Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 3 parte

 

Cap. 3 - A Torre de Belém e o espírito romântico.

A Torre de Belém, alterada ou mesmo perdida a sua função militar, foi-se degradando ao ponto de Almeida Garrett escrever no seu Camões:

Juncto da torre antiga, e veneranda,
- Hoje mal conservado monumento
Das glórias de Manoel, ánchora desce…
[1]

E será precisamente o Romantismo, na transição do século XVIII para o XIX, que reabilitará a sua imagem.

E se a Torre de Belém não muda, com o Romantismo, muda a maneira como é vista.

O espírito romântico

O romantismo tem origem no movimento alemão dos finais do século XVIII, significativamente intitulado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Simplificando, o Romantismo procura o “sublime” que vê na Natureza como um ambiente duro e hostil que nos provoca a angústia da nossa pequenez face ao infinito e onde descobrimos o sentido trágico da existência e do nosso inexorável destino. Por isso acentua o movimento, o dramático e o trágico.

O artista romântico procura exprimir esse sublime, por uma arte dramática, onde, numa visão violenta, selvagem e grandiosa da realidade, o homem se confronta com o seu destino.

Assim um temporal, um mar em tempestade, a força dos ventos, um naufrágio, tornam-se temas que através da visão do artista se podem elevar à categoria de sublime.

O Naufrágio de um Cargueiro de W. M. Turner

Para ilustrar o tema do naufrágio nesta procura de imagens do sublime, com tempestades, mares revoltos, marinheiros e pescadores lutando contra a Natureza, destaca-se o jovem William Turner (1775-1851), de quem, entre diversas pinturas, escolhemos o quadro O Naufrágio do Cargueiro de 1801, já que o podemos admirar na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, a que pertence.

rom1fig. 1 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851), Naufrágio de um Cargueiro (The Wreck of a Transport Ship)  c.1810. Óleo sobre tela 173 x 245 cm. Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa.

O quadro representa o naufrágio de um navio, que com os mastros partidos se adorna à esquerda da composição, enquanto os náufragos parecem perdidos na violência do naufrágio agarrando-se às frágeis embarcações que os tentam socorrer no meio das violentas vagas, com:…o desamor à vida quando o vento grita temporais / e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas; [2]

O naufrágio e a fúria das águas e dos ventos provocam-nos um sentimento de solidariedade com os náufragos e os que os tentam salvar, e comove-nos a indefinição e o temor que nos provoca a inútil luta do homem contra o seu fado ou destino.

Assim este quadro faz-nos sentir como José Régio, no poema Portugal de todo o Mundo do livro precisamente intitulado Fado:

Em mim se rasgam velas
Se abatem mastros fendidos,
E das águas amarelas
Se esforcem para as estrelas
Mãos de braços submergidos…
 [3]

A composição do quadro

O espaço da composição, aparentemente caótico, constrói-se e desenvolve-se a partir de diagonais formadas por mastros e remos quebrados, a que se justapõem as curvas de redemoinhos das águas em turbilhão.

rom2fig. 2 – As diagonais que estruturam o quadro.

Essas diagonais remetem o olhar do espectador para uma mancha clara como um incêndio, que no centro da composição contrasta com o casco adornado e negro do navio.

E essas diagonais que estruturam a composição estão já apontadas no esboço do artista para a preparação do quadro.

D05398fig. 3 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851) Study for ‘The Wreck of a Transport Ship’ From Shipwreck Sketchbook Turner Bequest LXXXVII c.1805–10, 118 x 185 mm Tate Gallery, Londres.

D05398fig. 4 – As diagonais estruturantes no esboço preparatório do quadro.


[1] Almeida Garrett Camões Canto I Na Livraria Nacional e Estrangeira Rue Mignon, n.º2, faub.St.-Germain, Paris 1825 (pág. 9)

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans o marinheiro, Publicado no Diabo n.º222 de 24 de Dezembro de 1938 e dedicado a Jorge Amado in Obra poética Editorial Caminho, 1984 (pág.62).

[3] José Régio (José Maria dos Reis Pereira 1901-1969) e Júlio (Júlio Maria dos Reis Pereira, ou Júlio ou Saúl Dias 1902 — 1983) Portugal de Todo o Mundo in Fado, versos de José Régio e desenhos de Júlio, Arménio Amado, Editor – Coimbra 1941.(pág.17).

Os quadros de John Thomas Serres

Sem a expressividade nem o dramatismo do Naufrágio de Turner, o inglês John Thomas Serres [1] (1759-1825) pintou no início do século XIX dois quadros que exemplificam um Romantismo mais tranquilo do início do século XIX (uma das pinturas está datada de 1811 e a outra de 1826) e onde

A paisagem é o mar, o rio, a torre,
Postos nos lugares certos por acaso.
[2]

Um dos quadros encontra-se no Museu da Cidade de Lisboa e o outro está reproduzido na Wikimedia Commons. Algo semelhantes os quadros apenas diferem nos pormenores do barco de pescadores no primeiro plano e na embarcação de três mastros, que no primeiro quadro está saindo da barra e no outro está chegando ao Tejo.

O quadro do Museu da Cidade de Lisboa.

rom4fig. 5 - John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém 1811 óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa .

E o quadro, de colecção particular, reproduzido na Wilkimedia Commons.

rom5fig. 6 - John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons.

Nestes quadros, com um céu de cores e sons de tempestade, a tarde declina com uma luz ténue que se situa na soleira do crepúsculo, num Tejo agitado de ondas cor de azeitona surgem três elementos de tons amarelos pela luz poente, que ocupam o centro da composição: a Torre de Belém, uma fragata britânica e uma pequena embarcação de pesca.

Ao fundo citando Sophia:

Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca.
 [3]

E podíamos ainda dizer como Pascoais, Lisboa, branca ao pé do Tejo e na outra margem em mancha azul, a Arrábida saudosa. [4] 

[1] John Thomas Serres filho de um pintor, especializou-se na pintura naval e está representado em diversos museus como a Tate Gallery e a Royal Collection em Londres, no National Maritime Museum de Greenwich e ainda noutros museus internacionais como a National Gallery of Art de Washington. Foi Mestre de Desenho do Royal Naval College e foi nomeado, pela morte do pai em 1793 Pintor de Marinhas do Rei Georges III.

