Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 7 (3)

Parte V - O Jardim da Cordoaria de Émile David

O projecto de Edward Buckton Lamb, apesar da sua indiscutível qualidade não foi concretizado. Provavelmente porque no início dos anos 60 do século XIX a cidade e a Câmara Municipal estavam empenhadas na realização da Exposição Internacional Portugueza para a qual se construiu o Palácio de Cristal e os seus jardins, e ainda porque a proposta de Lamb teria um custo incomportável para as finanças da Câmara.
cd30fig. 35 - A Praça da Cordoaria na Planta de Perry Vidal de 1865.
Por isso Alfredo Allen (1828-1907), um dos promotores do Palácio de Cristal e que então ocupava o cargo de Vereador da Câmara Municipal, encarregou o prestigiado autor dos jardins do Palácio de Cristal o alemão Émile David (1839-1873), da elaboração de um novo projecto que foi apresentado e aprovado pela Câmara Municipal em 1865 e construído nos anos seguintes.
cd31fig. 36 – O Projecto de Émile David 1866. Apresentada à Câmara por Alfredo Allen. In O Tripeiro, 1910.
cd32fig. 37 - Cordoaria (Campo dos Martyres da Patria) na Planta de Telles Ferreira de 1892.
Deve referir-se que as transformações que contemporaneamente se realizam no Paris do Segundo Império com as intervenções de Jean-Charles-Adolphe Alphand (1817-1891), de arborização dos boulevards e a criação dos parques e jardins, tiveram também influência no ajardinamento da cidade do Porto.
Entre 1864 e 1867, para coincidir com a Exposição Universal de Paris que então se realiza, é criado o Parc des Buttes-Chaumond, que entre os jardins então realizados em Paris, e apesar da sua muito maior dimensão e da criação de relevos mais acentuados, tem algumas semelhanças com o contemporâneo jardim do Campo dos Mártires da Liberdade.
cd33fig. 38 - Adolphe Alphand, Parc des Buttes Chaumont 1867. Plan. In Les Promenades de Paris.
Neste jardim de Paris destacam-se alguns elementos que o Jardim da Cordoaria também apresenta: o jardim fechado por uma grade de modo a permitir a visibilidade entre o exterior e o interior; um lago com uma ilha; os rochedos formando a gruta e a cascata; as veredas serpenteantes; os bancos e as estátuas, e o chalet café-restaurante.
Como já se afirmou, na realização do Jardim da Cordoaria, Émile David (1839-1873) foi acompanhado por José Marques Loureiro (1830-1898), jardineiro e horticultor, proprietário do Horto das Virtudes e do Jornal de Horticultura Practica.
Este periódico onde civicamente participavam gratuitamente muitos cidadãos com a sua opinião crítica - que contava na construção da cidade - irá acompanhar entre 1870 e 1873, entre muitas outras referências à jardinagem e à horticultura, a construção do jardim.
Foi o seu redactor José Duarte de Oliveira Júnior (1848/1927) autor de diversas crónicas nesta publicação.
Em 1870 José Duarte de Oliveira Júnior, na sua Chronica do Jornal de Horticultura Practica após referir um conjunto de plantações no jardim adverte:
Muito folgaremos que o “Jardim do Campo dos Martyres da Pátria” continue a merecer a solicitude da municipalidade portuense e que o descuido, tão tenaz perseguidor de tudo o que é bom e útil entre nós, não invada aquelle terreno que tão vantajosamente pôde ser aproveitado em recreio para o publico e em interesse do desenvolvimento hortícola. [1]
Mas logo no ano seguinte o mesmo José Duarte Oliveira Júnior, cujos receios se revelaram fundamentados, escreve uma feroz crítica à actuação da Câmara no jardim, referindo duas cartas de leitores do Jornal de Horticultura.
Não se pode ver sem repugnância a triste transformação porque está passando o Jardim dos Martyres da Pátria, confiado a homens incompetentes, que poderão muito bem conhecer as exigências de um quintal burguez, mas que de modo nenhum compreendem os principios da horticultura nem as bellezas da jardinagem, arte sempre cultivada com esmero em todos os tempos.
Não ignoram os nossos leitores que o delineador do Jardim dos Martyres da Pátria foi o snr. Emilio David, distincto paisagista, e que deixou o seu nome gravado nos jardins do Palácio de Cristal.
O snr. Emilio David apresentou-nos um d’esses jardins de que a Inglaterra e a Allemanha nos offerecem o modelo, e cujas bellas irregularidades não são mais que uma perfeita imitação da natureza. A sua obra, porem, perdeu completamente o cunho que lhe soubera imprimir. Quem entra hoje no antigo largo da Cordoaria pensa que tudo aquillo é apenas um brinquedo de creanças.
Por todas as partes de aquelle recinto começarão provavelmente a surgir as famosas cabelleiras (perruques), que se encontravam nos jardins do tempo de Luiz XIV e de que nos fallam alguns auctores!
Nada porem mais feio e mais ridículo!
E' para sentir que a nossa Camará, ou o vereador a quem está incumbido o respectivo pelouro, não escolha um individuo, a quem sem vergonha se possa dar o título de “jardineiro dos jardins públicos do Porto.” Ninguém ignora que a principal, senão a primeira belleza de uma cidade, consiste no mimo de seus jardins.
São um elemento de recreio, e, o que é mais, um indispensável elemento de hygiene.
Pensávamos que o Jardim da Cordoaria viria satisfazer em parte uma exigência tão justa, mas vemos que perfeitamente nos enganamos. E' preciso que nos não envergonhemos aos nossos próprios olhos e aos olhos dos estrangeiros. O Porto é uma cidade que tem dado sempre signaes de vida e é por isso necessário que compreenda a civilisação n'aquillo que ella tem de mais útil e agradável.
Era abono da nossa opinião trasladaremos as duas seguintes cartas que ultimamente nos dirigiram dous respeitáveis cavalheiros. [2]

[Nota - Uma das cartas é de Ed.mond Goeze (1838 — 1929), responsável pelo Jardim Botânico de Coimbra de 1866, e do jardim da Escola Politecnica de Lisboa concebido em 1873 e inaugurado em 1878. A outra datada de 22 de Julho de 1871 é de Fulgêncio José Machado (?-?).]
Em 1873 também Joaquim de Carvalho Azevedo Mello e Faro, da Casa da Soenga situada em S. Martinho de Mouros no concelho de Resende, escreve para o Jornal de Horticultura Practica uma carta descrevendo o jardim e apontando alguns pormenores com que não concorda, sugerindo algumas soluções para o Jardim do Campo dos Martyres da Pátria.
N’este jardim, plantado ha poucos annos, ainda as plantas estão pouco desenvolvidas; o risco, e disposição d'elle são ao gosto moderno, e o jardineiro, que o delineou soube aproveitar muito bem a área d'este passeio, abandonando o antigo gosto dos jardins symetricos. As árvores, que orlam as avenidas principaes deviam ter menor distancia de umas às outras, para que assombrassem melhor os passeios, pois sendo este local desaffrontado, principalmente do lado do poente, fica muito exposto ao sol nas tardes do estio, que é sempre ardente até o seu occaso, privando os concorrentes de irem mais cedo gosar os divertimentos, que nas tardes de verão se facultam ao publico.
Esta arborisação deveria ser feita com árvores de folha caduca, para que no inverno não vedem aos passeantes o sol que n'aquella estação tanto se aprecia. Muito conveniente seria, demais d'isso, que os passeios fossem mais altos no centro (abaulados) porque d'esta forma as águas da chuva correm mais facilmente aos lados, e seccam com promptidão, não causando lamas.
Os canteiros deviam ter melhores relvas e ser guarnecidos de plantas próprias para bordaduras, como são: as Potentillas, Verbenas, Cinerarias, Violetas, e outras.
Ainda não possue este jardim grande variedade de plantas, e bom seria, que lhe plantassem arbustos escolhidos nas bellas collecções que hoje possuímos, e que prosperara perfeitamente ao ar livre. [3]


