Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 22 de março de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 3

 

[Nota – Lembramos que neste (s) texto (s) não se pretende fazer a história da Foz do Douro. São apenas Visões Urbanas, em que apenas se pretende considerar alguns elementos urbanos (edifícios, espaços públicos, pessoas ou locais), como são (ou eram) vistos pelos seus contemporâneos e como sobre eles se exprimiam, seja pela escrita ou pela poesia, seja pelo desenho, pela pintura, fotografia ou escultura. Por defeito utilizaremos algumas imagens que embora não se refiram à Foz do Douro, com ela tem evidentes afinidades.]
 

II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio 2

fig. 1 – A Barra do Douro antes da edificação dos novos paredões. http://www.theperfecttourist.com/oporto/?p=16




fig. 2 – A Barra do Douro após a edificação dos novos paredões. http://www.archdaily.com.br/br/01-75903/molhes-do-douro-carlos-prata-arquitecto/75903_75922

A Cantareira dos Pescadores (conclusão)
 
Georges! Anda ver o meu paiz de marinheiros,
O meu paiz das Naus, de esquadras e de frotas! (*)
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que extranho é!
Fincam o remo na agoa, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda ahi, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos à uma “ Agôra! agôra! agôra!”
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
[1]

(*) Na edição de Paris de 1892 o segundo verso é Traze o teu livro, toma as tuas notas:

fig. 3 - Bonifácio Lázaro Lozano (1906 1999), Galerna 1990, óleo s/tela, 54 x 81cm. Inter-Atrium Galeria.
 

[1] António Nobre, Só, 4.ª Edição Tipografia de A Tribuna, 108, Rua Duque de Loulé, 124, Porto 1921. (pág. 27).
 
Naufrágios e salva-vidas


fig. 4 – Jean Pillement (1728-1808), Bateau sur une mer agitée pastel 45 x 65 cm. Chateau-Musée de Dieppe.

 
Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho de 1829 é publicado um Edital com data de 10 de Julho e referenciado ao Porto.[1]
O Provedor e Deputados da Illustríssima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro:
Fazemos saber: Que, tendo esta Illustríssima Junta levado ao Soberano Conhecimento d’ElRei Nosso Senhor, em consulta de 7 de Janeiro de 1828, a necessidade de huma providencia para salvar as vidas dos míseros naufragantes que, à mingua dos necessários socorros, perecem nos frequentes naufrágios acontecidos aos navios mercantes, lanchas de pescadores, e outras embarcações que entrão e sahem pela barra desta cidade. O Mesmo Augusto Senhor, por hum acto de summa Justiça, e próprio de Sua reconhecida Humanidade e Religião, Houve por bem, por sua Resolução de 21 de Abril do ditto anno, crear hum Estabelecimento para salvar a vida dos naufragados, sancionando o Plano do theor seguinte:
Artigo 1.º Haverá huma embarcação – Salva-Vidas – fornecida de todos os aparelhos e utensílios próprios para acudir prontamente a qualquer navio ou barco a tomar as pessoas em perigo, ou colher do mar as que houverem naufragado.
Artigo 2.º Haverá huma casa para – Asylo dos naufragados – a fim de se lhe ministrarem os convenientes socorros. Esta casa deverá ser estabelecida sobre a praia do rio Douro, na maior proximidade possível da barra…
Segue-se um conjunto de artigos que estabelecem as responsabilidades e a quem compete o conteúdo do Asylo e a utilização do Salva-vidas, até ao 9.º que define: As despesas deste Estabelecimento serão todas pagas pelo Cofre das obras da barra do Porto, à excepção das que se fizerem com a construção e mais pertences do Salva-Vidas, o qual esta Illustríssima Junta oferece por parte da Companhia.
Em 1832 José Avelino de Castro, matemático e professor da Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto, publicou uma Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados, dirigida a D. Miguel, onde sublinha esta decisão do monarca.
Nessa Exposição considerava que a cidade do Porto, taõ importante por sua posiçaõ geografica ao Commercio deste Reino, tem desgraçadamente testemunhado muitos casos de naufragio, devidos naõ só á estreiteza e pouca profundidade da sua Barra na embocadura do Douro, se naõ tambem á existencia do grande Banco d'arêa, e numerosos rochedos que no mesmo lugar difficultaõ em summo gráo a entrada e sahida das embarcações. (…) Saõ pois nella frequentes os naufragios; e em taes circunstancias, naõ só os interesses da Navegaçaõ, mas, muito mais ainda,os deveres da humanidade, reclamaõ altamente o emprego de todo o genero de soccorros para salvar as victimas daquelles desgraçados acontecimentos.
E continua referindo o requerimento que a Junta da Companhia Geral do Alto Douro, com tanta gloria sua, como proveito e utilidade para todo o Reino, merece o mais distincto lugar a Consulta que no anno de 1828 fez subir á Real Presença de Sua Magestade, propondo a creaçaõ d'hum similhante Estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na Barra do Porto, cujas obras estaõ commettidas á sua Inspecçaõ. [2]
D. Miguel como vimos por uma Resolução de 21 de Abril de 1828, e como resposta a esta solicitação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, manda edificar a Real Casa d’Asylo dos Naufragados na Foz do Douro.


