Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 12 de abril de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 5

 
II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (continuação)
 
Da Cantareira à Senhora da Luz 2
 
Apontamentos sobre a acção de Dom Miguel da Silva na Foz do Douro [1]
 
Não é possível, nem justo, abordar a Barra do Douro e a Cantareira sem evocar a vontade de um só homem, uma das mais extraordinárias figuras do nosso Renascimento, [2] Dom Miguel da Silva (1480-1556).
Da vida e obra de Dom Miguel da Silva remetemos para esse excelente texto de Mário Barroca As Fortificações do Litoral Portuense, e para outros autores que abordaram a vida e a acção de D. Miguel da Silva. [3]
Aqui interessa-nos referir, sucintamente, a acção de Dom Miguel, quando regressado de Roma em 1525, se ocupa da Barra do Douro. Com a sua formação clássica, pretendeu o prelado construir um atrium, uma organizada entrada na barra do Douro, com algumas semelhanças com aquela que os romanos haviam edificado na foz do Tibre (Tevere) na antiga Ostia.

Para esta intervenção na foz do Douro encarregou Francesco di Cremona [4] da elaboraração de um plano para a foz do Douro que consistia essencialmente em três frentes: a sinalização dos vários rochedos que dificultavam a navegação na foz do Douro, onde se salienta a construção de um pequeno templo; a edificação do Farol de S. Miguel-o-Anjo, e a reforma da igreja paroquial da Foz.


D. Miguel e Francesco di Cremona conheciam certamente os portos, fluvial e marítimo, de Roma.
Este que se situava junto à foz do Tibre, e que tinha sido mandado construir pelo imperador Claudio no ano de 42 d.C. e acabado no tempo de Nero em 64 d.C., tendo tomado o nome de Porto di Claudio. Em 103 d.C. o imperador Trajano, para o ampliar e oferecer maior segurança às embarcações, manda construir o porto hexagonal (Portus Traiani).

Terá sido este porto romano, adaptado necessariamente à foz do Douro e à sua configuração e escala, que serviu de modelo para a intervenção promovida por D. Miguel da Silva.
O porto de Ostia é referido e descrito por vários autores romanos, entre os quais Suetónio (Gaius Suetonius Tranquillus 69 d.C.-c.141d.C.): Portum Ostiae exstruxit circumducto dextra sinistraque brachio et ad introitum profundo iam solo mole obiecta; quam quo stabilius fundaret, navem ante demersit, qua magnus obeliscus ex Aegypto fuerat advectus, congestisque pilis superposuit altissimam turrem in exemplum Alexandrini Phari, ut ad nocturnos ignes cursum navigia dirigerent. [5]
 
Não dominando o Latim sigo um tradução para italiano do século XVIII:
Quanto, al porto d'Ostia tirò un' ala di muro dalla destra, e uno dalla sinistra; ed allo entrare, dove il mare era ancor profondo, tirò un Molo attraverso. E per gittarci fondamenti piti gagliardi e stabili, affondò nel detto luogo la nave, che aveva portato l'Aguglia grande d'Egitto, ed accozzati infieme molti pilastri, vi edificò lopra una torre altissìma, come quella del Faro Alessandrino, per tenervi il lume acceso la notte, acciochè i naviganti conosesseno il cammino. [6]
 
[Quanto ao porto de Ostia [Claudio] construiu um paredão à direita, e outro à esquerda; e ao entrar, onde o mar era ainda mais profundo, construiu um cais. E para tornar as fundações sólidas e estáveis, afundou no referido lugar o navio, que tinha trazido o grande obelisco do Egito, sobre o qual, apoiada em muitos pilares, edificou uma torre muito alta, como a do Farol de Alexandria, para manter uma luz acesa de forma que os marinheiros soubessem o percurso durante a noite.]

[1] Ver Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. (pág. 17 e seguintes).
[2] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. (pág. 17).
[3] Para além das obras de Mário Barroca, e Marta Arriscado de Oliveira, já aqui citados, também, entre outros, S. de Oliveira Maia, Rafael Moreira, Isabel Queirós, António Manuel S. P. Silva, Susana Matos Abreu
[4] Ver Susana Matos Abreu, A obra do arquitecto italiano Francesco da Cremona (c.1480-c.1550) em Portugal: novas pistas de investigação.in A Encomenda, o Artista, a Obra, coord. Natália Marinho Ferreira Alves, CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, Rua do Campo Alegre 1055, Porto 2010. (pág. 557 e seguintes).
[5] G. Suetonii Tranquilli, De Vita XII Caesarum, (20.3).
[6] Gaio Suetonio Tranquillo Le Vite De’Dodici Cesari di Gayo Suetonio Tranquillo Tradotta in volgar Fiorentino da F. Paolo del Rosso, Cavalier Gerosolimitano, Nuova Edizione com le vere effigie de’ Cesari, ed altri illustrazioni dichiarate nella Lettera dell’Editore a’ Lettori. In Venezia Apresso Francesco Piacentini. M DCC XXXVIII. (pág.222).
 