cd34fig. 39 – O Jardim legendado na planta colorida de 1892.
Legenda
Jardim
1 – Entrada sudoeste
2 – Entrada nascente
3 – Entrada pela Alameda do Olival
4 – Entrada norte
5 – Alameda nascente (dos plátanos)
6 – Coreto (Pavilhão de Música)
7 – Alameda sul (Passeio da Cordoaria)
8 – Chalet (Café Chaves)
9 – Lago
10 – Belvedere, gruta e cascata
V – Veredas
Envolvente
A – Hospital de Santo António
B – Quarteirão ainda existente (dito do Piolho)
C – Quarteirão demolido com a conclusão da Academia
D – Academia (hoje Reitoria)
E – Igreja de N. Sr.a da Graça
F – Mercado do Anjo
G – Largo do Olival
H – Tribunal e Cadeia da Relação
I – Casa de Thomas Sandeman
J - Igreja de S. José das Taipas (Capella das Almas)
K – Asilo dos Expostos
L – Mercado do Peixe
M – Quarteirão ainda existente


cd35fig. 40 - A estrutura viária do jardim em 1892.

O Jardim da Cordoaria (então oficialmente Campo dos Martyres da Patria), com um perímetro de cerca de 552 metros e uma área de cerca de 18 000 m2, mantinha do projecto de Edward Buckton Lamb alguns dos seus elementos embora desenhados de modo diverso.
O ambiente do jardim da Cordoaria na segunda metade do século XIX
O jardim rapidamente se converte no jardim da moda da burguesia portuense em detrimento do vizinho jardim do Palácio de Cristal, como recorda Firmino Pereira no seu O Porto d’Outros Tempos.
Mas, aberto o jardim que se destinava ao povo, logo dele se apossaram as elegantes do burgo, que o preferiram aos do Palácio, mais distantes e onde só se entrava, pagando. Aos domingos e dias festivos, e às quintas-feiras, à noite, o alegre recinto era tomado de assalto pela burguezia tripeira, que se apossava da avenida fronteira ao coreto. Os arruamentos abertos em volta do lago ficavam á disposição das costureiras, das creadas de servir, dos oficiaes de ofício, dos soldados da municipal. Eram territórios separados. E o que é deveras curioso é que, á entrada, cada um tomava o seu logar, como num teatro...

cd36fig. 41 – Os Jardins do Palácio de Cristal e da Cordoaria na planta de 1892.

E Firmino Pereira prossegue reproduzindo um texto em prosa rimada de um cronista (talvez ele próprio?).

Aí por 1870, um cronista faceto troçava do jardim e da gente fina que o frequentava na seguinte pitoresca página de prosa rimada, então muito em voga:
“A Cordoaria está uma bisarria! Não tem bucho nem repucho mas é o cartucho do luxo, o passeio do aceio, a estância da elegância. O lago é uma formosura d'agua pura em forma de ferradura, ha quem embirre com tal e julgue mal da esperteza municipal. Aos domingos, apesar dos pingos, acha-se repleto o jardim seleto da melhor roda, da gente á moda, da aristocracia genuína, do bom-tom, das botinas à Benoiton *, de paspalhões enfiados em jaquetões que deixam ver o que não se pôde dizer, de negociantes barrigudos dentro de enormes sobretudos, de soldados espartilhados, de damas com vestidos de escamas e enormes penteados que parecem esguedelhados, cintas de dedal, tacões de metal, chapéus de general, etc. e tal…
Quem gosta de tafularia ** vae á Cordoaria! Quanto a chapéus, enchem trinta museus. O chapéu Margarida (obra garrida) é muito elegante. O rapazio chama-lhe tunante***. Como mais louçã é a pluma á Buridan ****. O chapéu Napoleão primeiro é um tanto guerreiro mas tem o ar feiticeiro. Parece um tinteiro. O tirolez já vae sendo burguez mas é lindo duma vez, o Patty c'est bien joli.”


[Notas sobre o texto:
*Botinas à Benoiton - Moda francesa do Segundo Império, criada a partir dos trajes das personagens da peça de teatro La famille Benoiton, comédia em 5 actos de Victorien Sardou (1838-1908). Representada em Paris no Théâtre du Vaudeville em 1865.
cd37fig. 42 - M.lle Manvoy, no papel de Jeanne na peça de teatro La famille Benoiton, de Victorien Sardou (1838-1908). Litografia cor 20 x 14,5 cm. Estampa 931 de Galerie dramatique, edição Hautecoeur frères, 1965. BnF.
** tafularia - exuberância, exagero, janotice.
*** tunante - malandro, tratante.
**** a pluma á Buridan - Buridan é uma personagem da peça La Tour de Nesle de Alexandre Dumas e Frédéric Gaillardet (1808-1882) representada em 1832 em Paris, trajando à moda do século XIV com um chapéu de pluma.
A personagem é baseada em Jean Buridan (1300-1358) um filósofo medieval cuja lenda diz ter sido lançado ao Sena por denunciar os escândalos da corte.
A peça La Tour de Nesle (1832) surge em Portugal referenciada no Archivo Theatral ou collecção selecta dos mais modernos dramas do Theatro Francez 1838, com uma tradução do Conde de Farrobo e terá sido representada no Teatro da rua dos Condes entre 1835 e 36.
Também o poeta François de Montcorbier ou François des Loges conhecido como François Villon (1431-desaparecido em 1463) no conhecido poema Ballade des Dames du temps jadis, refere Buridan:
Semblablement où est la reine,
Qui commanda que Buridan
Fût jeté en un sac en Seine
Mais où sont les neiges d'antan?


Este poema é sobretudo conhecido por ter sido magistralmente musicado e cantado por Gerges Brassens (1921-1981).]


***** o Patty c'est bien joli. Refere-se à grande cantora lírica Adelina Patti (1843-1919), e aos chapéus que usou em palco ou fora dele.
cd38fig. 43 - Friedrich August von Kaulbach (1850-1920) Retrato da cantora Adelina Patti 1871, óleo s/tela 58 x 47 cm.Col. particular.

Em 1872 eram publicitados Chapéus Modelos acabados de receber de Parisno jornal O Commercio do Porto.
cd39fig. 44 - O Commercio do Porto de Terça-Feira 26 de Outubro de 1872


Recorrendo a uma pintura de Adolph Menzel, de 1867, podemos observar o ambiente de um jardim público em Paris no Segundo Império, e imaginar o que poderia ser o jardim da Cordoaria nos anos 70 do século XIX.
Aqui também do lado esquerdo as classes sociais menos favorecidas e à direita, ao longo da alameda, a burguesia triunfante e endinheirada do Segundo Império.
cd40fig. 45 - Adolph Friedrich Erdmann von Menzel (1815-1905), Après midi au Jardin des Tuileries 1867 óleos/tela 49 x 70 cm. National Gallery Londres.


