Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 8 de março de 2017

o rio e o mar na foz do Douro 2






II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio

Agua, ¿dónde vas?
Riyendo voy por el río
a las orillas del mar.
Mar, ¿adónde vas?
Río arriba voy buscando
fuente donde descansar.
  [1]

Na I Parte evocou-se que “Do Porto contam os nossos bem-aventurados antiquários que foi colonia grega; e dos gregos contou Horacio que falavam ore rotundo”. [2]
A frase é de Almeida Garrett citando a expressão de Quintus Horatius Flacus, Graijs dedit ore rotundo Musa loqui (A Musa concedeu aos Gregos falar com eloquência). [3]
 
fig. 1 – A Barra do Douro e a Foz do Douro vistas do lado de Gaia. AHMP.

A entrada pelo mar
Muitos viam como terrível a barra do Douro, como a personagem do inglês mister Rawts que, debruçado na janella, principiou a fallar d'aquella péssima barra do Douro, que tanto mal fazia ao commercio! E, abanando a cabeça muito branca, com um ar triste, lamentava: —Oh! uma peste de barra, captain! Uma peste de barra! [4]
 
fig. 2 - View of the Bar of Oporto
 
E Raul Brandão descreve a entrada na barra do Douro.
Atrás de nós fica uma larga estrada de prata. Na poalha de ouro descobre-se um risco indeciso. E a terra. Primeiro, nuvem distante. Um momento e acentuam-se os traços deslavados da areia. Mais cor agora… E a terra, a princípio desvanecida e roxa e depois verde nos eternos pinheirais. Um areal dourado, um ponto branco que estremece - o Senhor da Pedra. O vento enche a vela e, pouco a pouco, todo o panorama transparente sai do mar e escorre tinta. No fundo, ergue-se a costa com manchas escuras de pinheiros, que não se distinguem ainda. Faísca envolta em névoa a brancura das casas, e toda a larga paisagem renasce em tons de aguarela. A terra voluptuosa - cabedelo de ouro, montes pálidos que saem da água como seios - entreabre-se para nos acolher. Eis os gigantescos braços de Leixões, tão leves que a luz os trespassa, a penedia afiada de Carreiros, onde o mar escachoa, e o pontilhão coberto de espuma, ao sul, Lavadores, o areal de Espinho, bruma afastada e cor de cinza. Cai a tarde. Vamos entrar a barra. Quase toco de um lado no velho castelo roído de salitre e, do outro, no bico do Cabedelo, onde as gaivotas apanham o último sol. - Eis a barra. Agora, o leme firme! [5]
 

fig. 3 - Postal Costumes Portugueses – Porto - Rio Douro – Pescadores voltando do mar c.1910.

Vilhena de Barbosa descreve, para quem se aproxima do Porto vindo do mar, e passada a terrível e temível Barra do Douro, como é muito agradável, (…), ver os arvoredos que fazem caixilho de verdura a povoação da Foz, e que vão assombrando a estrada á beira do rio. É bello ver ambas as margens montuosas vestidas de bosques, em que ora se mostram, ora se escondem, aqui uma habitação esplendida, alli uma casa humilde, além uma aldeiasinha, mais longe um estabelecimento fabril. Enlevam-se os olhos contemplando por entre os pinhaes, ou através dos renques de carvalhos, toucados de vides, viçosissimos prados, ou estendidos como alcatifas ao longo do rio, que na estação invernosa os inunda e fertilisa, ou dispostos em throno nas quebradas dos montes de Sampaio. Porém todas estas bellezas são singularmente realçadas pelas fragas inhospitas do monte da Arrabida. [6]
 
O texto de Ignacio Vilhena de Barbosa era acompanhado pela seguinte imagem. 

fig. 4 - O Douro visto do monte da Arrabida in Archivo Pittoresco 1867.
 


[1] Frederico Garcia Lorca (1898-1936), Agua ? Donde Vas?, in Obras Completas Recopilacion y notas de Arturo del Hoyo. Prólogo de Jorge Guillen. Epílogo de Vicente Alexandre. Aguilar, S. A. de Ediciones Juan Bravo, Madrid 1969. ( pág. 416).
[2] Almeida Garrett na Nota J ao verso Que o rotundo fallar da nossa origem, poema XV As Férias. A um amigo, datado: Porto, Junho 15, 1819. Em Lyrica, Livro Primeiro de Obras Completas de Almeida Garrett. Grande edição popular ilustrada. Prefaciada, revista, coordenada e dirigida por Theophilo Braga. Volume I, Poesia e Theatro (prosa e verso). H. Antunes, Livraria Editora, 145, Rua de Buenos Ayres, 145, Rio de Janeiro e 9, Travessa da Espera, 11, Lisboa M DCCC LIV. (pág. 69 e pág. 99).
Citado também por Alberto Pimentel in O Porto na Berlinda Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.33).
[3] Quintus Horacius Flacus (65 a.C.-8 a.C.), Ars Poetica, versos 323 e 324.
[4] Alberto (Leal Barradas Monteiro) Braga, (natural da Foz do Douro, 1851 - 1911), Amores à Beira Mar in Contos Escolhidos. Illustrações E. Casanova. M. Gomes, Livreiro Editor, 70, Rua Garrett (Chiado), 72, Lisboa 1892. (pág.5).
[5] Raul Brandão (1867-1930), A Foz vista do mar in Guia de Portugal, Rntre Douro e Minho I – Douro Litoral, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.376).
[6] Ignacio de Vilhena Barbosa (1811-1890), Archivo Pittoresco. Tomo X, 1867. (N.º 16 pág. 121).
 
 
Da cidade para a Foz pela margem do rio 

[nota – Nos primeiros textos colocados neste blogue ocupamo-nos dos transportes. Por isso, aqui apenas nos ocuparemos dos transportes para a Foz.]

fig. 5 – Postal dos início do século XX. Vista sobre a Barra do Douro.
   