O Templo de Portunus e o Farol no porto romano de Ostia
 
Para além de Suetónio Dom Miguel conhecia certamente o trabalho de Andrea Fulvio (c.1470-1527), publicado com o título de L’Antichita di Roma e onde este autor descreve o porto romano de Ostia, referindo o templo de Portuno e o Farol (Tempio di Portunno. Torre del faro à Ostia fatta da Claudio). [1]
 
Escreve Andrea Fulvio:
Nel detto porto fu el Tempio dello Dio Portunno, il quale era chiamato cosi per esser sopra il porti, onde si celebravano le feste di quello chiamate da Portunnali. Edificò ancora el detto Principe dentro al mare una torre di marmo a similitudine del faro di Alessandria ove la notte si tiene acceso il lume, per mostrare la via a marinari che volessino entrare in porto: laqual torre insieme col porto dall'onde, è stata guasta & portata via. [2]
 
[Nesse porto estava o Templo do Deus Portuno, que era chamado por ser o protector dos portos, de quem se celebravam as festas chamadas de Portunali. O dito Príncipe edificou também no meio do mar uma torre de mármore semelhante ao Farol de Alexandria, onde à noite estava aceso um fogo, para mostrar o percurso a seguir pelos marinheiros que queriam entrar no porto: a qual torre, juntamente com o porto, as ondas deterioraram e destruíram.]

Existe uma reconstituição do antigo porto Claudio (Romanvs Portvs A Clvdio Imp. Constrvctvs), na Galeria dos Mapas Geográficos do Palácio Belvedere [3] realizada a partir de um desenho de Pirro Ligorio. [4]

 fig. 13 - (A partir de um desenho de 1554 de Pirro Ligorio) Romanvs Portvs A Clvdio Imp. Constrvctvs (Reconstituição do antigo porto Claudio). Galeria dos Mapas Geográficos no Palácio Belvedere, Roma.

 
Neste fresco estão representados os cais semicirculares do Porto Claudio, na entrada do qual está uma estátua de Neptuno e junto a ela a torre do Farol. No lado esquerdo o Porto de Tibério com a sua forma hexagonal. Junto à entrada do recinto no lado esquerdo o Templo de Portuno o deus das portas e dos portos. (ver fig.23).
A partir deste desenho foram realizadas durante o século XVI várias cópias, das quais apresentamos a de Braun e Hogenberg de 1617.



fig. 14 - Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617. A 1ª edição do Civitates Orbis Terrarum IV é de 1588.

 
fig. 15 – Destaque da entrada do porto de Ostia com o templo de Portunus. Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617.


  fig. 16 – Pormenor de Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617.
 
Legenda:
1 – Via a portu Romani 2 – Porta precípua Romana 3 – Templum 4 – Aqueductus 5 – Porta Secunda … 10 – Muri totum part, ambitus.
 

[1] Claudio é Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus (10 a.C.-54 d.C.), imperador romano.
[2] Andrea Fulvio (c.1470-1527), L’Antichita di Roma di Andrea Fulvio, Antiquario romano. Di nuovo con ogni diligenza corretta & ampliata, con gli adornamenti di disegni degli edifici Antichi & Moderni. In Venetia, Per Girolamo Francini Libraro in Roma all'insegna del Fonte. M D LXXX VIII. (Cap. XXIII Della porta & della via Portuense, pág. 20 e 21).
[3] O Palácio del Belvedere em Roma foi edificado para o papaJúlio II (Giuliano della Rovere 1443-1513) por Bramante (Donato "Donnino" di Angelo di Pascuccio dito il Bramante 1444-1514), sofrendo reconstruções ainda no século XVI por Baldassarre Tommaso Peruzzi (1481-1536) e em 1541, por Antonio da Sangallo, o jovem (Antonio Cordini 1483-1546) e Pirro Ligorio (1513-1583). Hoje está aí instalado o Museu do Vaticano.
[4] Pirro Ligorio (c. 1510-1583) foi o autor, entre outras obras, da Villa d’Este (1563-1573) conhecida pelos seus magníficos jardins, e durante o papado de Paulo IV (1555-59) inicia o Casino, que era ao mesmo tempo Academia e Museu. Entre 1560 e 1565 intervém no Belvedere no Vaticano realizando no seu pátio um anfiteatro.
 
