Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 3 de junho de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 9




III Parte - Deriva pela Foz do lado do mar. Da Senhora da Luz a Matosinhos.

A expansão para norte. A “Foz nova”

Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
Foi regulado pelos becos tortos
De onde venho. [1]


fig. 1 – A Foz Nova em 1892. Pormenor da planta de Telles Ferreira à escala 1: 5 000. Orientada a poente-nascente.

O sucesso da Foz como estação balnear com o culto higiénico dos banhos de mar e, sobretudo, com os transportes sobre carris, conduziram à expansão da Foz do Douro para norte.

Por isso a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna. Como eram insufficientes as casas da antiga povoação, circumscripta nos pequenos bairros do Monte, da Praia e da Cantareira, as novas edificações começaram a estender-se por Carreiros, aonde se abriu a formosa estrada de Leça, batida pelo Oceano, varrida pela brisa maritima, impregnada das penetrantes exhalações salgadas. Alguns dos novos prédios construídos n’este sítio um dos mais belos do nosso litoral, seguiram os modêlos das construcções francezas do mesmo genero e offerecem o elegante aspecto modesto e confortavel, tão raro nas casas portuguesas. [2]

E, com o andar dos tempos, a povoação da Foz foi-se estendendo por Carreiros, isto é, avançando para Mattosinhos.
Fizeram-se casas elegantes, com pequenos jardins e terraços. Construiram-se chalets. [3]

Na planta de 1892 estão já abertas a rua de Carreiros, que se prolonga a norte pela rua do Castello do Queijo. A Avenida da Boavista ainda não chega ao Castelo do Queijo. Está já consolidada uma parte do conjunto formado pelas ruas de Gondarém (a única cujo nome é assinalado) e Marechal Saldanha e pelas transversais, onde se nota, o lado nascente quase totalmente edificado.


A orientação geral das ruas principaes é paralella á costa, e estas são segmentadas por outras perpendiculares; observa-se isto na metade norte situada além da rua do Gama.
Carreiros-Gondarem é formado por quatro ruas longitudinaes cortadas, sob ângulos sensivelmente rectos, por varias outras; são ruas largas, bem dispostas, permittindo uma ventilação fácil e abundante. [4]

E na página seguinte

O revestimento das ruas é ainda muito rudimentar: macadamisado em toda a estrada marginal e em outras de Gondarem, é ainda desconhecido em algumas das novas, devendo nós dizer que a sua falta pouco se faz sentir, devido ao desleixo que o município lhes dispensa depois do seu estabelecimento; isto muito mais n'um ponto tão batido dos ventos que levantam nuvens constantes de poeira fina, irritante e por todos os motivos incommoda; a irrigação, indispensável n'este systema, não é praticada e a reparação, nos pontos gastos, só tarde se faz. No inverno, pelo contrario, as lamas accumulam-se tornando-as impraticáveis. [5]

A estrada, rua ou avenida de Carreiros


fig. 2 – A Rua de Carreiro na planta de 1892.

Está cartografado o Molhe, pensado em 1838 sendo construído em 1869 o primeiro cais para o desembarque de passageiros, quando os navios ficavam ao largo por não poderem entrar na barra do Douro. Entre 1881 e 1885 constrói-se o segundo tramo.

Assim o localiza Ramalho Ortigão: Em frente da casa que habito, em Carreiras, fica o paredão do quebra-mar, destinado a fazer na costa um pequeno porto para brigo das lanchas de pesca em dias de mau tempo e para o serviço das catraias que vão levar pilotos a bordo dos navios que demandam a barra. [6]

Na planta de 1892 estão ainda cartografados, junto ao Molhe, o Posto Fiscal e o Salva-Vidas.
      
Firmino Pereira afirma assinala os que, indiferentes ao transporte sobre Carris, ao longo da Estrada de Carreiros, se exibiam a cavalo ou em vistosas carruagens.