[2] Egito Gonçalves Maquinismo in Cadernos das Nove Musas – com um desenho de Fernando Lanhas 1ª edição Maranus Porto, 1952 e in O Pendulo Afectivo Antologia Poética 1950-1990 Edições Afrontamento 1991.

[3] Sophia de Mello Breiner Andersen Lisboa 1977 in Navegações 1ª edição INCM 1983. Assírio & Alvim Lisboa 2015 (pág.31)

Porque digo / Lisboa com seu nome de ser e de não-ser / Com seus meandros de espanto insónia e lata / E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro / Seu conivente sorrir de intriga e máscara / Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência / Digo o nome da cidade / – Digo para ver

[4] Teixeira de Pascoais (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos 1877- 1952) Painel. Com Desenhos de Almada Negreiros. Ed. Oficina Gráfica, Limitada. 1935.

John Thomas Serres e a visão romântica da Torre como um navio

A Torre de Belém de pedra e renda [1] surge navegando, soberba, como uma enorme embarcação, protectora e vigilante entre revoltas e apressadas ondas, com o sopro do vento, a levantar a cara
e a escutar a voz do rio.
[2]

Ali onde o Tejo furioso em ondas e negaças de mar a valer [3], perde o sabor das águas com que nasceu.

rom6fig. 7 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1811.

rom7fig. 8 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1823.

rom8fig. 9 – Comparação entre a Torre de Belém no quadro do Museu de Lisboa e no quadro da Wilkimedia Commons.

No primeiro quadro de 1811 a Torre colocada mais ao centro da composição, tem hasteada a bandeira nacional utilizada entre 1707 e 1816, e nenhuma personagem está representada.

Já na segunda pintura datada de 1823, após a Revolução Liberal o mastro não apresenta nenhuma bandeira e na Torre que surge mais à esquerda e isolada na composição, parecem figurar algumas personagens.


[1] Maria Teresa Horta Olhar in Poemas para Leonor, Ed. D. Quixote Lisboa 2012.

As águas recamadas
De saudade e
a Torre
De Belém de pedra e renda.

[2] Cesare Pavese Paesaggio VIII 1940 in Poesie, con introduzione di Massimo Mila, Nuova Universale Einaudi, Torino 1961 . (pag.179)

I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume.
L'acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti…

[3] Luís Chaves Dos Barcos Miúdos de Lisboa. Botes, Canoas, Chatas etc. (Nota Etnográfica Olisiponense) in Revista Municipal n.º 62 1954 (pág. 21 a 32).

A fragata britânica

Junto à Torre de Belém como um navio e com ela dando sentido aos versos de Sophia: a porta da cidade é feita de dois barcos [1], uma fragata britânica de três mastros ao serviço de Sua Majestade [2] mostrando as brancas velas e redondas [3].

Significativa e serenamente num dos quadros parte e no outro chega, dessa viagem para mundos vislumbrados e prometidos a que o destino, com doce certeza, os chamou.

Pelas datas percebemos que, no quadro de 1811, o navio veio cumprir a aliança com Portugal no conflito conhecido como Guerra Peninsular.

No outro, de 1823, com a Revolução Liberal e o regresso do Brasil, os britânicos regressam a Portugal.

rom9fig. 10 – A fragata partindo de Lisboa no quadro de 1811.

rom10fig. 11 – A fragata entrando na barra do Tejo no quadro de 1823.

rom11fig. 12 – Comparação entre a fragata britânica no quadro do museu da cidade de Lisboa e no quadro da Wilkimedia.

De notar o pavilhão conhecido como Red Ensign ou Red Duster que a partir do século XVIII passou a identificar os navios britânicos.

Trata-se de uma fragata da classe Leda que foram construídas no início do século XIX e que lutaram nas Guerras Napoleónicas, de que é exemplo entre outras a Pomone de que apresentamos uma litografia.

rom12fig. 13 - T. G. Dutton (1819-1891) Fragata Pomone Litografia colorida a partir de uma pintura de G.F. St. John wilkimédia.

E das diversas pinturas da época escolhemos a de Thomas Luny, A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour.

rom17fig. 14 - Thomas Luny (1759–1837) A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour 1830. Óleo sobre tela 38,5 × 51,5 cm. colecção particular.

rom13fig. 15 – Desenho de uma fragata Leda. In blogue Alternavios http://alernavios.blogspot.pt/2015_03_01_archive.html


[1] Sophia de Mello Breiner Andersen Mar Novo (1ª edição 1958 Guimarães Editores). Lisboa, Editorial Caminho, 2003.

Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.

[2] No primeiro quadro embora o rei fosse Georges III (George William Frederick, 1738-1820) que reinou entre 1801 e 1820, foi precisamente no ano de 1811 em que o quadro está datado que o filho Georges August Frederick , Príncipe de Gales (1762-1830), o futuro Georges IV assumiu a Regência do Reino, tendo sido coroado em 1820. O segundo quadro datado de 1823 corresponde ao reinado de Georges IV. A época caracteriza-se por uma forte relação e interferência do Reino Unido e Portugal. Lembre-se as consequências da independência dos Estados Unidos (1776), as Guerras Napoleónicas e as Invasões Francesas (1808 a 1810), a Revolução Liberal (1820) e a independência do Brasil (1822).

[3] Luís de Camões Lusíadas canto IX Estrofe XLIX.

 

O barco de pesca

No primeiro plano enfrentando uma larga, crua e inquieta onda cor de azeitona, uma embarcação típica do Tejo, com mastro inclinado para a proa, nas águas revoltas do Tejo, é manobrada por uma infatigável equipagem de pescadores salgados de espuma arremessada pelos ventos [1].

E como canta Hans o marinheiro:

…o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
 [2]

Esta embarcação de pescadores colocada no centro dos quadros simboliza a permanente luta do Homem contra o naufrágio da existência no seu permanente confronto com a Natureza,

com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança.
[3]

rom6fig. 16 – O barco de pesca no quadro de 1811.

rom10fig. 17 – O barco de pesca no quadro de 1826.

rom16fig. 18 - A embarcação de pesca no quadro do Museu da cidade de Lisboa eno quadro da Wikilmédia.

A partir do(s) barco(s) representado(s) no primeiro plano dos quadros de John Thomas Serres, que não são semelhantes e porque sobre os barcos do Tejo existe muita matéria, abrir-se-á um novo

capítulo 4 - Os barcos do Tejo a publicar num próximo post.


[1] Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. Ode marítima 1915 in Ficções do Interlúdio in Fernando Pessoa Obra Poética Biblioteca Luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.322).

