Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 2 de maio de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 7



 II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (conclusão)


Da Cantareira à Senhora da Luz 3 - II Parte



Aqui nestas algosas penedias,
Aonde bate o mar encapellado, [1]



Entre o Jardim e a rua da Senhora da Luz





 fig. 89 – Imagem do Google Earth legendada.


Legenda:
14 – Antiga Escola Primária
15 – Oporto Café
16 – O Sonho da Humanidade, homenagem a Ferreira de Castro
17 - Castelo de S. João Baptista da Foz do Douro
18 – Entrada do Castelo
19 - Esplanada do Castelo e Hotel da Boa-Vista.
20 – Entrada da rua de N. Sr.ª da Luz
21 – Local onde se situava o Pomar da Foz Praias
22 – Paredão e farolim de Felgueiras
23 – Praias









[1] Theotonio Joze Xavier da Cunha, Soneto in Poesias de Theotonio Joze Xavier da Cunha, Na Offic. de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de 1706. (pág. 42).



O Sonho da Humanidade. Monumento a Ferreira de Castro (com o n.º 16 na fig.89)



Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu... 
[1]



fig. 90 – José Rodrigues (1936-2016), O Sonho da Humanidade, evocação do escritor Ferreira de Castro enquadrado pelos paredões da barra.



Em 1998, no centenário de Ferreira de Castro (1898-1974) o seu amigo Eurico de Andrade Alves escreveu um texto intitulado Ferreira de Castro Sonho de uma Humanidade. [2]


Aí incluída, na sua utopia ou nos seus erros, a fé de Ferreira de Castro no Homem e no seu futuro é, com efeito, a esta escala, a do Sonho da humanidade...  [3]


Com efeito são muitas as citações desse sonho, dessa procura da Humanidade em Ferreira de Castro.


Sobrepõe-se sempre no meu espírito uma causa mais forte, uma razão maior, a da Humanidade. [4]


Sem dúvida, a Humanidade está longe ainda da elevação coletiva que eu sonho para ela. Há de lá chegar, decerto, pela evolução. Mas isso é tão lento e a vida de cada um é tão pequena, que eu, às vêzes, penso que a sêde de justiça que há por tôda a parte acabará por marchar à frente… [5]

fig. 91 – José Rodrigues (1936-2016), O Sonho da Humanidade, evocação do escritor Ferreira de Castro.





 E esse Sonho de uma humanidade remete para o mito de Prometeu.


A new Prometheus, chained upon the rock,
Still grasping in his hand the fire of Jove,
It does not hear the cry, nor heed the shock,
But hails the mariner with words of love. 



[Um novo Prometeu, acorrentado sobre a rocha,
Ainda segurando na mão o fogo de Júpiter,
Não ouve o grito, nem escuta o choque,
Mas saúda o marinheiro com palavras de amor.
]  [6]


fig. 92 - José Rodrigues (1936-2016), O Sonho da Humanidade, evocação do escritor Ferreira de Castro. 1988. Foto damasofaria.






[1] Tobias Barreto de Meneses (1839-1889), poema O Génio da Humanidade (1866) do livro Dias e noites. (1881). In Obras Completas Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. (pág.79-80).

[2] Eurico de Andrade Alves (?-2012) – Ferreira de Castro Sonho de uma Humanidade no Centenário do seu nascimento (1898-1998), Oliveira de Azeméis, Associação Internacional dos Amigos de Ferreira de Castro,1998.

[3] Eurico de Andrade Alves (?-2012) – Ferreira de Castro Sonho de uma Humanidade no Centenário do seu nascimento (1898-1998), Oliveira de Azeméis, Associação Internacional dos Amigos de Ferreira de Castro,1998. (pág.100).

[4] (José Maria) Ferreira de Castro (1898-1974), Pórtico, de A Selva, in Obras Completas, Vol. II, Guimarães & Cª. Lisboa, 1949. A selva. Obras de Ferreira de Castro. Porto: Lello & Irmão, 1984.

[5] (José Maria) Ferreira de Castro (1898-1974),Obra Completa, Aguilar, 3 vol. Rio de Janeiro 1958. (pág.277).


[6] Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882) The Lighthouse em The Seaside and the Fireside 1850 in Poems of Henry Wadsworth Longfellow with a biographical sketch by Nathan Haskell Dole Thomas Y. Crowell Company Publishers, New York 1893. (pág.129 e 130).  