De barco

Eu quero o mapa das nuvens
e um barco bem vagaroso.
 [1]

Quando a Foz se tornou uma procurada estância balnear, para quem, do Porto, seguia de barco (como os turistas de hoje), percorrendo o mais antigo dos percursos que ligavam a cidade à foz do Douro, fazia-o em pequenas embarcações à vela ou em pequenos escaleres a remos. 



 
































fig. 6 - Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


 
fig. 7 - Uma lancha poveira de dois mastros e uma bateira de cabotagem Pormenor de Manoel Marques de Aguilar, Vista da Cidade do Porto, desde a Torre da Marca athe as Fontainhas, tomada da parte de Filia Nova do sítio chamado Choupello. 1791.



fig. 8 – Postal do início do século XX.

 
Mas com o aumento da procura, em 1855 foi criado um serviço de barcos a vapor, entre a cidade e a Foz. [2]
Assim, nos meados do século XIX, quem do Porto queria ir para a Foz, dizia adeus ao Porto ao gageiro Néctar louro, / Que produz o fertil Douro [3], e dirigia-se à Porta Nobre, a porta da muralha da cidade que abria para a ocidente, como em verso refere Theotonio Xavier da Cunha: [4]
 
Assim, por ser d’ Apollo previdente
À nova fundação vaticinada,
Do muro pelo Heróe ao Sol luzente
A porta oriental foi dedicada.
Outra porta, q'olhava no occidente,
Na praia, onde ancorou a grega armada,
Em memoria d'acção, q'executárão,
Com o nome de Nobre decorarão
.
[5]

Aí embarcava num vaporzinho que fazia carreira entre a cidade e a Can­tareira, [cuja] empresa não deu bom resultado, tal era o apego ao burro, no Porto daquele tempo, como meio de transporte. [6]
 


fig. 9 - Pormenor de Vista da Serra do Pillar, e Ponte Pênsil sobre o Rio Douro na Cidade do Porto. Joaquim Manuel das Neves, dez. do Nat. e grav. Porto.

 
O vaporzinho era o Duriense, pequeno barco, movido a vapor, que morreu de paixão por não poder andar tanto como um carroção puxado a bois, como refere Faustino Xavier de Novaes, no seu poema Um passeio à Foz.
Nele descreve o regresso desse passeio.

…Immensa multidão lá se descobre
No logar onde esperam passageiros,
Que o vapor os vá pôr na Porta Nobre,
Ri-se a gente do tom, dos cavalleiros
Que, sem que áureo metal assaz lhe sobre,
Fidalgos querem ser, e não caixeiros;
Em quanto que o patrão, lá na cidade,
Ficou de mãos erguidas na Trindade…
Faustino de Novaes contudo, por medo, não embarca.
O Duriense partiu; marchei, por terra,
Porque sou mui cobarde nos revezes,
E escuto como alguma gente berra,
Quando o lindo vapor, não poucas vezes,
Com pedras, água e vento, em crua guerra,
Se dispõe a mangar dos portuguezes:
O passeio findei, bom de saúde,
Se mal o "descrevi, fiz o que pude. 
[7]


No postal vê-se ao fundo, navegando no Douro, um navio a vapor, (o Veloz?), chegando à Cantareira. 


fig. 10 – Postal dos finais do século XIX.


[1] Mario Quintana (1906-1994), Canção de Barco e de Olvido.Para Augusto Meyer. Do livro Canções 1946, in Poesia Completa  Organização, preparação do texto, prefácio e notas: Tania Franco Carvalhal. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro 2006. (pág.160).
[2] Sobre o barco a vapor ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-8.html
[3] Composições Poéticas, oferecidas ao Sereníssimo Regente de Portugal Senhor Dom João, Principe Regente de Portugal, por BMCS, sócio da Academia Tubuciana entre os Arcades Belmiro Transtagano. Na Regia Officina Typografica, Porto M DCCC III. (pág. 156).
[4] Poesias de Theotonio Joze Xavier da Cunha. Na Offic. De Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de 1796. (Estrofe 32, pág.391).
[5] Com uma especial saudação para o Nuno Cruz autor do magnífico blogue A Porta Nobre!
[6] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto Há Trinta Annos. Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Porto 1893.
[7] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág.37).
 
 


Pela estrada junto ao rio.

Vesti a casaquinha afiambrada,
E da soberba Foz segui estrada
. [1]

No seu Romance os Tripeiros, que se desenrola no século XIV, António Coelho Lousada refere que
O espaço que se estendia desde os muros até onde a Arrabida deixava apenas um caminho de cabras, aberto na rocha para quem se quizesse dirigir á Foz do Douro, não foi pois transposto em menos de uma hora, pela vanguarda: uma grande parte do exercito popular nem lá chegou. [2]
 
E nos finais do século XVIII, apenas existia um tortuoso caminho até à Foz que prolongava a estrada entre a cidade até Massarelos.
Mas apenas em meados do século seguinte, ao construir-se o paredão da Cantareira, se abriu uma verdadeira estrada, permitindo que os portuenses pudessem deslocar-se a banhos nas praias da Foz. 

A estrada em macadame é assim descrita por Lady Jackson, nos anos 70 do seculo XIX:
É uma estrada cheia de vida; assim tivesse menos pó, que forma sobre ella uma nuvem continua, em consequência do tranzito constante dos carros de bois, passando e repassando, de cavalgaduras, de pequenos carros de cortinas com gente da província, ou banhistas que não chegaram a tempo ou não acharam logar nos Americanos. [3]
 
De facto, e como em outros países, os portuenses que iam para a Foz partiam em caravanas, montados em burros e cavalos, ou em carros puxados por bois ou por cavalos, até ao aparecimento da tracção eléctrica.
[Nota – Pela dificuldade de encontrar imagens destas iniciais deslocações às praias da Foz, socorri-me de imagens de outras paragens que, de algum modo, mostrassem o ambiente desses passeios e deslocações.]


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 32).
[2] António Coelho Lousada (1828-1859), Os Tripeiros. Romance-Chronica do século XIV, por A. C. Lousada.Typographia de J. J. Gonçalves Basto, Largo do Corpo da Guarda n. 106, Porto 1857. (pág.3).
[3] Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág. 302).