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans, o marinheiro

[3] John Milton (1608-1674) Paradise Lost Book I (pág.6 v.128 a 137) 1667 in Paradise Lost a Poem in Twelve Books, Published by Timothy Bedlington Boston 1820.

O Prince, O Chief of many Throned Powers,
That led th’ imbattelld Seraphim to Warr
Under thy conduct, and in dreadful deeds 130
Fearless, endanger’d Heav’ns perpetual King;
And put to proof his high Supremacy,
Whether upheld by strength, or Chance, or Fate,
Too well I see and rue the dire event,
That with sad overthrow and foul defeat 135
Hath lost us Heav’n, and all this mighty Host
In horrible destruction laid thus low…

Tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856):

Príncipe, chefe dos imensos tronos
Que às batalhas trouxeste em teu comando,
Tu que, por feitos da mais nobre audácia,
Querendo conhecer a quanto avonda
Do Rei dos Céus a grã supremacia,
Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,
Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso

Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança
Com tamanha vergonha e tanto estrago;
Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza
Chegasse nosso exército tão forte,
A ponto de sofrer quanto é possível
Que substâncias do Céu e Deuses sofram.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 2 parte

 

cap. 1 – A Torre de Belém como modelo do Castelo da rua de Santa Catarina

O modelo da torre é a Torre de Belém, nas suas variações românticas e neomanuelinas do século XIX e, em particular, no Palácio da Pena em Sintra.

bel3 fig.1 – O Castelo da rua de Santa Catarina e a Torre de Belém.

  A Torre de Belém

Vimos lhe fazer Belem
cõ ha gram torre no mar…
[1]

Não importa aqui fazer a história da Torre de São Vicente conhecida como Torre de Belém, aliás profusamente difundida.

O edifício desenvolve-se a partir de uma plataforma baixa, de planta poligonal, onde se ergue uma torre de planta quadrada.

Não iremos por agora desenvolver as origens e evolução desta morfologia da torre quadrada com os cantos arredondados (o que faremos noutro capítulo deste texto) e lembramos apenas que esta surge no século XIV com o aparecimento da artilharia e, com a evolução desta, difunde-se no século XV. No século XVI a forma ganha uma concepção geométrica e proporcionada de plantas quadradas de cantos arredondados.

Esta geometria do quadrado é uma figura que simbolicamente está associada à estabilidade e o número 4 está associado aos quatro elementos, às quatro estações, aos quatro ventos, aos quatro caminhos e pontos cardeais, etc.

bel4fig. 2 - Planta e perspectiva da Torre de Belém c. 1607, 1617 Torre do Tombo cota PTTT-CCDV-29_95-m0078; PT-TT-CCDV-29_96-m0079


[1] Garcia de Resende MISCELLANIA DE GARCIA DE RESENDE, e variedade de historias, costumes, casos, e cousas que em seu tempo acontecerão. In CHRONICA DOS VALEROSOS , E INSIGNES FEITOS DEL REY DOM IOAM II DE GLORIOSA MEMORIA, Em que se refere sua Vida , suas Virtudes , seu Magnanimo Esforço , Excellentes Costumes , o seu Christianissimo Zelo, PER GARCIA DE RESENDE, Com outras Obras que adiante se seguem , e vay acrescentada a sua Miscellania , A' FELIZ MEMORIA DO MESMO REY DOM IOAM SEGVNDO, Q.VE ESTA' EM GLORIA. COIMBRA: Na Real Officina da Universidade. Anno de MDCCLXXXXVIII. (pag.343)

A estrofe completa é:

Vimoslhe fazer Belem
co ha gram torre no mar ,
has casas do almazem
com armaria sem par;
fez soo el Rey que Deos tem;
vimos seu edificar,
no Reyno fazer alçar
paços, igrejas, mosteiros,
grandes povos, cavalleiros,
vi ho reyno renouar.

 

Cap. 2 – A imagem da Torre de Belém e a função militar [1]

Interessa-nos aqui a Torre de Belém e a sua imagem como elemento central da defesa da barra do Tejo.

Como se pode ler nos textos e imagens, até aos finais do século XVIII, a Torre foi considerada, sobretudo como um edifício militar sendo a sua identidade arquitectónica sempre ofuscada pela presença do prestigiado edifício religioso que é o Mosteiro dos Jerónimos.

Por isso e embora seja uma marca de entrada e saída de Lisboa, numa época em que as médias e grandes viagens se efectuavam por via marítima, foi a sua imagem funcional como fortaleza militar inserida na defesa da barra do Tejo, que persistiu entre a sua construção e o século XVIII.

A ideia da Torre, segundo Marco Oliveira Borges [2] e conforme o texto de Garcia de Resende, terá sido de D. João II ao idealizar um projecto para a defesa costeira e o acesso fluvial a Lisboa com a edificação de duas fortificações, uma na Caparica e outra em Belém e uma grande nau colocada a meio da barra do Tejo.

Lembremos pois o conhecido o texto de Garcia de Resende que aliás provocou a confusão sobre a autoria da Torre de Belém hoje definitivamente atribuída a Francisco de Arruda.

E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua cava, com tanta e tam grossa artelharia que defendia o porto; e assim outra torre e baluarte de Caparica, * defronte de Belem, em que estava muyta e grande artelharia, e tinha ordenado de fazer hua forte fortaleza, onde ora está a fermosa torre de Belem, que el Rey Dom Manoel, que santa gloria aja, mandou fazer, pera que a fortaleza de hua parte, e a torre da outra tolhessem a entrada do rio.

A qual fortaleza eu per seu mandado debuxey, e com elle ordeney a sua vontade, e elle tinha já dada a capitania della a Álvaro da Cunha, seu estribeiro mor e pessoa de que muyto confiava, e porque el Rey logo faleceo, não ouve tempo pera se fazer; e a sua nao grande que foy a mayor, mais forte, e mais armada que se nunca vio, mais a fez pera guarda do rio, que pera navegar. Que posta sobre ancora no meyo do rio, ella só o defendera, quanto mais a fortaleza e torre, porque era a mayor, e mais forte, e armada não que nunca vio. [3]

* Torre Velha da Caparica ou de Porto Brandão mandada construir por D. João II cerca de 1494.

Com a morte de D. João II coube a D. Manuel I a edificação da torre e fortaleza de São Vicente, entre 1514 e 1519.

