Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 10 de abril de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 4

 
…En su Foz Oporto sueña
con el Urbión altanero;
Soria en su sobremeseta
con la mar toda sendero.

Árbol de fuertes raíces
aferrado al patrio suelo,
beben tus hojas las aguas,
la eternidad del ensueño.
[1]
 
II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (continuação)
 
fig. 1 - Fernando Lanhas (1923-2012), Menina e barco, 1943. Óleo sobre tela. 47,5 x 47,5 cm. Colecção particular.
 
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

 
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós  olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

 
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.
[2]

 
Da Cantareira à Senhora da Luz 1
  
fig. 2 – A Foz do Douro.

A Cantareira. Aguarela de Elizabeth Reid.

fig. 3 - Elizabeth Reid (?-?), The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

 
A Fonte da Cantareira
Caminha sílaba a sílaba
como a fonte
que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.
À audácia dos jovens, à timidez
dos que já o não são, mata a sede.
Aos que tropeçam na falta
de amor, aos que mordem as lágrimas
em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris
a frescura da pedra. Não deixes
o medo multiplicar as garras.
Sílaba a sílaba
caminha até ao cântaro
vazio. – Tão cheio agora!
[3]

fig. 4 – A Fonte da Cantareira.
 
Quem do Porto vai para a Foz, depois de passar o Anjo ao chegar à Cantareira, dos Cântaros, e dos Cantares, encontra uma espaçosa fonte, toda em pedra, de grande trabalho e custo, tendo uma bica e tanque centraes recolhidos dentro de uma espécie de nicho e uma outra bica de cada lado com o seu respectivo tanque. [4]
 
Era nesta fonte que as burricadas do século XIX, se apeavam para uma pausa antes de seguir para as praias da Foz.

A Capela de Nossa Senhora da Lapa
Barro pintado, apenas.
-Duas, três mãos de barro,
amassado e moldado
por duas mãos serenas.
……………………………
O que pedi? Por quem?
Que vai acontecer
que eu possa perceber
que é de Ela que vem?
Mas não,Virgem, não quero
um sinal que mo explique.
-Em Tuas mãos me entrego
como se ao Mar me desse.
[5]

Terá neste local existido um hospício na Idade Média. Anexo teria uma capela que depois se tornou a capela de Nossa Senhora da Lapa cuja fundação, a crer na inscrição da fachada reconstruída será de 1391.
Sebastião Oliveira Maia cita as Memórias Paroquiais da Divisão Administrativa do Porto de 1758, onde a Capela é referida.
…A quarta de Nossa Senhora da Lapa com hum só altar, em que está a Senhora; he cituada unida âs Cazas de Francisco da Silva Potella fabriqueyro da mesma Capela. [6]

A Capela numa gravura do século XVIII.

fig. 5 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


fig. 6 – Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

A Capela de um só altar com uma imagem de Nossa Senhora da Lapa dos Mareantes.

 















fig. 7 – A imagem de Nossa Senhora da Lapa Padroeira dos Mareantes. Venerada na Capelinha da Cantareira na Foz do Douro. AHMP.















Embora se refira a outra igreja Alberto Pimentel associa Nossa Senhora da Lapa ao mar e aos pescadores.
A egreja da Lapa fica ao sul da villa, á beira do mar, para o qual olha um nicho onde está encerrada a imagem da padroeira.
Os pescadores têm uma profunda devoção com Nossa Senhora da Lapa, que ali está abençoando o oceano, o vigiando pela sorte da pobre e boa gente marítima.
A pequena distância do templo fica o pharol grande, de luz branca: mas a imagem de Nossa Senhora da Lapa é, para os homens do mar, um pharol não menos luminoso e valedor. [7]
Na parte lateral da capela uma outra inscrição a capela terá sido reedificada em 1819. [8]

A Capela numa gravura do século XIX.

fig. 8 - Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.

fig. 9 – Pormenor da gravura de Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.
 
A Cantareira e a Capela de N. Sr.ª da Lapa na planta de Telles Ferreira de 1892.


fig. 10 – Pormenor da planta de 1892, à escala 1:5 000.
 
fig. 11 - A capela de Nossa Senhora da Lapa (a negro) na planta de 1892 levantamento colorido à escala 1:500. Quadrícula 67.

 
A Capela nos nossos dias. (Março de 2017).

fig. 12 – A Capela de Nossa Senhora da Lapa na Foz do Douro.

[1] Miguel de Unamuno Dorium-Duero-Douro de Cancionero 1953 in González Gutiérrez, Manuel Suárez González, Antología poética del paisaje de España, ilustraciones de Cristina Figueroa Ediciones de la Torre, Madrid 2001. (pág. 215).
[2] David Mourão-Ferreira (1927-1996), Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006. (pág. 44).
[3] Eugénio de Andrade à boca do cântaro in Os sulcos da Sede 2001.
[4] J. Bahia Júnior, Contribuição para a Hygiene do Porto. Analyse Sanitaria do seu Abastecimento em Água Potável. Porto, Fevereiro de 1909. (pág. 96 e 97).
[5] Sebastião da Gama (1924-1952). Senhora da Lapa.
[6] Sebastião Oliveira Maia, Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa edições O Progresso da Foz, Porto 1988. (pág. 40).
[7] Alberto Pimentel (1849-1925), Historia do Culto de Nossa Senhora em Portugal. Livraria Editora Guimarães, Libanio & C., 108, Rua de S. Roque, 110, Lisboa 1889. (pág.117 e 118).
[8] Ver Sebastião Oliveira Maia, Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa, edições O Progresso da Foz, Porto 1988. (pág. 93).


CONTINUA
 

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