 
 
De burro

Em tysicos jumentos, abatidos
Ao pêso de pomposas bagatellas,
Vi damas. Com esplendidos vestidos,
Com lindas fitas brancas e amarellas.
 [1]

fig. 10 - Jan Verhas (1834-1896) Donkey Ride At Heist, 1884 óleo s/tela 41 x 64 cm. Royal Museum of Fine Arts, Antwerp.

 
Ramalho Ortigão refere que os burros da Foz eram muitas vezes provenientes da Rosa das burras, cujo nome provinha do seu estabelecimento, em que se alugavam as mulinhas cavalgadas, estabelecimento que ostentava a seguinte tabuleta: 

Aqui se alugo vurras para passeio e para leites com albarda e com selim de homem e de senhora. [2]
 
Alberto Pimentel refere essas alegres burricadas.

Os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras orga­nizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras caíam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquele vul­gar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia de banhos, onde os burros ficavam descansando enquanto as pessoas que eles haviam transportado iam tomar banho.
Estas caravanas que chegavam ou que partiam contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos. [3]
 



fig. 11 –Antes da partida do Raid. Caldas da Rainha in Illustração Portuguesa, n.º 138, 12 de Outubro de 1908. Cliché de F. Mathias.
Os burros, esses simpáticos e tão, injustamente, desprezados animais, eram sobretudo cavalgados por senhoras e crianças. 


fig. 12 - Isaac Israels (1865-1934) Donkey riding (1898 - 1902) óleo s/tela 80 X 100,6 cm. Museu Municipal de Haia.
Sobre a figura feminina montada num burrico, quem não se lembra do poema de Cesário Verde, magistralmente dito por João Villaret, sublinhando toda a musicalidade dos versos do poeta! 

N’aquelle “pic-nic” de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
………………………………………………….
 [4]


fig. 13 - Isaac Israels (1865-1934) Girl riding a donkey, c.1898. Kröller-Müller Museum, Otterlo.
Charles Sellers descreve como eram utilizados os burros e os carroções pela colónia inglesa, na Foz do Douro, onde possuíam a sua própria praia (a praia dos Ingleses) e os seus próprios burros. 

When I was a boy, before caleches had commenced running between Oporto and Foz, the narrow esplanade at the back of the bathing-station was the standing ground for numberless badly equipped and sorry looking donkeys, which were waiting the return of their riders from their morning ablutions. Many families would engage a huge carriage, something like our country
omnibus, but drawn by oxen, and for these, while the family bathed, there was a space reserved in the neighbouring streets. Our young people of today may not feel inclined to credit that in this fashion their ancestors had to travel to Foz for their sea-dip; the ladies used to ride on an andilha, a sort of cushioned chair on donkey back. And as we English had a separate bathing place from the Portuguese, so we had our own donkeymen and women who provided us with our mokes. [5]
 
[Quando eu era criança, antes que as caleches começassem a circular entre o Porto e a Foz, a estreita esplanada por trás do balneário era o local para inúmeros asnos mal equipados e desesperados, que esperavam o retorno dos seus cavaleiros das suas abluções matinais. Muitas famílias alugavam uma grande carruagem, algo parecida com os omnibus rural do nosso país, mas puxadas por bois, e para aquela, enquanto a família se banhava, havia um espaço reservado nas ruas vizinhas. Os nossos jovens de hoje podem não se sentir inclinados a acreditar que, desta forma, os seus ancestrais tiveram de viajar para Foz para o seu mergulho no mar. As senhoras costumavam andar numa andilha, uma espécie de cadeira sobre a sela do burro. E, como nós os Ingleses tínhamos uma praia separada da dos Portugueses, também tínhamos os nossos próprios rapazes dos burros e mulheres que nos forneciam os nossos burros.

As senhoras montavam à amazona, sentadas em andilhas, pequenas cadeiras de vime, servindo de sela. 


fig. 14 - William Woodhouse (1857-1939) The Donkey Boy. Lancaster Maritim Museum.
 
Os burros ficavam nas praias, sob o olhar vigilante dos seus tratadores. 


fig. 15 - Lodewijk 'Louis' Soonius (1883-1956) Ezeltjes op het strand wachten op badgasten. oil on canvas 50.5 x 70 cm. (Coll. Christies.com).
 
Como se vê na capa desta revista Ilustração, em 1926 o passeio de burro na praia era já apenas divertimento. De reparar nos fatos de banho e na maneira como as jovens já cavalgam o burro. 




 































fig. 16 - Capa da revista Ilustração Ano I, n.º 16 Agosto de 1926.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.23).
[3] Alberto Pimentel (1849-1925) O Porto Há Trinta Anos, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Porto 1893.
[4] Cesário Verde (1855-1886) De Tarde in O Livro de Cesário Verde 1873-1876. Reimpressão textual da primeira edição feita pelo amigo do poeta António da Silva Pinto (1848-1911). Terceira Edição. J. A. Rodrigues & C.ª, Editores, 186, Rua Áurea, 188, Lisboa 1911. (pág.86).
[5] Charles Sellers (?-?), Oporto old and new being a Historical Record of The Port Wine Trade, and a Tribute to British Commercial Enterprize in the North of Portugal by Charles Sellers. Edted and Published by Herbert Edward Harper (The Wine & Spirit Gazette), 39, Crutched Friars, London 1899. (pág. 9 e 10).
  



De cavalo 

Em soberbos cavallos, bem montados,
Vi correrem galhardos cavalleiros…
 [1]


fig. 17 - Anton Mauve (1838 –1888) Promenade matinale à cheval sur la plage, 1876, óleo sobre tela 43,7 × 68,6 cm. Rijksmuseum. Amesterdão.