O Castelo e a antiga igreja de S. João da Foz do Douro. [1] (com o n.º 17 na fig.89 e fig.97)



foz do douro: vem cá, melancolia,
a lembrar prosas de raul brandão,
de gente, areia e barcos, na sombria
humidade do dia
e humildade no chão:
palmeiras desgrenhadas, ventania,
e o castelo de d. sebastião
onde as gaivotas têm cidadania
.
[2] 




fig. 93 - Detalhe da Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção topográfica, e histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa (Porto, 1789)



Não iremos fazer a história da igreja matriz inicial que, por volta de 1527, D. Miguel da Silva mandou Francesco di Cremona edificar, no local do Castelo e de que hoje apenas resta a abside com a sua cúpula, nem da fortaleza que em seu redor se edificou.


Lembremos apenas que em1647 ainda a egreja parochial de S, João da Foz convizinhava de Castello. D. João 4º deu do seu bolcinho para a nova igreja seis mil cruzados, e os frades benedictinos de Santo Thyrso, cujo era o couto da Foz, pagaram as restantes despezas. A egreja velha foi deruida, salvante a capella mor que sobre esteve para o culto do presidio. [3]


E com a edificação da Fortaleza a igreja matriz deslocou-se no século XVII para a igreja de S. João Baptista da Foz.



fig. 94 –Pormenor do Castelo in Manoel Marques de Aguilar (1767/68-1816/17), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.



Quando o poeta refere o castelo de d. sebastião / onde as gaivotas têm cidadania, lembra que terá sido por esta altura que, por ordem de D. Sebastião, começou João Gomes da Silva a fortaleza de S. João da Foz. Parece que o Porto, mais commercial que bellicoso, não se prestou voluntariamente às despezas da edificação. [4]



fig. 95 – Cesário Augusto Pinto (1825-1896) O Castelo da Foz in  «As margens do Douro, collecção de doze vistas» por Cesário Augusto Pinto. Porto 1849. - Litografia 160 x 250 mm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 184.



Escreve Camilo Castelo Branco:



Nas salas da pacifica fortaleza da cidade do Porto, ha quatorze annos que fugiam as noites e alvoreciam as manhãs, esmaiando, sem poder quebrantar, a formosura das graciosas damas que dispartiam á volta d’ellas o excedente da sua felicidade. Em noites calmas e alumiadas da lua era bello vel-as, as gentis senhoras que ali moravam, por sobre os baluartes e revelim, vestidas de branco, ora quietas e contemplativas voltadas ao mar, ora correndo ao longo dos terraços, como creanças para quem o crepusculo da manha da vida havia de esvair-se nos alvores do dia eterno. [5]

E ainda:


Se haverá dos que viram o Porto de ha quatorze annos quem não tenha saudades das noites do Castello da Foz! Eu de mim não sei o que hoje lá passa; mas ouvi dizer que as brizas baloiçam as solitarias ervas dos baluartes e o vento silva nos vigamentos das salas onde estrondeavam as musicas. [6]



Para Lady Jackson o Castelo evocava tempestades na entrada da Barra.
Toldava o ceu um largo cinto negro de nuvens arqueadas que se engrossavam. As vagas rugiam furiozas; na barra espadanavam alvejantes espumas, emquanto no mar escuro rutilavam longos sulcos de luz phosphorica.

Cuidei que chovia; mas eram borrifos de espuma à mistura com areias que as lufadas do vento quente nos atiravam. Não trovejava, posto que os relâmpagos vívidos e brilhantes coruscassem no espaço, agora, relampadeando por largo e envolvendo, por instantes castello, montes e mar, em roixa luz intensa; logo, em linhas ondulosas que pareciam esbrazear o dorso das vagas, como se fossem uma acceza massa que se abria e fechava com deslumbrantes lampejos por entre nuvens lúgubres e negras.[7]
 

  
fig. 96 - O Castello de S. João da Foz, Coelho, O Archivo Popular vol.3, 1839 (pág.177).



Na Carta de Telles Ferreira de 1892 o Castelo a sul e a poente ainda estava ladeado pelos areais.

A Norte está marcada a alameda superior e numa cota inferior a linha do americano e depois do eléctrico que circulava pelo fosso do Castelo.



fig. 97 – O Castelo da Foz na planta de 1892 de Telles Ferreira. Quadrícula 37, escala 1:500, versão colorida. AHMP.

