Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Comentário a um Comentário

Caro PA:

Por motivos informáticos (o meu computador”pifou” e tive que adquirir um novo), só agora estou em condições de retomar o meu blogue.

Em primeiro lugar agradeço o(s) seu(s) pertinente(s), fundamentado(s) e, já agora, extenso(s) comentário(s), aos meus textos sobre os bairros sociais. Responderei sucintamente

Em primeiro lugar os factos: nos seus comentários acrescenta  alguns factos que eu desconhecia (ou de que  tenho pouca informaçã0)  sobre os bairros na sua concretização ( Bairro dos Pobres de António Monteiro dos Santos, Bairro da Garantia) , outros que conhecia, mas que na economia destas intervenções num blogue preferi não referir (Bairro da Areosa,  os bairros da Boavista, Quinta da Calçada e Furnas em Lisboa), e ainda outros que penso abordar noutras intervenções (Habitações Populares de Rebordões /S. João de Deus,)

Outros factos de ordem legislativa e toponímia, provavelmente terá mais informação da que eu disponho e portanto as suas correções parecem-me acertadas.

Quanto a datação, tratando-se de obras de arquitectura, de um modo geral não é possível uma datação precisa, já que muitas vezes se refere a data do projecto, outras da construção e/ou infra estruturas e outras ainda da inauguração (política ou real).

Em segundo lugar alguns dos seus comentários são opinativos como a periodização do Regime Ditatorial de Salazar. Nas mensagens que tenho publicado neste blogue, tenho utilizado a seguinte periodização:

1. Ditadura Militar entre 26 e 32/33 (Salazar presidente do Conselho, Constituição, instituições do Estado Novo, , etc.);

2. Período entre 33 e 38/40 (influência do fascismo italiano, o “efémero modernismo” como lhe chama Nuno Portas, o SPN de António Ferro,o 1º concurso de Sagres, etc.) e que termina com a guerra de Espanha, a consolidação do regime nazi e internamente com a polémica em volta da Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima, com a Exposição do Mundo Português, etc.);

3. Período da 2ª Guerra Mundial, com as grandes obras do regime, mesmo se muitas delas só são concretizadas no pós guerra;

4.Período sensivelmente de 10 anos (de 1946 a 1956/57), que internacionalmente é dominado pela reconstrução (económica, social, cultural e física) dos países envolvidos no conflito mundial (vencedores e vencidos), pelo prestígio adquirido pelos partidos de esquerda na resistência ao fascismo e ao nazismo, pela cultura neorrealista, pela influência de Le Corbusier e em particular da sua Unité d’Habitation, e em Portugal pela criação do MUD, pelas eleições de 49 e 51, pelo Congresso de 48, pelas Exposições Gerais de Artes Plásticas, etc.

5. Período também de cerca de dez anos, entre 1957/58 até 1969 (data da queda de Salazar) em que à  “ guerra fria", sucede a  aparente  política da "coexistência pacífica"  com o XX Congresso do PCUS (1956),  a  "conquista do espaço", (lançamento do primeiro satélite artificial o Sputnik,  em 1957), a revolução Cubana,                                  e iniciam as emissões de televisão, em que é criada a fundação Gulbenkian, que realiza nesse ano a I Exposição de Artes Plásticas, bastante ecléctica nas correntes artísticas apresentadas, em que se realiza o III Concurso do Monumento ao Infante D Henrique em Sagres, ganho pelo projecto "Mar Novo" de João Andersen/Barata Feyo/Júlio Resende ( todos da escola de Belas Artes do Porto) e mais uma vez não realizado, as eleições para a presidência da República, e a campanha de Humberto Delgado, a Igreja Católica, começar a distanciar-se do poder político de Salazar com a carta do Bispo do Porto, D. António Ferreira,(Julho de 1958)  sem esquecer que, nesta época, o Papa João XXIII, tentava dar uma abertura diferente à Igreja, e finalmente com a realização - tardia e por vezes deformada - das ideias e reivindicações  definidas no Congresso de 48:  o Ensino, com a Reforma do Ensino de Belas Artes (Dec.Lei nº 41 362 de 1957); e a Arquitectura Portuguesa, com a realização e publicação do "Inquérito à Arquitectura Regional" (1955/61); a  Habitação, com o início dos grandes projectos de habitação social (Plano de Melhoramentos do Porto e Plano de Olivais Norte em Lisboa).

6.Finalmente o período do fim do regime ditatorial entre 1969 e 1974, correspondente ao Marcelismo.

Por isso quando refiro que a Ditadura Militar “concluiu muitas das obras planeadas ou em construção promovidas pelo regime deposto”, estou a referir-me à concretização de muitos projectos da República não apenas de habitação social, como os edifícios escolares de diversos graus de ensino (ex.liceu Rodrigues de Freitas, faculdade de Farmácia, etc.) a Maternidade, etc.)

Também no período entre as duas guerras considero de grande importância a acção de Duarte Pacheco e de António Ferro, na definição da “fachada” do Estado Novo, quer no período modernizante, quer no período do “Português Suave”, expressão utlizada muito antes do livro (aliás excelente) de J. M. Fernandes.

Embora este comentário ao seu (repito) excelente comentário, nos levasse muito longe, termino com cumprimentos RF

domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma Visita ao Porto com D. PedroII Imperador do Brasil 2

Nota – Por razões várias só agora se conclui o tema “ Uma visita ao Porto com D. Pedro II, Imperador do Brasil”, publicado neste blogue em 23/07/2010.

Continuamos por isso a seguir a segunda parte (inteiramente dedicada à cidade do Porto e apenas com uma incursão a Braga), de Viagem dos Imperadores do Brasil em Portugal”, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra no ano de 1872, pelos bacharéis José Alberto Corte Real, Manuel António da Silva Rocha e Augusto Mendes Simões de Castro.

dias0

Dia 2

Apezar das fadigas da véspera o Imperador não desdisse dos seus hábitos madrugadores, e ás 8 horas da manhã sahiu do hotel, acompanhado pelos srs. Marquez de Ficalho, Andrade Corvo e barão de Itaúna, recomeçando a sua rápida excursão por tudo quanto a cidade invicta tinha de mais notável em sciencia, industria, artes e historia militar.

Quasi à mesma hora a Imperatriz, vestida de preto e com simplicidade, …

dia20

Joaquim Insley Pacheco(1830-1912) Theresa Christina Maria cerca de 1850-1860  30 x 22,5 centímetros  colecção Thereza Christina Maria Collection Biblioteca Nacional do Brasil

…acompanhada pela sua dama, e pelo cônsul, o sr. Rebello, sahiu tambem a ouvir missa na igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde não se dignou acceitar o tapete que lhe foi offerecido para se ajoelhar, regressando ao hotel logo que a missa terminou.”…

dia12

Francisco Rocchini (?) – Igreja do Carmo no Porto papel albuminado, pb : 30,8 x 40cm. Album pittoresco e artistico de Portugal.  colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil)

“O Porto não havia madrugado menos que os seus hospedes. Salvas e repiques de sinos annunciaram o romper da aurora, e pouco depois começavam a tocar as musicas no largo de S. Domingos e rua de Sancto António.

Quanto á digressão do Imperador não podemos seguir a ordem por que visitou os differentes pontos onde esteve, porque são confusas as noticias publicadas a este respeito, e não nos chegaram a tempo todos os esclarecimentos que sollicitámos.

Visitou as fabricas de fundição do Bicalho e de lanifícios de Lordello.

À data da visita do Imperador do Brasil, o Porto é uma cidade em rápida industrialização, que se acentuará no último quartel do século XIX, a partir da Exposição Internacional do Porto realizada no Palácio de Cristal em 1865, então construído para esse acontecimento.

É conhecida a frase de Sousa Reis comparando o Porto com Manchester:

“A maioria da povoação do Porto, é industrial e muito lidadora podendo comparar-se nas tendências esta Cidade no Reino de Portugal à Cidade de Manchester no Reino da Grã-Bretanha, com diferença de que esta exporta muito e por isso cresce enriquecendo pasmosamente, e a nossa exporta poucas manufacturas, e circunscreve-se ao fornecimento do consumo […]”. Henrique Duarte e Sousa Reis, 1866

As fábricas visitadas por D. Pedro II, situam-se como muitas outras em Massarelos e em Lordelo, beneficiando da proximidade do rio Douro, para o embarque dos produtos e desembarque das matérias primas. A Fundição do Bicalho utiliza o cais do Bicalho onde o carvão importado de Inglaterra, e a fábrica de lanifícios de Lordelo o Cais do Ouro onde desembarca a lã. Beneficia ainda da proximidade da Ribeira da Granja, com a água indispensável para a laboração da fábrica.

dia10

A Fundição do Bicalho

A Fabrica de Fundição do Bicalho foi fundada em 1844 por David Hargreaves e John Eccles Martin de Lisboa. No ano de 1850 foi comprada pela sociedade comercial “Hargreaves, Kopke & C.ª” e no ano seguinte passou a propriedade da companhia anónima “Fundição do Bicalho” que também faliu. Em 1864 torna-se proprietário Eugénio Ferreira Pinto Basto.

dia16

A Fábrica é descrita por este seu proprietário, na Resposta n.º 112 ao Inquérito Industrial elaborado pela Comissão do Conselho Geral das Alfândegas, para a Exposição Internacional do Porto:

“III.m0 e ex."'° sr.— Em conformidade com o prospecto que v. ex.a se dignou enviar a esta fabrica, cumpre-me responder da seguinte maneira:

1.° A fabrica é dentro do concelho e distrido do Porto, freguezia da Boa Viagem de Massarellos.

2º A fabrica é denominada “fabrica de fundição do Bicalho". Seu actual proprietário Eugénio Ferreira Pinto Basto, a possue por título de arrematação judicial, feita em 17 de agosto de 1863, no processo da fallencia da companhia da fundição do Bicalho: mas que só passados dois annos depois de debellar nos tribunaes as dificuldades que lhe oppozeram á sua entrada n’este estabelecimento tomou conta da fabrica em 2 de Novembro de 1864, desde a qual epocha até hoje a está restaurando completamente, tanto no prédio que encontrou perfeitamente arruinado, como na fabrica, com a acquisição de novas e modernas machinas, vindas das melhores fabricas de Inglaterra. Esta fabrica foi fundada em 1841, por David Hargreaves e John Eccles Martin, de Lisboa. Por fallencia d'este Martin foi comprada, no anno de 1850, pela sociedade commercial denominada «Hargreaves, Kopke e C.a». Por alvará regio, de 9 de agosto de 1851, passou esta fabrica a ser propriedade de uma companhia anonyma «a fundição do Bicalho», que também falliu, e todos os seus haveres foram arrematados judicialmente por ordem e sentença do tribunal commercial d'esta cidade. N'essa arrematação fez o actual proprietário não só a acquisicão do dito predio e terrenos, mas também das melhores machinas e ferramentas que n’ella existiam.

3° O seu motor é uma machina de força de 16 cavallos, construida na propria fabrica e concluída no fim de fevereiro do presente an­no, desde a qual data tem constantemente trabalhado. Esta machina consome annualmente 60 pipas de carvão.

4.° As matérias primas que emprega são: carvão de hulha (50 pipas para o motor, carvão mindo para as forjas 50 pipas, e carvão coke para os fumos da fundicão 60 pipas; todo este carvão procede dos portos inglezes. Consome mais: ferro de fundição 240 toneladas, e ferro forjado 72 toneladas todo procedente dos portos inglezes,

A reclamação que entendo fazer (visto o carvão ser livre) é o ferro de fundição ser isento de 2 réis por kilogramma, direito forte que corresponde a 20 por cento sobre a matéria prima, e o ferro forjado de toda a qualidade igualmente deve ser isento de 3 réis por kilogramma, que actualmente paga, que corres­ponde a 8 por cento do seu valor, bem como no aço em barra de 4 réis por kilogramma, e no cobre fundido de 2 reis por kilogramma. Todas as machinas importadas para este paiz devem pagar um direito correspondente a 5 por cento.

5.° As machinas que emprega no seu fabrico são 1 martello a vapor vindo  de Inglaterra....

N’esta fabrica fazem-se todas as machinas de vapor, rodas e apparelhos hydraulicos, tornos mechanicos, toda a qualidade de machinas conhecidas e todas as ferramentas necessárias. O numero dos empregados regula por 150, sendo homens, pouco mais ou menos, 90, mulheres 20, rapazes 40. O salário dos homens regula de 400 a 900 reis, e das mulheres 160 réis, e o dos rapazes de 100 a 200 réis.

6° A quantidade dos productos é a correspondente ás 250 toneladas acima referidas de ferro fundido, e ás 72 ditas de ferro for­jado, consumidas no Porto e províncias adjacentes, variando o preço dos productos segundo o valor da mão de obra que n’elles se emprega.

7.º Os estabelecimentos de credito d’esta cidade não ajudam actualmente a manutenção d'esta fabrica, por o seu proprietário actual ainda a elles não ter recorrido.

8.º Não julgo necessária outra qualquer alteração nos direitos da pauta actual, …

9.º A necessidade do auxilio das escolas industriaes torna-se mais saliente em todas as operações do machinismo.

É quanto se offerece dizer ao abaixo assinado. Deus guarde a v. ex.ª Porto, l de novembro de 1865. — III.m0 e exmo sr. Joaquim Henriques Fradesso da Silveira .= Eugenio Ferreira Pinto Basto

Fábrica de Lanifícios de Lordelo

Na Resposta n.º 108 ao Inquérito Industrial tendo em vista a Exposição Internacional do Porto em 1865, descreve-se a história da fábrica. A “Fábrica de Panos”, foi fundada em 1805 por Plácido Lino dos Santos Teixeira que “...fez construir este edificio, sendo os altos destinados para sua habitação, e os baixos para o fabrico de lanificios, o que levou a effeito, funccionando a fabrica regularmente até que, sobrevindo o assedio de 1832, foi o edificio occupado militarmente pelas tropas do Imperador, e consequentemente a fabrica deixou de trabalhar. O prédio ficou desmantelado e assim se conservou até 1852, tempo em que foi alugado por Francisco Garcia a José Joaquim Fer­nandes de Sousa, genro do proprietario, já então fallecido, Francisco Garcia associou-se, e esta sociedade, sob a firma de Garcia & Barbedo, tratou da reparação do edificio, e fazendo a acquisição de algumas machinas, começou a fabricar lanifícios, porém em limitada escala. Em 1853 dissolveu-se aquella par­ceria, e passou a fabrica a diversos indivíduos, que formaram uma sociedade anonyma, sob o titulo de «Companhia de lani­fícios de Lordello” a qual subsiste actualmente. ”

Na mesma  Resposta n.º 108 afirma-se, que a energia é “Vapor, França 35 cavallos em 1855 ; hydraulico, nacional (de 4 a 30 cavallos) em 1857” que a matéria prima é a Lã, do “…paiz, de Hespanha, da Austrália, etc.”, que a fábrica empregava em 31 de Dezembro de 1864 um total de 263 sendo 134 homens, 90 mulheres e 39 menores.