Os estúrdios faziam a passeata em burros alugados ao Corta-Macho e à Mariquinhas do Laranjal. Mas os janotas, como os Monfalins, 0s Guedes Infantes, os Farias, os Limas Barretos, os Navarros, o Soveral, os Baldaques, os Maias, os Porto Carreros, os Cirnes, os Brandões, 0s Lemos, iam a cavalo ou guiando as suas magnificas equipagens... [7]

O Americano e depois o Eléctrico circulavam do lado poente da Avenida enquanto as carruagens e os cavalos do lado nascente junto ao edificado.

 
fig. 3 – A Avenida de Carreiros vista de norte. Postal do início do século XX.
Repare-se que o lado poente da Avenida ainda não tinha sido arranjado nem arborizado.

  
fig. 4 – A Avenida de Carreiros vista do sul. Postal.


O primeiro arranjo do passeio poente da Avenida de Carreiros

Repare-se na construção de um largo passeio, onde são colocados os candeeiros (ainda a gás) e plantadas as árvores.
  

fig. 5 – Postal da Avenida de Carreiros vista de sul.
  

fig. 6 – A Avenida de Carreiros. Fotografia do início do século XX.

  
 fig. 7 – A Avenida de Carreiros. Fotografia do início do século XX.
Vista de norte para sul

O eléctrico circulando junto ao molhe. Repare-se no marco de granito, que com outro nos rochedos, indicava o trajecto das embarcações que para o Molhe se dirigiam em segurança.

fig. 8 – Postal do início do século XX.

Em 1892, quando Nevogilde ainda pertencia ao concelho de Bouças (Matosinhos), é traçado um plano para o Bairro de Carreiros, tendo como limite a sul a Ribeira de Gondarém.

fig. 9 - Planta do Bairro de Carreiros pertencente ao Concelho de Bouças. 1892

Como na planta de Telles Ferreira estão já traçadas as ruas de Marechal Saldanha e de Gondarém duas ruas largas paralelas à rua de Carreiros que aqui aparece cartografada como Estrada da Foz. Estão também já cartografadas as perpendiculares ruas do Padrão, do Castro, do Forte e não nomeadas as ruas da Escola (da Índia), do Molhe e Pero de Alenquer. Mais a norte ainda traçada mas não nomeada a rua do Funchal.

Junto ao Molhe de Carreiros, um Posto Fiscal e o Salva-Vidas e para sul a Praia de Carreiros (futura praia do Molhe).
De notar ainda que no troço norte da Estrada da Foz (rua do Castelo do Queijo), está assinalado, a poente, o cadastro das propriedades. Foram posteriormente adquiridos pela Câmara Municipal para em 1926 criar a Avenida de Montevideu e o Jardim que a ladeia.

 Este bairro, já hoje muito agradável, será em pouco tempo um dos melhores da cidade, e os seus habitantes, hoje com reluctancia às árvores, serão bem compensados da limitação do horisonte pela sombra agradável no verão e pelo deleite da vista que sente quebrada a monotonia da cidade; isto alem d'outras vantagens menos sensiveis, mas mais importantes, como a drenagem do solo e ligeira purificação do ar. [8]   


Em 1895, a conclusão da estrada da Circunvalação, a anexação das freguesias de Aldoar, Ramalde e Nevogilde e o primitivo porto de Leixões, provocaram que a Foz no início do século XX, se estendesse marginalmente desde 140 metros a oeste da Ponta de Sobreiras até á praia de Gondarem, além da qual se continua com a de Nevogilde. Natural, mas pouco nítido, é o limite de separação com esta freguezia. Apenas um golpe ou depressão do terreno, perpendicular ao mar, onde serpeia um pequeno regato, determina uma solução de continuidade com tendência immediata para desapparecer por trabalhos de arruamento já adiantados e pela urbanisação rápida porque está passando aquella zona; o logar da Ervilha é o ponto de origem d'este ribeiro. [9]

Na planta que acompanha o Guia Illustrado do Porto datada de 1907, entre o Castelo da Foz, a sul e o Castelo do Queijo a norte, está já traçada e consolidada a Avenida de Carreiros, que se prolonga pela rua do Castello do Queijo.


fig. 10 - A marginal marítima. Pormenor de Planta da Cidade do Porto compreendida a dentro da estrada da circunvalação e referente ao anno de 1907, organizada e desenhada, conforme elementos officiais por Carlos de Magalhães.