 Legenda
17 – Castelo de S. João da Foz
18 – Entrada do Castelo
19 - Esplanada e Hotel Boa-Vista
20 - Entrada da rua da Senhora da Luz
21 - O Pomar da Foz
24 – Linha do transporte sobre carris e fosso do Castelo
25 – Alameda na cota superior


O eléctrico circulou em torno do Castelo pelo fosso existente no lado norte.


No jardim do Passeio Alegre, contemplávamos amiúde, pasmados e eufóricos, a chegada do carro da linha 17 *, que rodeava o Castelo. [8]


* Em 1945 a linha 17 ia da praça da Batalha à Foz- Passeio Alegre, via rua Gonçalo Cristóvão



fig. 98 -  Foto de Domingos Alvão, O Castelo de S. João da Foz. BPMP.


O Castelo da Foz foi sempre tema para a arte fotográfica e para a pintura.



fig. 99 - Frederick William Flower (1815-1889) catálogo da exposição Frederick William Flower Um Pioneiro da Fotografia Portuguesa, 1994.


O Castelo visto do sul com o extenso areal que então existia.



fig. 100 – Foto do início do século XX.



fig. 101 – Foto da actualidade sensivelmente do mesmo local.




Na pintura o areal em frente do Castelo numa aguarela de Elizabeth Reid.



fig. 102 - Elizabeth Reid Castelo de S. João da Foz. Aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.



E o Castelo visto de norte numa pintura de Arthur Loureiro de 1909.



fig. 103 - Arthur Loureiro (1853/1932), Castelo da Foz c.1909, óleo sobre tela 59,7 x 86 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.




Noutro quadro de Arthur Loureiro o Castelo é pintado numa noite de chuva, lembrando os versos de Lorca.


Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene,
por un anfibio sendero
de cristales y laureles.
El silencio sin estrellas,
huyendo del sonsonete,
cae donde el mar bate y canta
su noche llena de peces… 
[9]




 fig. 104 - Arthur Loureiro (1853/1932), Noite de Chuva, Castelo da Foz, c.190966,7 x 94 cm. Col. particular.

Também Guilherme Teixeira pintou o Castelo da Foz, numa vista do lado norte.



fig. 105 - Guilherme Filipe Teixeira, (1899-1971), Castelo da Foz do Douro 19?? Óleo sobre cartão 30,7 x 39,5 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.





[1] Ver Mário Jorge Barroca A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. E Rafael Moreira, As Descobertas e o Renascimento, Formas de Coincidência e de Cultura, Catálogo da XVII Exposição do Conselho da Europa, Arte Antiga I, Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa 1983. E ainda Carlos Pereira Callixto,Os primeiros 230 anos de história da fortaleza de São João da Foz do Douro – 1570-1800. Ed. De Hotel Boa-Vista, Foz do Douro 1991.

[2] Vasco Graça Moura (1942-2014), Poesias 1997/2000, Lisboa, Quetzal, 2000.

[3] Camillo Castello Branco (1825-1890), O Castello de S. João da Foz in Mosaico e Sylva de Curiosidades Historicas, Litterárias e Biographicas. Anselmo de Moraes – Editor, Rua do Almada,171 Porto 1868. (pag.13). Também na Gazeta Literária nº.2 1868.

[4] Camillo Castello Branco (1825-1890), O Castello de S. João da Foz in Mosaico e Sylva de Curiosidades Historicas, Litterárias e Biographicas. Anselmo de Moraes – Editor, Rua do Almada,171 Porto 1868. (pag.9). Também na Gazeta Literária nº.2 1868.

[5] Camillo Castello Branco (1825-1890), O Castello de S. João da Foz in Mosaico e Sylva de Curiosidades Historicas, Litterárias e Biographicas. Anselmo de Moraes – Editor, Rua do Almada,171 Porto 1868. (pag.8). Também na Gazeta Literária nº.2 1868

[6] Camillo Castello Branco (1825-1890), O Castello de S. João da Foz in Mosaico e Sylva de Curiosidades Historicas, Litterárias e Biographicas. Anselmo de Moraes – Editor, Rua do Almada,171 Porto 1868. (pag.9). Também na Gazeta Literária nº.2 1868.

[7] Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (Pág.316).

[8] Guido de Monterey (José Augusto de Sousa Ferreira da Silva1933, O Porto Origem, Evolução e Transportes, Edição do Autor Porto 1972. (pág. 9).