E Firmino Pereira no seu texto lembra ainda que a …Cordoaria foi, efetivamente, o jardim do bomtom. Ruidoso e festivo nos dias de descanso, à semana outro era o seu aspeto, e esse indubitavelmente mais interessante. Pela avenida principal, ao resto das tardes estivaes, apareciam, para um cavaco ameno, as figuras de mais notoriedade e destaque do burgo portuense. (…) Velhotes bem jantados, o colete desabotoado, alastrados pelos bancos contavam as suas vidas, sob o verde docel dos olmos. Literatos e jornalistas discutiam arte, politica, teatro, mulheres, despejando copos de cerveja.

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fig. 46 - Honoré Daumier (1808-1879) Les buveurs de bière, 28 x 37 cm. Bei Camentron Paris in Erich Klossowski, Honoré Daumier. R. Piper & co., Verlag München 1908.
E Firmino Pereira finaliza:
E quando a sineta tocava, ao bater das Trindades, todos se erguiam e lentamente se retiravam, no regalo duma digestão bemfeita e duma alegre e divertida cavaqueira. [4]


Na versão de Daumier.
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fig. 47 - Honoré Daumier Les Parisiens 1852.
Ou na versão de Rafael Bordallo Pinheiro.
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fig. 48 – Rafael Bordallo Pinheiro ( 1846-1905), em O António Maria, de 11 de Março de 1880, n.os 31 a 83,(pág.92).

[1] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1870. (Vol. I, pág.30).
[2] José Duarte de Oliveira Júnior, Jardins Publicos in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1871. (Vol.II, pág. 160 a 162).
[3] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[4] Firmino Pereira, Sócio correspondente da Associação dos Escritores e Artistas de Madrid, O Porto d’outros tempos. Notas históricas, Memórias, Recordações. Livraria Chardron, de Lelo & Irmão, Rua das Carmelitas, 144. Porto 1914. (pág. 90 e 91).


A grade e a entrada principal do Jardim da Cordoaria

Mas para além dessa descriminação de classes no interior do jardim, a grade que contorna todo o jardim controlava as entradas, e o facto de ser um jardim público não o tornava acessível a todos, o que provocou viva polémica nas páginas daquele Jornal.
O passeio está interiormente fechado por uma bonita sébe de catrapeiro, e exteriormente por uma grade. [1]
Embora reduzida a um simples portão, mantém-se a entrada principal a sudoeste, em frente da igreja de S. José das Almas.
cd44fig. 49 – A entrada sudoeste do Jardim e a grade que o circunda. 1870.
De facto, em 1873, enquanto prossegue a plantação e manutenção do jardim, inicia-se a contestação à descriminação dos que pretendem frequentar o jardim.
José Duarte de Oliveira Júnior escreve na sua Chrónica: Com o princípio do anno parece que veio a ideia de melhorar os jardins públicos da cidade. No dos Martyres da Pátria fizeram-se certas pequenas modificações que applaudimos, e plantaram-se algumas Camellias cujas flores, como verdadeiras rainhas do inverno, poderiam deleitar os olhos dos que vivem em incessante labutar e que só têem os dias sanctificados para repousar o espirito.
Mas pobre d'essa classe laboriosa que trabalha desde o despontar da aurora até que chegam as trevas da noute, para ganhar uma exigua quantia que, querendo viver honestamente, nem sequer lhe chega para as suas modestas refeições!
São desgraçados; é-lhes portanto interdicta a entrada nos passeios públicos, nos jardins que tanto se sustentam á custa dos endinheirados como á dos proletários! É, na verdade, uma providência digna da nossa civilisação, isto é, egoísta e insensata.
Na epocha em que o snr. Visconde de Villar Allen fazia parte da Camará municipal portuense e tinha a seu cargo o pelouro dos jardins, ponderou aos seus colegas que, em imitação de todas as cidades onde tem penetrado a luz do progresso, era necessário que, quando não todos, ao menos alguns dos jardins da cidade fossem franqueados ao povo, classe que mais carece d'este recreio.
Este pensamento liberal, esta proposta que não tinha o resaibo de feudalismo, não foi aceite pelos collegas do snr. Visconde de Villar Allen. Deverão ser louvados?
Consultem as suas consciências, que ellas responderão por nós.
Vae o operário, que, se nos dão licença, não é anima vilis, antes um cidadão prestantissimo á sociedade, quando laborioso e honrado, vae elle a entrar n'um passeio que por derisão se chama público.
Quer desfadigar-se das suas canceiras, quer desfructar a sua quota-parte nas regalias, visto que não o dispensaram da sua quota-parte nos encargos.
O que fazes, desgraçado? Não reparas que o teu magro salário não te deixou subir do tamanco ou da chinela para hombrear com o alto cothurno?
À porta do passeio, similhante ao archanjo do paraiso, brandindo a espada de fogo, lá está o guarda municipal, terrível d'auctoridade. “Alto! Para traz!” Lhe brada elle, e o operário retira-se, ou, se recalcitra, é expulso d'aquelle recinto a empurrões, como por mais de uma vez temos visto.
Tem razão o municipal e mais a autoridade e também a lei que alli o collocaram.
Onde se espaneja a femme du demi monde, o fátuo, o néscio, o ocioso, não nos dirão o que vae lá fazer o homem do trabalho?
Fiquemo-nos n'esta interrogação, em quanto aguardamos que seja expungida do código de posturas municipaes tão obnoxia e anachronica prohibição.
Não aperta assim o fiado quem tem o maior interesse em que elle não rebente.
Entenda-nos quem puder. [2]
E José Duarte de Oliveira Júnior em outra das sua Chronicas, evocando o Visconde de Villar d’Allen refere dois projectos que não se concretizaram a square em Camões e a fonte na praça Carlos Alberto e volta a referir o problema do acesso aos jardins ditos públicos lembrando os jardins de Paris, de Londres e do Egipto.
No Porto também ha falta de jardins públicos; e mui principalmente se tomarmos o adjectivo no seu próprio sentido.
Sem querermos offender os vereadores que têem tido a seu cargo o pelouro da jardinagem, é justo confessar que o snr. Visconde de Villar Allen prestou muito á cidade durante o tempo que administrou este ramo dos serviços municipaes.
E, senão, lancemos uma vista retrospectiva sobre o que se fez durante a vereação de que aquelle cavalheiro fez parte. Está bem patente, e portanto é inútil apontal-o. Além do que se deve á sua efficaz iniciativa, queria fazer uma square ou passeio recreativo em Camões, e outro na praça de Carlos Alberto, porém a camará objectou dizendo que o primeiro local estava destinado para um mercado e que no segundo havia ideia de brevemente se fazer uma elegante fonte.
Ha três para quatro annos que isto se dizia, e onde está o mercado do largo de Camões e a fonte da praça de Carlos Alberto?
Estão sem dúvida na imaginação dos architectos!
Sabemos que emquanto o snr. Visconde de Villar Allen esteve na camará municipal como encarregado do pelouro dos passeios públicos, recommendava que não se tolhesse a entrada a pessoa alguma, a não ser que viesse incommodar as outras pessoas com carretos, etc. E quando apresentou em camará a proposta para aquelles passeios de que acima falíamos, bem como do dos Martyres da Pátria, que felizmente se executou, foi sempre com ideia de que similhantes locaes, arborisados e ajardinados, fossem completamente acessíveis a todas as classes como os que ha nos paizes mais adiantados, onde os inspectores ou guardas não têem nada que ver com o calçar ou com o vestir do operário que, em muitas terras, no inverno anda de sabot e a quem nem por isso é interdicta a entrada.
Em Pariz, no parque Chaumont, no de Monceaux, no bosque de Boulogne, no de Vincennes, no jardim do Luxerabourg, e, se não estamos equivocados, também nas Tuileries; em Londres, em Hyde-Park, St. James's, Park, Victoria Park e outros, vê-se nas horas de descanço e em dias feriados o operário passeiar e descançar tranquillamente n'aquelles recintos para a manutenção dos quaes elle concorre com a sua quota-parte.
Entre nós diz-se que não se deve admittir nos jardins o proletário, ou, por outra, aquelles individuos que não trajarem com a precisa decência, sendo compellidos, no caso de quererem ter entrada, a trocar o seu sapato de couro e pau (tamancos) por o de couro só (cothurno).
E d'este modo civilisa-se a pobreza! Esta providência seria irrisória, se não fora cruel, porque, se um ou outro pôde sujeitar-se a taes exigências, muitos ha a quem não é possível satisfazer os preconceitos da sociedade mais endinheirada e que por consequência deveria ser mais illustrada e muito menos melindrosa.
Quizeramos inocular na ideia do proletário que para elle ser admittido n'um passeio público é mister que largue o seu trajo de trabalho; mas estamos longe de acceitar o modo como o querem compenetrar d'isso. Façam como o finado príncipe consorte da rainha de Inglaterra que fundou uma associação em Windsor, que dava prémios às farmilias pobres que mostrassem mais limpeza e melhor arranjo no interior das suas casinhas; às creadas e creados que tivessem melhor comportamento; às creanças que fizessem mais progressos nos seus estudos, etc, etc.
E' este o verdadeiro caminho a seguir se, querendo inplantar a valer a civilização no paiz; e emquanto não se colocarem os rails que devem servir para levar o comboyo do progresso a esse ponto — à civilisação — queremos que a camara municipal se resolva a pôr os jardins públicos francos a toda a classe de pessoas. Esta corporação é illustrada e deve, reflectindo, vêr que o seu procedimento é menos justo e popular.
Às linhas que se acabam de ler vamos juntar, como útil exemplo, uma noticiazinha de Mr. Delchevalerie do seu interessante folheto «Flore exotique du Jardin d'acclimatation, de Ghézireh» sob a epigraphe — Carácter democrático dos jardins no Egypto» e que transcrevemos em abono da opinião que sustentamos.
“Em todos os paizes civilisados a introducção dos vegetaes é objecto de uma predilecção geral, porque é ao mesmo tempo um elemento de hygiene, de divertimento e de recreio, uma arte útil e uma fonte de commercio e de progresso scientifico.
Hoje collecionam-se plantas nos jardins do mesmo modo que se fazem galerias de quadros, museus d’arte, etc. Os soberanos rodeiam os seus palácios com as producões mais raras do reino vegetal e o jardim de Ghézireh (Egypto) é um exemplo do que dizemos. As cidades têem um parque, um bosque nas suas visinhanças, e a maior parte d'ellas têem também umbrosos boulevards e squares.
A cidade do Cairo tem o jardim de Ezbékieh * e um grande numero das ruas já estão plantadas com árvores. Actualmente vae-se às pyramides sob a sombra produzida por uma immensa avenida plantada de Acácias Lebbek; pode-se visitar os subúrbios do Cairo, taes como, Ghyzé,
Choubrab, Abbassieh, Kobbeh, Velho-Cairo; e outros indo-se sempre por longas estradas cobertas por bem tractado arvoredo.
O governo de S. Alteza compreendeu bem o caracter democrático que era preciso dar aos jardins e aos passeios públicos e comprehendeu outrosim que o povo e os trabalhadores careciam de jardins onde podessem repousar.
As squares são pois os jardins de toda a gente e faz-se portanto todo o possível para as tornar bellas e attractivas.[3]
Confrontando agora o que succede no Cairo com o que se passa entre nós, sempre ousaremos perguntar, porque desejamos saber: Qual será a terra da mourisma, lá ou cá?
Que nos responda o bom senso. — Aconselhamos a leitura da seguinte carta que tracta de um assumpto sumamente importante para o paiz, como é a elaboração d'uma Flora. E, porém, principalmente o governo que deve occuparse d'elle, porque difficilmente haverá iniciativa particular que se atreva com uma obra de tanta ponderação. [4]
[Nota* - O jardim de Ezbékieh, no Cairo deve o seu nome a um general egípcio da segunda metade do sáculo XV. O jardim inicialmente apenas frequentado por europeus foi progressivamente nos anos 70 do século XIX aberto aos egípcios.
cd45
fig. 50 – Imagens do jardim de Ezbékieh, nos anos 70 do século XIX.