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Fotografia posterior da Fábrica de Lordelo

Visita à Serra do Pilar

“Eram 40 horas da manhã quando chegaram a esta fortaleza, onde entraram pelas portas denominadas da Eira, sendo recebidos pelo digno governador. O Imperador dirigiu-se immediatamente ao sitio onde existem as ruinas do convento, chamado da Serra, e que serviu de alvo á artilheria inimiga no memorável cerco do Porto. Demorou-se aqui um quarto de hora, examinando tudo attentamente.

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James Holland (ca.1799-1870) Vista do Porto tirada do convento da Serra do Pilar 1838 Óleo sobre tela 38 x 53,4 cm. col. particular

Dirigiu-se depois para a bateria da Gloria, (Também existe a Bateria da Glória em Paranhos) demorando-se egual espaço de tempo na contemplação da magnifica perspectiva que a cidade offerece, vista d'aquelle ponto, e logo sahiu pelas portas da Calçada para o Porto, caminhando a pé até perto da ponte pênsil, onde entrou para a carruagem descoberta que o havia conduzido ás portas da Eira.

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Ponte Pênsil do Porto. Suspension Bridge. Oporto  Desenho do Barão de Forrester, destinado a ilustrar, com outros, a litografia do seu mapa O Douro portuguez e Paiz adjacente, estampado em 1860

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Panorama do Porto e ViIa Nova, ponte pênsil sobre o Douro, Nogueira da Silva/Coelho «Archivo Pittoresco», 7, 1864

“O digno governador acompanhou o monarcha em toda a sua curta visita a esta fortaleza, assignalada pela sua heróica defensão.

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Moreira, Francisco Pedro de Arbués, (1777-1843) Carta topographica das Linhas do Porto levantada pelo coronel Moreira ; novamente lythographada e augmentada por A. C. Lemos (1833-1843); litografia, p&b ; 29,50x42,80 cm, em folha de 39,00x48,40 cm. Escala [ca 1:25400], Palmo por légua de 2540 Braças [portuguesas] = [8,6 cm] Lith. de A. C. Lemos, Lisboa[1835?] O mapa apresenta linhas ponteadas identificando as posições militares, assim como, a localização de baterias e fortes e a indicação de datas de confrontos militares

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Detalhe da planta com a marcação dos combates de 14 de Outubro junto ao Convento da Serra do Pilar

Na tarde de 14 de Outubro de 1932 as tropas de D. Miguel, depois de um intenso fogo de artilharia, iniciado no dia anterior, atacaram as tropas liberais, uma pela Eira, outra pelo centro e a terceira pelo caminho da Calçada.  Os combates prolongaram-se por três horas, e as tropas de D. Miguel perante a heróica resistência das tropas liberais, onde havia muito gaienses, começaram então, a retirada. D. Pedro IV, para homenagear os defensores deste posto fundamental para a defesa do Porto, chamou-lhes “polacos” comparando-os aos que defenderam a Polónia das tropas russas, prussianas e austríacas.

Visita á Escola Medico-Cirurgica, Instituto Industrial, etc.

Regressando á cidade visitou o Imperador o hospital de Sancto António, e a eschola medico-cirurgica, assistindo por essa occasião á prelecção do sr. José Fructuoso Ayres de Gouveia, lente do quinto anno, em cuja aula se demorou algum tempo.

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O Hospital de Santo António onde há data estava instalada a Escola  «O Occidente», 1 de Novembro de 1884, p. 245 «Segundo uma photographia»

Quando Sua Majestade entrou, o sr. Ayres de Gouveia interrompeu a sua prelecção, levantou-se e disse —que nos annaes da Escola Medico-Cirurgica do Porto, na memoria dos alumnos presentes e particularmente na delle professor, ficaria para sempre gravada a lembrança da visita do augusto monarcha do Brasil. Depois d'esta manifestação, pediu o sr. Ayres de Gouveia licença para continuar a sua prelecção, o que fez fallando da historia da medicina legal e do seu exercício em Inglaterra, França, Prússia e Portugal.

Em 1836 são criadas as Escolas Régias Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto que, à margem da Universidade de Coimbra, irão dar um decisivo contributo para a unificação e afirmação da profissão médica. De facto, é destas duas escolas que irá sair a elite médica portuguesa da segunda metade do Século XIX como Sousa Martins, Ricardo Jorge, Câmara Pestana, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Alfredo da Silva, Magalhães Coutinho, Ferraz de Macedo, e Carlos França.  Júlio Dinis (1839-1871), também ele formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, publica em 1866 em folhetins, no Jornal do Porto, “As Pupilas do Senhor Reitor”  criando a personagem de João Semana, o médico dos pobres também formado como o autor pela Escola Médico Cirúrgica e o reitor aconselha José das Dornas a enviar Daniel para a Escola Médico-Cirúrgica do Porto:

— Para Coimbra?... Eu sei?... Homem, a falar a verdade, semente desta em Coimbra, é para dar uns frutos por aí além. Para o Porto, onde ele possa estar sob as vistas dos parentes que lá tens, vai muito melhor. Põe-mo a cirurgião. Eles, hoje, dizem que saem de lá como de Coimbra, e olha que é uma boa carreira. O nosso João Semana está velho e, morrendo ele, não temos por aqui mais ninguém. Mas é preciso tratar já disso. Impõe-me o rapaz daqui para fora, se queres fazer dele alguma coisa de jeito.” Júlio Dinis - As pupilas do senhor Reitor.1866

A Régia Escola de Cirurgia do Porto foi criada em 1825 e instalada, no Hospital de S. António onde se mantém  em 1836 quando com a Reforma de Passos Manuel passa a Escola Médico Cirúrgica.  Só irá instalar-se no edifício do Carmo em 1883.

José Frutuoso Aires de Gouveia Osório (1827 -1887) formado em Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra e  Edimburgo (1853) médico no Hospital de Santo António, lente da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e redactor da Gazeta Médica e Saúde Pública. Pertenceu à direcção da Sociedade do Palácio de Cristal. Em 1886 e 1887 foi Presidente da Câmara Municipal do Porto, sucedendo a José Augusto Correia de Barros (1835-?).(Sobre Correia de Barros ver neste Blogue Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 2)

Numa carta-circular da Escola Medico-Cirúrgica de 1879, criando uma subscrição, ao fundo da página 2 aparece a assinatura de Aires Gouveia.

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Escola Medico-Cirurgica do Porto, correspondente. [Carta], 1879 Dez. 6, Porto, [a Júlio Henriques], Coimbra [manuscrito] / Manoel Maria da Costa Leite.1879.Biblioteca Digital de Botânica Universidade de Coimbra.

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O timbre da Escola e a assinatura do Dr. José Frutuoso de Ayres de G. Osório

“Sua Majestade demorou-se cerca de um quarto de hora a ouvir o distincto professor. Visitou mais o Instituto Industrial, mercado do Bolhão, fabrica da companhia Fiação portuense, e outros estabelecimentos, até que emfim se dirigiu a casa do sr. Forbes, rogando-o para o acompanhar na visita queria fazer ao sr. Camillo Castello Branco. Com effeito sahiram ambos, com o sr. barão de Itaúna, no mesmo trem, demandando a habitação do illustre escriptor.”

Visitou mais o Instituto Industrial, mercado do Bolhão, …

Com a criação em 1852 do ensino industrial em Portugal, por ordem do Ministro das Obras Públicas Comércio e Indústria, Fontes Pereira de Melo, passou a existir no Porto a denominada Escola Industrial. Em 1864, nas vésperas da Exposição Internacional,  com João Chrysostomo de Abreu e Sousa (1811-1895) passa a denominar-se Instituto Industrial do Porto. O ensino teórico processava-se na Academia onde estava instalado  e o prático em fábricas particulares ou do Estado. 

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Academia Polytechnica do Porto, B. Lima / C. J. — P. “Archivo Pittoresco», 9, 1886

O Director do Instituto Industrial era o engenheiro Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa (1818-1899), personalidade de fulcral importância no Porto na segunda metade do século XIX, e de que vemos a assinatura numa carta de 1880, como director do Instituto.

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[Carta], 1880 Jan. 7, Porto, a Júlio Henriques, Coimbra [manuscrito] / Gustavo Adolfo Gonçalves e Souza. - 1880. - [2] f. ; 28 x 42 cm dob. em 28 x 21 cm.
Papel timbrado de: Instituto Industrial do Porto. Biblioteca Digital de Botânica Universidade de Coimbra.

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O timbre do Instituto e a assinatura do Director Gustavo Adolfo Gonçalves e Souza.

…fabrica da companhia Fiação portuense, e outros estabelecimentos,…

Os Estatutos da Companhia de Fiação Portuense, no Bonfim, foram publicados no Diário de Lisboa, Lisboa, n.º 252, de 7 de Novembro de 1863.

“… aquela fábrica, criada pelos esforços dos industriais, é um novo elemento de força e de vida para a indústria portuense” O Comércio do Porto, Porto, n.º 53, de 11 de Julho de 1864.

A fábrica possuía uma “… máquina [de vapor] (é) da força de 40 cavalos. Esta máquina move 3 batedores, 16 engenhos de cardar, 9 de engrossar, 4 carruagens com 620 fusos cada, 8 serrilhas para as carruagens, 9 contínuos, 1 engenho de dobar, 1 dito de imassar, 6 serrilhas para os contínuos, 1 engenho para esmerilhar em carda, e 1 dito para polir os rolos. A fábrica poderá fiar diariamente 150 maços de algodão ou 688 quilogramas”.

A “Companhia Fiação Portuense”, estava em 1863 instalada em duas construções: “uma, apalaçada, à frente da rua, e onde estão os escriptórios, armazéns, etc.; outra, ao fundo de um campo ajardinado, e que é a fábrica propriamente dita.” (in Inquérito Industrial de 1881, Relatório apresentado Exc.mo Snr Governador Civil do Districto do Porto… pela Sub-Comissão encarregada das visitas aos estabelecimentos industriaes, Porto, Typ. de  António José da Silva Teixeira)

…até que emfim se dirigiu a casa do sr. Forbes, rogando-o para o acompanhar na visita que ia fazer ao sr. Camillo Castello Branco. Com effeito sahiram ambos, com o sr. barão de Itaúna, no mesmo trem, demandando a habitação do illustre escriptor.

Visita ao sr. Camillo Castello Branco

O imperador do Brasil visita Camilo Castelo Branco (1825-1890)no seu escritório no Porto na Rua do Bonjardim.

dia34 

Camilo Castelo Branco em 1861

“Este encontro figurava de certo entre os primeiros cuidados do esclarecido viajante na sua visita à segunda cidade do reino, pois que duas horas depois de chegar o sr. dr. Forbes procurava o primeiro romancista portuguez, para lhe communicar que o monarcha desejava receber a sua visita no hotel do Louvre, onde o ficava esperando. O sr. Camillo Castello Branco, porém, não podia annuir a este convite em consequência do seu mau estado de saúde, com o qual se escusou. Ás cinco horas da tarde o sr. dr. Forbes renovou o convite, e o distincto escriptor egualmente se desculpava com os seus incommodos. Emfim no dia seguinte pela manhã repetiu-se a honrosa insistência do monarcha brasileiro, que d'esta vez lhe pedia juntamente licença para o procurar em sua casa, se lhe não fosse possível ir ao hotel. A resposta foi que a sua casa era bastante pobre para receber Sua Majestade, mas tal como era estava ás suas ordens. Eram pois duas horas da tarde, quando o Imperador e os seus dois companheiros chegaram a casa do sr. Camillo Castello Branco, o qual o veiu receber á porta da rua, merecendo por isso a censura que em palavras cordiaes o soberano lhe dirigiu em razão do seu mau estado de saúde.

Apenas entraram o sr. Camillo Castello Branco apresentou ao Imperador o sr. Guilherme Braga (1845-1874), poeta portuense, a quem Sua Majestade tractou com extrema jovialidade, mandando-o sentar próximo de si, e não consentindo que no acto da apresentação lhe beijassem a mão. Tornou-se assumpto de conversação a analyse de uns quadros, que o sr. Camillo Castello Branco tinha na sala, mostrando o soberano vastos conhecimentos sobre pintura. Por esta occasião o illustre romancista offereceu ao seu hospede um quadro com os retratos dos vinte e um primeiros reis portuguezes, que passa por ter sido pintado ainda no reinado de D. João IV. O senhor D. Pedro agradeceu, comprazendo-se de possuir uma lembrança de Camillo Castello Branco. Successívamente fallaram da litteratura tanto portugueza como brasileira, matéria sobre que o monarcha discursou largamente com perfeito conhecimento de causa; dos livros do sr. Camillo Castello Branco, que conhecia perfeitamente; e emfim dos fallecidos e chorados escriptores Gonçalves Dias (1823-1864) e Júlio Diniz (1839-1871), o primeiro distinctissimo poeta brasileiro, e o segundo romancista portuense, cujo nome verdadeiro era Joaquim Guilherme Gomes Coelho. A conversação por ultimo versou sobre assumptos de architectura, proporcionando ao nosso illustre romancista ensejo para dirigir ao seu nobre interlocutor um espirituoso e amável comprimento. Disse-lhe que, não obstante vir do extrangeiro, onde teria admirado a famosa cathedral de Londres e outras maravilhas de architectura, havia de ver com satisfação o edifício da Batalha, onde se acharia entre os seus, no meio de túmulos de avós; ao que o monarcha respondeu: «Eu costumo sempre separar o artista do homem.» Nesta aprazivel palestra se passaram perto de três quartos de hora, findos os quais o monarcha se retirou, apertando a mão aos srs. Camillo Castello Branco e Guilherme Braga, e deixando as melhores impressões não só de illustração, como do seu modo jovial e descerimonioso. O Imperador encarregou depois o sr. dr. Forbes de comprar e enviar-lhe todas as obras do sr. Camillo Castello Branco, bem como «Os Fidalgos da Casa Mourisca» do fallecido Gomes Coelho. Alem das pessoas já referidas, teve também a visita ao sr. Camillo por testemunha o sr. José de Azevedo Castello Branco, sobrinho do illustre escriptor e estudante na universidade.

Visita à chapelaria do sr. Costa Braga

“Pelas três horas da tarde o Imperador, acompanhado do ex."" barão de Itaúna e dr. Forbes, visitou esta chapelaria a vapor, estabelecida na rua de Santo António.