A Torre aparece desenhada, julga-se que pela primeira vez, em 1530-34, na Tavoa Primeira dos Reys mandada desenhar por D. Fernando (1507-1534) filho de D. João III como esclarece Damião de Góis [4]: (…) & mandou a mî hum debuxo da arvore, & tronco de toda esta progenia, desno tempo de Noe, atte ho delrei dom Emanuel seu pai, pera lho mandar fazer de iluminura, pelo mor homem daquella arte que havia em toda Europa, per nome Simão, morador ê Bruges no condado de Flandres. (…) [5]

bel6fig. 1 - Simon Bening (1483 – 1561) e António de Holanda (1480-1557) A representação da Torre de Belém (São Vicente) mais antiga que se conhece. Folio 7r from the "Genealogy of the Portuguese Kings", MS. 12531, British Library: First Table of the Kings - Branch of Count Dom Anrique 1530-1534 British Library London

bel6bfig. 2 – Pormenor da figura anterior.

E o mesmo Damião de Góis (1502-1574) na Urbis Olisiponis Descriptio de 1554, dedicada ao infante Dom Henrique, descreve a Torre de Belém:

Na parte fronteira do templo [o mosteiro dos Jerónimos], levanta-se uma torre de quatro andares, feita de cantaria, que Dom Manuel mandou edificar sôbre rochas, lançadas no mar, de maneira que, cercada de água por todos os lados, ficasse mais segura contra qualquer violência e ataque súbito dos inimigos; nem os navios poderiam aproximar-se da capital se os que estavam de guarda na tôrre não consentissem. [6]

E de novo Damião de Góis em 1567 na Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel escreve:

Fez de nouo ha Torre, & fortaleza de sam Vicente da par do Mosteiro de Bethleem todo de pedra canto , em que mandou poer muita artelharia, & gente de guarnição có que se ho portovegia,& guarda. [7]

Francisco d'Olanda (1517-1585), na sua obra Da fabrica que falece a cidade de Lisboa de 1571 insere um desenho em que aponta a importância da Torre na defesa da barra do Tejo. [8]

No desenho que incluiu as duas margens, surge apontada no Tejo uma fortificação de planta triangular alinhada com o forte de São Gião (S. Julião) que será o futuro forte de São Lourenço da Cabeça Seca (cuja conclusão data de 1593).

bel19afig. 3 - Pormenor da parte inferior da folha 12. (M.L. Zanatta de Souza 2011)

[Parte superior da folha 12 v. e folha 13 com o Desenho reproduzido na fig. 4]

bel19bfig. 4 – Parte inferior das folhas 12 v. e 13. (M.L. Zanatta de Souza 2011)

O texto na versão de Joaquim de Vasconcellos (1849-1936):

…assi mesmo deve de ser fortalecida, repairada e acabada a fortaleza de Belem e a de São Gião, pois que tem tanto custado sem estar bem acabada. E isto com alguns baluartes fortes que lhe respondam da outra banda da Trafaria e da area da Adiça, um defronte da Torre de Belem, onde está a torre velha, e o outro defronte de santa Caterina de Ribamar que é a mis segura fortaleza de Lisboa, ali onde acabam os montes d’Almada e começa a área da ponta da Trafaria ou cachopo [fol.12 v.] ou, se possível fôr, havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meo da cabeça onde arrebenta o mar dos cachopos que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual, podendo ser, seria cousa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ella lhe póde fazer dano alguma hora. E estes taes baluartes haviam de ser rasos e baixos [fol.13] e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido mui delgado e forte que é muito mais seguro, digo do embasamento ou pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz; os quaes baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desegno. Inda que a forma seja piquena por não caber em livro maior. [9]

bel7afig. 5 - Francisco de Holanda Da fabrica que falece à cidade de Lisboa 1571 Desenho inserido nas folhas 12 v. e 13.in https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2015/05/o-bugio.html

Legenda do desenho por Joaquim de Vasconcellos – Fol. 12 v. e 13 – Desenho de lado a lado. Representa a entrada do Tejo: Castello d’Almada e dois bastiões na mesma margem (sem nome); o bastião “dos cachopos”. Do lado oposto: S. Julião (Giam), Santa Catherina, S. José, a “Torre” (de Belem) e Santa Maria de Belem (Jeronymos). [10]

E Francisco de Holanda apresenta ainda um desenho para o bastião nos cachopos, onde no primeiro plano se vê um conjunto alinhado de galeras.

bel18afig. 6 - Francisco de Holanda. Lembrãça do Bastiam nos cachopos. Folha 13 v. Da fabrica que falece à cidade de Lisboa. 1571. In https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2015/05/o-bugio.html

Em 1589 Filipe II contrata Giovanni Vincenzo Casali, ou Casale (1539-1593), para a construção do bastião de S. Lourenço, de que se ocupa até à sua morte. Assim em 1590 elabora um mapa Descripção da boqua do Tejo apontando as distâncias entre as diversas fortificações e em particular entre San Gian e o areal onde está principiado o forte de São. Lour.ço da Cabessa sequa.

bel8afig. 7 - Giovanni Vincenzo Casali, ou Casale (1539-1593) Descripção da boqua deste Rio 1590, in A Barra do Tejo O Eixo São Julião Torre do Bugio de Joaquim Boiça.

Na legenda a Torre de Belem aparece referenciada com a letra O.


[1] Ver Cristina Andreia Duarte de Coimbra Neves Próspero dos Santos Fortificações da foz do Tejo, Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. Lisboa 2014.)

[2] Cf. Marco Oliveira Borges - A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo. In História, Revista da FLUP. Porto, IV Serie, vol. 5 - 2015, (pág.93 a 117).

[3] Garcia de Resende (1470-1536) Chronica dos valerosos, e insignes feitos Del Rey Dom Joam II de Gloriosa Memória, Em que se refere sua Vida, suas Virtudes, seu Magnanimo Esforço, Excellentes Costumes, e seu Christianissimo Zelo. (1545) Per Garcia de Resende, Com outras Obras que adiante se seguem, e vay acrescentada a sua Miscellania, à Feliz Memória do Mesmo Rey Dom Joam Segvndo, que está em Gloria. Coimbra. Na Real Officina da Universidade. Anno de MDCCLXXXXVIII. (pág.256).

[4] Damião de Góis Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel, composta per Damiam de Goes, dividida em Qvatro Partes, Em Lisboa em casa de Françsco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, aos xvij dias do mês de Iulho de 1566. Segunda parte da Chronica. Capitu. XIX. Do nascimento do Infante dom Fernando & das qualidades de sua real pessoa. Fol.33 vs.