As intervenções de D. Miguel Silva na barra do Douro
 
A sinalização dos rochedos, a torrinha redonda, e o Togado.
 
Manuel Pimentel, descrevendo a barra do Douro, refere a Cruz ou pilar, que he huma rocha onde há huma torrinha redonda com a Ermida de S.Miguel, que está na borda da agua na ponta das pedras de São João da Foz, e assim se governa até estar perto da Cruz, ou pilar, que he huma rocha, onde ha huma torrinha redonda, costeando-a o mais de perto que puder ser, deixando-a a bombordo; e outra pedra, que está em meio canal, ficará a estibordo através do navio; e passada ella, se vai por meio canal até a Cidade, e se amarra ao cais, ou no meio do rio. [1]
Essa torrinha redonda terá sido mandada construir, em 1536, por D. Miguel da Silva. Tratava-se de um pequeno templo, um tempietto de planta circular, que assinalava um dos rochedos da barra depois conhecido como Cruz de Ferro.
Nesse pequeno templo terá sido colocada uma estátua, que quando foi retirada do Douro em 1867 no âmbito dos trabalhos conduzidos pelo engenheiro Manuel Afonso Espergueira (1835-1917), ficou conhecida pelo nome de O Togado.
O facto foi noticiado em O Comércio do Porto na edição do dia 13 de Junho de 1868, que referia o achado de umaestátua de pedra de granito, que mede 1m,30 de altura, (…) bem esculpida e representava um homem vestido à romana. E considerava que é de crer que esta Estátua fosse colocada na primeira Cruz de Ferro que existiu na Barra. [2]
Foi recolhida pelo arquitecto e arqueólogo Joaquim Possidónio da Silva (1806-1896), 1º director da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses (fundada em 1863), que a adquiriu para o Museu do Carmo em 1886.
O Catálogo do Museu da referida Associação de 1892 refere essa estátua:
N.º 3872 —Estatua de granito que servia no seculo XVI para indicar a entrada dos navios no rio Douro,- que o bispo D. Miguel mandára alli collocar a fim de evitar naufrágios. Esta estatua havia caído no fundo do rio, porém foi achada ha muitos annos na ocasião de se concertar o caes, tendo ficado também por muito tempo exposta na praia. O sr. Possidonio da Silva conseguiu adquiri-la em 1886 para se conservar a memória do humanitário prelado que tomou tão util providencia. [3]

Na mesma ocasião também foi descoberta uma lápide e foram recolhidos diversos fragmentos de colunas. As colunas seriam marcas que assinalavam os rochedos por entre os quais se navegava e uma lápide de granito, com uma inscrição, também guardada no Museu e referida no citado catálogo, com o n.º 3872 bisInscripção em pedra de granito pertencente á estatua a que se refere o numero anterior.
MICHAELSILVIV / EPISCOP. VISENS. / NAVIGANTIVM SALVTISCAVSA / TVRRISIIFECIT / ETIIIICOLVMNAS / POSVIT / ANN. M. D.XXXV. [4]
[Miguel Silva Bispo vendo a necessidade de salvar navegantes fez duas torres e colocou 4 colunas no ano de 1535.]

O Togado
 
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.


 fig. 17 – Em cima O Togado in Portus Revista de Arqueologia Portuense n.º10, Junho de 2006.granito 123 x 41 x 50 cm. Museu Nacional de Arqueologia. Em baixo O Togado por Gouveia Portuense.