E Duarte de Oliveira Júnior na edição de Outubro de 1873 do Jornal de Horticultura retoma o assunto.

Por mais d'uma vez nos occupamos n'este jornal d'uma medida sobremodo absurda que a camará pôz em vigor logo em seguida á sahida do snr. Visconde de Villar Allen d'aquella corporação.
Não foi, porém, para lisongear este cavalheiro que aqui inscrevemos o seu nome, mas porque é bem patente que o bom desempenho de qualquer dos serviços que estão a cargo da municipalidade depende principalmente, senão quasi exclusivamente, dos conhecimentos especiaes que tem o vereador respectivo. Se não fossem pois os conhecimentos do ex-camarista visconde de Villar Allen e a sua muito boa vontade, não veria hoje o Porto a antiga Cordoaria transformada em espaçoso e bem delineado jardim.
O snr. Visconde entendeu que aquelle jardim devia de ser público na verdadeira accepção da palavra, mas os seus sucessores — que a não ser para lhe dar 0s foros de aristocrata, não sabemos para quê — pensaram differentemente e deram ínstrucções aos guardas para só franquearem aquelle recinto às botas de polimento ou de duraque*. Quer dizer que o legislador media as pessoas pelos pés.
Isto é repugnante n'uma cidade em que vemos tremular o pavilhão da liberdade, e já tem dado motivo a alguns conflictos.
A «Actualidade» escrevia ultimamente as seguintes linhas:
Convinha tornar bem publico e notório qual o systema de calçado com que é licito ou illicito entrar nos passeios públicos. É um pedido que fazemos á exc.ma camará, em nome de quem indo, ha pouco tempo, a entrar no passeio da Cordoaria, acompanhado d'uma ama que levava uma criancinha, e ia, segundo o costume das aldeãs, de meias e chinellas, teve de retroceder, por lhe vedar a entrada a sentinella que para isso tinha recebido ordens.
Saiba-se isto ao menos para governo de quem tem filhos e amas que os criam não ficar exposto a um vexame.
O pedido é sobremodo justo. Precisa-se de um edital em que se designe o calçado com que o desprotegido da fortuna e sem meios alli pode ir repousar alguns instantes depois de ter finalisado o seu trabalho.
Recommendamos no entretanto á Exm.ma camará que na redacção do referido edital tenha em vista que o pobre é o que mais carece dos passeios públicos. Os abastados como v. Exc.a téem os seus palácios e os parques, e aquelle, a maior parte das vezes, nem sequer tem uma colcha para se cobrir nas noutes de aspérrimo dezembro.
No estrangeiro construem-se squares de propósito junto dos grandes estabelecimentos fabris para recreio dos operários, que nem envergonham as arvores nem as pessoas que se sentam debaixo d'ellas a gosar-lhes a sombra.
Estará por ventura a camará municipal tão possuída de leituras bíblicas, que queira fazer dos passeios públicos paraizo dos Adões peccadores? N'esse caso, para haver conformidade, deve substituir o junco do zelador ou o sabre do municipal pela espada fulminante do archanjo.
Na Suissa e na Bélgica os jardins estão confiados á vigilância do povo. Não ha necessidade de guarda pretoriana às portas. Não poderia acontecer o mesmo entre nós? Não seria o povo digno d'essa confiança?
No caso negativo lastimamos o facto, tanto pela camara, como pelo povo. [5]
[Nota * - Botas de duraque - botas de tecido de lã ou de algodão a imitar o cetim.]