fig. 5 - José Avelino de Castro (1791-1854) Desenho de Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados.

 
O Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro confirma que Esta casa/asilo localizada em S. João da Foz, foi criada por resolução régia de 21 de Abril de
1828, na sequência da consulta efectuada pela Companhia nesse sentido, propondo tal estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na barra do Porto, cujas obras estavam cometidas à Junta da Companhia. A construção foi da responsabilidade da Junta, que pagou a mesma, assim como o salva-vidas, passando as despesas do estabelecimento a serem pagas pelo cofre das obras da barra do Douro.
A Junta da Companhia foi encarregada, em 1807, de construir um barco salva-vidas, utilizando como modelo outros da mesma natureza que o cônsul inglês Guilherme Warre havia mandado vir de Inglaterra. Em 1828, foi novamente incumbida a Junta de construir outro barco semelhante ao primeiro, que tinha ido para Lisboa, o qual foi executado por Manuel Gomes da Silva, mestre da Ribeira do Douro, na cidade do Porto. [3]


 
fig. 6 - Asylo dos Naufragados.

[1] Edital, Porto. 10 de Julho da Junta da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho do Anno 1829. (pág. 698).

[2]José Avelino de Castro (1791-1854), Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados: que sua magestade fidelissima, o senhor D. Miguel Primeiro, mandou erigir em S. Joaõ da Foz do Douro, á entrada da barra da cidade do Porto, debaixo da inspecção da illustrissima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro. Porto: Viuva Alvares Ribeiro & Filho, 1832. (pág. 4 e 5).

[3] Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, ponto 9.4 – Asilo dos Naufragados de S. João da Foz do Douro e Salva Vidas (Sub- secção). (pág. 281).


As consequências do naufrágio do vapor Porto
  
Em 28 de Março de 1852, o vapor “Porto” naufraga na barra do Douro e morrem 29 tripulantes e 37 passageiros do navio, entre os quais personalidades conhecidas da cidade.


fig. 7 – O naufrágio do vapor Porto.Desenho da época.

 
Com a emoção que a tragédia provocou, alguns meses depois é publicado um decreto do Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria,considerando que sendo mui frequentes na barra do Douro os naufrágios e perdas de vidas; e cumprindo providenciar para que em casos taes sejam prestados todos os possíveis auxílios e soccorros; Considerando que para este fim se conseguir é necessario dar ao estabelecimento denominado= Salva- vidas= uma administração estavel e regular é criada uma comissão 'Artigo 1." A inspecção e fiscalisação do estabelecimento Salva-vidas, fundado na cidade do Porto, é encarregada a uma commissão permanente, composta do Governador Civil, presidente; do Intendente da Marinha, vice-presidente; de dois vogaes, nomeados pela Sociedade Real Humanitaria; e de dois outros vogaes nomeados pela Associação Commercial d'entre os seus sócios. Art. 2. Na casa de asylo para naufragados, sita no Passeio Alegre de S. Jo da Foz do Douro [1]
 