[5] O Simão morador em Bruges a que alude Damião de Góis é Simon Bening (1483 – 1561), de facto considerado o melhor iluminista da época. O manuscrito que Simon Bening executa em colaboração com António de Holanda, da Árvore com a genealogia dos Reis de Portugal, nunca foi acabado e muitas das armas e brasões não se encontram realizadas. Nas margens algumas cenas de batalhas, torneios, peregrinações e cidades associadas aos diversos reis e rainhas. Encontra-se na British Library, em Londres.

[6] Damião de Góis (1502-1574) Descrição da Cidade de Lisboa (Urbis Olisiponis Descriptio) 1554pelo Cavaleiro Português Damião de Góis, tradução do texto latino, introdução e notas de José Felicidade Alves, Casa Comum Fundação Mário Soares. (pág.39).

[7] Damião de Góis Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel, composta per Damiam de Goes, dividida em Qvatro Partes, Em Lisboa em casa de Françsco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, aos xvij dias do mês de Iulho de 1566. Qvarta e vltima parte 1567 Cap. LXXXV Das Egrejas, mosteiros, Hospitaes castelos, fortalezas, & outras obras que el Rei dom Emanuel fez de nouo, & mandou reparar, & dos lugares que ganhou ahos mouros em Africa, & em Asia. Fol.109 vs.

[8] Sobre Da fábrica que Falece à cidade de Lisboa ver Maria Luiza Zanatta de Souza Um novo olhar sobre Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, Francisco de Holanda 1571. Universidade de São Paulo Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo 2011.

[9] Francisco de Holanda. Da Fortaleza de Belem e Sam Gião e baluartes in Da Fabrica que Fallece à Cidade de LisboaDa Sciencia do Desenho 1571 Capitolo IIII (fol. 12, fol. 12 v. e fol. 13) in Renascença Portugueza. Estudo sobre as relações artísticas e literárias de Portugal nos séculos XV e XVI. Edição Crítica (segundo autographo inédito de 1571 por Joaquim de Vasconcellos Porto Imprensa Portugueza. Porto MDCCCLXXIX. Archeologia Artística Volume II – Fascículo VI. Publicada por Joaquim de Vasconcellos Imprensa Portugueza Porto MDCCCLXXIX. (pág.8 e 9).

[10] Idem.

 

No século XVII

Já no século XVII Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), publica em 1620, o Livro das Grandezas de Lisboa, onde destaca o papel da Torre de Belém inserida no conjunto de fortificações: a Torre Velha na outra margem, o forte de São Julião iniciado em 1553 na foz do Tejo e o Bugio (Forte de São Lourenço da Cabeça Seca), que defendiam a entrada da barra do Tejo.

A primeira he a muy vistosa, & forte torre de Belem plantada no meo do Rio com muita, muy forte, & grossa artelharia , a qual com outra , que està defronte aparte do meodia , a que chamaõ a torre velha, situada em terra firme, guardaõ a entrada, & sahida da Cidade de modo que naõ entra, nem sae nao algüa sem licença & registro, como adiãte se dira, fazendo o mesmo a grande, & muy forte fortaleza, acõpanhada & cercada de fortissimos baluartes, com muy grossas peças de artelharia, chamada Saõ Juliaõ, situada em terra firme no fim do Tejo, onde perdendo elle o nome, começa o mar Occeano, tres legoas abaixo da cidade, ou da porta do mar, onde se embarcaõ. [1]

Este conjunto de fortificações de defesa da barra é ilustrado por um mapa de Filippo Terzi (1520-1597).

bel9fig. 8 - Felippe Tersio Descrição e plantas ad costa 1617 Torre do Tombo ANTT, Casa Cadaval, nº 29, fls. 78-79: «A seguinte traça hé a Descripção do Rio de Lisboa feitto por Felippe tersio em tempo dos sors Gouernadores»

Legenda:

A – Lisboa C - Mosteiro dos Jerónimos D – Torre de Belém E – São Julião I L – São Lourenço da Cabeça Seca e Bugio Q – Torre Velha

Manoel Severim de Faria (1584-1655) publica em 1624 Discurso Varios Politicos, onde defendendo as vantagens de Lisboa para se tornar a capital do reino ibérico, escreve:

“ Não he menor a fortaleza desta cidade, & a segurança com que nella pode estar dos assaltos dos inimigos, porq por mar ficã tres ou quatro legoas metida pelo rio dentro, o qual esta guardado com sete castellos fortíssimos (cousa q pode ser se não achará em outra cidade do müdo) que são o de Cascaes, S. Antonio Cabeça Seca, São Gião, Belem, a Torre velha, & o Castello da cidade postos todos em lugares tão oportunos, q impossível he per mar ser acometida, & muito menos entrada;… [2]

E do mesmo modo em 1626 o autor anónimo da Relaçam, em que se trata, e faz hüa breve descrição dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa[3] refere a Torre de Belém:

Não muito longe Belem, / onde hua torre soberba / com tiros, & baluartes, / faz mostra espãtosa, & horrëda.

Metida dentro no Mar / de quadrada bombardeiras / num fortíssimo cubello / com varias fortes de peças.

E descreve o conjunto das fortificações da defesa da barra como São Julião da Barra:

Na barra logo entrando,  / tem muy grande fortaleza, / de São Gião, cujo sitio / he sò bastante defensa.

De torres, & baluartes / muy forte sobre maneira / com bombardas, bazaliscos, / canhões, colocrinas, esferas…

E o Bugio:

Defronte dentro no mar / lhe fica cabeça seca / hum baluarte muy forte / sobre alicerces de arca,

Rodeado de estacada / vigas de grossa madeira, / por onde o mar se entulhou / de emmensidade de pedras.[4]

Finalmente em 1630 Tirso de Molina, pseudónimo de Frei Gabriel Téllez (1571?-1648) escreve a comédia El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra, uma peça conhecida sobretudo pela criação da personagem – que se torna famosa e universal – de D. Juan Tenorio. Nessa peça, na Cena XI, há um diálogo entre o Rei de Castela e um fidalgo Dom Gonzalo de Ulloa, em que este, a uma pergunta do soberano: - Es buena tierra Lisboa? O fidalgo faz uma descrição de Lisboa e tendo em conta a sua importância confirma que é La mayor ciudad de España e que Es Lisboa una octava maravilla.

