Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um pouco mais sobre A Grande Ponte que fez cidade

Ao visitar a 3ª exposição intitulada RESENDE, Sinais do Modernismo no Porto – anos 50, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, um conjunto de excelentes e necessárias exposições organizadas e comentadas pelo professor Bernardo Pinto de Almeida, encontrei mais um quadro em que surge a ponte Luiz I, do mestre Júlio Resende.

Estas exposições - numa feliz e justa iniciativa da Fundação - realizam-se num momento em que sobre os pintores do Porto, - alguns deles recentemente desaparecidos [1] e que no século XX construíram e lutaram pela Arte Moderna, - caiu sobre eles, desde que morreram, um estranhíssimo silêncio como diz Eugénio de Andrade sobre o poeta Pedro Homem de Mello.

E assim, perante o quadro de Júlio Resende voltei até á ponte sobre o Douro, onde, vendo lá em baixo as aguas barrentas do rio fugir arrastadas pela rapidez da corrente, me esqueci por largo tempo. Oh a natureza e a arte, as grandes fontes de onde jorram para as nossas almas cançadas caudaes de emoções consoladoras! [2]

Um apontamento sobre o quadro de Júlio Resende

A única regra que tenho é a de que começo com o instinto. Júlio Resende [3]

ponte0003fig. 1 - Júlio Resende. Ribeira, 1952. Óleo s/ tela 73 x 92 cm. Col. Particular. Em exibição na Exposição Resende, Fundação Dr. António Cupertino de Miranda Porto. Fotografia de José Eduardo Cunha no catálogo.

Resende pintou nos inícios dos anos 50 este quadro [4] da Ribeira que tão bem conhecia e frequentava e cuja gente tanto amava, Gente que deixa em nós a marca granítica da sua alma rude e transparente, mostrando aquilo que é, exactamente como a terra que lhe foi berço. [5]

O quadro, um pouco inquietante pelo sentido de solidez que transparece nos seus contornos acentuados, é uma pintura marcadamente expressionista (Eu sou expressionista? Sei lá. É o que dizem [6] ) numa vaga lembrança de Rouault [7] que nos provoca uma estranha sedução, pelo modo como é retratada uma imagem que nos é familiar, que atinge a nossa memória mais íntima, e os refúgios mais secretos da nossa alma de portuenses... onde têm raiz todas essas árvores de maravilha / cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos. [8]

No primeiro plano três vendedeiras da Ribeira do Porto, mulheres envelhecidas muito antes de serem velhas, [9] duas sentadas junto das suas bancas e uma terceira de pé entre as duas, retratadas numa estilização entre o figurativo e o abstracto que Resende utilizará nesta fase e que marcará (quase) toda a sua pintura.ponte0004fig.2 – Detalhe da imagem anterior.

Ao fundo a Ribeira de Gaia pintada numa luz crepuscular quando a noite vem, em que ogigantesco desenho da ponte se lhe debuxava agora à esquerda, com o seu arco imenso meio afogado no nevoeiro, [10] sobre a ponte o convento da Serra do Pilar.  ponte0005fig. 3 – Detalhe da fig. 1.

À direita sob um renque de árvores sem folhas, o casario de Gaia pendurado sobre o Douro, que aliás, apenas se adivinha. ponte0006fig. 4 – Detalhe da fig. 1.

Todo o quadro é tratado de uma forma a expressar as qualidades da pintura, com cores de terra onde se abrem brancos e azuis, em pinceladas largas e espessas, ou no dizer do próprio artista o acontecimento é mesmo na superfície da tela. [11]

Assim resta perguntar com o poeta:

Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra? [12]


[1] Fernando Lanhas, Nadir Afonso, Júlio Resende, Ângelo de Sousa, …

[2] Ribeiro Arthur A Galeria de S. Lazaro Porto, 21 de outubro de 1891 in Arte e Artistas Contemporâneos. pag.187

[3] Entrevista a Carlos Vaz Marques Diálogo V, in Catálogo da exposição retrospetiva de Júlio Resende. Sociedade Nacional de Belas Artes Lisboa 2006.

[4] A Ribeira de Resende culminará no painel cerâmico Ribeira Negra concebido em 1984, e inaugurado em 1987, que nas palavras de Eugénio de Andrade é o magnificente historial da miséria e da grandeza da população ribeirinha do Porto. (ver nota [9])

[5] Júlio Resende, Pulsar do Granito, Ribeira Negra. Porto: Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, 1998. (p.3-5).

[6] Júlio Resende. Entrevista a Anabela Mota Ribeiro Diário de Notícias em 1999.

[7] Georges Henri Rouault (1871-1958) cuja pintura Resende deverá ter conhecido na sua estadia em Paris nos anos do pós-guerra.

[8] Álvaro de Campos, Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente) 30-6-1914, [441] in Fernando Pessoa, Obra Poética, Volume Único, Rio de Janeiro, GB, Companhia Aguilar Editora, 2.ª edição, 1965. (pág.312).

[9] Eugénio de Andrade A Cidade de Garrett, Fundação Eugénio de Andrade, Porto 1993.

[10] José Régio Evasão, A Velha casa I Uma Gota de Sangue, 1ª edição, Lisboa, Editorial Inquérito, 1945, e 2ª edição revista, Lisboa, Portugália Editora, 1961.

[11] Júlio Resende.Entrevista a Carlos Vaz Marques Diálogo IV Catálogo da exposição retrospetiva de Júlio Resende. Sociedade Nacional de Belas Artes Lisboa 2006.