E o reconhecido engenheiro José Vitorino Damâsio (1806-1875), professor da Academia Politécnica do Porto, fundador da Fundição do Bolhão e da Associação Industrial Portuense, vivamente impressionado pelo naufragio do vapor Porto succedido na barra do Douro em 29 de março d'aquelle anno, fez (…) pelo mesmo tempo na Foz varias experiencias, com o fim de descobrir o meio de lançar de terra um cabo de salvação para um navio em perigo. O resultado d'essas experiencias, se não foi inteiramente satisfactorio para o fim a que se propunham, deu origem a uma interessantissima descoberta, que, mal de nós, a sua modestia occultou por alguns annos, vindo depois a apparecer publicada em jornaes estrangeiros, sem que nós possamos reivindicar a gloria da prioridade, que nos pertencia. [2]

[1] Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria, Preambulo e Artigo 1º e 2º do Decreto de 22 de Dezembro de 1852.
[2] Annuario da Academia Polytechnica do Porto. Anno lectivo de 1889-1890, Typographia Occidental, 66, Rua da Fabria, 66, Porto 1890. (pág. 101).
 
O naufrágio do brigue Diana em 1864
 
Apesar destas medidas os naufrágios, com perdas de vidas, continuavam a ser frequentes.
Como exemplo o naufrágio de um brigue relatado no Annuario do Archivo Pittoresco de Dezembro de 1864,em que apenas se salvaram três tripulantes recolhidos na casa do salva-vidas.
“No dia 26 do mez ultimo naufragou no Porto o brigue sueco Diana. Da participação do intendente da marinha extrahimos a seguinte curiosa noticia: “ No dia 26 appareceu ao SO. Da barra, sendo o vento N; às 4 horas e meia da tarde deitou em cheio para terra, vindo com todo o panno largo, e com a bandeira a pedir socorro: a distancia a transpor ate ao logar onde encalhou seria de 7 a 8 kilometros. Entre o acto do navio deitar para a terra e desfazer-se nas pedras, decorreram poucos momentos; entretanto logo acudiram ao Cabedello parte da corporação dos pilotos e remeiros das catraias, e alguns que se poderiam adiantar salvaram o capitão do brigue, o carpinteiro, e um moço, que a nado tinham vindo para cima das pedras. Estes náufragos seguiram logo para o Cabedello, não havendo tempo para chegar ao logar do naufrágio o tenente Crespo e mais pessoas que iam acudir, porque às 6 horas estava tudo concluído.
A lancha que o brigue trazia a reboque, virou-se com a arrebentação do mar submergindo um homem que vinha dentro.
Dos outros três náufragos que faleceram, ainda foi visto um que nadava, e para o salvar deitou-se ao mar o vareiro Manuel Branco, atado a um cabo que outro segurava em terra; porem n’esta ocasião, trazendo o mar sobre elle grande parte dos destroços do navio, mergulhou, e quando voltou à superfície, já não viu o naufrago, que provavelmente foi morto pelos mesmos destroços.
Os três náufragos salvos, foram recolhidos na casa do salva-vidas, prestando-se-lhes todos os socorros, actos a que tem sempre comparecido o benemérito cidadão Eduardo Mozer, como membro que é da comissão do salva vidas.” [1]



fig. 8 - Ivan Konstantinovitsch Aivasovski (1817-1900) naufrágio do Arco-iris1873. Óleo s/tela. Galeria Tretiakov Moscovo.

[1] Annuario do Archivo Pittoresco, publicação mensal, n.º12, Dezembro de 1864. (pág. 95).
 