Os remates das ruas de Gondarém e de Marechal Saldanha, a norte, estão apenas esboçados.
Não se encontram ainda construídas ou planeadas as rotundas da praça Gonçalo Zarco no remate poente da avenida da Boavista, cujo troço entre a Fonte da Moura e o Castelo do Queijo foi entretanto concluído, nem da praça de S. Salvador no topo poente da Estrada da Circunvalação.

A esta Estrada de Carreiros chama Alberto Pimentel a Riviera dos portuenses.

Ao longo da estrada de Carreiros — porque o Ferreirinha quis dar logo aos viajantes toda a impressão marítima da Foz — por essa linda estrada, Riviera dos portuenses, a passagem dos trens não causou menor sensação tanto nos grupos que passeavam como nos grupos das janelas. [10]


A Avenida Brasil

Com a República a rua ou avenida de Carreiros, até ao Molhe, passa a chamar-se Avenida Brasil numa homenagem à República do Brasil proclamada em 1889.
O troço norte, entre o Molhe e a Circunvalação, chama-se então a rua do Castelo do Queijo e mais tarde Avenida de Montevideu.

A Avenida Brasil vista de norte.

 
fig. 11 -  A Avenida Brazil. Postal da segunda década do século XX.

A Avenida Brasil vista de sul.

Repare-se no arranjo do passeio poente com a cuidada e já desenvolvida arborização.

fig. 12 – A Avenida Brazil. Postal da segunda década do século XX.

A Foz do Douro no Plano Cunha Moraes 1916  [11]

Em 1916 é publicado, por iniciativa do autor Augusto César da Cunha Morais (1850-1939), engenheiro, pertencente a uma família de fotógrafos e proprietários da Fábrica de Fiação A. C. Cunha em Gaia, um opúsculo intitulado “Os Melhoramentos da Cidade”.

Embora nunca efectivado este Plano de Cunha Moraes irá ter influência nas realizações e nos planos do entre guerras portuense.

Nesse opúsculo, o autor afirma que também ele “…sem pretender passar por ousado, traçar também um projecto que, podendo ser fruto de exageradas aspi­rações, fosse todavia a indicação das necessidades existentes, cuja satisfação se impõe num futuro mais ou menos distante, e pela força imperiosa da expansão citadina.”

E (…) acreditando que de um projecto ou plano a mais não adviria grande mal, e ainda admirando a enérgica decisão de que está possuído o ilustre vereador, snr. Elisio de Melo, tão devotadamente empenhado em iniciar os grandes melhoramentos com que o Porto ha de ser dotado, decidi-me a sujeitar também o meu plano ao juizo publico e á complacência dos técnicos.”
Cunha Moraes apresenta, por isso, para além desse pequeno texto de fundamentação, uma planta à escala 1:10 000 com as vias existentes e as vias projectadas, e uma descrição dos traçados que propõe nessa planta.

fig. 13 – A planta que acompanha Os Melhoramentos da Cidade de Cunha Moraes 1916.

O plano, com alguma influência da Barcelona de Cerdà, propõe, a partir deste novo Centro, uma Avenida paralela à avenida da Boavista respondendo “…à reconhecida necessidade duma rápida e fácil comunicação com a Foz…” eixo gerador de uma malha regular constituída por perpendiculares e diagonais que se cruzam em rotundas, procurando adaptar-se à topografia e à malha existente, embora o autor reconheça que “… ao traçar (…) sobre a planta da cidade as ruas e as avenidas que no projecto se indicam, uma grande dificuldade se me deparou — a falta na mesma, de cotas ou curvas de nivel; vendo-me por isso obrigado a recorrer á inspecção do terreno e em condições muito sumárias. Não será, pois, de admirar que deficiências sejam notadas no traçado das ruas e avenidas, demais que ele foi realisado por quem prefere os problemas da mecânica aos da topografia.”