 
O Togado como Portumnus
 
Para além de uma polémica sobre a datação da estátua, a consideração da cultura clássica de Dom Miguel da Silva e da sua estadia em Roma, somada com a interpretação do objecto que está na mão esquerda como uma chave, levou Rafael Moreira a avançar que o Togado seria uma representação de Portunus (Portumnus) o deus romanos das Portas e dos Portos. Esta ideia da protecção dos portos é referida por Virgílio na Eneida et pater ipse manu magna Portunus euntem impulit (o próprio pai Portunus com grande mão dirigiu o navio). [5]

Apesar da palavra portus se aplicar a um porto de mar, e o porto fluvial se chamar emporium, Portunus protegia quer o porto de Ostia na foz do Tibre, quer o porto Tiberino, um porto fluvial dentro de Roma localizado perto do Forum Boarium. Aí existia um templo, que se conserva ainda hoje, consagrado a Portunus. As festas dedicadas ao deus, as Portunálias, realizavam-se a 17 de Agosto.


fig. 18 - Philippe Galle (1537-1612),Portunus estampa 6 in Semideorum marinorum amnicorumque sigillariae imagines perelegantes in picturae statuariaeque artis tyronum usum / à Philippo Gallaeo delineatae, sculptae et aeditae, Antverpiae Ambivaritor, 1586. Bibliothèque nationale de France.

 Mas Portunus aparece na sua iconografia com uma representação relacionada com o deus Janus, com o qual partilha o símbolo da chave. Quer em moedas quer como figura de proa de navios era muitas vezes representado como um ser bicéfalo ou bifronte (com duas cabeças ou com duas caras), em que cada uma está voltada para direções opostas.
O relacionamento entre os dois deuses é sublinhado pelo facto de que a data escolhida para a dedicação do templo reconstruído de Janus no Fórum Holitorium (o mercado dos vegetais) pelo imperador Tiberius é o dia das Portunalias, 17 de Agosto.
Portunus, como protector dos portos seria, por isso, como Janus, protector do comércio e da navegação.


fig. 19 - Il dio Portunus nelle vesti di Janus.

Segundo Ovídio Portunus (para os gregos Palemone) seria filho de Mater Matuta (para os gregos Lucoteia):
Leucothea Grais, Matuta vocabere nostris; in portus nato ius erit omne tuo, quem nos Portunum, sua lingua Palaemona dicet. [6]
 
[Leucotea serás chamada pelos Gregos, e por nós de Matuta; e o poder sobre todos os portos será inteiramente do teu filho, que diremos Portunus, e Palemone na sua língua de origem.]

A representação de Janus e de Portunus com duas faces está associada à Prudência, ou seja ver sempre os dois lados de um problema e olhar para o passado e para o futuro antes de uma decisão; e à Concórdia, ou seja a tolerância para duas diferentes opiniões,

Guillaume de la Perriere Toussaint no seu livro de emblemas Le Theatre des Bons Engins, publicado no século XVI, associa o deus Janus, representado com uma chave na mão, a estas virtudes que davam a paz e a tranquilidade.

fig. 20 - Guillaume de la Perriere Toussaint (c.1500-1565), Emblema I, Pour viure en paix & tranquilité in Le Theatre des Bons Engins.1545.
 
Le Dieu Ianus jadis à deux uisaiges,
Noz anciens ont pourtraict & trassé;
Pour demonstrer que l’aduis des gens saiges,
Vise au futur, aussi bien qu’au passé.
Tout temps doibt estre (en effect) compassé,
Et du passé auoir la souuenance:
Pour au futur preueoir en prouidence,
Suyuant Vertu en toute qualité.
Qui le fera uerra par euidence,
Qu’il pourra viure en grand tranquilité.
[7]

[O Deus Janus outrora com duas caras,
Os nossos ancestrais o seu retrato traçaram;
Para demonstrar que a conselho das gentes sábias,
Olha o futuro mas também o passado.
Todo o tempo deve ser (com efeito) compassado,
E do passado deve ter a lembrança;
Para o futuro prever em providência,
Seguindo Virtude em toda a qualidade.
O que o fará ver por evidência,
Que poderá viver em grande tranquilidade.]
 