[9] Frederico Garcia Lorca (1898-1936), Preciosa y el aire de Romancero Gitano (1924-1927) in Obras Completas Recopilacion y notas de Arturo del Hoyo. Prólogo de Jorge Guillen. Epílogo de Vicente Alexandre. Aguilar, S. A. de Ediciones Juan Bravo, Madrid 1969. (pág. 426).


A porta do Castelo. (com o n.º 18 na fig.89 e fig.97)


Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira

Eu abro de sopetão
Pra passar o capitão.


Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.


Eu sou muito inteligente!



Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu! 
[1]



fig. 107-- Vasco d’Orey Bobone, aguarela in Espírito do Porto, Edição Global Notícias Matosinhos 2004.



A Porta do Castelo da Foz foi desenhada em 1796 por Reinaldo Oudinot.



fig. 108 -Postal n.º 80, Estrela Vermelha. Porto-Foz do Douro- Castello. Vista de Norte.



[1] Vinicius de Moraes (1913-1980), A porta (1970) em A arca de Noé. 2. Ed. Companhia das Letrinhas, São Paulo: 1991. (pág.26).

A esplanada do Castelo. O Hotel Boa Vista. (com o n.º 19 na fig.89 e fig.97).



Na Esplanada do Castelo situa-se o Hotel Boa Vista, que Alberto Pimentel refere em Atravez do Passado.

Quer isto dizer que a Foz não era já n'esse tempo uma solidão convidativa para poetas, a não ser que os poetas, mais gastronomos que espiritualistas, quisessem ir comer pescada cosida com batatas, ao Domingos da Boa Vista. [1]



fig. 109 – Emílio Biel. Um postal da Esplanada do Castello. Ao lado o célebre Café Montanha.


E em Terra Prometida refere os dois hotéis mais conhecidos da Foz do Douro.


A ausência do fidalgo Padilha contrariou Jorge, que tencionava encarregá-lo de indicar-lhe uma casa na Foz ou pelo menos um bom hotel onde pudesse haver quartos disponíveis, durante todo o mês de outubro, para uma família composta de três casais, duas meninas de 8 a 9 anos e três criadas.

Mas de repente lembrou-se de que o conde de Azambuja, seu amigo e correligionário, estava passando o verão na Foz. Escreveu-lhe e a resposta não se fez esperar. Naquela praia havia alguns prédios regulares, onde os donos costumavam veranear até ao fim de outubro, porque, dizia o conde, «outubro é na Foz o mês mais agradável». Nenhum dos hotéis seria bom, mas um casal tinha aposentos na clássica hospedaria da Boa Vista, com uma criada; e os outros dois casais no inglesado hotel da Mary Castro.   [2]


A Pensão Mary Castro na rua das Motas.




fig. 110 - Pensão Mary Castro na rua das Motas.

 Camilo refere a pensão como o hotel inglez.

A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscípulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquínhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agiin, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baeta azul que a rodeavam, e saindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que era uma delicia vêl-a. [3]


O Hotel Boa-Vista



fig. 111 – O Hotel Boa-Vista no início do século XX, ainda com dois pisos.


E o Hotel tal como hoje se apresenta já com os três pisos e as mansardas.



fig. 112 – O hotel Boa-Vista em dois folhetos de publicidade.


Mas outros havia que se cansavam desta vida da Foz, como Faustino Xavier de Novaes.


Deixei, farto de Foz, a hospedaria,    

Quando já, brandamente declinando,   

O sol, envergonhado, se escondia,   

E a noite vinha o manto desdobrando:    

Parei na Cantareira, ao fim do dia,       

No ceo fitando os olhos, e exclamando,         

Que é isto, justo ceo, que não te boles?              

Que nem fazes da Foz um Rilha-folles? [4]




fig. 113 – O Hotel Boa-Vista na cota superior da Esplanada do Castelo.




[1] Alberto Pimentel (1849-1925) Atravez do Passado, cap. Há Vinte Annos, Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial : 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.42).

[2] Alberto Pimentel,Terra prometida Guimarães & C.ª Editores, 68, Rua do Mundo,70, Lisboa 1918.(pág. 280).

[3] Camillo Castello Branco Annos de Prosa. Segunda edição revista e correcta pelo author. Companhia Editora de Publicações Illustradas, 35, Travessa da Queimada, 35, Lisboa, (pág. 152).