O sr. Costa Braga e seus filhos receberam o imperial visitante com as maiores demonstrações de gratidão e respeito, e muito mais penhorados ficaram pela nimia delicadeza de Sua Majestade em querer conhecer pessoalmente a esposa do sr. Costa Braga, a qual, sendo-lhe apresentada, houve por bem Sua Majestade inquirir sobre a sua naturalidade, vindo a saber que é natural do Rio de Janeiro, e baptizada na freguezia de Santa Rita. Em seguida visitou as officinas dos propiagistas e costureiras, dos fulistas (onde pediu para ver moldar um chapéu), do salão dos arcos mecânicos, e das machinas de Soufleuse e de afinar. Sua Majestade fez varias perguntas aos operários com aquella extrema delicadeza e bondade inimitável que nelle é proverbial. Depois passou ao salão, luxuosamente preparado, onde o sr. Costa Braga lhe mostrou os diversos productos manufacturados, que Sua Majestade minuciosamente examinou. Nesta occasião o sr. Costa Braga sollicitou a graça de consentir que neste estabelecimento se manufacturassem dois chapéus, um de seda e outro de feltro, para o uso de Sua Majestade, obtendo d'este não só o consentimento, mas a declaração que já tinha em vista a encommenda dos mesmos como uma memoria do grande aperfeiçoamento que notava neste estabelecimento, recommendando-lhe que a remessa d'elles fosse para o hotel Bragança, em Lisboa, até ao dia11 . Egual encommenda fez o sr. barão de Itaúna.

Aqui Sua Majestade entreteve demorada conversação com o sr. Costa Braga, interrogando-o sobre differentes pontos. Perguntou-lhe o tempo da sua estada no Brasil, ao que respondeu ter sido de vinte e quatro annos, adquirindo crenças gratas e saudosas d'aquella terra, onde occupara a maior parte do tempo na industria de chapelaria. Perguntou mais qual a sua opinião sobre a industria de chapelaria naquelle império, ao que s. s.ª respondeu que a julgava tão desenvolvida e aperfeiçoada que podia disputar primazia com a industria franceza. Quiz também Sua Majestade saber se a exportação dos seus productos para o Brasil se fazia em alta escala, ao que o sr. Costa Braga declarou ser pouca, em vista dos elevados direitos que obstavam á protecção d'esta industria. Ultimamente o sr. Costa Braga significou a Sua Majestade a ufania e prazer de alli ter alcançado muitas glorias industriaes, pois que fora o primeiro introductor do vapor na chapelaria no anno de 1863, concedendo-lhe Sua Majestade o titulo de imperial fabrica de chapéus, data e acontecimento este que Sua Majestade confirmou ter ainda bem presente na memoria. Esta honrosa visita durou perto de uma hora, durante a qual tocou uma banda de musica marcial o hymno brasileiro: ao retirar-se Sua Majestade, se levantaram calorosos e enthusiasticos vivas, tanto por parte dos operários do estabelecimento como do immenso povo que presenceou esta honrosa visita. O sr. Costa Braga, querendo solemnisar mais a visita de Sua Majestade, não só gratificou os operários e os dispensou do resto dos trabalhos nesse dia como convidou o publico, pelos jornaes da cidade, a visitar e examinar tão importante estabelecimento, sendo amplamente satisfeitos os seus desejos com a grande concorrência dos visitantes.

Real Chapelaria a Vapor  sociedade Costa Braga 1866

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A firma Costa Braga & Filhos, Lda. foi fundada em 1866 na Rua Firmeza, no Porto, no edifício hoje ocupado pela Escola de Artes e Ofícios Soares dos Reis. A fábrica então denominada “Real e Imperial Chapelaria a Vapor de Costa Braga & Filhos”, só mais tarde conjugando loja e fabrico se instalou na Rua 31 de Janeiro. Quatro vezes ao ano publicava um catálogo, em forma de revista – “A Moda”, definida pelo Diário Popular – Lisboa, a propósito do número 5 de A Moda, em 1884, como sendo “uma publicação trimensal, elegante, distincta, que sob bella forma nos dá, com algum artigo interessante àcerca das relações do estado com a indústria nacional, uma estampa de figurinos em phototipa”.

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Revista A Moda de 1884

Visita ao Palácio de Crystal

Próximo das quatro horas chegaram Suas Majestades ao soberbo palácio da industria, onde eram esperados por toda a direcção, de que é presidente o sr. Visconde de Villar Allen, (Alfredo Villar de  Allen 2828-1907) um dos iniciadores da exposição internacional de 1865, a que deve a sua origem o Palácio de Crystal. Mais de duas mil pessoas alli se achavam também, entre ellas o sr. ministro dos negócios estrangeiros Andrade Corvo, (João de Andrade Corvo 1824-1890), governador civil (Bento de Freitas Soares) e outras auctoridades.

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As galerias da nave central eram occupadas por muitas senhoras; e quando Suas Majestades entraram, o sr. Roberto Woodhouse, (Roberto Guilherme Woodhouse Barreto de Lencastre, 1828-1876 ) distinctissimo amador de musica, tocou uma marcha triumphal de Mendelssohn no grande e harmonioso órgão, que serviu na exposição, da qual o Imperador fallou. Percorrendo os bazares, perguntou se aquelle estabelecimento era permanente. Disse ao sr. visconde de Villar Allen, respeitável presidente da Direcção, que tinha ouvido que a sociedade luctava com dificuldades, o que aquelle cavalheiro confirmou, accrescentando que isso fora devido principalmente á expoliação feita por um ministro em dictadura. Visitaram também os magníficos jardins; e a sua vastidão, assim como a dos terrenos annexos, impressionaram o Imperador, a ponto de perguntar se todo aquelle espaço pertencia á sociedade.

O Palácio de Cristal

Construído para a Exposição Internacional do Porto realizada em 1865 e projectado por Thomas Dillen Jones e W. Shields (tendo ainda trabalhado nas suas obras de construção o eng. Gustavo Gonçalves de Sousa), o Palácio de Cristal, é propriedade da Associação Industrial Portuense, criada em 1852. Construído em ferro e vidro, com influências do Chrystal Palace de Londres de John Praxton, tem três naves e três pisos: cave, rez do chão e um piso.  Está integrado num amplo jardim da autoria de Émile David, onde estão colocadas duas fontes, um lago, um chalet, um circo, e diversos equipamentos de jardim. O teatro Gil Vicente data de 1868. Na fachada principal inscrevia-se a legenda PROGREDIOR, de acordo com as ambições dos seus fundadores.

Em 1864, quando o Palácio estava ainda em construção escrevia Francisco Ferreira Barbosa:

“A edificação e existência do Palácio de Crystal marca no século dezenove uma era de gloria para o Porto, e uma página dourada no livro da vida d'aquelles, que tanto se empenharam em levar á execução tão grandioso pensamento; é este um dos monumentos, que ennobrece os portuenses, porque em cada pedra, que o sustenta, existe um documento de zelo e dedicação, não só para os que tomaram a seu cargo a construcção d'este edifício, como também para os que de bom grado concorreram com as suas forças monetárias para a realização d'esta ideia grandiosa: merecem honrosa e especial menção os ex.mos srs. visconde de Pereira Machado, visconde de Lagoaça, Alferedo Allen e Francisco Pinto Bessa, pelo incansável zelo, e grandes serviços, que têm prestado. A descripção minuciosa, que em seguida apresentámos, dará uma ideia ao visitante da magnificência e capacidade d'este edifício. Lançou a pedra fundamental nos alicerces do palácio el-rei o Senhor D. Pedro V, de gloriosa memória, no dia 3 de setembro de 1861; e no dia 2 de agosto de 1862 é que se deu começo aos trabalhos da edificação, e do movimento de terras para as obras do parque e jardins. Fez o risco do palácio o architecto inglez, o sr. F. W. Shields, residente em Londres, e a direcção da obra foi encarregada aos srs. Gustavo Adolpho Gonçalves e Sousa, e Pedro de Oliveira, ingenheiros.  O desenho dos jardins e parques foi commettido ao sr. Emílio David, allemão, architecto païzagista. O palácio de crystal é construído de granito, da melhor qualidade, que se encontra no Porto, e de ferro. A obra de pedra está concluída, e a de ferro dentro de dois mezes. Fica o palácio, com os jardins e parque, em uma posição elevadíssima acima da superfície do mar, d'onde se goza. Em 30 de agosto de 1861 instalou-se a sociedade para a fundação d'este palácio.” (Francisco Ferreira Barbosa ELUCIDARIO do VIAJANTE NO PORTO, Coimbra, 1864)

E Camilo Castelo Branco, mesmo preso na Relação, escrevia jocosamente sobre o “circo-bazar-teatro-restaurante-ginástico-pirotécnico, chamado em linguagem enxacoca Palácio de Cristal” aquando da sua construção, no jornal  “Revolução de Setembro”:

Um Palácio de Cristal no Porto já não é mera utopia de cristalinas imaginações. O dinheiro é a alavanca de Arquimedes […]. Dai-me dinheiro e eu cristalizarei a Cidade Eterna. É que o Porto está riquíssimo. Os capitais não sabem já onde hão-de frutificar cinco por cento. E os capitalistas começam a descrer de Cristo e da sua palavra, porque este dissera: «dar-vos-ei cento por um» e as coisas correm de modo que daqui a pouco será muito feliz quem tirar um por cento. O que eu não sei é se Jesus fez esta promessa a uns cavalheiros que ele encontrou uma vez dentro do templo."

Também Alberto Pimentel quatro anos depois da visita de D. pedro II, escrevia:

“Palácio de Crystal - Pela sua deliciosa posição, pela grande amenidade dos seus bosques e jardins, e ainda para muitas pessoas pêlos seus theatros, bilhares e demais diversões, o Palácio de Crystal, sendo durante a semana muito pouco frequentado, - ó assombro! - é todavia o encanto e admiração de todas as pessoas de mais fino gosto que visitam o Porto. O domingo é o dia habitualmente destinado ao Palácio de Crystal, porque n'esse dia é costume haver musica de tarde e queimarem-se fogos de artificio á noite. Mas, por Deus, que n'esse dia o Palácio de Crystal, petulante de garridice domingueira, involto em turbilhões de gente e pó, é simplesmente um passeio como qualquer outro, sem as suas grutas remançosas, sem as suas sombras cheias de silencio e mysterio, sem a tranquilla doçura das suas arvores e das suas ruas. Verdade é que, se grande numero de pessoas começasse a frequental-o á semana, o Palácio de Crystal perderia essa deleitosa serenidade que para nós é o seu maior encanto, e atravessaria uma ininterrompida serie de domingos, quer dizer, de dias em que a concorrência é tamanha, que chega a molestar-se. Ha males que vem por bens. Continue a população portuense a procurar o Palacio de Crystal ao domingo para ouvir musica e ver queimar fogos d'artificio, e deixe-o em paz durante a semana, como sempre tem feito, para que o visitem as pessoas mais namoradas da paizagem que dos effeitos acústicos e pyrotechnicos.” (Alberto Pimentel - Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, de 1876)

“Assim terminou a sua visita ao primeiro estabelecimento portuense, visita apressada, porque o tempo de que os monarchas dispunham era pouco e estava muito repartido.

Visita á Foz

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Francisco Rocchini (?) – A Foz no Porto 1849-1873 papel albuminado, p&b ; : 27,9 x 40,3 cm. Album pittoresco e artistico de Portugal.  colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil)dia7 

S. João da Foz, B. Lima / Leote — P., “Archivo Pittoresco”, 8, 1865

dia77

F. Folque - Plano Hydrographico da Barra do Douro

Depois das quatro horas e meia visitaram a Foz. O digno governador do castello, o sr. major Joaquim Lazaro Franco, recebeu-os na esplanada. Começaram-se a fazer as honras e continências devidas, mas o Imperador dispensou-as, não chegando por isso a disparar-se mais que um tiro. Subindo a rampa, estanciaram nas muralhas; e Sua Magestade o Imperador, acompanhado do sr. governador, subiu ao baluarte, que domina a barra, examinando tudo, perguntando os nomes dos penedos mais notáveis, nomeando logo á primeira vista o pharol da Luz e a abrigada de Leixões.

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Joaquim Cardoso Villanova (?) Farol de N.ª Sr.ª da Luz 1833?

Farol e Esta%C3%A7%C3%A3o Semaf%C3%B3rica e Telegrafica do Monte da Luz

Farol e estação Semaphotica e Telegraphica do Monte da Luz

Conversou com o maior agrado com o governador, de quem quiz saber o nome e o corpo em que tinha servido. Fez-lhe muitas mais perguntas, e depois, dando o braço á Imperatriz, entraram nos aposentos do sr. governador, onde viram collocados os seus retratos em meio corpo; examinaram por duas vezes um álbum em que aquelle senhor tem os retratos dos generaes brasileiros e mais officiaes do exercito e armada que se distinguiram na guerra do Paraguay, e, sabendo que taes brindes eram enviados pelo filho do governador, que é o I.° secretario do Gabinete Portuguez de Leitura no Rio de Janeiro, disse Sua Majestade que muito bem o conhecia. O Imperador notou que faltavam no album os retratos de dois militares distinctos por importantes serviços, mostrando assim que não perde lembrança daquelles que a merecem por seus feitos em defesa da pátria. Sentiu que os retratos dos generaes Mena Barreto (1817-1879) e Fontes não estivessem vestidos á militar. Examinou os quatro tomos da Historia da guerra do Brasil contra as republicas do Uruguay e Paraguay, publicada em 1871 no Rio de Janeiro. Viu egualmente, o que muito o lisongeou, as condecorações creadas e concedidas ao exercito e armada como recompensa da ultima campanha. Sua Majestade a Imperatriz cortou dois raminhos de um florido alecrim, que está no terrado do Castello, e deu um à dama que a acompanhava, guardando o outro no seio, como recordação d'aquelle sitio. Sabendo, pelo decurso da conversação, que o digno governador era soldado de D. Pedro IV, que com elle tinha saltado nas praias do Mindello, desejou ser informado minuciosamente de todas as circumstancias do desembarque, fazendo muitas perguntas a este respeito, taes como os primeiros corpos que desembarcaram, se o dia estava lindo e o mar bom. O sr. Lazaro Franco teve então ensejo de o informar de que só elle o acompanhara no baluarte mais saliente, do qual foi mostrar ao soberano brasileiro os pontos das fortificações dos dois exércitos contrários, descrevendo-lhe o modo como se faziam os desembarques de mantimentos, e relatando os ataques dados á Foz, sua defesa e muitas outras peripécias da memorável campanha naquelle sitio.

Assim terminou a visita a esta fortaleza, depois da qual visitou ainda o Imperador outros logares, como foi a quinta do sr. Christovão Wanzeler, em Ramalde, ponto assignalado em todo o cerco, e com especialidade no ataque ás linhas em 25 de julho de 1833.