O naufrágio de 1872
  
Assim os meios de socorro aos frequentes naufrágios continuavam a ter pouca eficácia.
Por isso, 8 anos depois, em 1872, Eça de Queiroz, em As Farpas escreve um irónico e, por isso, violento texto em que critica a incapacidade do salva-vidas e da comissão que o dirige.
Escreve Eça de Queiroz: na Foz, há pouco, voltou-se uma lancha. Morreram 14 homens.
Os socorros foram dados por uma lancha de pilotos, que se apressou corajosamente, e por outro barco, que veio, num risco agudo, da praia do Cabedelo. Conseguiram salvar 10 homens: 14 morreram. A 10 passos do mar, repousava placidamente o salva-vidas. O salva-vidas não desceu ao mar.
E Eça depois de ferozmente criticar o inactivo salva-vidas que podia descer, molhar-se, navegar um instante: não; conserva-se agasalhado na sua habitação onde, dizem rumores gloriosos, ele está embrulhado em algodão, num cofre.
Termina descrevendo uma bela e romântica Foz, que contrasta com as perdas de vidas causadas pelos frequentes naufrágios.
A areia do Cabedelo reluz ao sol, as senhoras passeiam na Cantareira, as gaivotas voam, e os que naufragam morrem. [1]
 
Um quadro de Eugène Boudin pode ilustrar este ambiente das praias do século XIX.

fig. 9 - Eugène Boudin (1824-1898) Élegantes sur la plage. Colecção particular.
 
Também Júlio César Machado, de uma forma talvez mais subtil, critica a incapacidade desse salva-vidas, motivo da curiosidade dos que iam à Foz.
Tudo quanto havia rico e elegante no Porto reunia-se na Foz. A curiosidade, n’aquelle tempo, era o salva-vidas, uma casita com um pequeno jardim de entrada, situada de modo que ouvia de um lado as queixas do rio, e do outro as iras do Oceano; não tinha sahida para o mar: havia apenas uma portazinha, e, quando o barco devesse ser empregado no serviço dos náufragos, chamava-se povo, e era arrastado pela areia até à beira-mar; essa operação levava uma hora, hora e meia: o suficiente a um salva-vidas para poder salvar os mortos. [2]

fig. 10 - Lázaro Lozano (1906 1999), Três mulheres e o Mar s/d Óleo s/ tela 62 x 51 cm Museu Dr. Joaquim Manso.

 
Dez anos passados, Oliveira Martins, em requerimento (que nunca teve resposta) dirigido ao Rei D. Luís e significativamente datado de 22 de Agosto de 1882, antevéspera do dia de São Bartolomeu, exprime a sua preocupação pela comunidade piscatória da Foz do Douro, descrevendo (mais) um naufrágio.
Ao tempo em que no Porto corria um delírio de embriaguez enthusiastica, ao que os jornaes dizem, lá para além, a seis léguas da cidade triumphante, havia um grupo de mulheres soluçando, e um bando de crianças espantadas, com os olhos mudos que as crianças tem diante das grandes afflicções. Eram viúvas e órfãos na praia dura e negra.



fig. 11 - B. Lázaro Lozano(1906 1999),, Viúvas na praia, 1946, óleo s/ platex, 75 x 63 cm. Museu Dr. Joaquim Manso.

 
(…) Foi uma lancha que se virou. Era de noite. O mar banzeiro espreguiçava-se em ondas maciças. Uma d’essas ondas, tomando de lado um barco, invade-o, quebra-se, e devora-o.
Foi o que succedeu. Uma lancha sobre o mar é como um desafio a um monstro. O bruto estende a garra, e por desenfado esmaga e engole…Era de noite. Soprava apenas um vento pesado e quente. Sob um ceu negro, o mar como breu tinha malhas lívidas quando na encosta de uma onda vinha outra desmanchar-se. Dir-se-hiam alvas mortuárias sobrepostas na abobada de um carneiro sepulchral – liquido, falso, oscilante, onde a lancha vasou a gente que a gente que a tripulava.


 




























fig. 12 – Lancha Poveira.