[4] Faustino Xavier de Novaes, in Poesias de Faustino Xavier de Novaes, segunda edição mais correcta e augmentada.Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, n.os 28 a 30, Porto 1856. (pág.37).



O Farolim da Barra (22 na fig.89)


Ó pharolim da Barra, lindo, de bandeiras,

Para os vapores a fazer signaes.

Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,

Diccionário magnifico de Cores!

Alvas espumas, espumando a fragoa.

Ou rebentando, á noite, como flores!

Ondas do Mar! Serras da Estrella d'agoa.

Cheias de brigues como pinhaes...[1]
 


fig. 114 - Postal Foz do Douro – Farolim da barra.



Em 1790 inicia-se a obra da construção do molhe de Felgueiras dirigida por Reinaldo Oudinot, mas só em 1886 se constrói o Farolim da Barra que já no século XX irá desactivar o farol de N. Sr.ª da Luz, embora se mantenha a sineta que Rebordão Navarro recorda ecoando fatalmente nos dobres prolongados da sineta lúgubre do farolim da barra. [2]



fig. 115 – Postal A Entrada da Barra.


O paredão de Felgueiras marca verdadeiramente o encontro entre o Douro e o mar.

Mesmo, ou sobretudo, com a construção dos novos molhes no século XXI.


Para norte passando a rua da Senhora da Luz, estão as praias e a Foz Nova.




[1] António Nobre Luzitania no Bairro-Latino (Paris 1890-91) in , Léon Vanier, Èditeur 19, Quai Saint-Michel, 19, Paris 1892. (pág. 78).


[2] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 27).


A rua da Senhora da Luz. (com o n.º 20 na fig.89 e fig. 97)




fig. 116 – A entrada da rua da Senhora da Luz, vendo-se à esquerda a Casa Brasileira.



A Casa Brasileira



À entrada da rua da Senhora da Luz existiu durante muitos anos um edifício onde quem se deslocava à Foz fazia paragem certa na pastelaria do Carlos Teixeira da Costa, um prédio ovalado, com grandes portas, altas janelas, varandas arredondadas, águas-furtadas salientes, uma inscrição entre elas na fachada – “Casa Brasileira” – painéis em vidro da Real Vinícola e do Porto Sandeman, entre as portas do rés-do-chão (…) [1]



fig. 117 - Imagem da Casa Brasileira, sem o gradeamento da entrada.


A Casa Brasileira como eu ainda a conheci.



fig. 118 – Postal Pôrto 47. – Vista parcial da Foz do Douro. Foto de Alvão.




[1] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 33).




O Pomar da Foz. (com o n.º 21 na fig.89 e fig. 97)



Mas as paisagens sonhadas são apenas fumos de paisagens conhecidas e o tédio de as sonhar também é quase tão grande como o tédio de olharmos para o mundo. [1]

Alvarez (José Cândido Dominguez Alvarez, 1906-1942) imortalizou e registou para sempre, o Pomar da Foz com um quadro de 1930.



fig. 119 - Dominguez Alvarez, Pomar da Foz 1930, óleo sobre cartão, 47 x 43 cm. 
in Bernardo Pinto de Almeida, Pintura Portuguesa no Século XX. Porto: Lello e Irmão, 1993.



O Pomar da Foz, tasca que na fachada se intitulava Cervejaria, e que também vendia Licores e Vinhos e ainda Frutas secas e frescas de qualidade, situava-se na entrada do lado nascente da rua da Senhora da Luz.



fig. 120 - Pormenor de Dominguez Alvarez, Pomar da Foz 1930.




Na pintura de Alvarez, apenas figura uma personagem solitária, uma negra e cabisbaixa silhueta de um homem com chapéu, sombra de si própria, que parece dirigir-se para a entrada da tasca forçada pelo destino e pela sua condição humana.



fig. 121 – A silhueta do homem solitário, destacado na pintura de Alvarez.




fig. 122 – A silhueta do homem solitário.



De facto estas personagens sombrias e sós, muitas vezes apenas manchas instáveis, [2] que em muitos quadros com o tema de tabernas (Taverna Russa, Adega do Galo, Taberna, Vinhos e Petiscos…) mesmo quando neles figuram mais do que uma personagem, estas não se comunicam e estão desesperadamente sós.

 Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem.
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
[3]



A pintura de Alvarez é, salvo a silhueta do homem só, uma pintura realista já que a tasca é pintada como era na realidade.