[1] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 68 e 69).
[2] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typ. De José Coelho Ferreira, Taypas, 65. Porto. 1873. (Vol. 3, pág.33).
[3] Tradução de Gustave Hubert Delchevalerie (1841-1899), Flore Exotique du Jardin d’Acclimation de Ghézireh et des Domaines de S. A. Le Khédive. Par G. Delchevalerie Jardinier en chef des Palais. Parcs vice-royaux et Jardins publics égyptiens. Typographie Française Delbos-Demouret Le Caire 1871. (pág.14).
Caractère démocratique des jardins en Egypte. — Le développement de la culture et de l'introduction des végétaux exotiques dans les jardins est un des signes qui caractérisent le plus le progrès et la moralisation d'un peuple. Dans tous les pays civilisés, il est l'objet de la prédilection générale, parce qu'il est, en même temps qu'un élément d'hygiène, d'agrément et de récréation, un art utile et une source de commerce et de progrès scientifiques. On collectionne d'ailleurs aujourd'hui les plantes dans les jardins comme on fait des galeries de tableaux, des musées d'art, etc. Les souverains entourent leurs palais des productions les plus rares du règne végétal. Le jardin de Ghézireh en est un exemple. Les villes ont un parc, un bois dans le voisinage, et, la plupart, des boulevards ombragés, des squares. La ville du Caire a son jardin de l'Ezbékieh; un grand nombre de ses avenues et de ses boulevards sont déjà plantés d'arbres; on va maintenant aux pyramides sous une immense avenue de bois noir (acacia Lebbek); on peut aller visiter les environs du Caire, tels que Ghyzé, Choubrah, l'Abbassieh, Kobbeh, le Vieux-Caire, etc., sous d'immenses avenues ombragées, parfaitement plantées et entretenues. Le gouvernement de Son Altesse a compris ce caractère démocratique des jardins et des promenades publiques, qu' il fallait au peuple et à l'ouvrier des jardins pour se reposer. Les squares sont les jardins de tout le monde et on ne saurait par suite les rendre trop attrayants en les embellissant.
[4] José Duarte de Oliveira Júnior, Chronica in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typ. De José Coelho Ferreira, Taypas, 65. Porto. 1873. (Vol. 3, pág. 116 e 117).
[5] Jornal de Horticultura Practica. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5. Typographia Luso-Britannica, Rua da Victoria, 166. Porto 1873. (Vol.4, pág. 177 e 178).

A Alameda nascente do Jardim da Cordoaria
A partir da entrada principal, como na proposta de Edward Buckton Lam, o jardim é estruturado por duas alamedas rectilíneas uma a nascente no sentido norte-sul, plantada de característicos plátanos de sombra (Platanus hispanica).
cd46fig. 51 – Na fotografia do início do século XX é de notar em primeiro plano a balança pública junto dos bancos e do candeeiro a gás. Photo Guedes finais do século XIX. AHMP.

Escrevem Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, no Portugal. Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artístico.
A instância do visconde de Villar d’Allen, então vereador da cidade, a Camara Municipal resolveu em 1866, transformar o Campo da Cordoaria em jardim, encarregando d’esse serviço o jardineiro paizagista allemão Emilio David, que delineou o novo jardim com a maior competência.
No jardim da Cordoaria, tratado com todo o esmero, e considerado officialmente jardim botânico, está reunida uma notável série de plantas de alto valor, principalmente á volta do lago, que é opulento, com bellos tetos arboreos Alseyhilas e Balantiums e soberbas palmeiras Chamoerops, Cocos, Phoenix e Pritchardias. Na Cordoaria ha uma rua central, para passeio, orlada de platanos, e um coreto para musica. O jardim é todo circumdado por uma preciosa collecção de centenares de camélias variadas, o que torna aquelle recinto muito agradavel e pittoresco. [1]

cd47fig. 52 – Postal. Porto – Avenida no jardim da Cordoaria. Editor: Carlos Pereira Cardoso c.1905 AHMP.

cd48fig. 53 - Postal. Porto-Avenida do Jardim da Cordoaria. Edição dos Grandes Armazéns Hermínios, c.1910. AHMP.

A Alameda abria a norte por um portão para o quarteirão existente.

cd49fig. 54 – O lado norte do jardim da Cordoaria, com o portão no topo da Alameda nascente. Fotografia de Emilio Biel, in 20 phot. De Porto et des environs par Emilio Biel, phot. à Porto, 1885. BnF.

cd50fig. 55 – A Alameda nascente parte do jardim que se conserva na actualidade.

A meio desta alameda de plátanos situava-se o Coreto que Joaquim de Mello Faro intitula de pavilhão para a musica [e que] é de uma forma bastante elegante. [2]
E Alberto Pimentel refere que Ha musica neste passeio, às quintas feiras á noite e aos domingos de tarde. Costuma ser muito concorrido. Tambem ha botequim na extrema occidental do passeio. [3]

[Nota - Em 2001 o coreto foi removido para um local sem sentido na parte norte do jardim.]

Com a construção do novo Mercado do Peixe, entre 1871 e 1874, a vista da Alameda nascente para Gaia, o Douro e o Atlântico ficou comprometida, como refere o Jornal de Horticultura Practica em 1874, salientando ainda o cheiro a peixe que se fazia sentir no jardim junto ao coreto.
A construção do Mercado do Peixe

Decidida a construção de um novo Mercado do Peixe, em 1869 é traçada uma planta com as expropriações necessárias para a sua edificação.
A norte os terrenos a expropriar pertencem à Santa Casa da Misericórdia, e a sul ao Hospício dos Expostos. Na planta está ainda assinalado o palacete Sandeman.
cd51fig. 56 - Planta dos terrenos necessarios para a edificação do novo mercado do peixe e seus acessorios junto do passeio publico da Cordoaria e para alargamento da rua dos Fogueteiros. 1869. AHMP.


cd51afig. 57 – A Planta anterior orientada a norte.


E em 1874, ano da inauguração do novo Mercado do Peixe, escreve o Jornal de Horticultura Practica:
Como se não fora bastante a cadeia da Relação e o hospital da Misericórdia para darem um aspecto triste ao passeio da Cordoaria, a camará municipal construiu mesmo defronte d'aquelle jardim um mercado para a venda de peixe. O mal está feito e não tem remédio, mas o que desejáramos era que ao menos houvesse a máxima limpeza para o cheiro que exhala o peixe em putrefacção não chegasse aos órgãos do olphato dos promeneurs. Ha dias em que se torna impossível estar na avenida principal, onde a música costuma tocar.
Pedimos encarecidamente as mais sérias e promptas providências para não se inutilizar o único passeio que tem o Porto. [4]
cd52fig. 58 – Ao centro o Mercado do Peixe. Pormenor de uma das gravuras do Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900.