Nessa decrição de Lisboa Dom Gonzalo de Ulloa salienta o sistema defensivo da barra do Tejo e refere em Belém o mosteiro dos Jerónimos, esquecendo a Torre de São Vicente.

A la parte del poniente,
guardan del puerto dos fuerzas,
de Cascaes y Sangián,
las más fuertes de la tierra.
Está de esta gran ciudad,
poco más de media legua,
Belén, convento del santo
conocido por la piedra
y por el león de guarda,
donde los reyes y reinas,
católicos y cristianos,
tienen sus casas perpetuas. [5]


[1] Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), Tratado Quarto do Sitio de Lisboa, pág.73 do Livro das Grandezas de Lisboa Composto pelo padre Frey Nicolao d’Oliveira Religioso da Ordë da Sãctissima Trindade & natural da mesma Cidade. Dirigido a D. Pedro d’Alcaçova Alcayde mor das tres Villas, Campo mayor, Ougella, & Idanha a nova, & Comendador das Idanhas. Com todas as Licenças necessarias. Impresso em Lisboa por Iorge Rodriguez. Anno 1620.

[2] Manoel Severim de Faria (1584-1655) Discurso primeiro da assistencia del Rey em Lisboa (pág.15v. e pág.16) in Discurso Varios Politicos Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Sé de Évora. Com as licenças necessárias. Em Evora. Impressos por Manoel Carvalho Impressor de Universidade. Anno 1624.

[3] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, das partes notaveis, Igrejas, Hermidas, & Conventos que tem, começando logo da barra, vindo corredo por toda a praya até enxobregas, & dahi pella parte de cima até São Bento o novo Publicada nos Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934.

[4] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934. (pág.20).

[5] Tirso de Molina El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra Luis Vázquez Edición crítica, introducción y notas Ed. Razon Social Estudios. Redccion y Adminstracion Belisana 2 Madrid 1958. (págs.150, 151 e 152).

 

No século XVIII

No início do século XVIII embora considerada no seu aspecto militar, a Torre começa timidamente a ser considerada de uma forma autónoma pela beleza da sua arquitectura. Nicolas de Fer desenha em 1703 uma gravura em que a imagem da Torre de Belém, acompanhada pela do Palácio Real, encimam uma planta esquemática das fortificações de Lisboa.

bel10fig. 9 - N icolas de Fer (1646-1720) e A. Coquart (1668-1707) Lisbonne; Palais Royal de Lisbonne; Le Chateau de Belem près de Lisbonne dans la riviere du Tage 1703 gravura em metal 24,8 x 33,8 cm. Biblioteca Nacional Digital.

bel10afig. 10 - Pormenor da figura anterior.

Nicolas de Fer em 1715 refaz a planta de 1703, desenhando a barra do Tejo, introduzindo na parte superior uma imagem do palácio Real e uma imagem da Torre de Belém Le Chateau de Belem Près de Lisbonne dans la rivière du Tage, reforçando a imagem da Torre como um monumento identificador da cidade de Lisboa.

bel10bfig. 11 - Nicholas De Fer (1646-1720) Geographe de sa Majesté Catholique. Embouchure de la Riviere Du Tage, 1715 Versão colorida da gravura em metal 7,4 x 40,7 cm. A Paris, Chez L'Auteur, dans l’Isle du Palais sur le Quay de l’Orloge a la Sphere Royale, 1715. in Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas collegidos por Diogo Barbosa Machado Biblioteca Nacional Brasil.

Mas, numa publicação de 1746 com o título de A Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande, um dos cabeçalhos de capítulo apresenta uma imagem da barra do Tejo inserida no sistema defensivo da barra: a Torre de Belém, o forte de S. Julião da Barra e o farol do Bugio. [1]

Na legenda Oportet me et romam videre Act.19.21. uma expressa referência bíblica ao Acto dos Apóstolos 19.21: Depois destes acontecimentos, Paulo resolveu ir a Jerusalém, passando pela Macedónia e Acaia. «Depois de eu lá ter estado - disse ele - tenho de ver Roma também.»

bel11fig. 12 - Oportet me et romam videre. Cabeçalho do Livro IV de A Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande. 1746.

Ainda em 1746, no reinado de D. João V (1706-1750), William Burgis desenha um Mapa da Embocadura do famoso Rio Tejo ou o Porto da Cidade de Lisboa (A Map of the Mouth of the famouse River Tagus or the harbour of the City of Lisbon).

bel12fig. 13 - William Burgis (activo entre 1722 e 1736) A MAP Of the Mouth of the famous River TAGUS Or the Harbour of the City of LISBON 1746. Existe uma cópia no Palácio Nacional de Queluz.

A gravura compõe-se de duas partes. Na parte inferior um Mapa da foz do rio Tejo e do porto de Lisboa com a respectiva legenda.

bel12cfig. 14 – Pormenor da parte inferior da imagem anterior.

Numa cartela uma dedicatória To y Most Noble & Right Honourable James O Hara Baron of Tyrawley Envoy [2] To y Honourable Charles Compton Esq. Consul General [3]. And to y most Worthy y Brittish Merchants of the City of Lisbon. This Plate is inscrib’d by their most Obedient& humble Serv.t W. Burgis.

E enrolada num compasso uma fita com A Seale of Leagues.

Na parte superior uma vista da embocadura do Tejo com uma cartela onde se lê: A view of the Castle of Belem and the City of Lisbon as its appears from thence.

bel12afig. 15 - William Burgis (activo entre 1722 e 1736) A view of the Castle of Belem and the City of Lisbon as its appears from thence 1746. Pormenor da parte superior da fig.11.

Identificam-se para além da Torre de Belém, a Capela de S. Jerónimo (1514), o palácio de Belém (antigo palácio do Conde de Aveiras) e, ao fundo a cidade de Lisboa com o Torreão do Palácio Real e no alto da colina o Castelo de S. Jorge.

Nos primeiros planos uma fragata com pavilhão português disparando uma salva de artilharia e um navio mercante com pavilhão britânico, mostrando as boas relações comerciais entre Portugal e o Reino Unido desde o Tratado de Meetween. Junto aos navios duas fragatas do Tejo. No canto inferior direito surge uma muleta do Tejo. (Sobre esta embarcação ver mais adiante).

bel12dfig. 16 - A gravura de William Burgis numa versão colorida.