 
No cavalo, vai o janota que usa bigode torcido, que põe gravatas garridas, que é do typo de chicotinho e de cavalicoque. [2]
 
Mas a mulher montava, diz Ramalho Ortigão, como a inglesa: hombros fortes, peito chato, vestido abotoado como um veston, collarinho liso, cabello escondido na copa do chapéo posto em cheio na cabeça e inclinado para traz, uma bengala atravessada sobre o pescoço do cavallo e segura pelo meio na mão da rédea. [3]

 
fig. 18 - Charles Auguste Emile Durant ou Carolus-Durant (1837-1917) Portrait equestre de mademoiselle Sophie Croizette en amazone 1873, óleo s/tela Musée des Beaux Arts de Tourcoing Lille

Muitos jovens divertiam-se exibindo os seus belos cavalos.


fig. 19 - Lucy Kemp-Welch (1869-1958) Horses bathing in the sea 1900, óleo s/tela 152,9 x 306,5 cm. National Gallery of Victoria, Melbourne Austrália.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes(1820-1869), Um passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), John Bull, depoimento de uma testemunha, 2.ª edição, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, Porto 1887. (pág. VII)
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), John Bull, depoimento de uma testemunha, 2.ª edição, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, Porto 1887. (pág.72).
    



De carroção [1]
……………………………….. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...

Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
 [2]


Para servir de alternativa aos jumentos utilizados para estes percursos, e como viatura familiar, surgiu o Carroção.
O Carroção, pesado e vagaroso, puxado por uma junta de bois, tornou-se conhecido pelo transporte de passageiros da cidade para a Foz do Douro, então tornada estância balnear. 

fig. 21 – O Carroção numa gravura da época.

 
Faustino Xavier de Novaes sublinha ironicamente a lentidão da viatura.
Enquanto carroções de antigas eras,
Divagam, a dormir, por essas ruas!

O marido infeliz que a esposa veja
Em capoeiras tais tomar assento
Dirigindo-se à Foz, a tomar banho,
Logo de negra cor vestir se deve,
E desse instante, já, crer-se viúvo;
Porque as vidas, bem vês, são curtas hoje
E não deve supor caso possível
Viver até que um dia a esposa volte!
[3]

Camilo Castelo Branco descreve os carroções, referindo o mais conhecido dos seus proprietários.
Os Carrocões de Manoel José d'Oliveira, repletos de gente, arrastavam-se para a Foz. Os carroceiros picando as vaccas derreadas para puxarem aquellas famílias, mu­giam uns êhs prolongados, plangentes, d'uma grande caracterisacão selvagem, prehistorica, anterior à forma­ção das línguas. [4]
 
E Ramalho Ortigão descreve como as famílias, incluindo a sua, se deslocavam para a Foz nos carroções de Manel Zé, o mais conhecido dos carroceiros.
Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matozinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes, e penso para os bois! Para este fim havia nas bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidade, poderia arrumar-se — outra família.
Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções por um pinto, como os quartos da hospedaria do Damião.
Por tão módica quantia teve o Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pêlos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.
Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro deles e de se pôr a olhar para fora pêlos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.
Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento.
Consagrando estas modestas linhas à história da antiga viação portuense, não posso omitir a descrição do notável carroção da minha família.”
[5]

 
fig. 22 - Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), O Carroção.
O Carroção é ainda criticado por José Gomes Monteiro
A verdade é que este capacíssimo vehiculo, a que o nosso engenho inventivo se lembrou de applicar a força motriz do boi, ao mesmo tempo que os inglezes applicavam o vapor às carruagens; estas commodas ar­cas de Noé que transportam para o theatro e para a Foz os amos, as creanças, as criadas, os cães e os ga­tos, o papagaio e o cochixo — este vehiculo, digo, era in­venção mui superior ao desenvolvimento intellectual de nossos antepassados de ha cem annos. [6]

 
fig. 23 – Carroção particular no blogue A Porta Nobre.

 
Havia carroções de aluguer, e carroções particulares. Famílias abastadas tinham carroção como hoje podem ter coupé. Na minha rua, a de Sovella, ao pé da minha casa, havia dois carroções particulares: o das snr.as Menezes e o do Bento Ribeiro de Faria. Em toda a rua não havia menos de sete ou oito carroções de família. [7]
 


[1] Sobre o Carroção ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010_04_01_archive.html
[2] Otacílio de Azevedo (1892-1978), Carro de boi in Réstia de Sol: Poesia. Fortaleza Tip. Iracema, 1942. (pág.42).
[3] Faustino Xavier de Novaes(1820-1869), Epístola in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 166).
[4] Camillo Castello Branco (1825-1890) A Corja, 1880 in Historia e Sentimentalismo I Eusébio Macário (continuação) II. Poetas e Raças Finas II. Livraria Chardron de Lello & Irmão, Editores, Porto 1903. (Cap. IV, pág. 41).
[5] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 26).
[6] José Gomes Monteiro - Folhetim do Nacional, 1851 - citado por Alberto Pimentel (1849-1925) no Porto na Berlinda, Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa Editora M. Lugan, Successor, Porto1894. (pág.66).
[7] Alberto Pimentel O Porto na Berlinda. Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.73).
     

 
De Omnibus [1]

L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,…
[2]

 [o omnibus, furacão de sucata e de lama / Que range, mal assente nas suas quatro rodas,…]
Ramalho Ortigão refere-se ao omnibus como substituto do carroção sobre os quais as senhoras regressavam do banho com os narizes frios e os seus chapéus postos em cima de seis lenços atados na cabeça, foi ampliado por fim com o serviço dos omnibus... [3]


 
fig. 24 – Um omnibus passando junto à capela de N.ª Sr.ª da Lapa na Cantareira. Pormenor de Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.

E Augusto Gama descreve mesmo o omnibus.
Entre nós — falo no Porto — vive só no tempo dos banhos... e como vive, meu Deus? Quereis que vo-lo diga? Ora olhai.
Vedes essa caixa com feições de arca de Noé — seis vidraças e sobre o tecto um assento a que chamam varanda; puxada por quatro machos azamelados, guiados por um boleeiro de jaqueta de chita e cha­péu de ferro, tendo na porta de entrada postado um salafrário da mesma edição? É o ónibus do Porto”. [4]

 
fig. 25 – David W. Bartlett (1828-1912) Omnibus.
 