[1] Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal. Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artístico. Abrangendo a minuciosa descripção histórica e chorographica de todas as cidades, villas e outras povoações do continente do reino, ilhas e ultramar, monumentos e edificios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biographias dos portuguezes illustres antigos e contemporâneos, celebres por qualquer título, notáveis pelas suas acções ou pelos seus escriptos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliographia antiga e moderna; indicação de todos 0s factos notáveis da história portugueza, etc., etc. Obra Illustrada com centenares de photogravuras e redigida segundo os trabalhos dos mais notáveis escriptores por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues. João Romano Torres, Editores, Casa fundada em 1885. Premiada com as medalhas de ouro da Exposição do Rio de Janeiro do 1908 e da Cruz Vermelha de Hespanha. Composição e impressão Rua Alexandre Herculano, 70 a 76, Lisboa 1911. (pág. 911).
[2] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[3] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 68 e 69).
[4] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5, Porto Typographia Bartholomeu H. de Moraes, Rua da Picaria50 a 54, Porto 1874. (Vol. V, pág 177).

A Alameda sul do jardim ou Passeio da Cordoaria
A outra Alameda a sul no sentido poente-nascente, então a mais procurada já que aí se edificou um chalet, onde estava instalado o Café Chaves (demolido em 1947) e com acesso a nascente junto ao Largo do Olival e da Torre dos Clérigos.

cd53
fig. 59 – Foto c.1945. A parte sul do Jardim do Campo dos Mártires da Pátria (Cordoaria). Ao fundo vê-se o recinto infantil Maria do Carmo Carmona.Foto dos anos 40. AHMP.

O Passeio da Cordoaria junto ao Largo do Olival.
cd54fig. 60 - Foto Alvão.
A Alameda ou Passeio da Cordoaria tendo à direita o Chalet.
cd55fig. 61 – Postal Alberto Ferreira Tipografia Peninsular. O Passeio da Cordoaria, alameda sul c.1900. À direita o Café Chaves. AHMP.

cd56fig. 62 – A Alameda sul do Jardim da Cordoaria. AHMP.

A rua a sul do jardim no qual se vê o Café Chaves. Ao fundo o Mercado do Peixe.
cd57fig. 63 – A rua a sul do jardim no qual se vê o Café Chaves. Ao fundo o Mercado do Peixe. Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900.
Um hipomóvel circulando em frente do Café Chaves.
cd58fig. 64 – Postal. Porto - Campo dos Martyres da Pátria.


O Portão junto da Academia

Como no projecto de E. Lamb, mantém-se o portão que abre para a alameda do Olival.

cd59fig. 65 – Barbosa de Lima (desenho); João Batista Coelho Júnior e João Pedroso] (gravura), Academia polytechnica do Porto in Archivo Pittoresco, n.º 9, 1886. (pág.249).


cd60fig. 66 – Fotografia Casa Alvão c.1900CPF/MC

O Lago
No centro do jardim, embora com dimensões mais reduzidas em comparação com o projecto de Buckton Lamb, um lago com uma pequena ilha, uma gruta e uma cascata.
O lago é de bonito risco, os lados, ou bordos deveriam ser guarnecidos de plantas aquáticas, o que se tornaria de lindo effeito. [1]

cd61fig. 67 – O Lago do Jardim da Cordoaria visto de nascente. AHMP.

Ha de haver por ahi génio mesquinho e tacanho que se julgue suficientemente recreado com as seis árvores da Cordoaria e que junto do lago, admirando a plumagem dos cysnes, enamorado das pingas d'agua da cascata, se imagine portas a dentro d'um paraizo municipal. [2]

cd62fig. 68 – Postal. Porto – Lago do Jardim da Cordoaria. Papelaria Progresso.AHMP.

cd63fig. 69 - Postal. Porto -Lago do Jardim da Cordoaria c.1910 AHMP.

cd64fig. 70 – Postal colorido com o repuxo.

A ilha, a cascata ou gruta
Como no projecto de Edwars Burckton Lamb, no centro do lago é criada uma ilha.
cd65fig. 71 – A ilha vista do norte. Ao fundo a Cadeia da Relação, e à direita o palacete Sandeman. AHMP.
Já que no princípio da última noticia fallamos da jardinagem pública, não deixaremos passar despercebida uma obra rústica que se fez no lago do Jardim dos Martyres da Pátria e a que dão o nome de cascata ou gruta.
O mais que podemos dizer d'ella, é que não está feia, posto haja quem assevere o contrario. Uns queriam que ella ficasse ao invez do que está, isto é, virada para o poente; outros que fosse construida junto a uma das margens do lago e outros emfim dizem que era muito melhor que nunca se tivesse feito.
Se se der o nome de gruta a esta obra que está no meio do lago, diremos que não tem parecença alguma com a do parque Monceaux e se lhe chamarem cascata ainda menos tem da que o visitante vê quando sahe da estação de Fontenay e entra no bosque de Vincennes, ou da que constitue um dos mais bellos ornamentos d'esse rendez-vous de Pariz e que se denomina Bosque de Boulogne. É preciso, porém, levar á conta que faltavam ao constructor da obra do lago do Jardim dos Martyres da Pátria os recursos precisos para fazer cousa melhor. Sem água e com pouco dinheiro queiram fazer-nos, se podem, cousa que mais geito tenha!
Sim: la critique est aisée mais l’art est difficile! [3]


cd66fig. 72 - Postal. Porto-Lago do Jardim da Cordoaria. Editor: Tabacaria Rodrigues. 1910. AHMP.
À esquerda uma foto de 1973, onde se vê ao centro a gruta com o miradouro, e à direita uma imagem colorida da gruta e do miradouro.
cd67fig. 73 - Foto 1973 AHMP.
Já nos finais do século XIX, em 1887, José Augusto Vieira em O Minho Pittoresco descreve o jardim agora apropriado pelo Porto de pouco dinheiro.
O jardim da Cordoaria, pacato aos dias de semana e servindo apenas para os estudantes da Polytechnica, ou para os brazileiros ociosos, que vão tomar o sol e palestrar junto ao lago, onde os cysnes os esperam já regularmente com os biscoutinhos do almoço, é aos domingos invadido pelo Porto de pouco dinheiro, caixeiros, militares, costureiras, creadas de servir, empregados, e famílias burguezas, cujas filhas se renovam de oito em oito dias atenta a fecundidade dos casaes a qual não permitte o dispêndio completo de toilettes, e que assim resolve o problema de as mostrar com decência honesta, semana sim, semana não.
Durante que se toca a música, só pelos ingénuos escutada, essa multidão passeia methodicamente e namora methodicamente. A menina A sorri-se para o cavalheiro A. em frente do coreto e para o cavalheiro B. em frente da porta do Calvário. Pela sua parte o cavalheiro A. sorri-se para a menina B. em frente do coreto e o cavalheiro A. para a menina A. em frente da porta que dá para o hospital. O momento crítico da entrega das cartas, que já vão feitas no bolso, para as diversas hypotheses, é no apertão, em frente do coreto, onde apenas se passa furando e acotovellando, precisando muitas vezes o chefe da familia fazer a chamada do outro lado da muralha humana, com receio de que se tenha esmagado ou perdido alguma das do ranchinho. [4]


[1] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1872. (Vol.III, pág. 108).
[2] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6. Administração, Fogueteiros, 5, Porto Typographia Bartholomeu H. de Moraes, Rua da Picaria50 a 54, Porto 1874. (Vol. V, pág. 14).
[3] Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Redacção, Carmo, 6, Administração, Fogueteiros, 5. Typographia Luso-Britannica, Rua da Victoria, 166 Porto 1873. (Vol. IV, Pag.157).
[4] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Edição de luxo, illustrada com mais de tresentos desenhos de João de Almeida, gravados pelos mais célebres artistas nacionaes e estrangeiros; magnificas estampas em chromo representando costumes; e seis mappas da provincia, (geológico, dos arvoredos e terrenos incultos, dos rios e montanhas e chorographicos do districto de Vianna, do districto de Braga e do districto do Porto) expressamente gravados. Livraria de António Maria Pereira 5o — Rua Augusta — 52 Editor. Lisboa 1887. (Tomo II, pág.701).