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Moreira, Francisco Pedro de Arbués, (1777-1843) Carta topographica das Linhas do Porto levantada pelo coronel Moreira

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Detalhe da Carta, com a Quinta e o Reduto do Vanzeler, e a linha de 25 de Julho de 1833

O Imperador viu também o caminho de ferro americano, observando-o de cima da ponte, que dá entrada para o castello, e por baixo da qual o caminho passa.  Nessa occasião estava ainda por abrir ao transito publico, mas hoje transporta diariamente de 700 a 800 passageiros entre o Porto, Foz, Leça e Matosinhos.

Em 1876 escrevia Ramalho Ortigão: “O serviço dos caminhos de ferro americanos, explorado com talento, converterá em pouco tempo a Foz num bairro do Porto”.

Na volta o Imperador passou pela nova alfandega, e recolheu ao hotel, seguindo-se o jantar, como sempre breve, e limitado ás pessoas da comitiva.

Recepção

Era infatigável o Imperador. Acabando de jantar passou a receber as pessoas e commissões que pretendiam apresentar-se-lhe. Os srs. Agostinho Francisco Velho (amigo de Manuel Pinheiro Alves casado com Ana Plácido, e quando rebentou o escândalo em casa de quem inicialmente se acolheu  Ana Plácido antes de ir viver com Camilo, na Rua de Cedofeita) cónego António Alves Mendes da Silva Ribeiro (António Alves Mendes da Silva Ribeiro, 1838-1904) e Manuel de Sousa, mesarios da irmandade de Nossa Senhora da Lapa, apresentaram a Suas Majestades as patentes de irmãos, que os monarchas gostosamente acceitaram. Entre muitas pessoas de distincção concorreram os srs. visconde de Figueiredo (Francisco de Figueiredo, primeiro e único visconde e conde de Figueiredo  1843 - 1917) e conde de Samodães (Francisco Teixeira de Aguilar de Azeredo, 2.º visconde e 2.º conde de 18128-1918 foi Presidente da Câmara e Governador Civil do Porto) ao qual Sua Majestade disse que tinha notado que em Portugal havia gosto pelas bellas artes. Especial acolhimento leve a deputação dos velhos e valorosos restos dos extinctos batalhões de caçadores 5, e voluntários da rainha, pelos quaes Sua Majestade havia perguntado em Coimbra ao sr. governador militar d'aquella cidade. O sr. Bernardino Prati, sargento do batalhão de caçadores 5, leu, no meio dos seus camaradas, a seguinte Felicitação dos soldados do antigo batalhão de caçadores 5. Tenho a honra de apresentar a Vossa Majestade Imperial os poucos dos velhos soldados, que ainda existem, do batalhão de caçadores n." 5, de que foi digno coronel o inclyto general, augusto pae de Vossa Magestade Imperial. Vêm elles com a maior satisfação e alegria felicitar Suas Magestades Imperiaes, e dar-lhes as boas vindas pela feliz chegada a esta heróica cidade do Porto, baluarte das liberdades. Sào estes os fieis soldados, que o augusto pae de Vossa Majestade chamava para o seu lado como os mais esforçados guerreiros nos maiores e mais arriscados e ardentes combates do memorável cerco do Porto. Nós, Senhor, devemos ao heroe libertador mais vivo reconhecimento de amizade do que os outros cidadãos, porque não quiz Sua Majestade apartar-se do mundo sem que fosse á sua presença, na hora fatal, um dos seus soldados, para lhe legar o ultimo adeus, o ultimo abraço, dizendo-lhe: transmitte-o a todos os teus camaradas; é um signal de gratidão pelos relevantes serviços, que comigo prestastes á liberdade e restabelecimento do throno excelso de minha augusta filha, a senhora D. Maria II:» abraço que nós recebemos e alimentamos em o mais durável sentimento de gratidão. Fomos nós que o conduzimos á ultima morada, pegando ás borlas do real féretro, e mais tarde os que fizemos a guarda de honra para a entrega do magnânimo coração e sua espada, que Sua Majestade legara aos briosos portuenses. Levamos ao illustrado conhecimento de Vossa Majestade os honrosos serviços que acima deixamos ditos, para mostrar que, ainda por largos annos, até baixar á campa, e mesmo desconsiderados pela representação nacional, nunca esqueceremos a memoria do angusto pae de Vossa Majestade, nosso general, camarada e amigo, fazendo votos pela prosperidade do seu excelso filho, o senhor D. Pedro II, herdeiro de suas muitas virtudes. O Imperador não podia conter a satisfação que lhe causava a presença dos bravos soldados que haviam combatido ao lado de seu augusto pai. Apertou a mão ao sr. Prati, e o mesmo fez a todos os demais voluntários. Perguntou ao sr. Prati quantos existiam ainda do batalhão de seu pae: o sr. Prati respondeu que na campanha do cerco do Porto tinham encontrado a morte a maior parte d'elles, e presentemente existiam apenas dez ou doze. Perguntou em que se empregavam : o sr. Prati respondeu que eram artistas.

Terminada a recepção, Sua Majestade a Imperatriz, que também tinha tractado do modo mais notavel aquellas reliquias do exercito constitucional, disse que queria despedir-se dos caçadores, e era seguida comprimentou -os a todos bem como aos voluntários da rainha. Por esta occasião disse-lhe o sr. Prati que era um dos que tinham tomado as borlas do caixão do duque de Bragança: Sua Majestade perguntou-lhe o nome e mostrou a sua satisfação por saber que o sr. Prati era de origem italiana. Ainda tiveram a honra de fallar ao monarcha o sr. Miguel Angelo, uma commissão de cavalheiros, que lhe foi apresentar a medalha feita pelo sr. Molarinho, o sr. António Cândido Correia de Resende Lobo, alem de outras. Algumas d'estas pessoas fizeram offertas, de que fallaremos em capitulo especial.

Desejando ver as illuminações percorreram em carro descoberto a calçada dos Clérigos, praça de D. Pedro, Feira de S. Bento, ruas das Flores e S. João até á ponte pênsil, indo apear-se ao Theatro de S. João, quando já passava das oito horas, e sendo constantemente victoriados pela multidão.

Theatro de S. João

Á entrada do theatro passaram por entre as alas dos porta-machados de infanteria 18, que lhes fizeram a continência militar, e foram recebidos pelo sr. António da Fonseca Paschoal, empresário da companhia lyrica, e Romão António Martins, director da scena, subindo pela escada particular para o camarote n.° 11 da 2.* ordem, contíguo á tribuna real ; nos dois immediatos ficou a comitiva.

dia41 

Theatro de S. João no Porto, Nogueira da Silva / Pedrozo, “Archivo Pittoresco”, 7, 1 864

Apenas entraram tocou-se o hymno brasileiro, conservando-se de pé os espectadores e os imperiaes hospedes. Alguns espectadores pediram o hymno da Carta Constitucional, que também foi escutado de pé, e mereceu egualmente enthusiasticos applausos. Nesta occasião o sr. commendador Miranda levantou na plateia um viva aos soberanos, que foi calorosamente correspondido.

No fim do 1." acto o sr. António Pinheiro Caldas (1850-1903), poeta distincto, recitou de um camarote uma composição poética, que foi repetida e mereceu muitos applausos.

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Fotografia, assinatura e capa do livro Poesias de António Pinheiro Caldas, 1864

Depois d'isto a orchestra desempenhou um hymno, composto e oíferecido pelo sr. Eduardo Vianna aos portuguezes residentes no Brasil, o qual foi chamado ao proscénio, onde lhe foi dado um ramo de flores por entre applausos. Seguiu-se a execução, pela banda do regimento de infanteria 18, de uma marcha offerecida ao Imperador pelo maestro da companhia lyrica, o sr. Cazzulino. No intervallo do 2.º acto o sr. Carvalho, estudante brasileiro, pronunciou de um camarote um discurso em honra dos Imperadores. O espectáculo terminou pela repetição do hymno brasileiro, retirando-se os monarchas, acompanhados pelo empresário, camara municipal e mais auctoridades, que também assistiram ao espectáculo. Era meia noite quando se recolheram ao hotel. A ex.ª  sr.ª D. Maria do Carmo Rodrigues Forbes  (Maria do Carmo Calazans Rodrigues (1816-1901)  casou com António Ribeiro Fernandes Forbes. Mandou edificar o palacete, depois Braguinha, onde se encontra a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto) visitou a Suas Majestades no camarote.

iluminações e mais festejos nocturnos

Á noite a cidade offerecia aspecto deslumbrante: illuminara-se quasi simultaneamente. O pavilhão da praça da Ribeira e postes que a rodeavam foram illuminados com balões venezianos; surprehendia o seu effeito. A rua de S. João estava completamente illuminada; nem uma só janella estava sem laminarias. Na dos Inglezes distinguiam-se duas estrellas de gaz. O pavilhão do largo de S. Domingos, foi illuminado a ballões de cores. O arco da rua das Flores, um dos mais notáveis pela elegância da architectura e mimo das pinturas, illuminado a azeite, produzia comtudo excellente effeito, principalmente na parte superior. Concorriam com elle para tornar esta rua brilhante os prédios que se illuminaram sem excepção. O Pavilhão do largo de S. Bento era illuminado a balões, e tambem tinham luzes as janellas do convento. A rua de Santo António apresentava uma maravilhosa perspectiva com milhares de luzes e cores. Os prédios estavam illuminados d’alto a baixo, e os 16 obeliscos tinham 87 luzes de azeite cada um. Ao cimo da rua havia um quadro rodeado de lumes, o qual representava —o Porto mostrando ao Douro a bella estrella de Pedro II que despontava no horisonte. Outros dois quadros continham as armas portuguezas e brasileiras em transparentes. Destacava-se a frontaria do theatro Baquet, onde se intermeavam as luzes com as bandeiras. Defronte completava a excellente perspectiva o arco da rua dos Clérigos, coreto próximo e illuminação dos prédios; o arco era illuminado a gaz, e pendia-lhe do centro um grande lustre. Na praça de D. Pedro, a claridade rivalisava com a luz do dia. A fachada do edifício da camara municipal e o prédio contíguo eram illuminados a gaz, e com estrellas de differentes cores ; os candelabros em volta da praça todos tinham grande numero de luzes. Além d'isto as bandeiras eram quasi tantas como as luzes em toda a praça. Não era inferior a perspectiva do largo da Batalha, no meio do qual se eleva a estatua do sr. D. Pedro V. As arvores da praça illuminadas por balões pendentes, os edifícios cheios de luzes, assim como a cimalha superior do monumento. Umas pyramides, que imitavam cyprestes, e a grade em volta do monumento estavam illuminadas. No centro destacava-se uma coroa com esta inscripção— Associação dos artistas portuenses. Entre a rua de D. Maria II e a embocadura do largo da Feira de S. Bento para a porta de Carros pendiam dos festões, que ligavam os postes collocadas de ambos os lados da rua, innumeros copos de cores. As escadas da egreja de Sancto Ildefonso e a frontaria da egreja da Trindade também estavam vistosamente illuminadas. Fóra dos centros mais concorridos e partes embellezadas era também geral a illuminação, bem que menos profusa, e algumas havia de gosto e primor. A rua do Almada produzia lindíssimo effeito, vista do campo da Regeneração. Neste ponto havia illuminações particulares brilhantissimas; entre ellas distinguia-se a casa do sr. João Cyrillo do Sousa Carneiro, illuminada por balões venezianos e lanternas de crystal, tendo a meio do edifício umas armas brasileiras em transparente. Egualmenle sobresahiam as dos srs. Maia e Miranda, e outras muitas. Como é de suppôr, as illuminações e as musicas, que tocaram todas as noites na praça da Ribeira, largo de S. Domingos, largo dos Loios e da Feira de S. Bento, praça de D. Pedro e rua de Santo António, attrahiram o concurso do povo. Revolvia-se em massas compactas pelos largos e ruas, o transito era difícil, e em partes impossível, sendo necessária por mais de uma vez a intervenção da policia.

(Sobre estas decorações ver neste blogue “Visita ao Porto com D. Pedro II Imperador do Brasil 1”)

Presentes

Muitas pessoas se esmeraram em obsequiar- os imperiaes hospedes com dadivas e presentes : cabe o primeiro logar á medalha commemorativa da visita do Imperador ao Porto. Esta medalha foi feita com o producto de uma subscripção aberta entre os portuenses, e incumbida a sua factura ao sr. Arnaldo Mollarinho, gravador muito distincto e habil.

José Arnaldo Nogueira Molarinho  (1828 – 1907) autor entre outras, nestes anos, da Medalha comemorativa da promulgação da Carta Constitucional, da Medalha comemorativa da inauguração do Palácio de Cristal, da Medalha comemorativa da Inauguração do Caminho-de-Ferro do Douro e da Medalha comemorativa do 5º centenário do Infante D. Henrique, que se encontram no Gabinete Municipal de Numismática da Casa Tait.

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Monumento a José Arnaldo Molarinho em Guimarães

De um dos lados tem o retrato do Imperador, em excellenle relevo, e em volta a inscripção — D. Pedro II, Imperador do Brasil.— No reverso está uma coroa de carvalho, e dentro d'ella uma estrella raiada, do centro da qual sahem as palavras— Ave César — Por fora circumda a coroa a seguinte legenda — Visita de Sua Majestade Imperial á cidade do Porto em 1872. É de ouro e tem 27 oitavas de peso. 

“A medalha commemorativa da visita do imperador do Brazil ao Porto foi incumbida ao hábil gravador d'aquella cidade, sr. Arnaldo Molarinho. No anverso terá o retrato do imperador rodeado pela inscripção D. Pedro II, Imperador do Brazil. O reverso representará uma coroa de carvalho com um raiado no centro, formando uma estrella, e dentro d'esta as palavras Ave César. Em volta da coroa de carvalho ler-se-ha o seguinte: Visita de S. M. I. á cidade do Porto em fevereiro de 1872. Será cunhado um exemplar em oiro para offerecer a S. M. Os outros exemplares serão tirados em prata.” Artes e Letras 1872

Foi depositada nas mãos do monarcha por uma commissão composta dos srs. João Ferreira de Andrade Leite, Henrique José Pinto e José Ferreira Moutinho; e um dos membros pronunciou nesse acto a allocução seguinte:

“Senhor: — A terra que foi testimunha dos heroísmos do sr. D. Pedro IV, augusto pae de Vossa Majestade, a terra que é legatária do seu nobre coração, a terra que elle tanto amou e que lhe correspondeu com egual affecto, apreciando devidamente a honra que Vossa Majestade acaba de fazer- lhe com a sua imperial presença, quiz commemorar tão fausto acontecimento, e nos encarregou de obter licença para pôr nas augustas mãos de Vossa Majestade a medalha que o representa, como testemunho de que, reproduzindo o filho tão fielmente as excelsas virtudes do pae, legitimamente succedeu ao pae o filho no amor dos portuenses. Permitia, pois, Vossa Majestade que jubilosos nos desempenhemos de tão honrosa commissão.” Porto, 2 de março de 1872.— João Ferreira de Andrade Leite — Henrique José Pinho — José Ferreira Moutinho.