A praia é só: a villa fica distante. Estavam na praia as mulheres da companha esperando o barco, para o ver sossobrar… Então o silencio despedaçou-se em gritos lancinantes, como o ranger de velas quando no meio dos temporais o vento furioso as despedaça em fitas.Era um rasgar de almas afflictas, soando em ais selvagens, que o mar livido, impassível, não escutava.
(…) Que laços os ligam à comunidade nacional? Que lhes dá o estado? Nenhuns. Nada. Authoridades conhecem apenas duas: a Senhora da Lapa que os socorre nos temporaes, e a Sant’Anna, ou outra vareira, que lhes compra o peixe e lhes dá dinheiro sobre as redes, de inverno, nos dias de fome. [3]

 
E se nos anos 80 do século XIX, também num catálogo enviado à Exposição Industrial Portuguesa de 1888, José Cândido Correa afirma que Com effeito, em toda a costa do continente do reino, unicamente no districto do Porto (na foz do Douro), se encontra uma estação de soccorros a naufragos regularmente organizada.
Com referencia a este districto maritimo (Porto), diz o chefe do departamento maritimo do norte 4, ha na foz do Douro os precisos meios de soccorro para naufragos, e constam elles de: hospital
com tres enfermarias devidamente montadas, guarda-roupa com vestidos de agasalho, barretes, calçado proprio, etc., casa de banhos quentes, botica com os medicamentos mais necessários aos naufragos, escovas e outros utensílios para fricções, machinas electrica, pneumática, e objectos de cirurgia.
Fóra do armazém estão dois barcos salva-vidas e um saveiro também salva-vidas, competentemente resguardados. Os tripulantes para estas embarcações engajam-se na ocasião em que são precisos, pagando-se-lhes depois com generosidade os seus serviços. [4]
 

[1] Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre de As Farpas 1872, Volume II, XXIX Julho 1872. Lello & Irmão, Editores, Porto 1979. (pág.169).
[2] Júlio Cesar Machado (1835-1890), A Vida Alegre. (Apontamentos de um folhetinista). Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, 67, Praça de D.Pedro,67, Lisboa 1880. (pág. 29).
[3] [Joaquim Pedro de ] Oliveira Martins (1845-1894), Politica e Economia Nacional, Magalhães & Moniz Editores, 12, dos Loyos, 12, Porto 1885. (pág. 192, 193 e 194).
[4] José Cândido Corrêa, Catalogo Official dos Objectos enviados à Exposição Industrial Portugueza em 1888, precedido de uma memória acerca das construcções e armamentos navaes e dos Estabelecimentos de Ensino que lhes dizem respeito. Elaborada por José Cândido Corrêa, primeiro tenente da armada, secretario da escola naval, lente interino da mesma escola e professor do instituto industrial e commercial de Lisboa. Ministério dos Negocios da Marinha e do Ultramar, Imprensa Nacional, Lisboa 1888. (pág. 314).
 
A tragédia de 27 de Fevereiro de 1892



fig. 13 - A. Silva, Na Póvoa do Varzim – O dia 27 de Fevereiro. In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
No Sábado de Carnaval de 1892, dia 27 de Fevereiro, o mar fora da barra do Porto tomou um aspecto medonho, terrível, e ameaçando de morte horrorosa os mil e tantos pescadores da Povoa de Varzim, da Affurada, de Mathosinhos, de Buarcos que nas suas companhas andavam arrancando ao mar traiçoeiro o pão de cada dia para si e para os seus. (…) À hora em que escrevemos faltam-nos ainda notícias minuciosas da colossal catastrophe que veiu encher de lucto, de lagrimas e de miséria as povoações mais sympathicas, mais trabalhadoras, mais heroicas de Portugal, mas o que se sabe já pelos últimos telegramas é que o numero de mortos ascende já a 108 e que parece que não ficará por ali. [1]
 
E a notícia de O Occidente assinada por Gervasio Lobato (1850-1895) refere ainda que S. M. El-Rei e Sua M. a Rainha a Sr.ª D. Amélia apenas souberam da terrivel desgraça que cahiu sobre as povoações marítimas do norte mandaram chamar o sr. Presidente do Conselho de Ministros para que lhes desse notícias minuciosas da catástrofe declarando suas Magestades a S. Ex.ª que queriam contribuir, quanto lhes fosse possível para minorar a desgraça das famílias dos infelizes pescadores. [2]
 
O Occidente dedica ainda todo o número seguinte de 11 de Março de 1892 à tragédia dos pescadores, em que colaboram entre outros, os conhecidos escritores e poetas, Ramalho Ortigão com o artigo O Poveiro retirado de As Praias de Portugal, e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), o autor da letra do Hino Nacional, com o poema Os Afogados escrito sobre o acontecimento.