[12] António Ramos Rosa a rosa esquerda. Colecção Caminho da Poesia, Editorial Caminho,1991.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Dia de Reis

Em Dia de Reis, apresenta-se uma  iluminura das Très Riches Heures du Duc de Berry, intitulada La Rencontre des Trois Rois Mages. É uma bela composição em que cada um dos reis chega de uma direcção diferente. No canto superior esquerdo uma vista de Paris onde se destacam a Sainte-Chapelle e Notre-Dame.
A cena representa a história dos Reis Magos  segundo São Mateus (2, 1-2): 1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. 2 E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.
cite8fig. 1 - Frères Limbourg. La Rencontre des Trois Rois Mages, 1416, miniature enluminée, Très Riches Heures du Duc de Berry, folio 51v.Chantilly, Musée Condé.
Embora na Bíblia nada o indique, cedo se convencionou que seriam três os reis vindos do oriente: Melchior ou Belchior, o ancião trazendo o ouro, Baltazar de meia-idade trazendo a mirra, e Gaspar o jovem trazendo o incenso. Na iluminura estão representados como vindos de diferentes direções, dando-se o encontro junto a um marco ornamentado, que aliás, centraliza a composição.

No canto inferior direito, montando um soberbo cavalo branco, empunhando um ceptro e tendo à cintura um sabre - símbolos de autoridade e liderança - Melchior (Belchior) com uma barba branca indicando a sua avançada idade. Está rodeado pelo seu séquito trajando à oriental, com turbante e sabre. Junto a eles um urso lembra o emblemático animal de Jean I, Duque de Berry (1340-1416), a quem se refere a obra. O urso figura também, aos pés da estátua jazente do seu magnífico túmulo, obra de Jean de Cambray (1375-1438), que se encontra na catedral de Bourges. 1

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fig. 2 – Detalhe da imagem anterior

Do lado esquerdo chega Baltazar, de barba negra também indicando a sua meia-idade, a cavalo, com o seu séquito onde algumas figuras montam camelos, acentuando que vêm do oriente. O leão que o acompanha lembra o emblema de João sem Medo, duque da Borgonha (1371-1419), e que figura aos pés da sua estátua jazentes e da mulher Marguerite de Bavière (1363-1423), no seu túmulo, de Jean de Marville (1381–1389), Claus Sluter (1389–1406) e Claus de Werve (1406–1410), hoje no Museu de Belas Artes de Dijon. 2
cite8efig. 3 – Detalhe da fig. 1
Gaspar vindo da direita alta, um jovem imberbe, comanda também o seu séquito, onde também figura  um camelo.

cite8ffig. 4 – Detalhe da fig. 1

No fundo uma representação de Paris (como Jerusalém), reconhecendo-se a Sainte-Chapelle, o Palácio, Notre-Dame e ainda a colina de Montmartre.cite10fig. 5 - Detalhe da fig. 1 com o panorama de Paris.
________
[1] Ambos os túmulos, obras-primas da escultura, são ornamentados nas faces dos sarcófagos com uma série de figuras encarapuçadas os “pleurants”. Os pleurants do primeiro destes túmulos da autoria de Jean de Cambray (cinco) e de Etienne Bobillet (activo em 1453) e Paul Mosselman (activo em 1453), estes executados já depois da morte de Jean de Berry, foram dispersos durante a Revolução Francesa, encontrando-se hoje os 35 que restaram, em vários museus e colecções particulares.


cite171fig. 6 - Paul Gauchery (1846-1925), Restituition du tombeau de Jean du Berry. In A. de Champeaux (1833-1903) et Paul Gauchery Les Travaux d’Art exécutés pou Jean de France Duc de Berry, H. Champion, Paris 1894.
jean6fig. 7 - O Urso aos pés da estátua jazente de Jean I, Duque de Berry.
cite179fig. 8 - JeanBobillet  (conhecido em 1453) e Paul Mosselmann (conhecido a partir de 1441-1467), Pleurant tenant un livre ouvert e Pleurant tenant un livre, d. 1450. Elementos do cortejo funerário do túmulo de Jean Duc de Berry, alabastro 39 x 14 x 12 cm. Museu do Louvre, Paris.

[2] O Túmulo de João sem Medo e Margarida da Baviera com os leões a seus pés.
cite175fig. 9 - Tombeau du duc de Bourgogne Jean sans Peur et de la duchesse Marguerite de Bavière. Dessin de G. Dubois, publié en 1748 dans l’Histoire de Bourgogne de Dom Plancher (t. III, p. 526).
cite176fig. 10 - Jean-Baptiste Lallemand (1716?-1803?). Tombeau de Jean Sans peur et de Marguerite de bavière - (duc de Bourgogne) aux Chartreux à Dijon, 178?,  Dessin à la plume et encre de Chine, aquarelle ; 15 x 21,7 cm. Chartreuse de Champmol (Dijon) Bibliothèque nationale de France.
cite142fig. 11 - Jean de Marville (1381–1389), Claus Sluter (1389–1406) e Claus de Werve (1406–1410), Túmulo de João sem Medo e Margarida de Baviera. Postal do início do século XX.
cite143afig. 12 - Jean de Marville (1381–1389), Claus Sluter (1389–1406) e Claus de Werve (1406–1410), Túmulo de João sem Medo e Margarida de Baviera. Museu de Belas Artes de Dijon.
cite177fig. 13 – O Leão aos pés da estátua jazente de João sem medo.
cite180fig. 14 - Pleurants du tombeau de Jean sans Peur à Dijon. Encre noir, lavis d’encre de Chine, lavis gris , pinceau, plume et sanguine. 12,6 x 30,5 cm. Museu do Louvre.
Nota final – Aproveitando o Dia de Reis , antecipou-se este texto sobre o Palácio de Justiça de Paris que faz parte da série Um Percurso por Paris do Segundo Império a publicar em breve.