Sua Majestade disse que agradecia muito aos portuenses a offerta que lhe faziam, e a considerava uma grata recordação d'aquella cidade. A medalha era guardada em uma caixa forrada de velludo carmezim por fora e verde por dentro. Tinha sobre a tampa as armas brasileiras, em ouro com um aço do mesmo metal, onde se lia a inscripção seguinte: — Os portuenses ao sr. D. Pedro II, Imperador do Brasil.A commissão também offereceu ao monarcha os cunhos, entregando-lhe depois de tirados outros exemplares da medalha.

O sr. Miguel Angelo, compositor de musica muito afamado, compoz uma excellente marcha triumphal e a offereceu ao Imperador, que o conhecia de quando estivera no Brasil, onde fora nomeado organista da capella imperial. Apezar de o não ter visto havia muitos annos, conheceu-o facilmente. Escusado é dizer que lhe agradeceu affectuosamente a offerta, fallando-lhe da arte que cultiva, especialmente da sua opera o — Eurico.

Miguel Ângelo Pereira  (1843-1901)- Formou-se estudou no Brasil, onde se distinguiu como pianista. Regressou a Portugal em 1863, e notabilizou-se ao criar um Te Deum para inauguração da estátua de D. Pedro V, e uma marcha “Progredior” para a Exposição Universal do Porto. A sua  ópera “Eurico”, de 1865 inspirada no  livro  de Alexandre Herculano, foi representada no S. Carlos em 1870,  no teatro de S. João do Porto em 1874 e no Rio de Janeiro em 1878. No Porto, fundou e dirigiu a Sociedade do Quarteto, que mais tarde foi integrada no Orfeão Portuense. Foi Redactor da revista “Eurico” (publicaram-se  5 números de Setembro a Novembro de 1884), “Quinzenário de revista musical” editada na Vila da Feira, por Joaquim Ribeiro & Irmão.

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Capa do n.º 1 da revista Eurico

Cada número apresentava uma capa de Rafael Bordalo Pinheiro, com uma cartela “escolhidas peças de musica”.

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1ª Página do n.º 1 de Eurico, onde no Expediente se pode ler: “…o Eurico apresenta-se literariamente de lança em riste para combater tudo e todos que por obras ou acções venham empanar o brilho da Arte ou prejudicar o bom nome de artista, e de coração magnânimo para exaltar méritos e registar virtudes onde quer que as hajam. Musicalmente publicará com preferência as obras de compositores portugueses de verdadeiro e reconhecido mérito e d'entre as composições de extranhos, escolherá aquellas que possam auxiliar os bons professores na educação musical dos seus discipulos. A competencia do nosso redactor garante a execução d'este programa”.

(fonte do texto e das imagens: Roberto Vaz de Oliveira - Imprensa Periódica da Vila e Concelho da Feira, in Aveiro e o seu distrito, N.º 8 Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro Dezembro de 1969) 

O sr. Adolpho Cyrillo de Sousa Carneiro, natural do Brasil e estudante da Academia de Bellas Artes no Porto (frequentou a Academia de 1868 a 1872), offereceu ao Imperador uma paizagem a óleo, que se diz estar muito bem pintada. Este moço com pouco tempo de estudo adquiriu créditos superiores na academia, passando por um dos seus mais talentosos alumnos.

A ex."" sr.' D. Laura Laurentina da Fonseca Braga, filha da directora do acreditado collegio de Nossa Senhora da Conceição, e irmã do jovem pianista Hernâni Hrajza começou a bordar um magnifico retrato da serenissima princesa do Brasil, que tencionava entregar a Suas Majestades; mas como não podesse concluil-o a tempo, tenciona remettel-o mais tarde para o Rio de Janeiro, devendo primeiro figurar na exposiçção peninsular que se projecta fazer no Porto nos mezes de agosto e setembro próximos.

O sr. Francisco José Rezende (1825-1893), pintor distincto, que tem escripto muito sobre pintura, brindou o monarcha brasileiro com dois quadros, sendo um o retrato de el-rei o sr. D. Luiz I, e outro uma camponeza dos Carvalhos, povoação que fica próxima do Porto. O Imperador surprehendeu o sr. Rezende na occasião em que collocava os retratos em uma sala do hotel, e examinando-os exprimiu-se em termos muito agradáveis de reconhecimento e louvor.

Para se ter uma ideia da pintura de Francisco José  Rezende, um quadro de uma camponesa:

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Francisco José Resende Camponesa de Ílhavo 1867 Óleo s/ tela  66 x 47 cm Museu do Chiado – MNAC

O sr. António Cândido Correia de Rezende Lobo offereceu-lhe um valioso trabalho em madeira.

No theatro de S. João o sr. Eduardo Vianna foi ao camarote offerecer ao Imperador um hymno, dedicado aos portuguezes residentes no Brasil, que acabava de ser desempenhado com grande applauso, e depois pediu á Imperatriz a honra de lhe acceitar o ramo de flores, que lhe tinha sido offertado no proscénio.

O exemplar offerecido pelo sr. E. Vianna ao Imperador é impresso a ouro em setim azul, orlado de branco. A capa, de setim branco, tem no frontispício, também impresso a ouro, o titulo, offerecimento e nome do auctor, no meio de uma tarja, figurando duas columnas, sobre as quaes assentam á esquerda as armas portuguezas e á direita as armas brasileiras. Além d'isso foi entregue num álbum de velludo verde, revestido internamente de seda amarella, e tendo a seguinte inscripção: «A Sua Majestade o sr. D. PedroII, defensor perpetuo do Brasil.— Hymno, por Eduardo Vianna.» — O trabalho typographico foi executado na typographia musical. Ainda recebeu outro presente musical das mãos do sr. Cazulini, director da companhia lyrica do Iheatro de S. João, consistindo em uma grande marcha triumphal de sua composição.

Outro presente que o Imperador receheu consistia num álbum de photographias, offerecido pelo sr. Rocha, hábil photographo, entre as quaes figura a do quarto e cama, onde falleceu o sr. D. Pedro IV.

Finalmente o sr. Joaquim Baptista da Silva Guerra, industrial muito acreditado d'aquella cidade, teceu um rico corte de setim Lião, côr de violeta, cora flores a ouro e cores, para offerecer á Imperatriz.

Jantar aos presos

Também o infortunio e a caridade terão logar nesta longa serie de alegrias e homenagens, o primeiro soltando um lampejo de esperança, seu único e perpetuo amparo ; a outra compondo o hymno sublime das alegrias daquelles a quem consola e alegra. Em um dos dias em que Suas Majestades estiveram no Porto foi servido um jantar e distribuidas algumas esmolas aos presos da cadeia da Relação por iniciativa de alguns individuos, quo promoveram uma subscripção com o nobilíssimo intuito de festejarem por tal modo a visita dos monarchas brasileiros. Seriam duas horas da tarde, e estando presente o sr. procurador régio e varias pessoas, foi servido um abundante jantar. Depois cada preso recebeu uma esmola em dinheiro. Os presos não doentes eram 300 e os doentes 43. Lembraram-se estes infelizes de dirigir uma supplica ao soberano brasileiro, pedindo a sua intercessão junto d'el-rei o sr. D. Luiz, para lhes serem commutadas as penas.

A viagem do Imperador do Brasil é ainda referida no periódico Artes e Letras na rubrica

“Crónica DO MEZ - novidade saliente do mez foi a visita de S.M. o imperador do Brazil a terras de Portugal. O Senhor D. Pedro II, depois de terminada a guerra, que por tantos annos absorveu a attenção do império, depois de reposta a lei civilisadora da abolição dos escravos, determinou-se a percorrer a Europa em viagem mais de instrucção que de recreio. Tendo visitado os paizes que, pelo seu estado de adiantamento, são classilicados como primeiros na escala do progresso, escolheu, para final estação da sua jornada, este cantinho do mundo — gloriosa pátria de seus antepassados— a que o prendem estreitas ligações de amizade e de família. Uma vez em Portugal apresentou-se nos principaes estabelecimentos scientificos e tratou com os homens mais eminentes na litteratura, nas artes e na politica, mostrando-se conhecedor de variados assumptos, sendo affavel com os que vinham prestar homenagem á sua alta hierarchia e deixando grata memoria no animo dos que o procuravam ou eram por Sua Magestade procurados. Pondo de parte os alavios da realeza, diligenciou viver sempre como particular, mas procedeu muitas vezes como príncipe. Se habitava as hospedarias, se percorria as ruas em carruagem de aluguel, se occupava qualquer camarote no theatro, se tomava logar entre os demais cidadãos nos sítios públicos onde apparecia, tambem distribuiu com larga e generosa muitas esmolas, enxugando algumas lagrimas e exercendo, neste ponto unicamente, as funcções do alto cargo que a Providencia lhe destinou. Sua Magestade Imperial mostrou, pois, pelo seu procedimento comprehender bem o século em que nasceu; vê-se que respeita as idéas liberaes e democráticas laboriosamente conquistadas pelo povo, para que essas idéas, na sua integra justiça, o respeitem a elle tambem.

Lisboa, Porto e Coimbra vestiram-se de gala para receber os imperiaes viajantes. Lisboa, principalmente, apresentou-se com toda a galhardia. Não parecia a mesma. Sorumbática e mettida comsigo, como é, desfranziu nesses dias os lábios e sorriu graciosa. Foi tal a transformação, que os próprios filhos que nunca saíram do seu agasalho, a desconheceram. As festas em Lisboa téem a vantagem de expor aos habitantes um simulacro da vida, do ruido, da alegria das grandes cidades. Durante as ultimas a que me refiro, observaram-se phenomenos raríssimos, coisas extraordinárias de que ninguém julgava susceptível a capital d'estes reinos. Muita gente a passeiar! Muita luz nas ruas! Enchentes nos theatros! Enchentes no passeio em dias de semana! Em Lisboa é preciso pretexto para se sair á rua. As luminárias foram d'esta vez o pretexto. É certo que este nosso bom povo já não corre a foguetes — tudo, até a politica o prova —mas por luminárias, em sendo boas, ainda muita gente se incommoda. Só a muita luz tem o poder de athraír as mariposas, que em noite de simples illuminação municipal não saem do fofo casulo. A commissão encarregada de festejar a passagem do imperador pela capítal contribuiu muito para estas alegrias, pois mostrou a boa vontade de que estava possuída, para que tudo fosse luzido e digno do fim a que era destinado. Pena é que as pessoas, a quem foi commettida a execução do pensamento dos commissionados, não mostrassem também o seu bom gosto. Alguns dos adornos das ruas, diga-se a verdade, tinham pouco de bonitos. As pyramides do Rocio, por exemplo, eram de um mau gosto pyramidal. Verdade é que illuminadas produziam algum effeito, e ellas foram levantadas para se verem assim; mas como de dia, carregadas de pesado luto, saltavam mais á vista do que de noite em que o vento fresco do norte lhes apagava de quando em quando o fogo do enthusiasmo, por isso me não deve ser estranhado que eu registe aqui a disformidade d'aquelles collossaes monumentos, que só tinham de bom representarem dignamente a idade de ferro em que vivemos”

Partida para Braga

Era domingo. Pouco depois das 6 horas da manha. Suas Majestades com a sua comitiva partiram para Braga, tendo primeiro ouvido missa na real capella da Lapa, celebrada pelo sr. cónego Alves Mendes, para isso rogado pelo Imperador. Suas Majestades conservaram-se sempre ajoelhados no fundo das escadas do altar mór recusando as almofadas que lhes foram offerecidas.  Findo o sancto sacrifício, seguiram a sua jornada, parando nas estações somente o tempo necessário para se fazerem as mudas das carruagens. Ás 9 horas entraram em Viila Nova de Famalicão…

Epílogo

D. Pedro II irá regressar ao Porto em 1889, em circunstâncias particularmente difíceis.

No Brasil implanta-se a República pondo fim a 67 anos do único regime monárquico do continente americano (apesar do breve regime de Maximiliano do México entre 1864 e 1867) e ele é exilado. No Porto instala-se no Grande Hotel do Porto na noite de 24 de Dezembro, ocupando todo o primeiro piso arranjado para receber a comitiva imperial. D. Teresa que sofria de uma doença cardíaca viria a falecer quatro dias depois da chegada, tendo D. Pedro comprado a cama onde a Imperatriz faleceu. D. Pedro parte de seguida para Paris vindo a falecer em 1891.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Os Bairros Sociais no Porto IV

Nota explicativa

Tenho recebido diversos e amáveis comentários sobre o conteúdo deste blogue. Muitos deles, por minha culpa é certo, baseiam-se num equívoco. Não pretendo neste blogue publicar estudos completos ou exaustivos sobre qualquer dos temas tratados. Particularmente neste tema “Os Bairros Sociais no Porto”, devia ter tido o cuidado de lhe acrescentar qualquer coisa como apontamentos, ou achegas…

Este blogue procura ser mais um álbum de imagens legendadas do que uma colecção de textos ilustrados, sendo por isso que me socorro muitas vezes de citações que melhor legendam as imagens que apresento. Trata-se pois, e apenas, de chamar a atenção para temas, apontar pistas, mostrar e valorizar a capacidade de “ler” imagens, seguindo a frase de Proust no cabeçalho do blogue:  “Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux.” (A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em possuir um novo olhar).   

 

Os Bairros do Plano de Melhoramentos

A quarta geração de bairros sociais no Porto, que corresponde ao plano lançado em 1956, é sem dúvida a mais importante e que marca a cidade até aos nossos dias.

Parte I –  Os antecedentes

O Congresso Nacional de Arquitectura 1948

Para um enquadramento político e cultural de Portugal e do Porto ver neste blogue Porto onde nasci e cresci I e II, onde se aponta a importância do problema da habitação no Congresso Nacional de Arquitectura de 1948, a influência de Le Corbusier e da sua Unité d’Habitation de Marselha, da arquitectura brasileira, e dos movimentos dos arquitectos organizados no ICAT e na ODAM.