Os Afogados
Sonhei que um baixel negro me levava
Pelo mar, pelo mar, verde campina;
Vibrava a lua da luzente aljava
Flechas de ouro na vaga esmeraldina.
De repente surgiu no Oceano imenso,
Como sinistro vómito do abysmo,
Um tropel de fantasmas, denso, denso,
Dansando em contorsões de galvanismo.
Então sob o medonho torvelinho,
O mar largo, sem fim, desaparece;
A custo abre o baixel o seu caminho
Pelos meandros d’essa extranha messe.
E um lamentoso côro se levanta,
Quebrado, soluçante, gemebundo,
Como se lhes entrassem na garganta,
Ás golfadas, as aguas do profundo.
E esse côro fantástico dizia:
“Ah! malditas as furias da tormenta!
“Naufragos somos! nossa campa é fria!
“Ah” bemdito o luar que nos aquenta!”
E emquanto o meu baixel ia seguindo,
Regelavam-se os raios do luar;
E reboava o clamor no espaço infindo:
“Maldito seja o mar, o mar, o mar!”


O mesmo número de O Occidente é ilustrado por gravuras uma das quais reproduz um quadro de Silva Porto (1850-1893) e uma outra uma fotografia de Emílio Biel (1838-1915).

A Póvoa do Varzim

fig. 14 – [António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893)], Silva Porto Bairro de Pescadores na Povoa de Varzim (Quadro de Silva Porto). In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
Existe um quadro bastante semelhante de Marques de Oliveira.

fig. 15 - João Marques de Oliveira (1853-1927) Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim 1882/90. Óleo s/ madeira 23 x 37 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea, Museu do Chiado.

 
Existe, tratando o mesmo tema, um outro quadro de Silva Porto intitulado Praia da Póvoa de Varzim.

fig. 16 - António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893), Praia da Póvoa do Varzim 1884. Óleo sobre madeira 20,9 x L. 31,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis.

Em todos estes quadros as estruturas de madeira para pendurar as redes, conferem à composição uma horizontalidade, acentuada pela linha do horizonte.

A Afurada

Quanto à gravura de Domingos Cazellas (1855-?) reproduzindo uma fotografia de Emílio Biel, conhece-se a fotografia original.

fig. 17 – [Domingos] Cazellas, A Afurada (Segundo photographia de E. Biel) In O Occidente de 11 de Março de 1892.


fig. 18 - Emílio Biel (1838-1915), A Afurada 1885, no blogue Porto, De Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias.

 
Ramalho Ortigão descreve estes barcos do Douro de proa comprida e alta, própria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais análogo ao das embarcações portuguezas de há trezentos ou quatrocentos anos. [3]
 

[1] Gervásio Lobato in O Occidente n.º 475 de 1 de Março de 1892.
[2] Idem.
[3] Ramalho Ortigão, O Culto da Arte em Portugal, Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor, 50, Rua Augusta,52, Lisboa 1896. (pág. 129).