Referindo-se a esta Avenida, traçado fundamental do seu plano, Cunha Moraes, refere que “…é de presumir que pareça essa Avenida muito extensa e por isso monótona; mas não o será, se for interrompida ou cortada de praças e revestida de arborisação variada.”

Depois debruça-se sobre esta “pièce de resistance” da sua proposta: o eixo estruturante ou a Grande Avenida:
“Da Praça Central—no sentido da Foz—prolonga-se a Grande Avenida destinada a servir o intensivo transito, que dia a dia aumenta, do centro da cidade para a Foz.”

fig. 14 – A Avenida paralela à Boavista.

A Grande Avenida, passando ao sul do Cemitério Ocidental, vai encontrar uma Praça na Salaverca, donde segue em direcção ao Cemitério de Lordelo, cortando o prolongamento da rua fronteira á Egreja, para crusar mais adeante, em Serralves, uma outra praça atravessada obliquamente pela Avenida que se dirige á Esplanada do Castelo, que deve ser ampliada.
Deixando essa praça, a Grande Avenida cruza com uma outra rua nova e vae encontrar uma Grande Praça semelhante á da Boavista, donde saem diversas ruas e avenidas, sendo uma para o Ouro, outra para o Passeio Alegre, outra para a rua do Gama, etc.

A Grande Avenida, depois de sair daquela Grande Praça, é atravessada por uma rua que também vai ter à Esplanada do Castelo e segue até outra Praça que fica no prolongamento da rua do Molhe, indo acabar em uma meia lua na rua do Castelo do Queijo.


fig. 15 – A Foz do Douro no Plano de Cunha Moraes.

Esta Avenida, entre a Boavista e a Esplanada do Castelo, corresponderá nos anos 30 à Avenida Gomes da Costa.
Uma Rotunda é criada no encontro da nova Avenida com a rua do Molhe.


As praias de Carreiros

Uma após uma, as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva spuma
No moreno das praias.

Uma após uma, as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o spaço
Do ar entre as nuvens scassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Para um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa. A sorrir de nada.  [12]

  
fig. 16 - Arthur Loureiro (1853-1932), Praia de Carreiros 1906, óleo sobre madeira 23 x 60,5 cm. Col. Particular.


fig. 17 – A. Gama ?. Praia da Foz do Douro.

Desde a madrugada até às dez ou onze horas da manhã tomam-se banhos de mar em toda a linha da costa, desde a barra até ao molhe de Carreiros. É inumerável a quantidade de banhistas. [13]


fig. 18 – As praias da Foz do Douro no Google Earth.

Legenda acrescentada com os nomes actuais.
1 – Passeio Alegre
2 – Praia das Pastoras
3 – Praia do Carneiro
4 – Praia do Ourigo
5 – Praia dos Ingleses
6 – Praia da Senhora da Luz
7 – Praia de Gondarém
8 – Praia do Molhe
9 – Praia do Homem do Leme
10- Praia do Castelo do Queijo

As praias na planta de Telles Ferreira de 1892


fig. 19 – As praias na planta de 1892, orientada no sentido nascente-poente.

Legenda acrescentada com os nomes das praias
1 – Passeio Alegre
2 – Antiga Praia dos Ingleses (Praia das Pastoras)
3 – Praia de Banhos (Praia do Carneiro)
4 – Praia de Banhos (Praia do Ourigo)
5 – Nova Praia dos Ingleses
6 – Antiga Praia de Gondarém (Praia da Senhora da Luz)
7 – Praia da Caramujeira (Nova Praia de Gondarém)
8 – Praia de Carreiros (Praia do Molhe)
9 – Praia da Robaleira (Praia do Homem do Leme)
10- Praias do Castelo do Queijo

As pedras das praias de Carreiros

Si un jour tu vois
Qu’une pierre te sourit,
Iras-tu le dire? [14]

 
fig. 20 – Foto Alvão.