Depois do terremoto de 1755, é publicada em Londres uma gravura de J. Couse (?-?), cujo sucesso se deve a mostrar Lisboa antes do grande abalo sísmico. No lado esquerdo da gravura a Torre de Belém.

bel13bfig. 17 - J. Couse - The City of Lisbon as before the dreadful Earthquake of November 1. st 1755. La Ville de Lisbon dans son Etat avant le terrible Tremblement de Novembre 1 1755. água-forte, aguarelada ; 22,5x39,3 cm. printed for Robert Wilkinson n.º 58 in Cornhil, 25 Bowles & Carver, 69, S.t Pauls Church Yard London. Biblioteca Nacional.

bel13afig. 18 - Pormenor da gravura anterior com a Torre de Belém.

Em 1763 Bernardo de Caula (?antes de 1763-1793) [4] desenha uma Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, desde a Torre do Bogio (com o n.º 1) a ocidente, até ao Palacio do Patriacha (com o nº 102) do lado oriental.

bel15afig. 19 - Bernardo de Caula P.ro tenente dartilharia do algarve. - 1763. - 1 desenho : pena e aguadas de tinta sépia e cinza em duas f. coladas ; 22,5x140,5 cm. BND

bel15duplofig. 20 – Pormenor da Vista mostrando as duas cartelas laterais.

Na cartela esquerda sob o escudo Real:

Lisboa/Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, Situada na borda do Rio Tejo em 38 graos 42 minutos e 50 Segundos de latitude e em 8 graos 26 minutos e 15 Segundos de longitude. Ainda que por causa do memoravel terremoto do 1º Novembro 1755 esteja muito desfigurada…

Continuando na cartela direita:

…da nobreza que teve e acabada de reedificar não cederá à melhor da Europa.

Ainda na cartela da direita sob um Brasão:

offerecida ao meritissimo Sñr Dom Carlos, alberto, guilhermo de Colson, Conseilheiro da Corte de Sua Alteze Serenissima, o Sñr Conde Reynante de Schaumbourg Lippe * marechal general dos exercitos de Sua Majestade Fidelissima por seu m.to venerador Bernardo de Caula P.ro tenente dartilharia do algarve.

* Frederico Guilherme Ernesto de Schaumburg-Lippe (1724-1777) o Conde de Lippe, encarregado pelo Marquês de Pombal de reorganizar e comandar as tropas portuguesas.

bel15bfig. 21 - Pormenor da parte esquerda da Vista de Bernardo de Paula.

Legenda: 1. Torre do Bogio 2. Torre de sam Juliam da Barra 3 Carcavellos 4. Forte de D.to Amaro 5. Forte de S. João da Mayo 6. Villa e Condado de Oeyras 7. Paço d’Arcos 8. Forte de Caxias 9. Caxias e os Catuxos 10. N.ª S.ª de Boa Viagem 11. Ponte de S.ta Catharina 12. Convento de Sta Catharina 13. Forte arruinado de S. Jozé.

A Torre de Belém surge desenhada com proporções distorcidas.

bel15cfig. 22 - Pormenor da Vista de Bernardo de Paula com a Torre de Belém (25)

Legenda 25. Torre de Belem 26.ermida de S. Jeronimo 31. Convento de Belem 34. Paço real de N.ª S.ª da Ajuda.

De 1765 surge uma Planta do Porto de Lisboa de Diogo Correa da Motta tendo na parte inferior uma Breve descripção do porto de Lisboa. Oporto de Lx.ª é hum dos mayores e mais seguro de toda a Europa formado vnicam.te pella natureza em hua ansiada do Tejo, Rio notavel em cuja margem semptrional esta fundada esta cidade. [5]

bel17bfig. 23 - Diogo Correa da Motta Planta do porto de Lisboa / No mes de Fevr.º do anno de 1765. 52,2 × 73 cm. in In Carmen Manso Porto Cartografía Histórica Portugesa. Catálogo de manuscritos (siglos XVII-XVIII) Real Academia de la Historia Departamento de Cartografia y Bellas Artes Madrid 1999.

Na descrição da parte inferior lê-se que o g.de passo q. tem mais de meya legoa de largura entre a torre do bogio q. lhe fica a oriente fundada no fim do g.de cachopo e pella torre de S. Jullião, a ocidente.

E mais indica que Deste forte de S. Jullião até a torre de bellem há duas légoas (…) A torre q. deste lugar toma o nome, está situada no passo mais estreito do canal, e é guarnecida de m.tas peças de Artilharia e de hua bataria bayxa junto da qual passam os Naviosquase sempre encostados da parte de Bellem.

bel17dfig. 24 – Pormenor da carta de Diogo Correa da Motta.

Note-se o modo sintético como está desenhada a Torre de Belém.

Finalmente para assinalar, que nos finais do século XVIII, a importância que assume ainda a defesa da barra do Tejo, as obras da fortificação da Torre Velha na margem sul, pelo coronel Francisco de Alincourt.

bel14fig. 25 - Francisco de Alincourt (1733- 1816) Vista das obras novas da Torre Velha, para deffeza da entrada do rio / que por ordem doIll.mo e Ex.mo Sñr. duque de Lafoens, marechal general, junto à Real Pessoa, projeitto ò coronelFran.co d'Alincourt è foe aprezentado no Quartel General, com seu tenente general, inspector Sñr. Guilherme Luis Antonio de Vallere, para à enteira approbação. 1795. Aguarela 28,2 x 98 cm. Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar Lisboa, Portugal.


[1] Padre André de Barros (1675-1754)Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande. Acclamado no Mundo por Príncipe dos Oradores Evangélicos. Pregador Incomparável Dos Augustíssimos Reys de Portugal,Varão esclarecido em Virtudes , e Letras Divinas , e Humanas; Restaurador das Missoes do Maranhão , e Pará. Dedicada ao Sereníssimo Senhor Infante D. António. P. André de Barros da Companhia de Jesus. Na nova Officina Sylviana Lissboa MDCCXLVI.

[2] James O'Hara, 2º Barão Tyrawley e 1º Barão Kilmaine (1682-1774) oficial irlandês do exército britânico. Depois de servir na guerra da Sucessão em Espanha foi nomeado Embaixador britânico em Portugal tendo estabelecido fortes laços de amizade com D. João V. Foi ainda Embaixador em São Petersburgo e Governador de Gibraltar.Comandou por um curto período as tropas britânicas em Portugal na guerra dos 7 anos.