A Flora escultura de Teixeira Lopes



cd68afig. 74 – Postal. Porto-Jardim da Cordoaria-Monumento a Marques Loureiro. C. 1905.

Se o Jardim foi sempre pensado para ser ornamentado com esculturas, na verdade só no século XX elas ali foram colocadas.
No entanto, ainda no final do século XIX surge a ideia de edificar um monumento à memória de Marques Loureiro falecido em 1898. Por razões várias a escultura denominada Flora de António Teixeira Lopes (1866-1942), é apenas inaugurada em 20 de Agosto de 1904, sendo então entregue à Câmara Municipal do Porto, presidida por Manuel de Sousa Avides (1854-1920).
A revista O Occidente na ocasião descreve o acto salientando que pela numerosa assistência, que concorreu ao acto, viu-se quão vivos estavam ainda na memória de todos os portuenses os serviços relevantíssimos po Marques Loureiro prestados ao paiz, já embelezando os jardins com as plantas mais notáveis e raras, já enriquecendo os pomares e os bosques com o que de mais conhecido e útil se cultiva lá fora.
E publica uma foto de Aurélio Paz dos Reis.

cd69fig. 75 – Aurélio Paz dos Reis, instantâneo da Entrega do Monumento pela Comissão à Municipalidade. in O Occidente de 30 de Agosto de 1904.

Para homenagear Marques Loureiro o escultor Teixeira Lopes não procura directamente evocar a sua figura.
Cria um monumento encimado por uma alegoria da Flora, virado para a Quinta das Virtudes, o horto onde Marques Loureiro cultivava as suas variadas plantas, onde apenas na base da escultura figura um baixo-relevo em bronze com a efigie de Marques Loureiro.
cd68dfig. 76 - Foto Guedes (1885-1932), Flora 1904, negativo em vidro 13 x 18 cm. AHMP.




A escultura é uma alegoria à Flora (Cloris para os gregos Vós Flora me chamais; meu nome é Cloris [1]), uma criação de Ovidio (Ovídio Publius Ovidius Naso) em Os Fastos, que a mostra como uma divindade que reina na vegetação e nas flores pelo dote do vento Zéfiro quando a desposou.
Ha nos campos gentis que obtive em dote
horto fecundo; virações o afagam;
vitrea esplendida fente o anima, o rega;
incheu-m'o o esposo meu de opimas flores,
e — são tuas — me disse. Oh! que de vezes
não hei tentado em vão contar suas cores!
e a variedade ao numero transcende.
 [2]

E se Flora é uma divindade feliz e festiva como normalmente é representada:
O porque afluem lá venaes bellezas
facilmente se explica: ha divindades
tristes, austeras, de lições profundas;
esta não; esta admitte em seus festejos,
esta chama a seus jubilos, a plebe ;
exhorta a aproveitar-se a mocidade,
e onde a rosa caiu nos mostra espinhos
. [3] 

cd68efig. 77 – Teófilo Rego (1914-1993), Flora c.1960. AHMP.
Flora pode, no entanto,  torna-se melancólica e triste ao ver,  com a aproximação do Outono, murcharem, as sua plantas e as suas flores.
Assim a descreve, também, Ovidio No Fastos.
Absorta em meu pezar, o oficio esqueço;
transcuro dons á terra; a agricultura,
os ferteis hortos, vigiar desprézo:
pendem os lirios; murcham-se as violetas;
languece a coma do açafrão punicio.
Quantas vezes meu Zefiro me disse:
— Vê que perdes teu dote. — Ah! do meu dote
bem se me dava então! Se os olivedos
trajavam flor, os ventos os despiam ;
floria a mésse, a pedra a derrotava;
ria esp'ranças a vinha, eis sopram austros,
foge o sol, o ar se obumbra, as nuvens rotas
juncam de parras a alagada terra.
 [4]
É esta Flora que Teixeira Lopes procura retratar, figurando uma jovem camponesa sem a tradicional grinalda florida na cabeça, encostada a um tronco ressequido, um rosto melancólico e triste, segurando negligentemente na mão direita um ramo de flores, como simbolizando a perenidade da vegetação e da vida humana.

cd68bfig. 78 – A Flora, monumento a Marques Loureiro.
A Flora de Teixeira Lopes torna-se assim mais humana, já que, como todos nós, sofre da passagem do tempo, parecendo evocar os versos de Baudelaire:
— Elle pleure insensé, parce qu'elle a vécu!
Et parce qu'elle vit! Mais ce qu'elle déplore
Surtout, ce qui la fait frémir jusqu'aux genoux,
C'est que demain, hélas! il faudra vivre encore!
Demain, après-demain et toujours! — comme nous!
[5]
O que verdadeiramente a entristece, o que a torna profundamente  pensativa é cet ardent sanglot qui roule d'âge en âge!



Outras esculturas serão colocadas no jardim durante o século XX.
O monumento ao poeta António Nobre cujo busto da autoria do escultor Tomás Costa (1861-1932) foi concebido em 1891/92 e o monumento com o busto foi finalmente erguido na Cordoaria em 1927 segundo um projecto do arquitecto António Correia da Silva (1880-1963) e do escultor Henrique Araújo Moreira (1890-1979).
cd86fig. 79 – Monumento a António Nobre 1927. AHMP.
Em 1954 é colocado no jardim a estátua de Ramalho Ortigão (1836-1915) de Leopoldo de Almeida (1898-1975).
cd85fig. 80 – Leopoldo de Almeida, Estátua de Ramalho Ortigão 1954. AHMP.

[1] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.25).
[2] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.27).
[3] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág. 43)
[4] António Feliciano de Castilho (1800-1875), Os Fastos de Publio Ovidio Nasão com traducção em verso portuguez por Antonio Feliciano de Castilho seguidos de copiosas anotações por quasi todos os escriptores portuguezes contemporâneos. Tomo III. Por ordem e na Imprensa da Academia Real das Sciências. Lisboa M DCCCLXII. (Livro V pág.39).
[5] Charles Baudelaire (1821-1867), Le masque. Statue allégorique dans le goût de la Renaissance. À Ernest Christophe, statuaire 1861, de Les Fleurs du Mal (1.ªed.1857), in Oeuvres completes de Charles Baudelaire. Édition critique para F.-F. Gautier, textes des éditions originales, Éditions de La Nouvelle Revue Française 35 & 37, Rue Madame, Paris 1918. (pág. 200 e 201).