[1] Sobre o omnibus ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/05/os-transportes-terrestres-2-o-omnibus-o.html
[2] Paul Verlaine (1844-1896) La bonne chanson. Alphonse Lemerre, Éditeur. Passage Choiseul, 47. Paris M.D.CCC.LXX. (pág. 29).
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 30).
[4] Augusto Gama, Dois Escritores Coevo, Camilo e Arnaldo Gama, Coimbra Editora, Limitada. Coimbra 1933.

 
 
De Char-à-bancs [1]

…Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,…
[2]

Ramalho Ortigão escreve em As Praias de Portugal que aos omnibus seguiram-se os chars-a-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento de banhistas aumentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna.[3]

 
fig. 26 – Um char-à-bancs inglês.
 
Dos carroções, omnibus e char-à-bancs que partiam do Carmo, fala Júlio César Machado:
A cidade n’essa epocha não poderia dizer-se bella, mas as camélias, o Douro, a Foz, compemsavam tudo. Uns omnibus, uns char-à-bancs, uns diabos de carros fantásticos, venciam a passo por minuto a légua do Porto à Foz; porém, logo que desciam a Restauração, começava a deleitar-se a vista n’um panorama admirável, que se descobria em todo aquelle passeio à beira do Rio. [4]
 
E João Peres Abreu, no seu Guia do Viajante de 1865, indica que na Porta Nobre, para além do vapor que desaconselha, há um serviço de char-à-bancs.
Do Porto, do sítio da porta nobre, partem todos os quartos de hora char-à-bancs, que pela módica quantia de 80 réis conduzem diariamente milhares de passeadores.
Quem a preferir, tem a via fluvial; mas não a aconselharemos a ninguém. [5]

 
fig. 27 – J. Nogueira, char-à-bancs.

 
E Alberto Pimentel lembra:
Era da Porta Nova que partia uma das carreiras de caleches para a Foz – a 80 reis cada passageiro. Nos que sahiam do largo do Carmo o transporte era mais caro: seis vinténs por pessoa. A não ser o barco e o carroção, não havia outro meio de conduccção para a Foz. [6]
 
E em Atravez do Passado escreve: A Foz não era então, como hoje, uma cidadezinha balnear, com hotéis, com bilhares, com chalets, jogos e lojas; mas continha já o núcleo do seu desenvolvimento actual. De tarde, algumas famílias ilustres ou que se presumiam taes, iam passear a Carreiros, então um deserto, ou á Cantareira por onde entravam na povoação os char-à-bancs que traziam gente do Porto, a 80 ou 120 réis por cabeça, não segundo o tamanho e o peso da cabeça, mas segundo partiam da estação do Carmo ou da Porta Nova. [7]

 
No postal da praça dos Voluntários da Rainha (hoje Gomes Teixeira mas sempre conhecida pela praça dos Leões) vemos no canto inferior esquerdo em frente da igreja do Carmo um char-à-bancs. 



fig. 28 – Postal. Porto, Praça dos Voluntários da Rainha.
 


[1] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/05/os-transportes-terrestres-2-o-omnibus-o.html
[2] Cesário Verde (1855-1886), Desastre in O Livro de Cesário Verde 1873-1876. Reimpressão textual da primeira edição feita pelo amigo do poeta António da Silva Pinto (1848-1911). Terceira Edição. J. A. Rodrigues & C.ª, Editores, 186, Rua Áurea, 188, Lisboa 1911. (pág.86).
[3] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.30).
[4] Júlio Cesar Machado (1835-1890), A Vida Alegre. (Apontamentos de um folhetinista). Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, 67, Praça de D.Pedro,67, Lisboa 1880. (pág. 28).
[5] João António Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. Por João António Peres Abreu, Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.50).
[6] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto na Berlinda Memorias de uma família portuense, livraria Internacional de ernesto Chardron, Casa Editora, M. Lugan, Successor, Porto 1894. (pág.64).
[7] Alberto Pimentel (1849-1925), Atravez do Passado, cap. Matosinhos. Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial : 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.11).
    



Em outros transportes de tracção animal

Era domingo, despontava a aurora,
As seges e carrinhos já voavam,…
 [1]

As seges e outras carruagens, para além das particulares, quando de aluguer, constituíam os chamados trens de praça, e no Regulamento dos trens de Praça do Porto de 1869, são definidos os seus locais de estacionamento, entre os quais o da Foz do Douro.
Art. 109.° As estações publicas de trens, destinados a conducção de passageiros serão nas praças da Batalha, — de D. Pedro, — da Trindade,—de D. Pedro V, — ruas, Occidental do Campo dos Martyres da Pátria, — dos Inglezes, — de Miragaya,— Campo Pequeno,— e na Foz, ao fundo da rampa do Castello.
[2]
 

fig. 29 – Um trem de praça na rampa do Castello. Postal sob fotografia de Emilio Biel.
 


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), Um Passeio à Foz in Poesias por Faustino Xavier de Novaes. Segunda edição, mais correcta e augmentada. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 50. Porto 1856. (pág. 33).
[2] Código de Posturas Municipaes do Porto 1869.
    



De bicicleta
Ó ágil e frágil bicicleta andarilha.
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar !
[1]

Na transição do século XIX para o século XX, a bicicleta torna-se um meio de transporte e de laser.
 

fig. 30 – Ciclistas no início do século XX.
 
Em 1880 no jornal O Primeiro de Janeiro uma notícia dá conta de uma corrida de bicicletas, entre Matosinhos e a Foz e organizada pelo Club Velocipedista Portuense. Refere o jornalista: No Passeio alegre, subida a Esplanada do Castelo, era tal a multidão que tornava difícil o trânsito.
Pela estrada de Carreiros até Matosinhos estendiam-se duas longas filas de povo para ver passar os contendores.
As janelas estavam adornadas com as damas da nossa melhor sociedade e a tarde apresentou-se magnifica. (…) Antes da corrida estiveram os prémios expostos na Chalet do Sr. Carneiro. Durante a diversão tocou no Passeio Alegre a Banda de Caçadores 9.
É digno de aplauso a iniciativa do Club Velocipedista Portuense para com este género de recreios. O êxito das primeiras corridas foi completo, e assim será também, segundo cremos o dos subsequentes. [2]
 


[1] Alexandre O'Neill (1924-1986), Elogio Barroco da Bicicleta in A Saca de Orelhas, 1979. In Poesia Completa, Assírio & Alvim 2012 (pág. 348).
[2] O Primeiro de Janeiro de 20 de Julho de 1880.
   