O Bairro de Alvalade em Lisboa 1945/48

No Congresso de 1948 é apresentado por Miguel Jacobetty Rosa (1901-1970) o Bairro de Alvalade então em execução e que já havia sido publicado na  Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945. (1)

De facto ele é importante na influência que teve na concretização da 4ª geração dos bairros sociais do Porto. Veja-se a referência a que ele faz Fernando Távora em 1960, a propósito da Unidade Residencial de Ramalde: “O plano foi executado tomando em conta dois projectos existentes (baseados no Bairro de Alvalade, o supra-sumo para a al­tura) e que se não integravam num esquema geral.” (in Fernando Távora – ed. Blau, Lisboa 1993)

O Plano de Urbanização do Sítio de Alvalade, inicialmente designado por Plano de Urbanização da Zona a Sul da Av. Alferes Malheiro foi promovido pelo D.L. 33921 de 5 de Setembro de 1944 e da Lei 2007 de 7 de Maio de 1945, em que o regime procurava dar uma resposta à crise da habitação no clima do pós guerra.

O plano projectado pelo arquitecto João Faria da Costa (1906 – 1971) dava continuidade ao PDUL (Plano Director de Urbanização de Lisboa 1938-1948) de Étienne de Gröer (1882-1970) e tinha como objectivo urbanizar e integrar a zona entre o Campo Grande e o Areeiro e dar resposta à carência de habitação que nos anos da guerra se havia avolumado em Lisboa.

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Plano de Urbanização da Zona Sul da Av.ª Alferes Malheiro

“Vista do plano em execução, da nova zona de expansão da cidade que abrange a área limitada a N. pela Av. Alferes Malheiro, a E. pelo prolongamento da Av. Almirante Reis, a S. pela linha férrea de cintura e a O. Pelo Campo Grande e Av. Da República.

Comportará 45.000 habitantes: 31.000 em habitações colectivas de rendas económicas; 9.500 em habitações de renda não limitada; 2000 em habitações unifamiliares de renda económica; 2.500 em moradias unifamiliares de rendas não limitadas.

Além dos edifícios destinados a habitação, observa-se no plano: a conservação de espaços livres arborizados ou destinados a instalações desportivas; a previsão de zonas industriais (pequeno artesanato) e comerciais; a localização de mercados e outros edifícios de interesse público, tais como: Escolas, Liceus, Igreja, Centro Social, Centro Cívico, etc..

Os transportes colectivos estão assegurados por: Caminhos de Ferro, Carros Eléctricos e Auto-carros.”  In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945 e I Congresso dos Arquitectos Portugueses 1948

A urbanização e construção Bairro de Alvalade iniciou-se com a construção de 2066 habitações distribuídas por 302 edifícios de 3 e 4 pisos, sem elevador, localizadas nas células I e II do Plano, ao abrigo do programa das Casas de Rendas Económicas.

O projecto é coordenado por Jacobetty Rosa, nele tendo trabalhado o ainda estudante Nuno Teotónio Pereira.

“No que respeita aos prédios de habitação colectiva, todos os fogos devem ter acesso directo e, além de oferecerem boas condições de higiene, solidez e duração, devem possuir sistemas de distribuição de água e de esgotos ligados às redes públicas ou privativas; cada prédio não deverá ter mais do que r/c e 3  pisos, com o mínimo de 2 divisões para as habitações de 2.a classe e de quatro para as de 1 .a classe além de cozinha, despensa, casa de banho e retrete.”

O projecto previa a construção de 9 tipos diferentes de fogos agrupados em três séries de três tipos cada, correspondendo as séries aos diferentes níveis sociais dos agregados familiares e os tipos ao número de pessoas a abrigar em cada casa.

As habitações variam em cada série pela introdução de mais um quarto, da série I para a série II com a introdução de um escritório e  da série II para a série III com a introdução de um quarto de criada com a respectiva instalação sanitária.

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Fichas com as 3 séries e os 9 tipos, plantas cortes e alçados, descrição e renda

In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945 e I Congresso dos Arquitectos Portugueses 1948

Jacobetty apresenta ao Congresso a metodologia utilizada na concepção e organização dos fogos, baseados nos modernos princípios do racionalismo e do funcionalismo.

“No que respeita à concepção arquitectónica procurámos, pois, tomar a posição o mais objectiva possível, libertando-nos de preconceitos e sujeições a fórmulas por vezes impostas por tradições seculares que representam um peso morto inibidor de uma emancipação de tudo quanto possa, na matéria, ser inútil ou até prejudicial.

Ë preciso, em primeiro lugar, que a casa seja acolhedora e para isso não basta que tenha um aspecto agradável (factor subjectivo). É necessário que seja bem adaptada às variadas funções da vida caseira, isto é, que se preste objecti­vamente, não só ao repouso da família, mas especialmente ao trabalho da dona da casa, ou de quem governa a mesma e, ainda, às lides de serviçais, quando os haja, e ao trabalho do chefe de família e dos filhos.

Necessário se torna, em suma, que a sua conformação permita reduzir ao mínimo o esforço a dispender com os serviços do lar, sem que sofram diminuição quer a comodidade, quer a higiene.

Sem abordar profundamente o estudo racionai dos serviços domésticos, como modernamente se está fazendo na América e noutros países, pois o escasso tempo de que dispúnhamos não nos permitiria essas delongas, procurámos, porém, lançar mão de métodos tanto quanto possível objectivos para controlar os estudos que empreendemos baseados nas directivas expostas e nos princípios modernos de racionalização da casa.”

Jacobetty apresenta assim um conjunto de “Princípios para a Racionalização da Habitação”, tendo como objectivo “aumentar o valor da habitação, reduzindo ao mínimo compatível a área da mesma”.

Nestes princípios inclui-se a “Ordenação das comunicações e movimento e redução dos percursos”, onde expõe as vantagens desta ordenação dos percursos:

“Por meio da ordenação das comunicações conseguiu-se melhorar a economia da habitação, simplificando as suas funções para o efeito do dispêndio de energia. Comunicações mal ordenadas conduzem a uma má movimentação e secun­dariamente a uma perda de superfície útil como resultante da zona de comuni­cação que deve ser mantida desimpedida. Racionalmente podemos considerar as mais importantes funções da vida doméstica resumidas nos seguintes ciclos:

“Cozinhar — comer», «Trabalhar — repousar» e «Dormir — lavar-se”.

É evidente que se os percursos para o desenvolvimento destas funções forem muito longos e tortuosos, isto compromete a regularidade das mesmas funções e traduz-se numa perda de tempo e energia. Por outro lado, se as linhas destes percursos se interceptarem — o que significa que os compartimentos afins não estão agrupados, — poderá resultar daí embaraço para a vida doméstica e certamente dificultará uma boa utilização simultânea de todas as dependências.”

E apresenta dois mapas em que representa o estudo gráfico dos percursos no interior de dois fogos-tipo.

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In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945

E conclui expondo a economia dos passos, das mudanças de direcção e da sobreposição dos percursos:

“Verifica-se que, em áreas iguais, o desenvolvimento das linhas de percursos do ciclo “Dormir — lavar-se” na solução escolhida é de 29,15 metros, contra 40,50, o que representa uma economia de 18 passos em média por cada vez que estes percursos tenham de ser feitos, a favor da solução escolhida. Além disso, ao passo que o esquema da planta eleita nos apresenta 12 ângulos, o da variante apresenta 20, o que significa 8 mudanças de direcção a mais na habi­tação correspondente em relação à da planta eleita — isto representa, como é óbvio, um grande inconveniente pois, como diz Enrico Gnffmi, em breves percursos é-se constrangido a um inútil dispêndio de energia no acelerar e afrouxar o passo para volver o corpo à direita ou à esquerda o que contribui para tornar a casa menor aprazível a quem deve habitá-la, mesmo que não tenha disso a sensação precisa…

…Analisando ainda os gráficos dos percursos verifica-se que, ao passo que o esquema adoptado apresenta uma independência perfeita dos ciclos represen­tados por cores diferentes, o outro mostra um cruzamento à entrada da casa que pode trazer inconvenientes. Assim, as pessoas que procuram a casa de banho podem esbarrar com quem venha a entrar ou a sair em serviço da cozinha, ou como visita ou habitante da sala de estar, o que não há perigo de dar-se na solução adoptada.

Para se conseguir este resultado, quanto à ordenação das comunicações, houve que fazer uma judiciosa arrumação na distribuição dos compartimentos de maneira a colocar junto da entrada as divisões destinadas ao serviço e perma­nência diurna, e a agrupar os quartos e casas de banho, dando-lhes um acesso fácil e lógico.”

Por outro lado Jacobetty avança com uma moderna concepção da organização do fogo abolindo o corredor de distribuição para os diversos compartimentos:

…A su­pressão do corredor, longo, incómodo e desgracioso, resulta do próprio racionalismo das soluções e permite integrar a área que lhe seria destinada na sala comum, melhorando extraordinariamente os seus aspecto, conforto e eficiência…

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castanho – sala  azul – cozinha   rosa – quarto  amarelo – banho     Esta simbologia será utilizada em toda a mensagem

E finalmente, com esta preocupação de racionalizar a habitação e de conseguir “A Concentração da Superfície Livre” preocupa-se com o mobiliário:

“É evidente que, se se conseguir a concentração da superfície livre — e por superfície livre entende-se a parte do pavimento que permanece desimpedida após a colocação da mobília estritamente necessária — se obterá a possibilidade de alcançar cada recanto da habitação com o menor dispêndio de energia, além da ordem e economia doméstica que representa. Os móveis, a sua arrumação e redução ao mínimo foram, pois, conside­rados no estudo das plantas, tendo-se previsto, sempre que possível, armários integrados na construção e racionalmente localizados com vista a resolver este problema.”

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Bairro de Alvalade, inauguração 1948 foto AFML

Na foto entre outros Joaquim Trigo de Negreiros (Ministro do Interior, 1950-1958), Álvaro Salvação Barreto (Presidente da Câmara Municipal de Lisboa  1944-1959) e Américo de Deus Rodrigues Tomás (Ministro da Marinha, 1944-1958).

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Fotos do AFML

Os Blocos de habitação colectiva

Apesar desta concepção moderna e racional dos fogos de habitação social proposta no Plano de Alvalade, provavelmente porque a concepção dos edifícios não “agrada” aos arquitectos que empenhados política e culturalmente na luta contra o regime, defendem e ambicionam a construção de Unidades de Habitação, para as inadiáveis questões do alojamento, sobretudo de largas camadas da população de Lisboa e do Porto. São múltiplas as declarações dos arquitectos no Congresso pugnando pelas unidades de habitação enquadradas na Carta de Atenas (então publicada na revista Arquitectura):

“…consideramos A CASA COLECTIVA A SOLUÇÃO QUE MELHOR CORRESPONDE ÀS MÚLTIPLAS NECESSIDADES DA POPULAÇÃO.” Lobão Vital

“Que as ilhas insalubres que servem mais de túmulo que de abrigo, sejam substituídas por “Unidades de habitação», as quais permitam criar espaços verdes com jardins infantis, escolas, centros de juven­tude, etc. (Recuperação do solo nos terraços, instalações de assistência e de cultura dentro do próprio bloco, centralização dos organismos essenciais à vida). Viana de Lima

Que utilizem as técnicas modernas, coerentemente, em construções tendentes a solucionar o problema da habitação colectiva em bloco” João Simões/José Huertas Lobo/Francisco Castro Rodrigues

É PRECISO CONSTITUIR UNIDADES DE VIZINHANÇA, FORMADA POR UNIDADES DE HABITAÇÃO DE UMA E OUTRA CLASSE, COMPLETANDO O CONJUNTO DOS INDISPENSAVEIS E VARIADOS INSTRUMENTOS DE CARACTER SOCIAL.” Nuno Teotónio Pereira e M. Costa Martins

“O bloco de habitação é uma realidade dos nossos dias; ele encarna o poder realizador da técnica actual, porque ele é em si, produto das necessidades materiais e espirituais do Mundo novo” Mário Bonito

“ESTRUTURAS INDEPENDENTES — aço ou cimento — pilares, vigas e lajes, pórticos.

FACHADAS — tornadas simples separação entre o interior e exterior — podem ser totalmente de vidro.

CONSTRUÇÃO SOBRE PILARES — libertando o solo, faculta este espaço à resolução dos problemas de circulação.

COBERTURA EM TERRAÇOS — recuperação do terreno no cimo dos edifícios.

PLANTA LIVRE — não mais existe a necessidade das correspondências verticais.” Luís José Oliveira Martins

Assim e na ausência de uma política de habitação social que corresponda às suas expectativas, irão a partir de experiências realizadas em habitações unifamiliar elaborar projectos promovidos pela iniciativa municipal ou privada e destinados à classe média e alta, ensaiar soluções de habitação colectiva concretizando uma arquitectura moderna, claramente conotada com as realizações dos CIAM e em particular com a obra de Le Corbusier e dos seus discípulos brasileiros. De referir o aparecimento de legislação sobre a propriedade horizontal e sobretudo do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU) em 1951.

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Desenho de João Abel Manta in Cassiano Barbosa - ODAM (organização dos Arquitectos Modernos 1947-52) edições ASA 1972

Algumas realizações de habitação colectiva entre 1948 e 1955

Lisboa

Em Lisboa Será no início dos anos 50, que se realizarão em Lisboa, por iniciativa municipal, alguns projectos residenciais de envergadura (destinados a uma população da classe média e alta), e onde os seus autores irão ensaiar e experimentar os princípios formais e espaciais da Carta de Atenas e os "cinco pontos" de Le Corbusier.

O Bairro das Estacas 1949 /1955

Sebastião Formosinho Sanchez (1922-2004) e Ruy Jervis d’Athouguia (1917-2006), (premiado na Bienal de São Paulo em 54 e prémio Municipal em 1954)

O Bairro é uma alteração de dois dos quarteirões previstos no “ Plano de Urbanização do sítio de Alvalade”. Organiza-se em blocos idênticos, de rés do chão e 4 pisos, dispostos ortogonalmente em relação aos arruamentos principais, e os espaços ajardinado, criados pelas construções, servem de acesso e estacionamento. Os blocos, que neste caso assentam num terreno quase plano, e que se apoiam em "pilotis" ( daí o nome do bairro), abrem-se aqui em duas frentes ligeiramente recuadas, onde as varandas corridas acusam a horizontalidade, conferindo a cada bloco uma compacticidade e um "purismo" racionalistas e onde é patente a influência da “escola" brasileira”.

A ideia de um espaço verde onde se implantam os blocos assentes em pilotis, da Carta de Atenas, substitui o quarteirão tradicional.  As vias são hierarquizadas com separação dos acesso pedonais. A implantação e a conformação dos blocos procura abolir a noção de fachada principal e traseiras. As habitações desenvolvem-se em duplex.