 

[3] Honourable Charles Compton (1692-1755) Cônsul em Lisboa de 1727 a 1742 e enviado extraordinário de 1742 a 1745. Membro do Parlamento.

O seu sobrinho James, Lord Compton, (1723-1739) escreve em 1737 para o tio cônsul em Lisboa os seguintes versos em latim:

Nonaq. Clausit humum boreali frigore bruma, / Quando dabas vela, et spumas salis aere ruebas, / Ut peteres longo Lisbonae littora cursu.

Traduzidos para inglês pelo Rev. Charles Sumner Harington:

 In icy bands, sithence thou didst thy sails / Unfurl, and plough with foaming keel the main, / For far-off Lisbon bound.

Lord Compton's verses to his Uncle, Consul at Lisbon (trad.Rev. Charles Sumner Harington, M.A.) in Jacobus Compton Viro Honoratissimo Carolo Compton patruo suo clarissimo. S.P.D. (Salutem plurimam (licit.) MISCELLANEA GENEALOGICA ET HERALDICA. Edited by W. Bruce Bannerman, F.S.A. Volume II Fourth Series Mitchell Hughes and Clarke, 140 Wardour Street, W. London 1908. ( pág.241)

[4] Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Em 17 de Outubro de 1771, foi promovido a capitão e em 26 de Março 1789, passou à situação de reforma por motivo de doença (cf. Arq. Hist. Militar, Processo de Bernardo de Caula, Arq. Hist. Militar Cx. 363); foi pai do general Carlos Frederico Bernardo de Caula (1766-1835), proeminente cartógrafo. BNP.

[5] Frederico Gavazzo Perry Vidal (1889-1953) num artigo intitulado Vista panorâmica de Lisboa datada de 1763 referencia exaustivamente os edifícios representados numa que julgo ser uma versão diferente desta Vista, já que as legendas não são coincidentes. O artigo em três partes foi publicado nos números 2, 3 e 4 de Olisipo boletim trimestral Edição e propriedade do Grupo Amigos de Lisboa. Sede provisória: Largo do Chiado 12, 2º. Números: n.º 2 Abril, n.º 3 de Agosto e n.º 4 Outubro de 1938.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uma pintura do Porto

 
Nota- No excelente e incontornável blogue Gandalf's Gallery foi publicada em 31 de Julho uma imagem do Porto, uma pintura de Gustave Bourgain com o título de Dourando a Figura de Proa.
bour1fig. 1 - Gustave Bourgain (1856-1921) – Dourando a Figura de Proa (Gilding the Figurehead), Porto 1886 óleo sobre tela 75 x 105 cm. colecção particular.
Gustave Bourgain (1856-1921) pintor e ilustrador francês ligado à revista L'Illustration, foi enviado a Alexandria no Egipto com a expedição inglesa. Expõe pela primeira vez no Salon de 1884 com uma cena da guerra anglo-egipcia.
Torna-se pintor oficial da Marinha. Dedicando-se à pintura histórica, pinta um conjunto de quadros sobre a campanha do Egipto por Napoleão entre os quais dois quadros de Bonaparte no Cairo. Participa na Exposição Universal de 1900 com uma celebrada aguarela leVengeur retratando o combate do navio francês com o navio inglês Brunswick em 1794.
O quadro divide-se em duas partes.
bour2fig. 2 – O quadro com a parte esquerda escurecida.
bour3fig. 3 – Pormenor mostrando o cais de Gaia. Do lado esquerdo Bourgain 86
O lado esquerdo numa zona mais sombria, mostra a proa de um navio atracado ao cais de Gaia, onde dois marinheiros se atarefam na manutenção e lavagem do navio.
bour4fig. 4 – Pormanor dos marinheiros na manutenção do navio.
No centro do quadro uma outra personagem, um artista, (repare-se na diferença do vestuário), paleta na mão, está dourando a figura de proa (a carranca), que explica o título da pintura. A carranca representa um guerreiro romano encavalitado no talhamar (a peça da frente da proa) sob o gurupés (o mastro horizontal da proa).
bour6fig. 5 – Marcação do centro do quadro.
bour5fig. 6 - Pormenor mostrando o artista dourando a carranca.
Na parte direita do quadro, mais luminosa, o Douro onde navegam diversos barcos salientando-se um escaler e um barco rabelo
bour7fig. 7 – Pormenor do escaler que se dirige para a Ribeira do Porto.
bour8fig. 8 – Pormenor do barco rabelo.
Dirigindo-se para jusante, um navio da rota das Índias (indiaman), sem pavilhão e por isso de nacionalidade desconhecida.
bour10fig. 9 – Pormenor do navio.
O navio é semelhante aos representados por Manoel Marques d’Aguilar na gravura da entrada da barra do Douro de 1790.
bour9fig. 10 - Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 44 x 28 cm.
bour9afig. 11 – Manoel Marques d’Aguilar (1767-1816) Pormenor da Perspectiva da Entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende 1790.
Ao fundo a cidade do Porto onde junto da muralha se encontram ancoradas diversas embarcações.
Como o quadro está datado de 1886, e Bourdain pinta sobretudo temas históricos, a cena situa-se nos finais do século XVIII e inícios do século XIX.
bour11fig. 12 – Pormenor da cidade do Porto do convento de S. Bento da Vitória até ao cubelo da muralha fernandina.
Por isso a cidade do Porto, com luz de poente e onde se distingue o morro da Vitória, o morro da Sé, a igreja dos Grilos, o Paço Episcopal, a muralha e o casario e o cais da Ribeira, é provavelmente inspirada na gravura de George Vivian do álbum Scenery of Portugal & Spain, publicado em Londres em 1839. Note-se o pormenor do Palácio Episcopal e dos barcos rabelos.
bour12fig. 13 – Pormenor da Sé e do Paço Episcopal.
bour13fig. 14 – George Vivian(1798-1873) Oporto from Villa nova litografia de Louis Haghe (1806-1885) in Scenery of Portugal & Spain, 14 Pall Mall, East P. and D. Colnaghi and Com. London 1839.
Bourgain aproveita alguns detalhes dos navios para esconder a Torre dos Clérigos e a Ponte das Barcas. (Na data da pintura já a ponte Luís I estava em conclusão e na data que o quadro pretende evocar existia a Ponte das Barcas).
bour14fig. 15 – Dois pormenores que “escondem” à esquerda a Torre dos Clérigos e à direita a Ponte das Barcas.