Alberto Pimentel refere que a senhora Joana era atraída por essas pedras das praias de Carreiros.
O mar era o grande encanto, a grande attracção da senhora Joanna. Quando iamos a banhos para a Foz, perdíamos ambos as tardes a procurar pedrinhas nas praias de Carreiros, porque ella tinha a scisma de que daquellas pedrinhas, passadas pelo fogo, se extraia ouro. [15]


Procurando seixos com Fernando Lanhas (1923-2012)

Quase um século mais tarde era Fernando Lanhas que Amava ir todas as tardes / Pelas praias do mar andando. [16]
E percorria estas praias, procurando nos seixos que por aqui se espalham, a luz que vem das pedras, do íntimo da pedra [17] para os transformar não em ouro, mas em pequenas peças de arte ou se se quiser em pequenas esculturas feitas a partir da própria Natureza.

 
fig. 21 - Fernando Lanhas (1923-2012) Escultura1972, óleo de cor preta s/seixo 3,5 x 15 x 9 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

O seixo

E o artista procurava seixos, esses calhaus rolados, sobre os quais François Ponge escrevera:

Le Galet ….Si maintenant je veux avec plus d'attention examiner l'un des types particuliers de la pierre, la perfection de sa forme, le fait que je peux le saisir et le retourner dans ma main, me font choisir le galet.
Aussi bien, le galet est-il exactement la pierre à l'époque où commence pour elle l'âge de la personne, de l'individu, c'est-à-dire de la parole.
Comparé au banc rocheux d'où il dérive directement, il est la pierre déjà fragmentée et polie en un très grand nombre d'individus presque semblables. Comparé au plus petit gravier, l'on peut dire que par l'endroit où on le trouve, parce que l'homme aussi n'a pas coutume d'en faire un usage pratique, il est la pierre encore sauvage, ou du moins pas domestique.
Encore quelques jours sans signification dans aucun ordre pratique du monde, profitons de ses vertus.
[18]

[O Seixo...Se agora eu quiser examinar, com mais atenção, um particular tipo de pedra, escolheria o seixo pela perfeição da sua forma, e pelo facto de a poder agarrar e de a revirar na minha mão.
O seixo é ainda a pedra no exacto momento em que inicia a idade da pessoa, do indivíduo, ou seja da palavra.
Comparado ao rochedo de onde deriva directamente, é a pedra já fragmentada e polida num grande número de indivíduos quase semelhantes. Comparando com o cascalho menor, podemos dizer, pelo lugar onde o encontramos, e porque o homem também não costuma dele fazer um uso prático, que é ainda pedra selvagem, ou pelo menos não domesticada.
Com ainda alguns dias, sem ter significado em qualquer ordem prática do mundo, aproveitemos pois das suas virtudes.]


 fig. 21a - Fernando Lanhas (1923-2012), P13-66Escultura 1966, óleo s/pedra 7,5 x 10 x11,5 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado.

E Fernando Lanhas procurava esses seixos, essas pedras nascidas do fundo do chão descobertas, antes que pesadas e densas, /carregadas de destino tivessem alguma finalidade prática, como afirma Cecília Meireles.

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.
Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.
Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.
E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens. [19]


fig. 22 - Fernando Lanhas (1923-2012), P1-49, Seixo pintado a óleo 2,3 × 9,7 × 5 cm. MNAC.

A praia da Caramugeira hoje praia de Gondarém (com o n.º 7 na fig.18)

Caramujo do mar, caramujo,
nas areias seco e sujo
“Fui rosa das ondas, da lua e da aurora,
e aqui estou nas areias, cujo
pó vai gastando meu dourado flanco,
sem azuis e espumas, agora”. [20]



fig. 23 – A Praia da Caramujeira hoje praia de Gondarém.

Na Praia de Gondarém, que também já foi da Conceição nome da sua conhecida banheira, o primitivo nome de Caramugeira indica a presença deÀs costas co a casca os caramujos. [21]

fig. 24 – Pormenor da planta de 1892 onde se assinala a praia da Caramugeira.

 
fig. 25 – Praia da Caramugeira assinalada na Quadrícula 23 da planta de 1892, à escala 1:500. AHMP.

