reduzido a uma actividade turística em linha única, é o que resta da rede que abrangia a cidade e os arredores.
Na imagem o eléctrico, na direcção das praias, no Passeio Alegre já então o jardim preferido nas calmosas tardes de verão, pela elite da Foz e do Porto, para seu passeio predilecto. [2]
Repare-se que existia então um banco corrido em toda a extensão do lado norte do Jardim.


fig. 33 – Postal mostrando o eléctrico no Passeio Alegre.
Na fotografia seguinte vê-se um eléctrico (o 163) circulando no Passeio Alegre, agora na direcção do Porto.
O eléctrico tinha então três carruagens sendo que uma delas era totalmente aberta nos lados. 


fig. 34 - O carro eléctrico, detalhe de foto de Aurélio Paz dos Reis CPF/DGARQ/APR3900 in Mesquita, Mário João, A Cidade dos Transportes, Faup 2008.
A linha n.º 1 que, apesar de tudo, se mantém como transporte turístico. 


fig. 35 – O eléctrico da linha 1 em Massarelos c. 1970.
 


[1] António Rebordão Navarro Os Eléctricos.
[2] Carlos de Magalhães, Guia do Porto Illustrado, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães, Edição da Empreza dos Guias "Touriste", gerente M. Paulino d’Oliveira, Rua de Passos Manoel, 21,1º, Porto 1910.
   
 

Hoje
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.
Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!
[1]


[1] António Gedeão (1905-1997) Esta é a cidade in Poesias Completas 1956, 9ªedição. Sá da Costa, Lisboa 1983.

 



Chegando à Foz, o Anjo Mensageiro

Mas qualquer que no passado fosse ou qualquer que hoje seja o meio de transporte, como José Cid:
Quando percorro as margens deste rio
Jogando letra a letra, verso a verso
As idéias que hora a hora, dia a dia
Me repetem, me ensinam
O caminho do processo
Hora a hora, dia a dia, verso a verso...
[1]
 
E ao chegar à Foz, no momento de sentir a briza, o cheiro do mar e o som remoto do rolar das vagas e do seu furioso embate sobre a costa, [2] somos acolhidos e protegidos por Gabriel, o Anjo Mensageiro sobre as asas pairando, voltado a ocidente. 


fig. 36 - Irene Vilar (1930-2008) O Anjo Mensageiro, bronze ing.2001. Foto J. Portojo do excelente blogue A Vida em Fotos.
San Gabriel, arcanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar,
Vem-nos guiar sobre a planície azul.
Vem-nos levar à conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal.
……………………………………….
Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lactescendo, onde, quietas,
Fulgem as velhas almas namoradas...
_ Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas…
[3]



 































fig. 37 - Irene Vilar (1930-2008) O Anjo Mensageiro, bronze ing.2001.
 
Pelos ebúrneos ombros o cabelo
Em aneladas ondas lhe caía;
A safira das asas sobre o gelo
Das roupagens reluzentes refulgia.
Mais brilhante não é, não é mais belo,
Comparado com ele, o astro do dia,
Ou a estrela que brilha quando a aurora
De purpurina luz o céu colora.
……………………………………………………..
Assim pendendo ao longe no ocidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pálida açucena,
Açoutada do vento, a fronte amena…
 [4]



[1] José Cid (José Albano Cid Ferreira Tavares  1942), Onde… in Onde, Quando, Como, Porque Cantamos Pessoas Vivas , Álbum do Quarteto 1111, de 1974 . Edições Valentim de Carvalho 1975.
[2] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.303).
[3] Camilo Pessanha (1867-1926), São Gabriel, Macau 7 de Maio de 1898, in Clépsidra. Ática, Lisboa 1945. (pág. 45 a 48).
[4] (António Augusto) Soares de Passos (1826-1860) Poesias 1ªed. 1856, ed. 1858. http://groups.google.com/group/digitalsource (pág.74)
   
 
 


A Cantareira
…halo vindo das camélias, perfume de penumbras
de mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.
 [1]

Qualquer que seja a forma de transporte chegava-se (e chega-se) à Foz adormecida e doirada, e à Cantareira. [2]

 
fig. 38 – Francisco Rocchini (?), A Foz no Porto 1849-1873 papel albuminado, p&b ; : 27,9 x 40,3 cm. Album pittoresco e artistico de Portugal.  colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil).


Escreve Lady Jackson, saindo do Porto na direcção da Foz.
Lá no fundo fica a formosa Barra do Porto, além da qual se vêem espumar e revolutear as ondas do Atlântico. Esta extensa planície areóza é a Praia. E vestida de arvoredo, cuja folhagem n'esta estação coberta de pó e areia lhes dá o aspecto de arvores definhadas. Muitas viellas estreitas e mal ladrilhadas partem perto d'aqui, umas quazi em linha recta, outras cruzadas, ou em zig-zag, mas todas depois de muitas curvas e voltas, reentrâncias e saliências vão dar sobre o terreno alto acima. [3]

 
fig. 39 - Cesário Augusto Pinto. Cantareira in As margens do Douro, collecção de doze vistas Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto. 1848.


 
fig. 40 - B. Lima Leote, S. Joao da Foz, Archivo Pittoresco n. 8, 1865. (p.309).