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Os Duplex

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Blocos do cruzamento da Av. dos EU-A e Av. de Roma  1952/1957

Ainda em Lisboa, realizam-se nestes anos uma série de conjuntos urbanos na então criada Avenida dos Estados Unidos da América, de que se destacam o de Filipe Figueiredo (1913-1990) e José Segurado (1913-1990), projectado a partir de 1952, com blocos/torre de 12 andares, apresentando uma "quebra" correspondente ao sétimo e oitavo pisos, numa solução então muito em voga entre os discípulos de le Corbusier. O cruzamento da Avenida Estados Unidos com a avenida de Roma seria desnivelado criando um espaço de difícil implantação para o conjunto habitacional.  A solução proposta articula dois dos blocos de topo avançados para o cruzamento e outros dois recuados com o lado maior face para o cruzamento. Os edifícios exibem um tratamento exterior com os módulos regulares das varandas a sucederem-se cavando sucessivos nichos e explorando os efeitos das grelhas e vidraças. Uma quebra a todo o comprimento dos blocos com a altura de um piso, propunha uma rua comercial. O piso térreo é elevado sobre pilares, nos dois edifícios de topo, e ocupado por comércio nos outros dois. As quatro torres são dos primeiros casos de utilização desta tipologia.

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Postal dos anos 50

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Foto de José Espinho - Revista Municipal n.º 74 3º trimestre 1957

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O conjunto de blocos perpendiculares á via do lado E da Avª dos EUA 1955/58 (Prémio Municipal 1957)

João de Barros Vasconcelos Esteves (1924-), Pedro Anselmo Freire Braancamp Cid (1925/83) e Manuel Maria Cristóvão Laginha (1919/85)

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A organização dos fogos T2 e T3

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Conjunto Habitacional da avenida Infante Santo 1953 (Prémio Municipal 1956)

Alberto Pessoa (1919-1985) e Hernâni Gandra (1914-1988), a que se associa João Abel Manta (1925), todos "formados" no atelier de Keil do Amaral (1910-1975), projectam a partir de 1953 o Conjunto Urbano da avenida Infante Santo, uma "bateria" de blocos perpendiculares ao arruamento, onde o declive é resolvido por plataformas, (aproveitando-o para pequeno comércio), com escadas que estabelecem a relação com a rua, e onde os blocos assentam em "pilotis".  Os blocos, rigorosamente idênticos, rematados por terraços, abrem-se em fachadas geometricamente compostas e lembrando as realizações brasileiras da época. is1

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O conjunto Habitacional integra um notável conjunto de painéis de azulejo.

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Pormenor do painel de azulejo “O Mar” de Maria Keil (1914-)

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Painel de azulejo de Rolando Sá Nogueira (1921-2002)

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Painel de azulejo de Alice Jorge (1924-2008) e Júlio Pomar (1926)

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Painel de azulejos de Carlos Botelho (1899-1982)

Mas sem dúvida o edifício que melhor corresponde a uma realização crítica das concepções de uma Unidade de Habitação, e dos princípios do Movimento Moderno é

O Bloco das Águas Livres 1953/56 de Nuno Teotónio Pereira (1922) e Bartolomeu Costa Cabral (1929).

Nuno Teotónio Pereira, que depois de colaborar ainda como estudante no Bairro de Alvalade e já havia projectado em 1950 o Conjunto de Casas de Renda Económica para Braga, projecta o Bloco das Água Livres, integrado no Plano de Pormenor da Praça das Águas Livres de Manuel Tainha.

Edifício projectado e realizado entre 1953 e 1956, numa tentativa de constituir uma unidade autónoma - uma espécie de (pequena) "unité d'habitation" - quer pela sua forma e tratamento, quer pelo programa que apresenta, e onde estão incluídos comércios, escritórios, ateliers e uma sala de convívio (no terraço beneficiando da vista para o Tejo), jardim infantil e uma lavandaria colectiva.

A diversidade de tipos de habitação proposta, bem como a flexibilidade interna desses mesmos fogos, e ainda a importância dada aos percursos em galeria, interiores e exteriores, sugerem - apesar de destinados a utentes de razoável capacidade económica- novas propostas de vida colectiva ou comunitária.

Colaboraram nas peças artísticas Jorge Vieira (1922-1998), Almada Negreiros (1893-1970) , Manuel Cargaleiro (1927) e José Escada (1939-1980) e o jardim foi projectado por Gonçalo Ribeiro Telles (1922).

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Galerias de serviço e de distribuição dos escritórios

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“Penélope” baixo relevo de Jorge Vieira (1922-1998)

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O terraço com o vitral de Cargaleiro

fotos revista Arquitectura

Porto

No campo operativo é na cidade do Porto, então atingindo os 290 000 habitantes e enquadrada pelo Plano Regulador de Antão de Almeida Garrett, quer pelo seu distanciamento do centro do poder político, quer pela sua longa experiência de realizações e de lutas pela cultura e arte modernas, e a que não é alheio o papel desempenhado por Carlos Ramos como professor e director da Escola de Belas Artes, que um conjunto de arquitectos reunidos em torno da ODAM, vão procurar, na escala do possível ou do permitido pelo regime concretizar experiências racionalistas e da procura de formas arquitectónicas aderentes à realidade social.

Partindo dos estudos e das teorias sobre a habitação social, económica ou colectiva, irão ensaiar novos métodos de projecto e construtivos  interpretando a tipologia do Bloco de Habitação, como a "essência" da projectação.

Localização dos blocos

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1 – Bloco da Carvalhosa   2 – Bloco da Constituição   3 – Bloco de Costa Cabral  

4 – Edifício Ouro   5 – Edifício Parnaso   6 – Bloco Afonso V   7 – Bairro de Ramalde

 

Arménio Losa (1908-1988 ) / Cassiano Barbosa (1911- 1998)

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“As quatro funções do Urbanismo são teoria ainda não aceite oficialmente em Portugal. (...) A construção baixa, a sementeira de arruamentos, a pulverização da propriedade, o alastramento das cidades sobre o território que as cerca, a ocupação total do solo, o afastamento para grandes distâncias das áreas rurais, o isolamento ou a desordem dos estabelecimentos industriais, são hoje ainda as bases em que assenta o Urbanismo em Portugal” Arménio Losa 1948

O Bloco da Carvalhosa 1945/50

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O Bloco da Carvalhosa insere-se numa rua “histórica” e de edificação consolidada, a rua da Boavista,  e os arquitectos  projectam  por isso um deliberado recuo face ao tradicional alinhamento da rua, diferenciando-o assim da envolvente e, desse modo, criticando a rua-corredor.

“O edifício afasta-se do alinhamento existente crian­do um espaço de transição que simultaneamente lhe diminui a presença do tráfego e o assinala desligando-o das outras construções.” Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988 

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A zona no levantamento de 1948

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“A entrada é marcada pela existência de um grande vão que permite a leitura do átrio; naquele se insere um pórtico revestido com pedra, a emoldurar a porta principal.A racionalidade da organização dos fo­gos, considerando, entre outros, os factores de insolação, impõe que as zonas de serviço das habitações sejam voltadas para a rua; assume--se esta situação, embora cuidando de lhes di­minuir a presença, pela adopção de uma fenestração reduzida, praticada no paramento central da fachada, elemento de grande força a ligar a construção ao terreno. As zonas de refei­ções e estar formam um espaço contínuo e abrir-se-ão francamente, tanto a norte como a sul. Do lado do arruamento estes amplos envidraça­dos sublinham a intenção de separar o edifício dos que lhe são contíguos. Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988

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foto dos anos 50 in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972

“A entrada é ligeiramente elevada em relação ao nível da rua, de modo a assegurar iluminação para a cave. (…)A porta de entrada recorta-se numa expressiva moldura saliente de cantaria, que assinala e permite a leitura do grande átrio, tratado com a riqueza espacial de um ambiente sofisticado, uma imagem de prestígio civilizado, onde se desenvolve uma belíssima escada helicoidal, solta da estrutura, sob o fundo luminoso do pano de tijolo de vidro a definir o saguão interior, numa magnífica ambiguidade na relação interior-exterior.”  Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997

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“Um vasto saguão permite a iluminação e ventilação dos compar­timentos secundários da zona íntima, sem que haja devassamento entre habitações. Em cada fogo um solário limitará esse saguão, proporcio­nando uma zona suplementar de estar ou tra­balhar, desde a qual se controlará o espaço destinado ao recreio das crianças, ao nível do terreno, junto das garagens.” Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988

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“A fachada articula-se em dois planos: o central, maciço, de alvenaria — onde se desenham as aberturas das zonas de serviço e se marca a entrada com um grande vão transparente — liga-se fortemente ao terreno através do contraste da relação do plano mais recuado, completamente transparente, com a estrutura apenas assinalada que corresponde à zona da sala. A junção dos dois planos é genialmente protagonizada pelas varandas em comprimento que ligam os dois pontos com uma forma em leque que se desprende, nas finíssimas guardas de ferro, da fachada.” Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997

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Mas é na proposta de organização interna dos fogos, quer pela (polémica) colocação da zona de serviços voltada para a rua, quer propondo uma zona comum de estar e jantar, que o projecto tem um carácter renovador, pretendendo mais do que responder a um programa, propor uma moderna forma de vida e uma utilização racional do alojamento. O esquema é funcional porque separa as funções de habitar em duas zonas: zona comum e de serviço viradas a norte e zona íntima a sul. E ainda porque se preocupa com o ruído da rua fazendo recuar em relação à rua o edifício.

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“Ao fundo do logradouro, um bloco horizontal abriga uma correnteza de garagens cobertas por um terraço-solário a que se acede por uma cinética escada de caracol, que transforma um comum "quintal" num espaço de utilização civilizada e moderna”  Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997

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Bloco da Constituição 1953

O Bloco da Constituição foi construído numa rua aberta nos anos 40 e que era o prolongamento da rua da Constituição (hoje rua Carlos Malheiro Dias).  Assim, embora o edifício quando da sua construção não confrontasse com outros edifícios fazia parte de um projecto de conjunto da CMP de edificação ao longo da rua.

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A zona no levantamento de 1948

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“Trata-se de um edifício cuja fachada principal está voltada a norte e por isso as fenestrações são de pequenas dimensões e inseridas num pano de parede contínuo que aparece ritmadamente perfurado, tal como na solução adoptada no edifício da Carvalhosa.” (Sérgio Fernadez op.cit.)

Uma cornija remata a fachada norte do edifício escondendo da rua a cobertura inclinada de telha.

Apesar da visibilidade da estrutura de suporte esta assenta em  " pilotis ",  reduzidos apenas a uma imagem meramente formal.

“O edifício solta-se do solo através de um plano ligeiramente recuado, tratado na composição como um lambril correspondendo às aberturas da cave e do primeiro piso, sobreelevado, onde se abrem longas fenestrações em comprimento entre os pilares de marcação da estrutura, e preenchidas entre elas por um pano ondulado de molde em “lusalite”. (Ana Tostões op. cit.)

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foto dos anos 50 in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972

O edifício ainda isolado sem construções contíguas

“Embora, respeitando o alinhamento das construções contíguas esta grande massa liberta-se daquelas pela introdução dos envidraçados que, abrangendo toda a altura do edifício, iluminam as escadas.” (Sérgio Fernandez op.cit.)

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“O primeiro piso de habitação, ligeiramente sobre elevado em relação ao passeio, é tratado de modo particular; a estrutura aparece marcada , quer pelo seu volume quer pelo uso de material diferenciado; as aberturas, mais recuadas, ganham acentuada horizontalidade, abrangendo a largura total dos módulos.” (Sérgio Fernandez op.cit.)

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Alfredo Viana de Lima (1913- 1991)

“É pela criação de uma nova habitação, habitação que represente o espírito da segunda era da Civilização Maquinista, onde se facilite o repouso dos gestos e dos movimentos, onde cada um tenha o seu canto, onde haja intimidade, simplicidade e beleza, que nós, Arquitectos, utilizando todos estes princípios fornecidos pela adaptação das formas e dos espaços devemos pugnar (...)dar aos homens alegria e optimismo e às cidades, vilas e aldeias a forma radiosa proposta pela Carta de Atenas.”

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O Bloco de Costa Cabral 1953.

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A zona no levantamento de 1948

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O projecto inicial previa a construção de 4 blocos de habitação colectiva, aproveitando ao máximo os condicionalismos do local de modo a que todos tivessem as mesmas vistas e a mesma insolação. A organização volumétrica dos blocos baseava-se em regras racionalistas, articulando-se edifícios altos com construções baixas, na tentativa de organizar um lote largo, profundo e irregular

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No limite seria um edifício tipo que se reproduziria conforme a dimensão dos quarteirões.

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O Bloco de rés do chão e 5 pisos e um recuado na cobertura, apresenta uma fácil apreensão da estrutura.

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O edifício recuado em relação à rua e separado desta por uma zona ajardinada apresenta uma entrada enfatizada pela grande pala assente num pilar central.

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O edifício que com o recuo do rés do chão procura ter uma leitura de um bloco de 5 pisos assente em pilotis os quais suportam uma viga que corre ao longo de todo o edifício, e onde estão marcadas as vigas transversais da estrutura. De notar a solução encontrada para os pilares dos cantos, com um capitel que soluciona o encontro das fachadas.

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O edifício apresenta-se como um bloco de 5 pisos assente em pilotis. A cobertura em “asa de borboleta”, solução na época muito em uso.

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Ao centro da fachada norte a caixa de escadas é marcada por panos de blocos de vidro, separados da estrutura por um elemento constituído por dois painéis fixos e uma janela de ventilação.

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Tratamento modulado alterna os panos de tijolo de vidro com panos de tijolo maciço onde se abrem em comprimento as aberturas e as varandas.

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Revestimento das fachadas em alvenaria de tijolo maciço, com as varandas em betão.

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As 4 frentes do bloco são utilizadas, o que mostra a intenção de obter insolação e ventilação.

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O corredor de distribuição pelas suas dimensões pretende evocar a “rua-interior” da Unité d’Habitation de Marselha. Funciona um átrio alargado onde está implícita a ideia de espaço colectivo e de interacção social proposta pelo Movimento Moderno.

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Num piso-tipo do bloco articulam-se 2 T1, 2 T3 e 1 T2 (apenas no terraço existem dois fogos).

Tende-se a diferenciar, com rigor, a zona comum da zona privada, a área diurna da área nocturna.

Contudo, o espaço de estar, de comer, de confecção de alimentos tende a uma aproximação funcional, adoptando-se a noção moderna de sala comum.

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A construção é racionalizada ao pormenor. Tudo é pensado com armários encastrados, como uma célula mínima de um navio e portas de correr que funcionam como elementos que contribuem para uma flexibilidade espacial.

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 Mário Bonito (1912-1976) Rui Pimentel (1924-2004)

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“O bloco de habitação é uma realidade dos nossos dias; ele encarna o poder realizador da técnica actual, porque ele é em si, produto das necessidades materiais e espirituais do Mundo novo”  Tarefas do Arquitecto – Congresso Nacional de Arquitectura 1948

Edifício Ouro 1950

Mário Bonito projecta  o edifício Ouro, talvez o mais seguro e mais racionalista dos edifícios desta fase da arquitectura portuguesa, quer pelo sentido de “habitação colectiva” - elemento gerador de toda a concepção - quer pela organização interna dos fogos, modulados e de uma grande flexibilidade de utilização, quer ainda pela procura de uma nova forma de habitar, com acessos feitos por terraços e galerias, como espaços naturais de encontro e convívio.