Com Camões e alguma pintura pela praia da Caramujeira

Bem vês por essa praia presentar-se
Nas conchas vária côr á vista humana;
E o mar vir por entr'ellas e tornar-se. [22]


Por isso era frequente ver mulheres e crianças na praia, os brancos búzios apanhando [23]
e …As conchinhas da praia, que presentam / A côr das nuvens, quando nasce o dia; [24]


 fig. 26 - Corneliu Baba (1906-1997), Apanhando conchas, 1974, óleo s/tela 66 x 78 cm. Col. Particular.

Pela praia brincando vem diante,
Com as lindas conchinhas que o salgado
Mar sempre cria, e às vezes pela areia [25]


fig. 27 - Eugene de Blaas (1843-1932) - Gathering Shells, s/d, óleo s/tela 88,9 x 57,8 cm Col. Particular.

As manhãs leva-as o banho,
O bordado, as costurinhas,
A tarde o vagar nas praias
Semeadas de conchinhas.

Para colher taes conchinhas
Pelas praias salitrosas,
Áureas arêas revolvem
Delicadas mãos formosas. [26]

Por vezes a apanha de caramujos e de bivalves destinava-se à venda ou ao uso doméstico.

 fig. 28 - William Marshall Brown (1863-1936), Apanhando mexilhões, s/d, óleo s/tela 81,3 x 117,5 cm. Dundee Art and Gallery Museum.

A praia do Molhe (antiga praia de Carreiros)

Que vens buscar às arenosas praias,
Onde a bella Amphitrite só domina? [27]


A Praia do Molhe, que também já foi do Alberto nome de um conhecido banheiro, a partir do século XX passou a ser a praia mais procurada da zona costeira portuense, onde os jovens que queriam exibir belos mergulhos utilizavam o molhe para saltar.


fig. 29 – A Praia de Carreiros na planta de 1892.


fig. 30 - A Praia de Carreiros na planta de 1892. Quadrícula 14 da versão à escala 1:500 colorida.
A Praia do Molhe (antes Carreiros) vista do norte.


fig. 31 – Postal Porto-Foz do Douro-Carreiros. Edição de A. D. Canedo, Sucessor,Porto.


É a minha herança: o sorriso,
o azul de uma pedra branca.
Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,
um ramo de madressilva inclinado
para as abelhas que metodicamente fazem
do outono o lugar preferido do verão,
um melro que deixou o jardim público
para fazer ninho num poema meu,
um barco chamado Cavalinho na Chuva
à espera de reparação no molhe da Foz. [28]


 fig. 32 – O tramo inicial do Molhe vendo-se à direita o rochedo que Ramalho Ortigão chamou de Flor Granítica.

A flor granítica de Ramalho Ortigão

No paredão do quebra-mar sobressai da superfície plana da cantaria uma ponta de rocha negra, áspera, duramente recortada, como uma grande flor granítica. Essa rocha, em que eu me sentei em criança, com o meu chapéu de palha e o meu bibe cheirando a algodão novo azul e branco da fábrica do Bolhão, reconheci-a com a mesma ternura saudosa com que se torna a ver um velho móvel de família. Boas pedras! Entre tantas coisas que desapareceram, ou se transformaram, umas para mal outras para pior, vós somente persistis como éreis! [29]


fig. 33 – A Flor Granítica no Molhe de Carreiros.

No Centenário do escritor (1936) o Colégio Brotero colocou uma placa nesta rocha, que danificada foi reposta em 2016 pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.

   

fig. 34 – Foto da placa no blogue Porto de Agostinho Rebelo da Costa


fig. 35 - idem


A praia do Molhe com as barracas dos diversos banheiros.

 
fig. 36 – Postal Porto-Foz do Douro-Praia do Molhe.


Na fotografia seguinte repare-se que ainda não está construída a Esplanada.


fig. 37 – No Molhe nos anos 20.AHMP.


  fig. 38 – A praia do Molhe nos anos 30. AHMP

Repare-se no primeiro plano a instalação de socorros a náufragos com a bóia e a vara.

 
fig. 39 – Praia do Molhe.