 

De americano [1]

O serviço dos caminhos-de-ferro americanos, explorado com talento, converterá em pouco tempo a Foz num bairro do Porto. [2]
 
Nas décadas de 70 e 80 do século XIX, começa a circular no Porto o transporte urbano público sobre carris, com a constituição das empresas do carro Ripert e do Americano.
Este cuja primeira linha, significativamente, será instalada entre a rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique) e a Foz, irá ter um particular impacto no desenvolvimento da Foz. 


fig. 31 – O americano. Foto do Guia do Porto Illustrado 1910 de Carlos de Magalhães.
 
E Lady Jackson descreve a multidão que vem ou vai para Foz e que aqui sai e entra no americano.
Uma nuvem de poeira avisa que o americano está a chegar. A jornada desde Mathozinhos até à parte superior da cidade termina á entrada d'este jardim. Espera-o muita gente. Vem completamente cheio, mas tam depressa descarrega a sua carregação de banhistas da Foz, que se enche immediatamente e parte.” [3]



fig. 32 – Um americano na Foz do Douro.
 
E José Augusto Vieira no Minho Pittoresco refere a importância das duas companhias do americano contribuindo para transformar a Foz como a praia de excelência do Porto.
Mas que os progressistas da vida velha e vida nova me perdoem, se, não obstante a sua preponderância na cidade, os sacrifico, juntamente com os regeneradores do sr. Serpa, a esquerda dynastica e todas as nuances republicanas, ao appetite de um passeio á FOZ em um dos americanos da Companhia de baixo, a primeira companhia d'este género instituída no paiz, tão recommendavel pela sua pontualidade ingleza, ou em um dos carros da Companhia de cima, tão recomendáveis exactamente pelo contrario, o que não deixa de ser para o touriste um episodio agradável. O melhor conselho practico é ir por um lado e vir pelo outro, tendo-se occasião assim de gosar os dois aspectos panorâmicos das estradas, por onde correm as linhas do rail-road.
A Foz é hoje, graças às duas companhias, um verdadeiro bairro do Porto. Vive-se lá todo o anno, um pouco por economia, um pouco por amor da saúde, um quasi nada por gosto, e sobretudo muito por causa da massada da mudança no período fixo dos banhos. Com a sua preocupação de imitar John Bull, o portuense acha encantador ter ali a Foz á mão, para fingir de bairro affastado, e adoptou-a de preferencia a qualquer outro arrabalde. A Foz merecia a preferencia, deve concordar-se pelo que tem de recolhida e silenciosa no inverno, e pelo que tem de pitoresca e deliciosa no verão, n'esta estação sobretudo, visto que ella é a praia por excellencia do Porto, e a miniatura mais fielmente reproduzida do seu movimento e costumes. [4]
 


[1] Sobre o Americano ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/06/os-transportes-urbanos-sobre-carris-1.html
[2] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág. 33).
[3] Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág. 298).
[4] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Livraria de Antonio Maria Pereira, 50, Rua Augusta, 52 Editor, Lisboa 1887. (pág. 727 a 729).
   

 
De eléctrico
Há electricos que com cores diárias
Percorrem nossas vidas…
[1]

O americano esteve em actividade até 1904, altura em que foi definitivamente substituído pelos veículos de tracção eléctrica e a vapor. No entanto a designação de americano durante alguns anos ainda designou qualquer dos transportes urbanos sobre carris. Significativamente a primeira linha de carro eléctrico, também ia da praça do Infante até à Foz e daí seguia para Matosinhos.
Hoje o carro eléctrico para a Foz, reduzido a uma actividade turística em linha única, é o que resta da rede que abrangia a cidade e os arredores.
Na imagem o eléctrico, na direcção das praias, no Passeio Alegre já então o jardim preferido nas calmosas tardes de verão, pela elite da Foz e do Porto, para seu passeio predilecto. [2]
Repare-se que existia então um banco corrido em toda a extensão do lado norte do Jardim.


fig. 33 – Postal mostrando o eléctrico no Passeio Alegre.
Na fotografia seguinte vê-se um eléctrico (o 163) circulando no Passeio Alegre, agora na direcção do Porto.
O eléctrico tinha então três carruagens sendo que uma delas era totalmente aberta nos lados. 


fig. 34 - O carro eléctrico, detalhe de foto de Aurélio Paz dos Reis CPF/DGARQ/APR3900 in Mesquita, Mário João, A Cidade dos Transportes, Faup 2008.
A linha n.º 1 que, apesar de tudo, se mantém como transporte turístico. 


fig. 35 – O eléctrico da linha 1 em Massarelos c. 1970.
 


[1] António Rebordão Navarro Os Eléctricos.
[2] Carlos de Magalhães, Guia do Porto Illustrado, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães, Edição da Empreza dos Guias "Touriste", gerente M. Paulino d’Oliveira, Rua de Passos Manoel, 21,1º, Porto 1910.
   
 

Hoje
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.
Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!
[1]


[1] António Gedeão (1905-1997) Esta é a cidade in Poesias Completas 1956, 9ªedição. Sá da Costa, Lisboa 1983.

 



Chegando à Foz, o Anjo Mensageiro

Mas qualquer que no passado fosse ou qualquer que hoje seja o meio de transporte, como José Cid:
Quando percorro as margens deste rio
Jogando letra a letra, verso a verso
As idéias que hora a hora, dia a dia
Me repetem, me ensinam
O caminho do processo
Hora a hora, dia a dia, verso a verso...
[1]
 
E ao chegar à Foz, no momento de sentir a briza, o cheiro do mar e o som remoto do rolar das vagas e do seu furioso embate sobre a costa, [2] somos acolhidos e protegidos por Gabriel, o Anjo Mensageiro sobre as asas pairando, voltado a ocidente. 


fig. 36 - Irene Vilar (1930-2008) O Anjo Mensageiro, bronze ing.2001. Foto J. Portojo do excelente blogue A Vida em Fotos.
San Gabriel, arcanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar,
Vem-nos guiar sobre a planície azul.
Vem-nos levar à conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal.
……………………………………….
Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lactescendo, onde, quietas,
Fulgem as velhas almas namoradas...
_ Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas…
[3]



 































fig. 37 - Irene Vilar (1930-2008) O Anjo Mensageiro, bronze ing.2001.
 