[1] Manoel de Pimentel (1650-1719), A Arte de Navegar em que se ensinão as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a Balestilha por via de numeros e muitos problemas uteis á navegação, e Roteiro das Viagens e Costas Marítimas de Guiné, Angola, Brazil, Indias, e Ilhas Occidentais, e Orientaes, Novamente emendado, e accrescentadas muitas derrotas. Dedicada a ElRei D. João o V Por Manoel Pimentel Fidalgo da Casa de S. Magestade, e Cosmografo Mor do Reino. Lisboa, Na Officina de Miguel Manescal da Costa. Anno M. DCC.LXII. (pág. 524).
[2] Ver Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. E Isabel Queirós, A reabilitação da barra do Douro no século XVI: um desafio urbanístico à talassocracia atlântica, https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:CXslaWoVFdIJ:https://www.citcem.org/encontro/pdf/new_03/TEXTO%25202%2520
[3] Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, Typographia Universal (Imprensa da Casa Real) 110, Rua do Diario de Notícias, 116, Lisboa 1892.
[4] Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, Typographia Universal (Imprensa da Casa Real) 110, Rua do Diario de Notícias, 116, Lisboa 1892.
[5] Publio Virgilio Marone Aeneidos, in Opera Omnia Vol. Secundum, Lib. V, v. 241, Curante et Imprimente A. J. Valpv, A. M. Londini 1819. (pág. 741).
[6] Ovídio, (Publio Ovidii Nasonis, Publio Ovidio Naso, 43 a.C – 17ou18 d.C.) Fastorum Liber VI, v. 545-547, Edited with notes by A. Sidgwick, Cambridge The University Press. London Cambridge Warehouse, 17, Paternoster Row. London 1878. (pág.37).
[7] Guillaume de la Perriere Toussaint (c.1500-1565) Le Theatre des Bons Engins. Auquel sont contenuz cent Emblemes moraulx. Composé par Guillaume de la Perriere Tholosaint. 1ª edição Paris 1539. A Lyon Par Jean de Tournes, 1545.

 
O templo do Togado e o templo de Portunus
 
Segundo Mário Barroca o pequeno templo circular que abrigava a estátua do Togado seria, tal como em Roma, dedicado a Portunus.
Mário Barroca explica a diferença entre o templo romano, que em Roma ainda existe, e que tem uma planta rectangular, e o pequeno templo da Foz do Douro que tinha uma planta circular.
Com efeito, em Roma, o templo de Portunus - um dos que sobreviveu até hoje em melhor estado de conservação e que, por isso, foi elevado a modelo arquitectónico por Palladio e Sangallo - é um templo rectangular, pseudo periptrotetrástilo, com uma organização muito diferente da que D. Miguel da Silva escolheu para o templete da Foz.
No entanto, há motivos que ajudam a compreender a sua opção. No Forum Boarium, em Roma, ao lado do templo de Portumnus existe um outro templo, dedicado a Hércules, que possui planta circular e colunata.
Ora, no tempo de D. Miguel da Silva acreditava-se que o templo circular era o de Portumnus e que o rectangular correspondia à Basílica de Lucius e Caius. [1]
 
Marcus Terentius Varro (116-27 a.C.) refere que o templo de Portunus foi erguido in portu Tiberino. [2]

E Mário Barroca refere Pirro Ligorio, o autor de Delle Antichitá in Roma.

Pirro Ligorio escreve sobre o título de Tempio di Portuno, baseado no uso romano das ordens arquitectónicas, em que o Dórico era associado à força e virilidade e o Jónico e o Coríntio eram conotados com o feminino e a delicadeza.
Ma che grossezza è stata la loro á dire, che quel Tempio circolare, che e su la riva del Teuere vicino al ponte di Santa Maria dedicate à San Stefano, fosse già il Templo d'Hercole? Come se ad Hercole si facessero i Tempij d'ordine Corinthio, come si soglion fare alle Dee, & à gli Dij mollí & effeminati. Vitruvio mоstra pure che ad Hercole si facevano d’ordine Dórico et non Corinthio: senza che, come puo esser d'Hercole, se gi'a è di Portumno? Secõdo scrive Publio Vittore, il quale lo pone a piè del ponte Sublicio ò vogliamo dir d'Horatio che quivi era: & á tale Dio convien molto bene il Tempio circolare & Corinthio come é questo. [3]
 
[Mas que grossa asneira foi dizer que este Templo circular, que está na margem do Tibre perto da ponte de Santa Maria dedicada a Santo Estevão, fosse o Templo de Hércules? Como se a Hercules se fizessem templos de Ordem Coríntia, como era costume fazer aos Deuses, mas aos moles e efeminados. Vitruvio mоstra bem que os templos dedicados a Hércules eram feitos de Dórico e não Coríntio; por isso não pode ser de Hércules, mas de Portumno? Segundo escreve Publio Vittore, que o coloca na parte inferior da ponte Sublicio ou Horácio que aqui o colocava: e a tal Deus [Poturno] convém muito melhor o Templo circular e Coríntio como é este.]

O templo da Fortuna virile foi cantado por Ovídio, conotado com Portunus por Palladio e convertido na igreja de Santa Maria Egípcia, como se vê numa estampa de Piranesi.