A Praia da Robaleira (hoje praia do Homem do Leme)

Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incadescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é o seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento da estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso
ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.
Ele é o vento a noite a solidão
o robalo que luta contra a morte
e é a minha ligação magnética com Deus
esse umbigo do mundo
que rola sobre as ondas e cai do firmamento
com sua espuma e sua luz e sua noite
chamo-lhe Deus porque não sei como o chamar
ao meu ser e não ser
de noite junto ao mar
quando regulo a amostra e sua fluorescência
pescando robalos
ou talvez Deus
e sua ausência. [30]

A norte do Molhe estende-se a Praia da Robaleira, hoje Praia do Homem do Leme.

O nome de Robaleira indica de imediato a presença de robalos, esse saboroso peixe que procura os rochedos onde se escondem os animais que lhe servem de alimento.
Para além de um local onde há robalos, a Robaleira pode referir-se ainda a uma embarcação, a uma rede, ou a uma cana de pesca, específicas para a pesca do robalo.


fig. 40 – A Praia da Robaleira na planta de 1892.


fig. 41 - Praia da Robaleira. Quadrícula 13 do levantamento à escala 1:500, colorido de Telles Ferreira 1892.

Embora intitulada como Praia do Molhe a pintura de Arthur Loureiro mostra a praia da Robaleira. Ao fundo o Castelo do Queijo e Leixões.


fig. 42 - Arthur Loureiro, Praia do Molhe 1906, óleo sobre madeira 22,5 x 84,8 cm. Col. Particular.

A Foz do Douro no período entre as duas guerras

No período que vai desde o 28 de Maio de 1926 até à segunda Guerra Mundial, é preocupação da Câmara Municipal de realizar um plano de Melhoramentos ao longo de toda a Orla Marítima, entre a Senhora da Luz e a Circunvalação.

O pavilhão Majestic 1927

Ao longo do passeio poente da Avenida Brasil, então já arborizada, é, em 1927, apresentado na Câmara Municipal então presidida por Raúl Andrade Peres, um projecto para um pavilhão requerendo a aprovação da Sociedade Majestic-Café Lª , com sede na rua Santa Catarina n.112, desejando mandar construir na avenida Brazil um pavilhão pª. Venda de cervejas etc, durante a época calurosa (sic)… [31]
O responsável pela obra era Rogerio Rodrigues Vilar, arquitecto diplomado pelo Governo, morador na rua Costa Cabral.

fig. 43 – Alçado do Pavilhão Majestic 1927. AHMP.

O Pavilhão situava-se no passeio poente da Avenida Brasil em frente à Rua do Crasto.
No postal reconhece-se do lado direito o Pavilhão Majestic.




fig. 44 – Postais, Ed.JO, Porto-Foz do Douro-Avenida Brazil (Pavilhões).

Acrescentado em 12/06/2017

No Facebook A Nossa Foz, encontrei esta espantosa fotografia que mostra o Pavilhão Majestic em pleno funcionamento.



A expansão para norte do Molhe

Nesta planta de 1930, estão já projectados o remate da Avenida da Boavista (praça Gonçalves Zarco), o remate (praça do Império) da avenida Marechal Gomes da Costa e o conjunto viário que articula as duas praças.

Planta da zona compreendida entre a Rotunda da Boavista e o Porto de Leixões, com indicação do traçado de novos arruamentos em Nevogilde e São João da Foz, 1930, escala 1:10.000. AHMP.
fig. 45 - Pormenor da Planta da zona compreendida entre a Rotunda da Boavista e o Porto de Leixões, com indicação do traçado de novos arruamentos em Nevogilde e São João da Foz, 1930, escala 1:10.000. AHMP.





[1] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Ruas. in: Esquecer para lembrar. Boitempo III. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. (pág.90).

[2]  (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.30).

[3] Alberto Pimentel (1849-1925) Atravez do Passado, cap. Há Vinte Annos, Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial : 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.47).

[4] Carlos Barreiros Montez de Champalimaud (1877-1937), Foz do Douro. Febre Typhoïde. Dissertação inaugural apresentada à escola Medico-cirurgica do Porto Julho de 1901. Oficinas do “Commércio do Porto” 102, Rua do Commercio do Porto, 112 Porto 1901. (pág. 18).