Parte V - Breve referência ao jardim no século XX e no século XXI

Este texto pretende ser apenas uma deambulação pelo jardim da Cordoaria a partir da Panorâmica de c.1870. Por isso apenas uma breve referência ao jardim dos séculos seguintes.
No início do século XX, com a conclusão, cem anos depois do início da edificação, da Academia Politécnica (Universidade em 1911), é demolido o quarteirão nascente do remate norte do jardim e na antiga Viela dos Condenados ou Viela do Assis e Passeio da Cordoaria foi criada uma praça chamada da Universidade e depois Parada Leitão em homenagem a José de Parada e Silva Leitão (1809-1880).
O Jardim da Cordoaria e a Academia em conclusão no início do século XX.
cd70fig. 81 – Postal. Porto Jardim da Cordoaria e Academia Polytecnica. Arnaldo Soares.
A Praça da Cordoaria, depois da Universidade no início do século XX.
cd71fig. 82 - Charles Chusseau-Flaviens (1866-1928), Igrejas do Carmo c. 1910, negativo gelatina de prata, 9 x 12 cm. Eastman Museum.
Durante a primeira metade do século XX, com maior ou menor atenção e manutenção, o Jardim, que em 1925 se passou a chamar de João Chagas (1863-1925), conservou no essencial a sua forma.

cd72fig. 83 – Vista aérea da Cordoaria.

O Jardim João Chagas nas plantas de 1949 destinadas à implantação do Palácio da Justiça do Porto no local do Mercado do Peixe segundo um projecto do arquitecto Raul Rodrigues Lima (1909 - 1980) e inaugurado em 1961.

cd73cd73afig. 84 – Plantas do jardim João Chagas (antigo jardim da Cordoaria) e terrenos circundantes. c.1949. AHMP
Nas plantas já não figura o chalet (Café Chaves).
No ângulo formado pelas duas alamedas está já cartografado o recinto infantil D. Maria do Carmo (Ferreira da Silva) Carmona (1879-1956), a esposa do então Presidente da República, criado nos anos 40 do século XX e dando uma outra finalidade ao jardim.

cd84fig. 85- O recinto infantil com as suas pérgulas.
[Alguém com pouca sensibilidade em relação às esculturas e ao lugar em que são colocadas, e ignorante da mitologia e da cultura clássicas, colocou recentemente junto a este jardim infantil o Rapto de Ganímedes de 1898 do escultor António Fernandes de Sá (1854-1959).]
Como era próprio da época nos jardins eram criadas pérgulas.
cd82fig. 86 – Uma vista da Torre dos Clérigos enquadrada pela pérgula do recinto infantil.
Vista aérea da zona da Cordoaria nos finais do século XX ainda com significativa arborização.

cd74fig. 87 – Vista aérea nos finais do século XX. Ainda se encontra construído o primeiro projecto para a Praça de Lisboa da responsabilidade do CRUARB.
O século XXI

No início do século XXI, com a realização da Porto, Capital Europeia da Cultura, é lançado um ambicioso programa de requlificação da Baixa Portuense com o título de Regresso à Baixa.
Para a elaboração e a projectação deste programa são definidas diversas Áreas de Intervenção sendo que o Jardim da Cordoaria aparece integrado na Área de Intervenção Oeste A, para a qual são apresentadas diversas propostas.
Apesar das pertinentes e sábias considerações formuladas na proposta da Equipa de Fernando Távora sobre a evolução histórica da zona e do estado em que se encontrava então o Jardim da Cordoaria referindo que os principais problemas detectados ao nível do levantamento e diagnóstico são:
- árvores de arruamento – podas incorrectas que descaracterizam as copas e provocam doenças e envelhecimento precoce, dimensionamento incorrecto das caldeiras em função do tipo de árvores;
- jardins e zonas ajardinadas – desaparecimento de grande número de elementos vegetais pertencentes às plantações iniciais, quer por envelhecimento, quer por intempéries, não se tendo efectuado a sua reposição. Descaracterização da função (jardins de colecção de plantas e reprodução da Natureza), passando a funcionar como praças ajardinadas de atravessamento. Degradação de elementos construídos (lagos, caminhos) e desaparecimento de outros (chalet, vedação exterior).
E apesar da proposta de Fernando Távora e da sua equipa, apresentar uma intervenção que pretendia conservar o carácter do jardim de uma forma discreta, preservando os (muitos) elemento vegetais de elevado valor botânico e histórico que se encontram disseminados pelo espaço, (…) mas que constituem património natural a preservar. [1]
Apesar de tudo isso foi escolhida (vá lá saber-se porquê?) a proposta concretizada da Equipa de Camilo Cortesão, suficientemente radical para ser unificadora, suficientemente simples para poder ser descrita como a justaposição de acções parcelares que incidem. [2] (o que é que isto quer dizer?!).
Apetece lembrar o que José Duarte Oliveira Júnior escreveu 130 anos antes no Jornal de Horticultura Prática e já aqui citado:
Não se pode ver sem repugnância a triste transformação porque está passando o Jardim dos Martyres da Pátria, confiado a homens incompetentes, que poderão muito bem conhecer as exigências de um quintal burguez, mas que de modo nenhum compreendem os princípios da horticultura nem as bellezas da jardinagem, arte sempre cultivada com esmero em todos os tempos. [3]

cd76fig. 88 – Equipa de Camilo Cortesão. Proposta para o Jardim da Cordoaria 2000.



cd77fig. 89 – Vista aérea da zona da Cordoaria no início do século XXI.

cd78fig. 90 – A Cordoaria imagem do Google Earth. Já com o novo arranjo da Praça de Lisboa.
Quem leu este texto sobre a construção do Jardim da Cordoaria deve perceber o que muitos, como eu, pensam da intervenção da Porto 2001.
Entenda quem quizer!

E, perante esta intervenção da Porto 2001, que ajudou a cumprir integralmente a proposta dos seus autores: o Jardim da Cordoaria deixou, há muito, de ser jardim[4] , compreendemos finalmente o rosto da Flora, agora despida da vegetação (essência de um jardim) que a rodeava, e agora mais triste e mais desconsolada, não só pelo desaparecimento de Marques Loureiro, mas olhando estupefacta o que aconteceu ao seu jardim, quase um século depois de aí ter sido colocada reinando entre as flores!

cd68cfig. 91 – A Flora na actualidade.
Assim, e para terminar, lembrando o que foi e o que é um Jardim, evoquemos António Ramos Rosa.
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
[5]



[1] Equipa de Fernando Távora, Proposta para a Área Oeste A, Texto, Paisagismo. In Porto 2001: Regresso à Baixa, Serviço Editoria da Faup Porto 2000. (pág. 67).
[2] Equipa de Camilo Cortesão, Proposta para a Área Oeste A, Texto, Jardins. In Porto 2001: Regresso à Baixa, Serviço Editoria da Faup Porto 2000. (pág. 49).
[3] José Duarte de Oliveira Júnior, Jardins Publicos in Jornal de Horticultura Practica. Proprietário José Marques Loureiro, Redactor Oliveira Junior. Typographia Lusitana 84, rua das Flores. Porto 1871. (Vol.II, pág. 160 a 162).
[4] Idem.
[5] António Ramos Rosa (1924-2013), O Jardim in Volante Verde. 1ª Edição, col. Círculo de Poesia, Nova série, Moraes Editores, Lisboa 1986.

FIM do tema da Cordoaria
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