Em Ovídio:
… discite nunc, quare Fortunae tura Virili
detis eo, calida qui locus umet aqua,
accipit ille locus posito velamine cunctas
et vitium nudi corporis omne videt;
ut tegat hoc celetque viros, Fortuna Virilis
praestat et hoc parvo ture rogata facit.
nee pigeat tritum niveo cum lacte papaver
sumere et expressis mella liquata favis;
cum primum cupido Venus est deducta marito,

hoc bibit; ex illo tempore nupta fuit.  [4]

Tradução em francês:
Sachez encore pourquoi dans ces jours du printemps
La Fortune virile accepte votre encens.
Au fond d'un temple humide, où fume une onde tiède,
La femme qui du bain implore le remède
Quitte ses vêtemens dans ce mystique enclos;
Et là sa nudité décèle ses défauts.
La fortune virile en efface la tache,
Et pour un peu d'encens les dérobe et les cache.
Buvez encore un lait mélangé de pavots
Et d'un miel exprimé de ses rayons nouveaux.
Vénus à son éppux venait d'être amenée;…
 [5]

Tradução para português:
Aprendei agora
Porque nestes dias de primavera
A Fortuna viril aceita o vosso incenso.
No interior de um húmido templo, onde paira um morno vapor,
A mulher que do banho implora o remédio
Despe as suas vestes neste mítico lugar;
E a sua nudez mostras os seus defeitos.
E a Fortuna viril apaga as manchas
E por um pouco de incenso esconde-as e lava-as.
Bebei também um leite com papoulas 

E a expressão do mel com seus novos raios. 
Como Vénus ao seu esposo se apresentou;…


fig. 21 - Andrea Palladio (1508-1580), Del Tempio Della Fortvna Virile (tempio di Portunus) in I quattro libri dell’architettura. Libro IV Cap. XIII pág. 48, 49 e 50.
 



fig. 22 - Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), Veduta del Tempio della Fortuna virile (Portuno) oggi Santa Maria Egiziaca degli Armeni in Opere di Giovanni Battista Piranesi, Francesco Piranesi e d'altri. Firmin Didot Freres Paris 1839.

 
Mas o templo que seria dedicado a Portunus erguido por Giuliano da Sangallo (1445 ou 1452-1516) no porto junto à cidade de Ostia, era um templo circular, como se vê no desenho de Pirro Ligorio (fig.13). Aqui um desenho desse templo atribuído a Giovanni Battista Montano (c.1534-1621).


fig. 23 - Giovanni Battista Montano, (c.1534-1621) e outros, Pianta, sezione prospettica con veduta prospettica parziali del tempio di Portumno a Porto, depois de 1582 e antes de 1621, grafite, pena, aguada e aguarela sobre papel, 17,3 x 25,7 cm. In Indice de due Tomi d'Intagli Tempietti ed altro, T. V e VI, Tempietti, 144 rotondo con portico circolare.

 
Andrea Fulvio (c.1470-1527) em L’Antichita di Roma descreve o porto romano de Ostia, referindo o templo de Portuno e o Farol.

Na margem do texto, sublinhando o parágrafo está escrito:Tempio di Portunno. Torre del faro à Ostia fatta da Claudio. [6]

E no texto:
Nel detto porto fu el Tempio dello Dio Portunno, il quale era chiamato cosi per esser sopra il porti, onde si celebravano le feste di quello chiamate da Portunnali. Edificò ancora el detto Principe dentro al mare una torre di marmo a similitudine del faro di Alessandria ove la notte si tiene acceso il lume, per mostrare la via a marinari che volessino entrare in porto: laqual torre insieme col porto dall'onde, è stata guasta & portata via. [7]
 
[Nesse porto estava o Templo do Deus Portunno, que era chamado por ser o protector dos portos, de quem se celebravam as festas chamadas de Portunnali. O dito Príncipe edificou também no meio do mar uma torre de mármore semelhante ao Farol de Alexandria, onde à noite estava aceso um fogo, para mostrar o percurso a seguir pelos marinheiros que queriam entrar no porto: a qual torre, juntamente com o porto, as ondas deterioraram e destruíram.]

 fig. 24 - Ostia Antica, Foro delle Corporazioni con pavimento a mosaico, navi e faro.
 