O Real Instituto de Socorros a Náufragos
 
Essa catástrofe em que perderam a vida 105 pescadores da Póvoa de Varzim e da Afurada, pela enorme vaga de solidariedade que se constituiu na sociedade portuguesa, contribuiu para a criação do Real Instituto de Socorros a Náufragos por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892 de D. Carlos e pelo Decreto-Lei de 9 de Junho de 1892, publicados nos Diários de Governo nº 131 e 132, de 1892. A Presidência deste novo Instituto foi atribuída à Rainha D. Amélia que se empenhou no desenvolvimento deste organismo até à proclamação da República.
No Passeio Alegre na Foz do Douro é então criado um estabelecimento salva-vidas, no local do Asylo dos naufragados.

fig. 19 - Planta de Telles Ferreira 1892.Pormenores da folha escala 1:5 000, com a localização do Salvavidas.

fig. 20 - Planta de Telles Ferreira 1892. Quadrícula 52 do levantamento colorido, escala 1:500, e pormenor da localização do Salvavidas.



fig. 21 – A Estação de Socorros a Náufragos.



fig. 22 – A Estação de Socorros a Náufragos antes da remodelação. 2011. Foto Seref Halicioglu in Panoramio.

fig. 23 – A Estação de Socorros a Náufragos na actualidade. Imagem do Google Earth.


 fig. 23a - A Estação em 2017.

 
A Estação de Socorros a Náufragos vista de nascente. À direita num postal do início do século XX. [1]
 
fig. 24 – Postal. Porto – Foz do Douro – Passeio Alegre (antigo).

[1] Os postais Estrela Vermelha começam a ser editados em 1905.
 
O naufrágio de 1947
 
Já no século XX são muitos, demasiados, os naufrágios na barra do Douro. [1]
Não podíamos deixar de assinalar aqui o naufrágio de 1947 que foi o mais trágico, pelo número de vidas que se perderam em diversos portos da costa portuguesa. Quatro traineiras naufragaram e morreram 152 pescadores.

fig. 25 – Uma traineira.



fig. 26 - Augusto Gomes (1910-1976), Tragédia do Mar, óleo s/ tela, 124 X 164 cm. ??

 
Num fundo ondulado de nuvens de tempestade e mar agitado, cinco figuras femininas, quatro das quais trajando de negro e uma quinta com uma saia purpura, caminham para a praia gritando e chorando a sua aflição perante a tragédia. As três figuras centrais erguem os braços enquanto nas pontas uma leva a mão ao peito e com a outra segura uma criança, e na outra extremidade uma ajoelha tapando o rosto com as mãos.
No tratamento dos braços robustos e musculados e das mãos e dos pés grandes e calosos, significando a dura vida das mulheres dos pescadores, nota-se a influência da Guernica de Picasso.

fig. 27 - Pablo Picasso (1881-1973) Guernica 1937, óleo sobre tela, 349,3 x 776,6cm. Museu Reina Sofia Madrid.

 
Essa influência é do mesmo modo visível no Enterro na rede de Candido Portinari, um quadro de 1944 e que faz parte de uma série de pinturas intitulada Retirantes. Não tendo como tema uma cena de pescadores exprime contudo a dor e o desespero dos que se vêm impotentes perante a sua condição de miséria. Como afirmou Jorge Amado sobre Portinari de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pinceis, ele tocou fundo em nossa realidade...



fig. 28 - Cândido (Torquato) Portinari (1903-1962) Enterro na rede, 1944 óleo sobre tela 180 x 220 cm. Museu de Arte de São Paulo MASP.

 
Baseado naquela pintura de Augusto Gomes, o escultor João José Brito realizou uma escultura em bronze intitulada “Tragédia no Mar” numa homenagem ao naufrágio de 1947, inaugurada em 2005.


fig. 29 – João José Brito (1941), Tragédia no Mar ing. 2005, bronze, Praia junto à Av. General Norton de Matos, Matosinhos.
 

[1] Ver Rui Picarote Amaro (1937-2014), A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro, O Progresso da Foz 2007 e o blogue Navios e Navegadores http://naviosenavegadores.blogspot.pt/
 
A lancha salva-vidas
 
Deve-se a Henry Greathead (1757-1816) o primeiro barco construído para nos mares agitados de South Shields nesse dia desolador - 30 de janeiro de 1790. Baptizado de o "Original", era o primeiro barco salva-vidas.

fig. 30 – Joyce Wells Mr Henry Greathead's Life Boat going out to assist a Ship in distress, água tinta 13,6 x 18,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, Londres.


fig. 31 – Lancha salva-vidas Visconde de Lançada na Cantareira.
 