Também este Bloco se insere num troço em edificação de uma rua tradicional do Porto, a rua Fernandes Tomás.

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A zona no levantamento de 1948

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Os arquitectos concebem por isso, um edifício em que o primeiro piso de comércio, respeita o alinhamento dos edifícios contíguos, e criam um terraço onde assenta um bloco de habitação com primeiro piso de serviços recuado e 4 pisos de habitação rematados por um terraço com um recuado.

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foto dos anos 50  in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972

O edifício é “separado” dos prédios contíguos pelo recuo criando empenas revestidas com tijolo (solução semelhante ao Bloco de Costa Cabral) e pelas duas caixas de escadas envidraçadas, que dão acesso às galerias de distribuição, numa solução utilizada no Porto pela primeira vez.

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As caixas de escada colocadas no topo do edifício dão acesso a galerias de distribuição, do lado sul e colocadas simetricamente. Cada galeria dá acesso a três apartamentos.

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A fachada norte simétrica é modulada e onde as varandas criam um rito horizontal contrastando com a verticalidade das caixas de escada e das zonas de serviço.

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Uso de volumes, planos e formas geométricas com avanços e recuos, com longas varandas em comprimento na composição das fachadas

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As guardas das varandas são abertas até ao nível do solo, na preocupação de Mário Bonito, assumida no Congresso, com as crianças e o seu uso da habitação.

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foto IHRU-DGEMN

Nas zonas de serviço é utilizada uma grelha de betão.

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O desenho dos pormenores revelam grande rigor e destacam a qualidade arquitectónica da obra

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A intersecção entre os planos verticais com os planos horizontais

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A valorização da estrutura (pilares e vigas)

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José Carlos Loureiro (1925)

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O Edifício Parnaso 1954/57

O conjunto implanta-se no gaveto das ruas de Nossa Senhora de Fátima e Oliveira Monteiro. Aquela, a antiga rua das Valas, uma das radiais da Rotunda da Boavista, com um perfil de maior dimensão e com uma edificação dispersa, e de acumulação de várias tipologias: conjuntos à face da rua, habitações unifamiliares, habitações geminadas e prédios de rendimento.  Esta, de edificação consolidada pois correspondia, na época, à saída do Porto para Viana do Castelo.

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A zona no Levantamento de 1948

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O programa compreende Habitação, comércio e a Escola Parnaso.

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“Uma série de volumes escalonados na implantação e na altura articulam de um modo orgânico o gaveto para uma rua de menores dimensões, de modo a fazerem a transição de escala. “ (Ana Tostões- op.cit.)

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foto IHRU-DGEMN

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A caixa de escadas toda envidraçada, surge como um elemento solto do edifício, como se de uma escultura se tratasse. Ajuda a formar o gaveto na medida em que surge como um elemento de transição entre o bloco da rua N.ª Sr.ª de Fátima e as habitações da Rua Oliveira Monteiro.

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“O afastamento do edifício da Rua Nossa Senhora de Fátima, a que se acede por uma bem marcada passerelle suspensa, permite a criação de um belíssimo espaço de jardim, artificialmente tratado em plataformas e planos poeticamente articulados, tornando térreo o piso abaixo do nível da rua ao mesmo tempo que se acerta a cota com o antigo jardim, existente na zona mais interior do lote, para onde são voltadas as habitações, ao invés da galeria de distribuição do lado da via de tráfego.”  (Ana Tostões- op.cit.)

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foto IHRU-DGEMN

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A fachada já não é modulada com grelhas, mas trabalhada tridimensionalmente na relação do volume marcante da caixa de escada envidraçada, com a horizontalidade protagonizada pelo corpo principal, com galerias abertas graficamente numa pequena alheta quadrada.(Ana Tostões- op.cit.)

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As edificações que abrem para a rua Oliveira Monteiro, tem no rés-do-chão um estabelecimento comercial e no piso superior habitação, numa tipologia frequente no século XIX portuense.

O Bloco tem seis pisos na Rua Nossa Sr.ª de Fátima. O primeiro a um nível inferior ao da cota da rua, onde está instalada a Escola de Música. Os três seguintes organizam-se em fogos de tipologias T2 e T3 com acesso por galeria do lado norte. Os dois últimos pisos constituem uma única habitação em duplex, destinada  ao Director da Escola.

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A galeria de acesso aos apartamentos

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Planta do R/C

Na organização dos fogos é de salientar que a área do T3 é igual à área de dois T2.

Na ordem de distribuição da galeria, primeiro aparece o T3 e só depois os T2.

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Planta do piso 1

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zona de acessos  zona de estar zona íntima

O Bloco tem uma estrutura de 6,85 metros por 8,75 metros.

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Passagem do Pátio da Rua Nossa Senhora de Fátima, para o pátio interno do lote.

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O Pátio-Jardim interior

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foto IHRU-DGEMN

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foto IHRU-DGEMN

“O jogo dos materiais aplicados, o tijolo, a alvenaria pintada, o mosaico vidrado, a pastilha de "evinel", aliados à concepção de um conjunto volumétrico de grande rigor, desenhado e controlado ao pormenor…”  (Ana Tostões- op.cit.)

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Pereira da Costa (1923 –?)

(Nota – Sobre o Bloco da praça Afonso V consultar: Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar, ed. ASA, Porto 2003, de onde são retiradas as excelentes fotografias de Luís Ferreira Alves)

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Pereira da Costa e a Maquette do bloco de D. Afonso V in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

Edifício na praça D. Afonso V 1953

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“(...) Num edifício, cuja arquitectura fosse actual, conseguir o máximo apro­veitamento de espaço, optando pelo desenvolvimento dos andares em habi­tações.

(...) Sobreposição de volumes, jogo de luz e sombra, a escolha dos elemen­tos de composição, os materiais modernos, a cor, em conjugação e harmo­nia, determinam uma expressão estética, sentida através da observação do conjunto.

(...) deixamos vincado o que, como arquitectos, com emoção sempre deve­mos tentar conseguir: que as nossas obras reunam as condições básicas que contribuem para uma existência de alegrias essenciais.” F. Pereira da Costa – Memória descritiva e justificativa do Projecto

O edifício de habitação na Praça D. Afonso V, de Francisco Pereira da Costa, corresponde ao projecto apresentado em 1953 como C.O.D.A. (Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto).

O Bloco insere-se na zona ocidental da cidade, a norte da Avenida Marechal Gomes da Costa, aberta nos anos trinta, à época ainda pouco edificada mas onde se desenvolverão habitações unifamiliares. O Bloco de Pereira da Costa irá, com o Convento Dominicano de Cristo Rei conformar a praça Afonso V.

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A zona no levantamento de 1948

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“Trata-se de um extenso bloco com nove fogos por piso, servido por um único acesso vertical, escultoricamente assumido como um corpo separado do edifício que dá acesso à galeria de distribuição. O tratamento modulado das fachadas, com longas varandas em comprimento quebradas pela presença alternada das superfícies de grelha cerâmica de forma quadrada, a coragem e a alegria da aplicação de cores fortes e puras, a concepção inovadora do átrio de entrada como um espaço dinâmico e provocador, nos jogos dos planos dos tectos inclinados, nas cores e na iluminação empregues, no volume expressionista da escada helicoidal que, solta da estrutura, é o elemento centralizador do espaço, permitem entender o sentido panfletário e a carga revolucionária da geração que acabava de se formar…”(Ana Tostões op. cit.)

De facto o Bloco de Afonso V é o que plasticamente mais valoriza as concepções racionalistas do Movimento Moderno, na legibilidade da estrutura, na utilização da cor, na relação entre o interior e o exterior e na sua concepção de unidade autónoma.

O Bloco de rés-do-chão e três pisos, possui 9 apartamentos por piso, (sendo que o 2º e 3º pisos correspondem a fogos em duplex), a que se acede pelo lado nascente, por uma caixa de escada central e separada do edifício que comunica com as galerias  de distribuição.

O Bloco assenta em pilotis que formam um pórtico que faz a transição entre a entrada, os estabelecimentos comerciais (com sobreloja) e a praça.

A estrutura e a modulação do edifício é claramente legível na fachada poente já que os pilotis tem correspondência nos pisos, onde uma estrutura avançada formada pelas varandas e pelo brise-soleil estabelecem a modulação do edifício.

Nas fachadas laterais uma janela central ocupa os dois últimos pisos, e ilumina a escada das habitações em duplex. O terraço possui elementos decorativos.

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Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

Rés-do-chão com os estabelecimentos comerciais, o pórtico, o acesso às habitações e a habitação do porteiro.

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Piso1

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9 T2, com sala abrindo para galeria e acesso ao terraço inferior, cozinha abrindo em balcão para a sala e com uma pequena marquise, banho e dois quartos com varanda para a Praça (nascente)

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Piso 2 piso inferior dos nove duplex

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Piso 3 - piso superior dos nove duplex

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9 Duplex com:

  • no piso inferior sala voltada a nascente, escritório, cozinha com uma pequena marquise, e W.C.
  • no piso superior sala de banho dividida e quatro quartos
  • terraço superior

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Alçado poente

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detalhe do alçado poente com sombreado num dos módulos

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Alçado nascente

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O Bloco do lado nascente notando-se a clareza da modulação estrutural.

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Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

A caixa de escada com as passereles para a galerias e o terraço inferior. Repare-se na marcação da estrutura através de pilares que se soltam da prede nos segundo e terceiro pisos.

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Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

A galeria e o acesso às habitações

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Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

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Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003

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Fernando Távora (1923-2005)

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“Sendo exacta a relação entre a Arquitectura e as suas condicionantes (e esta exactidão é a condição única da modernidade) serão diferentes as manifestações da Arquitectura na medida em que as referidas condicionantes a seguem. A Arquitectura moderna não é um estilo, mas o resultado de uma atitude .”

Unidade Residencial de Ramalde 1952/60

Será Fernando Távora quem irá ensaiar, pela primeira vez, os princípios que os arquitectos da ODAM e da ICAT, tanto haviam reclamado no Congresso, ao projectar o Bairro de Ramalde, primeira grande operação de habitação social promovida pela Câmara Municipal do Porto.

“O plano foi executado tomando em conta dois projectos existentes (baseados no Bairro de Alvalade, o supra-sumo para a al­tura) e que se não integravam num esquema geral. Procurou-se então dimensioná-lo para permitir um mínimo de vida própria; o trá­fego mecânico ia perdendo em importân­cia à medida que se aproximava dum eixo central de peões, ligando as casas, o par­que e o centro comercial. O equipamento era bastante desenvolvido e a orientação das fachadas a melhor possível - o que agravou um condenável geometrismo já condicionado pelo volume dos edifícios pre­viamente projectados e dos quais se intro­duziram apenas algumas alterações. Passei ali alguns dos grandes momentos da minha vida profissional... Depois, a Câmara não fez as plantações previstas; os edifícios  pú­blicos e o parque não se realizaram; a enti­dade promotora do empreendimento não tornou possível a revisão dos projectos para a 2.a fase (que agora se terminou, apenas com uma nova disposição dos edifícios, co­bertura de telhado e revisão da coloração das fachadas); a estrutura viária preconi­zada está comprometida como esta 2.a fase ocupa o local da Escola pré-primária. O des­leixo nos espaços livres continua e a Federação das Caixas de Previdência pa­rece não construir novos programas porque o custo dos terrenos teria ultrapassado as possibilidades”. F.Távora 1960 (in Fernando Távora – ed. Blau, Lisboa 1993)

O Bairro de Ramalde foi implantado numa zona então periférica e pouco edificada da cidade, junto à avenida da Boavista e à Avenida Antunes Guimarães.

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A zona da Fonte da Moura/ Ramalde no Levantamento de 1948

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A natureza da operação colocava problemas de concepção urbanística e de economia de meios, que Távora procurou resolver segundo os princípios da Carta de Atenas - numa concepção que lembra ainda os "Siedlungen" alemães de entre as duas guerras - numa malha regular de blocos paralelepipédicos e iguais.

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Os blocos implantam-se num esquema viário hierarquizado, onde os percursos pedonais e os espaços verdes intercalares entre as construções são pensados como espaços verdes ajardinados.

O bloco de três pisos, simétrico, numa solução de direito/esquerdo com um acesso central, assente num soco de granito é valorizado plasticamente pela saliência das varandas e pela pala quebrada que destaca a entrada. A cobertura é plana.

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in Esposito, Antonio - Fernando Távora : opera completa,Milano, Electa, 2005.

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A cuidada pormenorização de cada elemento: caixilharias em madeira, caixas de correio, soleiras, etc.

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A caixilharia do patamar das escadas.

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O alçado posterior.

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Os fogos - em que não foi esquecida a investigação da “Existenzminimum” dos CIAM - são rigorosamente organizados de modo a reduzir as áreas à sua expressão mínima por economia, mas sem por isso perderem qualidade de vida.

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O Bairro de Ramalde constituiu, de facto, a primeira (e diria a melhor) operação de habitação social da Câmara Municipal do Porto, em bairros organizados segundo a Carta de Atenas. Seguir-se-á a partir de 1956 o Plano de Melhoramentos, tema da II Parte.

_________________________________________

(1) Muito se tem escrito sobre este plano. Eis alguma bibliografia:

LOBATO, Luís Guimarães e FARINHA, Manuel Brazão (1946); Construção de Casas de Rendas Económicas - Condições Gerais, CML, Lisboa Fevereiro 1946.

LOBATO, Luís Guimarães (1951); "A Experiência de Alvalade" in Separata da Técnica, Revista de Engenharia, nº209-210, Instituto Superior Técnico, Lisboa 1951.

TOSTÕES, Ana (1994), "O Bairro de Alvalade" in MOITA, Irisalva (Ed.), O Livro de Lisboa, Lisboa, Livros Horizonte,

ALEGRE, Alexandra Nave et al (1999), "A Reabilitação das Casas de Rendas Económicas das Células I e II do Bairro de Alvalade" in Urbanismo, Boletim da Direcção Municipal de Planeamento e Gestão Urbanística, Câmara Municipal de Lisboa, ano 2, n.º6, pp. 10-15

ALEGRE, Alexandra Nave et al (1999), Estudo de Diagnóstico de Consulta e Apoio à Reabilitação das Casas de Rendas Económicas das Células I e II do Bairro de Alvalade, Dissertação de Mestrado em Construção, Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa

CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA (1948), A Urbanização do Sítio de Alvalade, Lisboa, Edições CML

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