 
Entre 1892 e 1910 conclui-se o muro da margem direita do Douro entre a Arrábida e a Cantareira. 



fig. 41 – Enrique Casanova (1850-1913) Foz do Douro c.1890. Litografia colorida 29 x 29 cm. Biblioteca Nacional Digital.
 



A Cantareira dos pescadores

Nasci em praias do mar,
ao pé do vento virado;
do berço fiz uma lancha,
cobri-me co' céu estrelado.
[4]

A Cantareira é terra de pescadores, e é um lugar de origem da Foz do Douro. 


































fig. 42 – Postal. Porto, Foz do Douro, Concertando a rede. c.1900.
Terra de pescadores assim descrevia Lady Jackson a Cantareira:
Pescadores remendam ou assoalham as redes. Crianças alegres, rozadas e quazi nuas, brincam á borda da agua, perto de mais talvez, pois que alguns d'estes rapazelhos despem o seu pobre vestido, e desafiam-se com muita bravura dentro e fora da agua. O Porto foi sempre orgulhozo dos seus maritimos, que procederam talvez de atrevidos filhos do rio, como estes. Não é onde o Douro corre mais pacificamente que gostam de brincar estas crianças; mas patinham o atiram-se sem medo quazi n0 meio da arrebentação das vagas, da espuma e das pedras perto do mar e da visinhança traiçoeira da barra. [5]


 
fig. 43 - Alberto de Sousa (1880-1961), Castelo da Foz 1942.
E Baldaque da Silva nos finais do século XIX escrevia sobre o porto de pesca da Cantareira:
Fica situado este porto de pesca no angulo que forma a margem direita do rio Douro na embocadura. Os pescadores d’aqui dedicam-se principalmente à pesca do alto, empregando-se na pesca do rio unicamente quando não podem sair ao mar. Quasi todo o pescado d’este porto é para consumo da cidade.[6]

 
fig. 44 – Postal. Porto, Barco de pesca.
Se daqui partiam os barco que iam para a faina era aqui se desembarcava o peixe.
Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.
[7]

 
fig. 45 – Postal. Porto, Barco de pesca.
 
E Ramalho Ortigão lembra ainda que à Cantareira, de tarde, quando chegavam as lanchas do peixe e se comprava a volumosa pescada de dorso preto, que as criadas traziam para casa em argola, com a ponta da cauda na bocca, como o symbolo da imobilidade egypcia. [8]

 
fig. 46 – Postal. Porto, Foz do Douro. Venda de peixe.

No tempo de Júlio Diniz ainda era a pesca da sardinha o principal sustento dos pescadores da Cantareira e da Afurada.
Que a sardinha de Espinho ainda não tanto, mas esta da barra!… D’onde virá a diferença?… Pois não será toda ella o mesmo peixe?... Só se é da praia aqui ser mais pedregosa e o peixe sair mais batido… Que esta costa da Foz sempre é muito cheia de pedras?... Só o perigo que correm as embarcações aqui!... Ainda no outro dia, aquella grande desgraça dos oito pescadores que naufragaram!... [9]


 
fig. 47 – Postal. Desembarque de peixe na Cantareira.

 
Por isso Vasco Graça Moura, que conhece palavras que as sereias lhe ensinaram, [10] diz num seu poema;
…na cantareira havia fome e havia...
um cheiro de sardinha, um cheiro a pão,
e uma mulher de luto repetia
na voz que lhe fugia…
…o naufrágio do irmão,
do filho ou do marido, a freguesia
tem por antigo orago s. joão
e era perto da igreja que eu vivia,…
[11]


 
fig. 48 – Guilherme (Duarte) Camarinha (1912-1994), 1980. Catálogo da Exposição no Museu Nacional de Soares dos Rei, Porto, de Janeiro a Março de 2003.
 
Na figura anterior vemos os barcos de pesca do Douro com a sua proa levantada, a remos ou à vela. 


 
































fig. 49 - (António Artur) Baldaque da Silva (1852-1915), gravura em Foz, Capítulo III de Estado Actual das Pescas em Portugal, Imprensa Nacional, Lisboa 1892.

E Marques de Oliveira pinta um desses barcos, abandonado na praia, vendo-se ao fundo o Cabedelo.


fig. 50 - Marques de Oliveira (1853-1927), Rio Douro, Lugar de Ouro, s/d, óleo sobre madeira 23 x 36,5 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.
 
Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar
Hei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.
Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,

Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.
Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento
Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.
[12]

 
fig. 51 – Douro 1900 AHMP.

Numa pintura de Augusto Gomes que, segundo Eugénio de Andrade em Imagem e louvor de Augusto Gomes, pinta lentamente uma luz supliciada,estão os elementos da Cantareira dos pescadores. O Douro, os barcos, raparigas despenteadas, pescadores de rosto azul, com os apetrecho da pesca e as mulheres da Cantareira com os cestos do peixe.
e o mar irrompe de sombra em sombra,
porque tudo é amor, amor difícil, turvo,
lutando por ser diáfano em suas mãos. 



fig. 52 - Augusto (de Oliveira) Gomes, Faina no Douro, óleo s/tela 170 x 200 cm. 1962. ESBAP.

 
Mas em frente à Cantareira, na outra margem está a Afurada do Cabedelo, do rio e do mar, também terra de pescadores… 


fig. 53 - T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).


 
fig. 54 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

 
fig. 55 – J. Rodrigues, Afurada. AHMVNG.

 
E Raul Brandão descreve a chegada dos barcos de pesca quando se levanta um temporal.
As mulheres, de perna nua, acodem à praia, - e o velho piloto-mor, de barba branca, sentado à porta da Pensão, fuma inalterável o seu cachimbo de barro. O rio parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta azul, com laivos esquecidos do poente.
Bóia espuma na água viva que a maré traz da barra... Não há cheiro a flores que se compare com este cheiro do mar. O azul do mar, desfeito em poalha, mistura-se ao ouro que o céu derrete. Mais barcos vão aparecendo, vela a vela: o Vae com Deus, o Senhora da Ajuda, o Deus te guarde, e os homens de pé, com o barrete na mão, cantando o bendito, tanta foi a pesca. Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo, a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho; no Inverno, a sardinha - que os batéis carreiam do mar inesgotável, estivando de prata todo o cais. Em Setembro são as marés vivas. Mais tarde cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se para o sul uma parede compacta de léguas de espessura. A voz do mar é outra, clamorosa, e à primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela costa fora anunciando o Inverno que vem próximo. O quadro muda. Os homens morrem à boca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos, sacudidos no torvelinho da ressaca, o velho arrais de pé, as duas mãos crispadas no leme, cuspindo injúrias, para lhes dar ânimo, e todo o mulherio da Póvoa, de Matosinhos, da Aforada - vento sul, camaroeiro içado - com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de lágrimas - Ai o meu rico homem! O meu filho que o não torno a ver! E chamam por Deus, ou insultam o mar, que, Inverno a Inverno, lhos leva todos para o fundo. [13]

 
fig. 56 - Augusto Gomes, Tragédia do Mar, óleo s/ tela, 124 X 164 cm.

 
E quando algum marinheiro ou pescador está desaparecido refere Coelho Lousada a crença da Foz do Douro.
―São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer conversa. [14]


[1] Vasco da Graça Moura (1942-2014), Poesias 1997/2000, Lisboa, Quetzal, 2000.
[2] Raul Brandão (1867-1930), Memórias Prefácio de 1918, 1º volume, Edição da Renascença Portuguesa Porto. (pág.12).
[3] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.303).
[4] Alves Redol Cancioneiro (pág.81)
[5] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.300 e 301).
[6] (António Artur) Baldaque da Silva (1852-1915), Foz in Capítulo III de Estado Actual das Pescas em Portugal, Imprensa Nacional, Lisboa 1892. (pág.107).
[7] Cecília Meireles (1901-1964), Pescaria in Ou isto ou aquilo, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Brasil 1990.
[8] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.24).
[9] Júlio Diniz (1839-1871), Uma Família Ingleza, Scenas da Vida do Porto por Julio Diniz. Terceira edição. Em Casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor, 18, Rua dos Caldeireiros, 20, Porto 1875. (pág.202).
[10] Fernando Pessoa (1888 -1935), O Marinheiro in Fernando Pessoa Obra Poética, Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.446)
[11] Vasco Graça Moura (1942-2014), Poesias 1997/2000, Lisboa, Quetzal, 2000.
[12] António Borges Coelho (1928) poema, Luís Cilia (1943) música. Interpretado por Adriano Correa de Oliveira (1942-1982) no seu disco de 1967 – LP SB 1018 da etiqueta Orfeu.
[13] Raul Brandão (1867-1930), A Foz vista do mar in Guia de Portugal, Rntre Douro e Minho I – Douro Litoral, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág. 377).
[14] António Coelho Lousada (1828-1859), Os Tripeiros. Romance-Chronica do século XIV, por A. C. Lousada.Typographia de J. J. Gonçalves Basto, Largo do Corpo da Guarda n. 106, Porto 1857.(pág. 61).

 
CONTINUA
com a conclusão da II parte e a III parte