[5] Carlos Barreiros Montez de Champalimaud (1877-1937), Foz do Douro. Febre Typhoïde. Dissertação inaugural apresentada à escola Medico-cirurgica do Porto Julho de 1901. Oficinas do “Commércio do Porto” 102, Rua do Commercio do Porto, 112 Porto 1901. (pág. 19).

[6] Ramalho Ortigão, As Praias S. João da Foz 1883, in As Farpas 1. Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pág. 112).

[7] Firmino Pereira O Porto d’outros tempos Livraria Chardron, de Lello & Irmão. Rua das Carmelitas, 144, Porto 1914. (pág.269 e 270).

[8] Carlos Barreiros Montez de Champalimaud (1877-1937), Foz do Douro. Febre Typhoïde. Dissertação inaugural apresentada à escola Medico-cirurgica do Porto Julho de 1901. Oficinas do “Commércio do Porto” 102, Rua do Commercio do Porto, 112 Porto 1901. (pág. 20).

[9] Carlos Barreiros Montez de Champalimaud (1877-1937), Foz do Douro. Febre Typhoïde. Dissertação inaugural apresentada à escola Medico-cirurgica do Porto Julho de 1901. Oficinas do “Commércio do Porto” 102, Rua do Commercio do Porto, 112 Porto 1901. (pág.15 e 16).

[10] Alberto Pimentel, Terra prometida. Guimarães e C.ª, Editores, 68, rua do Mundo,70, Lisboa 1918. (pág. 283).

[11] Ver neste Blogue Os Plano para o Porto 5, http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/08/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos_25.html

[12] Fernando Pessoa, poema [345] de 23-11-1918 in Obra Poética Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág. 273).

[13] Ramalho Ortigão As Praias S. João da Foz 1883, in As Farpas 1. Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pág. 113).

[14] Eugène Guillevic (1907-1997), Terraqué, Gallimard, 1942. In Terraqué suivi d' Exécutoire, colection Poésie/Gallimard, 1968 (pág. 29).

[15] Alberto Pimentel (1849-1925) Atravez do Passado, cap. Há Vinte Annos, Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial : 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.92).

[16] Jorge de Lima (1893-1953), O poeta que dorme dentro de vós, de A Túnica Inconsútil 1938, in Obra Completa (Org. Afrânio Coutinho). Aguilar, Rio de Janeiro: 1958. (pág. 454).

[17] Pedro (Mário de Alles) Tamen (1934), in Agora, Estar Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa 1975.

[18] Francis Ponge (1899-1988), Le Galet, de Le parti pris des choses, 1942 in Œuvres completes - Tome I, éditions Gallimard Pléiade, Paris 1999. (pág.54).


[19] Cecília Meireles, Pedras, de Poemas Escritos na Índia 1953 in Poesia Completa. Vol. I e II. Nova Fronteira, Rio de Janeiro 2001. (pág. 1013).

[20] Cecília Meireles, Poesia Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar. 1994. (pág.285-286).

[21] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Os Lusíadas Canto VI estrofe XVIII, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 1270).


[22] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 584).

[23] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 587).

[24] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 588).


[25] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Os Lusíadas Canto VI estrofe XXIII, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 1271).

[26] Alexandre José da Silva de Almeida Garrett (1797 - 1847), In As Viagens a Leixões ou A Troca das Nereidas, Poema Heroi-Cómico, na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Sancta Thereza, n.º 28. Porto 1855. (Canto IX, pág. 187).


[27] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Agrário pastor e Alieuto pescador in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 583).


[28] Eugénio de Andrade In: Os Sulcos da Sede 2001

[29] Ramalho Ortigão, As Praias S. João da Foz 1883, in As Farpas 1. Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pág. 112).

[30] Manuel Alegre (1936), Foz do Arelho, Quarto poema do pescador (Lisboa 8 de Dezembro de 1996) in Senhora das Tempestades, Editora D. Quixote 1998.


[31] Licença de obra n.º: 516/1927. Documento/Processo, 1927/07/04 – 1927. AHMP.


CONTINUA
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