[1] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001.
[2] Marcus Terentius Varro (116-27 a.C.) Antiquitatum rerum humanarum et divinarum libri XLI (ou encore Antiquitates rerum humanarum et divinarum, (Das coisas antigas humanas e divinas, em 41 livros).
[3] Pirro Ligorio (c. 1510-1583) Libro di M. Pyrrho Ligori Napolitano, Delle Antichità Di Roma, Nel quale si trata dei Circi, Theatri & Anfitheatri.Con le Paradosse del Medesimo auttore, quai consutano la commune opinione sopra varii luoghi della città di Roma. 1553. (pág. 40).
[4] Publiu Ovidius Naso (43 a.C.-18 d.C) Fasti Liber IV v.145-154.
[5] Les Fastes d’ Ovide. Traduction en vers par F. de Saintange, Chez Gabriel Dufour et Compagnie, libraires, successeurs de Tourneisen fils.Paris 1809. (pág.124).
[6] Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus (10 a.C.-54 d.C.).
[7] Andrea Fulvio (c.1470-1527), L’Antichita di Roma di Andrea Fulvio, Antiquario romano. Di nuovo con ogni diligenza corretta & ampliata, con gli adornamenti di disegni degli edifici Antichi & Moderni. In Venetia, Per Girolamo Francini Libraro in Roma all'insegna del Fonte. M D LXXX VIII. (Cap. XXIII Della porta & della via Portuense, pág. 20 e 21).
 
O fim do templo de Portunus na Foz do Douro
 
No século XVIII, desaparecem as referências a este pequeno templo, possivelmente destruído pelas águas agitadas da foz, e pelas frequentes cheias do Douro. Permanece contudo a referência nas Memórias Paroquiais de 1758 a “hum pillar de pedra lavrado a que chamaõ Cruz”, o antecessor da Cruz de Ferro erguida por José de Sousa em Outubro de 1788. [1]
 
No Mapa de José Gomes da Cruz de 1775 está assinalado como “Ferro” um rochedo encimado por uma cruz.
 fig. 25 - Jozé Gomes da Cruz, Piloto das Naus de Guerra. Este Mapa he ademonstração da Costa do Mar desde a Villa de Matozinhos, athe a Barra da Cidade do Porto (…).1775.

  fig. 26 – Pormenor do Mapa de 1775.
 

Na gravura de Manoel Marques de Aguilar de 1790.

fig. 27 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

  fig. 28 - A Cruz de Ferro. Pormenor de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.
 

[1] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001.
 

O Farol de S. Miguel-o-Anjo [1]
 
Não me aterrou, que do almejado pôrto
Me allumiava o farol de amigo lume.
Farol consolador, fanal d’esprança,
Quando na praia já, sem luz me deixas!
 [2]

 fig. 29 - Gouveia Portuense (Manuel de Gouveia Coutinho de Tvar e Melo 1907-1976), Capela-farol de S. Miguel-o-Anjo vista de terra. Desenho e reconstituição.


Desse plano de D. Miguel Silva e Francesco di Cremona, e baseado no porto romano, a destaca-se a construção de um farol, o Farol de S. Miguel-o-Anjo, obra iniciada em 1527 que chegou até aos nossos dias é, que após anos de abandono se anuncia a sua reabilitação.

Seria pretensioso da minha parte (re) escrever a história do Farol do Anjo, que «serve de balliza aos navios, que entraõ, e sahem pella barra, pera se desviarem das pedras, que estaõ debayxo d’agoa» [3]
Por isso remeto para o excelente e rigoroso trabalho de Marta Peters Arriscado de Oliveira, já aqui citado, limitando-me a algumas imagens e
apontamentos relacionados com o Farol e Capela de S. Miguel o Anjo.

fig. 30 - T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).



  fig. 31 - Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


fig. 32 – Pormenor de Cesário Augusto Pinto. Cantareira in As margens do Douro, collecção de doze vistas Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova. Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.


Junto ao Farol é construído por volta de 1841 o edifício dos Pilotos da Barra do Douro. E onze anos depois a Associação Comercial do Porto promove a construção da Torre do Semáforo.

fig. 33 - Posto Fiscal da Cantareira, Telegrafo e capela do Anjo. Alçado Lado Oeste. Luz de enfiamento da Marca Nova.




fig. 34 – Postal Porto-Foz do Douro-Cantareira.

O banco no farol do Anjo
 
Helder Pacheco numa homenagem a Miguel Veiga (1936-2016) lembra o banco de pedra, gasto dos séculos, encostado à Capela (ou, melhor, farol) de S. Miguel-o-Anjo, onde Eugénio se sentava olhando a estrada de Sobreiras e a «outra banda verde», sentindo o cheiro a algas do Cais dos Pilotos, na maré vaza.[4]










fig. 35 – 1 - Alçado nascente da Capela-Farol. 2 e 3 - Fotos do lado nascente vendo-se os bancos de pedra.
 