O Salva-vidas Visconde de Lançada [1] foi construído em Inglaterra em 1908 e estava estacionado no cais do Marégrafo. Era mareado por 10 remadores comandados por um arrais.
Serviu até aos anos setenta do século XX e foi então colocada junto à Estação de Socorros a Náufragos.

fig. 32 - Rui Amaro O salva-vidas Visconde da Lançada junto da Estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro, 02/1981.http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.pt/2011_12_25_archive.htm

fig. 33 - Uma das lanchas dos pilotos, a P5.
 
Rui Picarote Amaro recorda este salva-vidas e as lanchas dos pilotos.

Neste mesmo local, assisti a naufrágios de pequenas embarcações de pesca em que os seus desventurados camaradas perecerem engolfados por montanhas de ondas traiçoeiras e muitos outros foram resgatados pelo salva-vidas Gonçalo Dias da Afurada e pelo Visconde de Lançada, da Cantareira, este timonado pelo seu patrão, o carismático Zé Bilé e pelo seu sota Rodrigo, e nomeadamente pelas lanchas de pilotar P4, P5 e P9, conduzidas pelos cabos-piloto Manuel de Oliveira Alegre (Marage), Aires Pereira Franco e pelo seu mestre Eusébio Fernandes Amaro (Colega), coadjuvados pelo seus motoristas e camaradas, que eram alternativa àqueles dois salva-vidas do Instituto de Socorros a Náufragos. Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo! [2]

Para homenagear esta “Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo”, em finais de 1936 o Comércio do Porto noticiava a decisão da Câmara Municipal de colocar a escultura “O Lobo-do-Mar” ou o “Salva-Vidas”, nome porque ficou conhecida, da autoria de Henrique Moreira no Jardim da Avenida Brasil, para com a estátua do Homem do Leme completar o conjunto artístico. A escultura foi inaugurada em 1937. [3]


fig. 34 - Henrique Moreira (1890 - 1979), O Lobo do Mar O Salva-Vidas 1937, Avenida do Brasil, Nevolgilde Porto.
 

[1] Visconde de Lançada foi um título criado por D. Maria II em 1849 para Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (1778-1856). Suponho que o nome da lancha se refere ao 3.º Visconde de Lançada, D. Domingos de Sousa e Holstein Beck (1897-1969) 5º duque de Palmela e 4.º Conde de Calhariz, 3.º Conde da Póvoa, ou a um seu parente.
[2] Rui Picarote Fernandes Amaro, Discurso de apresentação do livro A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro em 14.04.2007 no blogue Navios à Vista 2008. http://naviosavista.blogspot.pt/2008_02_24_archive.html
[3] Cf. José Guilherme Pinto de Abreu, A Escultura no Espaço Público do Porto no Século XX, Dissertação de Mestrado em História de Arte em Portugal, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1996/98.Porto 1999.
 
CONTINUA em
Da Cantareira à Senhora da Luz



 

1 comentário:

  1. Felizmente que a quase intransponibilidade da barra do Douro foi vencida. Ironicamente deu-se isso numa altura que a própria já declinava em importância, com o advento do porto de Leixões.
    Para quem como eu sou leitor assíduo de jornais do tempo da outra senhora, não espanta a quantidade de acidentes e incidentes provocados pela entrada nesta barra. Todos os meses se não mais de uma vez por mês, navios que nela soçobravam. São inúmeros os casos mais ou menos trágicos que os periódicos registaram, quase todos permanecendo arquivados nas suas páginas sem deles termos conhecimento.

    Por causa deste mal, muitos navios estavam à bocada barra durante dias, às vezes semanas, sem poderem entrar. Outras vezes acabavam por desistir e iam para a Figueira da Foz ou mais frequentemente, para Vigo.

    Olha se fosse nos tempos de hoje em que tudo tem de ser "imediato"...

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