Pelos ebúrneos ombros o cabelo
Em aneladas ondas lhe caía;
A safira das asas sobre o gelo
Das roupagens reluzentes refulgia.
Mais brilhante não é, não é mais belo,
Comparado com ele, o astro do dia,
Ou a estrela que brilha quando a aurora
De purpurina luz o céu colora.
……………………………………………………..
Assim pendendo ao longe no ocidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pálida açucena,
Açoutada do vento, a fronte amena…
 [4]



[1] José Cid (José Albano Cid Ferreira Tavares  1942), Onde… in Onde, Quando, Como, Porque Cantamos Pessoas Vivas , Álbum do Quarteto 1111, de 1974 . Edições Valentim de Carvalho 1975.
[2] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.303).
[3] Camilo Pessanha (1867-1926), São Gabriel, Macau 7 de Maio de 1898, in Clépsidra. Ática, Lisboa 1945. (pág. 45 a 48).
[4] (António Augusto) Soares de Passos (1826-1860) Poesias 1ªed. 1856, ed. 1858. http://groups.google.com/group/digitalsource (pág.74)
   
 
 


A Cantareira
…halo vindo das camélias, perfume de penumbras
de mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.
 [1]

Qualquer que seja a forma de transporte chegava-se (e chega-se) à Foz adormecida e doirada, e à Cantareira. [2]

 
fig. 38 – Francisco Rocchini (?), A Foz no Porto 1849-1873 papel albuminado, p&b ; : 27,9 x 40,3 cm. Album pittoresco e artistico de Portugal.  colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil).


Escreve Lady Jackson, saindo do Porto na direcção da Foz.
Lá no fundo fica a formosa Barra do Porto, além da qual se vêem espumar e revolutear as ondas do Atlântico. Esta extensa planície areóza é a Praia. E vestida de arvoredo, cuja folhagem n'esta estação coberta de pó e areia lhes dá o aspecto de arvores definhadas. Muitas viellas estreitas e mal ladrilhadas partem perto d'aqui, umas quazi em linha recta, outras cruzadas, ou em zig-zag, mas todas depois de muitas curvas e voltas, reentrâncias e saliências vão dar sobre o terreno alto acima. [3]

 
fig. 39 - Cesário Augusto Pinto. Cantareira in As margens do Douro, collecção de doze vistas Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto. 1848.


 
fig. 40 - B. Lima Leote, S. Joao da Foz, Archivo Pittoresco n. 8, 1865. (p.309).

 
Entre 1892 e 1910 conclui-se o muro da margem direita do Douro entre a Arrábida e a Cantareira. 



fig. 41 – Enrique Casanova (1850-1913) Foz do Douro c.1890. Litografia colorida 29 x 29 cm. Biblioteca Nacional Digital.
 



A Cantareira dos pescadores

Nasci em praias do mar,
ao pé do vento virado;
do berço fiz uma lancha,
cobri-me co' céu estrelado.
[4]

A Cantareira é terra de pescadores, e é um lugar de origem da Foz do Douro. 


































fig. 42 – Postal. Porto, Foz do Douro, Concertando a rede. c.1900.
Terra de pescadores assim descrevia Lady Jackson a Cantareira:
Pescadores remendam ou assoalham as redes. Crianças alegres, rozadas e quazi nuas, brincam á borda da agua, perto de mais talvez, pois que alguns d'estes rapazelhos despem o seu pobre vestido, e desafiam-se com muita bravura dentro e fora da agua. O Porto foi sempre orgulhozo dos seus maritimos, que procederam talvez de atrevidos filhos do rio, como estes. Não é onde o Douro corre mais pacificamente que gostam de brincar estas crianças; mas patinham o atiram-se sem medo quazi n0 meio da arrebentação das vagas, da espuma e das pedras perto do mar e da visinhança traiçoeira da barra. [5]


 
fig. 43 - Alberto de Sousa (1880-1961), Castelo da Foz 1942.
E Baldaque da Silva nos finais do século XIX escrevia sobre o porto de pesca da Cantareira:
Fica situado este porto de pesca no angulo que forma a margem direita do rio Douro na embocadura. Os pescadores d’aqui dedicam-se principalmente à pesca do alto, empregando-se na pesca do rio unicamente quando não podem sair ao mar. Quasi todo o pescado d’este porto é para consumo da cidade.[6]

 
fig. 44 – Postal. Porto, Barco de pesca.
Se daqui partiam os barco que iam para a faina era aqui se desembarcava o peixe.
Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.
[7]

 
fig. 45 – Postal. Porto, Barco de pesca.
 
E Ramalho Ortigão lembra ainda que à Cantareira, de tarde, quando chegavam as lanchas do peixe e se comprava a volumosa pescada de dorso preto, que as criadas traziam para casa em argola, com a ponta da cauda na bocca, como o symbolo da imobilidade egypcia. [8]

 
fig. 46 – Postal. Porto, Foz do Douro. Venda de peixe.

No tempo de Júlio Diniz ainda era a pesca da sardinha o principal sustento dos pescadores da Cantareira e da Afurada.
Que a sardinha de Espinho ainda não tanto, mas esta da barra!… D’onde virá a diferença?… Pois não será toda ella o mesmo peixe?... Só se é da praia aqui ser mais pedregosa e o peixe sair mais batido… Que esta costa da Foz sempre é muito cheia de pedras?... Só o perigo que correm as embarcações aqui!... Ainda no outro dia, aquella grande desgraça dos oito pescadores que naufragaram!... [9]


 
fig. 47 – Postal. Desembarque de peixe na Cantareira.