A estrada de sobreiras vista do banco junto ao farol e a «outra banda verde», sentindo o cheiro a algas do Cais dos Pilotos, na maré vaza, vista do mesmo banco.


fig. 36 – O que se vê sentado em um dos bancos.


As três árvores da Cantareira segundo António Rebordão Navarro
 
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
[5]


  fig. 37 - Elizabeth Reid, The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

O escritor António Rebordão Navarro, (de que voltaremos a falar quando abrdarmos o Jardim do Passeio Alegre, onde habitava) com o seu atento conhecimento da Cantareira acompanha a evolução de três (quatro se considerarmos uma que existia já fora do recinto do Farol) árvores que existem entre a capela da Lapa e o conjunto do Farol de S. Miguel-o-Anjo.


 fig. 37a – Destaque das três árvores in Elizabeth Reid, The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

 
Eram três delgadas figurinhas postas na paisagem, no largo onde se ergueu a Capela de S. Miguel o Anjo, onde ainda uma cúpula dá indícios dela, perto da alegoria em que S. João (da Foz do Douro, como não podia deixar de ser) baptiza Jesus Cristo.
Eram três hastes delicadas de arrepiados ramos por cabelos.
Eram, de débeis troncos, três arvorezinhas desguarnecidas, cravadas num solo pouco rico, ameaçadas pelos ventos, o sal, a rataria, os gases soltos dos escapes, a indiferença das pessoas passando ou não podendo usá-las para nelas prender cordas de roupa.
Eram três meninas impúberes no terreiro, sem céu nenhum, quase sem sombra. Desprotegidas, nuas. [6]



fig. 38 – As três árvores numa fotografia do início do século XX.

 
Mas resistiram, cresceram, têm já folhas, porventura pássaros, talvez ainda sem residências fixas nas suas copas, mas ali parando entre dois voos. [6]

 fig. 39 – As três árvores num postal do início do século XX.

Lembremos o poema de Yeats pedindo às Vozes para permanecer.

The everlastings Voices
O sweet everlasting Voices be still;
Go to the guards of the heavenly fold
And bid them wander obeying your will
Flame under flame, till Time be no more;
Have you not heard that our hearts are old,
That you call in birds, in wind on the hill.
In shaken boughs, in tide on the shore?
O sweet everlasting Voices be still. 
[7]

[As Vozes Eternas
Oh, doces e eternas Vozes permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E ordene-lhes que vagueiem obedecendo à tua vontade,
Chama sob chama, até que o Tempo não seja mais;
Não ouviram que os nossos corações estão cansados,
E que tu chamaste os pássaros, no vento sobre as colinas,
Em ramos que se agitam, nas marés pela beira-mar?

Oh, doces e perenes Vozes permaneçam.
]
 
Entretanto foram plantadas junto do Farol do Anjo duas palmeiras.

Restam duas das árvores de António Rebordão Navarro e foi replantada a terceira.


fig. 40 – As árvores em Março de 2017.
 
CONTINUA




 

[1] Ver: Marta Maria Peters Arriscado de Oliveira. Porto, São Miguel o Anjo: uma torre, farol e capela. Memória para uma intervenção na obra. Trabalho realizado no âmbito do Processo IPPAR n.º123/P/05 Capela ou Farol de S. Miguel-o-Anjo, Porto Estudo histórico e formal. Porto Novembro de 2005.
[2] Almeida Garrett, Camões Poema, Canto V. Na livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, n.º 2, faub. St.-Germain. Paris 1825. (pág.95).
[3] Padre Prior Francisco de Jesus Maria, Memórias Paroquiais da Divisão Administrativa do Porto, 1758, in S. Oliveira Maia Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa edições O Progresso da Foz 1988. (pág.41).
[4] Helder Pacheco Ditirambo Portuense em Honra de Miguel Veiga blogue Largo dos Correios Portalegre. https://largodoscorreios.wordpress.com/author/largodoscorreios/page/147/
[5]  António Gedeão, Obra Poética, Lisboa, edições JSC, 2001
[6] António Rebordão Navarro (1933-2015), Notícias de Árvores 26 de Maio de 1989 in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 77).
[7] William Butler Yeats (1835-1939) "The Wind Among the Reeds", London Elkin Mathews, Vigo street.W. M DCCCC III (pág. 3).
 
 

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