 
Por isso Vasco Graça Moura, que conhece palavras que as sereias lhe ensinaram, [10] diz num seu poema;
…na cantareira havia fome e havia...
um cheiro de sardinha, um cheiro a pão,
e uma mulher de luto repetia
na voz que lhe fugia…
…o naufrágio do irmão,
do filho ou do marido, a freguesia
tem por antigo orago s. joão
e era perto da igreja que eu vivia,…
[11]


 
fig. 48 – Guilherme (Duarte) Camarinha (1912-1994), 1980. Catálogo da Exposição no Museu Nacional de Soares dos Rei, Porto, de Janeiro a Março de 2003.
 
Na figura anterior vemos os barcos de pesca do Douro com a sua proa levantada, a remos ou à vela. 


 
































fig. 49 - (António Artur) Baldaque da Silva (1852-1915), gravura em Foz, Capítulo III de Estado Actual das Pescas em Portugal, Imprensa Nacional, Lisboa 1892.

E Marques de Oliveira pinta um desses barcos, abandonado na praia, vendo-se ao fundo o Cabedelo.


fig. 50 - Marques de Oliveira (1853-1927), Rio Douro, Lugar de Ouro, s/d, óleo sobre madeira 23 x 36,5 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.
 
Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar
Hei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.
Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,

Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.
Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento
Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.
[12]

 
fig. 51 – Douro 1900 AHMP.

Numa pintura de Augusto Gomes que, segundo Eugénio de Andrade em Imagem e louvor de Augusto Gomes, pinta lentamente uma luz supliciada,estão os elementos da Cantareira dos pescadores. O Douro, os barcos, raparigas despenteadas, pescadores de rosto azul, com os apetrecho da pesca e as mulheres da Cantareira com os cestos do peixe.
e o mar irrompe de sombra em sombra,
porque tudo é amor, amor difícil, turvo,
lutando por ser diáfano em suas mãos. 



fig. 52 - Augusto (de Oliveira) Gomes, Faina no Douro, óleo s/tela 170 x 200 cm. 1962. ESBAP.

 
Mas em frente à Cantareira, na outra margem está a Afurada do Cabedelo, do rio e do mar, também terra de pescadores… 


fig. 53 - T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).


 
fig. 54 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

 
fig. 55 – J. Rodrigues, Afurada. AHMVNG.

 
E Raul Brandão descreve a chegada dos barcos de pesca quando se levanta um temporal.
As mulheres, de perna nua, acodem à praia, - e o velho piloto-mor, de barba branca, sentado à porta da Pensão, fuma inalterável o seu cachimbo de barro. O rio parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta azul, com laivos esquecidos do poente.
Bóia espuma na água viva que a maré traz da barra... Não há cheiro a flores que se compare com este cheiro do mar. O azul do mar, desfeito em poalha, mistura-se ao ouro que o céu derrete. Mais barcos vão aparecendo, vela a vela: o Vae com Deus, o Senhora da Ajuda, o Deus te guarde, e os homens de pé, com o barrete na mão, cantando o bendito, tanta foi a pesca. Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo, a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho; no Inverno, a sardinha - que os batéis carreiam do mar inesgotável, estivando de prata todo o cais. Em Setembro são as marés vivas. Mais tarde cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se para o sul uma parede compacta de léguas de espessura. A voz do mar é outra, clamorosa, e à primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela costa fora anunciando o Inverno que vem próximo. O quadro muda. Os homens morrem à boca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos, sacudidos no torvelinho da ressaca, o velho arrais de pé, as duas mãos crispadas no leme, cuspindo injúrias, para lhes dar ânimo, e todo o mulherio da Póvoa, de Matosinhos, da Aforada - vento sul, camaroeiro içado - com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de lágrimas - Ai o meu rico homem! O meu filho que o não torno a ver! E chamam por Deus, ou insultam o mar, que, Inverno a Inverno, lhos leva todos para o fundo. [13]

 
fig. 56 - Augusto Gomes, Tragédia do Mar, óleo s/ tela, 124 X 164 cm.

 
E quando algum marinheiro ou pescador está desaparecido refere Coelho Lousada a crença da Foz do Douro.
―São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer conversa. [14]


[1] Vasco da Graça Moura (1942-2014), Poesias 1997/2000, Lisboa, Quetzal, 2000.
[2] Raul Brandão (1867-1930), Memórias Prefácio de 1918, 1º volume, Edição da Renascença Portuguesa Porto. (pág.12).
[3] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.303).
[4] Alves Redol Cancioneiro (pág.81)
[5] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.300 e 301).
[6] (António Artur) Baldaque da Silva (1852-1915), Foz in Capítulo III de Estado Actual das Pescas em Portugal, Imprensa Nacional, Lisboa 1892. (pág.107).
[7] Cecília Meireles (1901-1964), Pescaria in Ou isto ou aquilo, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Brasil 1990.
[8] (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876. (pág.24).
[9] Júlio Diniz (1839-1871), Uma Família Ingleza, Scenas da Vida do Porto por Julio Diniz. Terceira edição. Em Casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor, 18, Rua dos Caldeireiros, 20, Porto 1875. (pág.202).
[10] Fernando Pessoa (1888 -1935), O Marinheiro in Fernando Pessoa Obra Poética, Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.446)
[11] Vasco Graça Moura (1942-2014), Poesias 1997/2000, Lisboa, Quetzal, 2000.
[12] António Borges Coelho (1928) poema, Luís Cilia (1943) música. Interpretado por Adriano Correa de Oliveira (1942-1982) no seu disco de 1967 – LP SB 1018 da etiqueta Orfeu.
[13] Raul Brandão (1867-1930), A Foz vista do mar in Guia de Portugal, Rntre Douro e Minho I – Douro Litoral, 3ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág. 377).
[14] António Coelho Lousada (1828-1859), Os Tripeiros. Romance-Chronica do século XIV, por A. C. Lousada.Typographia de J. J. Gonçalves Basto, Largo do Corpo da Guarda n. 106, Porto 1857.(pág. 61).

 
CONTINUA
com a conclusão da II parte e a III parte 





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