[Como a única imagem que possuo é pouco nítida socorro-me desta versão do facebook A Nossa Foz do Douro, aliás incontornável para quem pretende conhecer mais e melhor a Foz.]



fig. 123 – Imagem de A Nossa Foz do Douro.


Na imagem podemos ver o Pomar da Foz, com a janela central com duas portas para cada lado.

Duas mansardas encimam a cobertura do piso único.

A casa vizinha resistiu e mantém-se nos nossos dias.



O Pomar da Foz sucedeu à Sapataria Tito Barbosa, Deposito Officina, que tinha na fachada um pequeno frontão semicircular, onde se lia Casa Elegante, rodeando uma pintura de calçados depois substituída por uma figura feminina. Encimando o frontão esteve ainda colocada uma estatueta.



fig. 124 – Postal. Foz – Rua da Senhora da Luz.



 
fig. 125 - A entrada da rua de N. Sr.ª da Luz com a casa Tito Barbosa. Foto Guedes. AHMP.


Posteriormente, nos anos 40 do século XX, o Pomar da Foz deu lugar à Adega do Lavrador - Especializada em Vinhos Verdes e Maduros – Almoços. Jantares. 



fig. 126 - A Adega do Lavrador.



Hoje já não existe! Já que aí foram construídos dois prédios de apartamentos de 4 pisos.



fig. 127 – O local onde se situava o Pomar da Foz, na actualidade.



fig. 128 – A rua da Senhora da Luz cerca de 1917.


fig. 129 - A rua da Senhora da Luz em 2017.







[1] Fernando Pessoa. Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. (pág.370).

[2] Antonio Trindad Muñoz, No digas que fue un sueño, in Dominguez Alvarez 770, Rua da Vigorosa, Porto, Catálogo da Exposição do Centenário, Fundação Calouste Gulbenkian Lisboa 2006. (pág.59).


[3] António Gedeão (1906-1997), Poema do Homem Só (27 de Dezembro de 1956) in Teatro do Mundo, Of. da Atântida, Coimbra 1958. (pág.16-18).


As Praias (com o n.º 23 na fig.89) serão tratadas na III parte.



Para terminar a “Batota” na Foz no século XIX

Os jogadores
Umas cabeças vãs, uns ociosos.
Despidos de virtude e de talento,
Põem grande estudo, grão divertimento
N'uns naipes maus, nuns dados acintosos:
Perdem, por passatempo,
O irrevocável tempo.
Néscios! não vêm, não sentem consumida
A saúde; queixosa a honra, a vida?
Só depois de agastar-se um dia inteiro,
Sentem o menos — sentem o dinheiro.
[1]



Ramalho Ortigão descreve uma noite de batota em S. João da Foz.


O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez numa batota, em São João da Foz, há coisa de vinte anos.

A espelunca achava-se estabelecida no lindo cottage do Mallen, na Praia dos Ingleses, com um terraço sobre o mar e a entrada pela Rua da Senhora da Luz.

No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta mesa de pano verde iluminada do tecto por um candeeiro. Em torno da mesa achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da província do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns junto da mesa, sentados, outros de pé por trás desses formando três ou quatro círculos concêntricos.

A um topo da mesa um cavalheiro esquelético, de faces macilentas, adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si, por meio de uma pequena rapadeira de mogno polido, em forma de ancinho, o dinheiro das paradas, espalhado no pano verde e pagava a importância das apostas. [2]


fig. 130 - Kees Van Dongen1877 - 1968Les Salons du Casino de Deauville, Le Privé 1925 óleo s/tela 54,3 x 65,4 cm. Col. Particular.



fig. 131 - Reginald Thomas Cleaver (1870-1954) Gambling at Ostend, the Club Prive of the Kursaal. Illustration for The Graphic, 23 October 1897.




No livro "O Porto Há 30 Anos", editado em 1893, Alberto Pimentel escrevia: Dava sobre a praia dos banhos o terraço da Assembleia, cuja principal entrada abria para a rua dos Banhos Quentes. Foi n’essa Assembleia que nasceu a primeira rolêta da Foz. Ha mais de vinte annos, a rolêta era uma innovação recente, que produzia sensação. Alguns pais de familia, que nunca jámais jogaram, iam vêr a rolêta, por simples curiosidade, como se póde ir vêr um monstro, uma fera. Os viciosos tomaram-lhe gosto, e, dentro de pouco tempo, a rolêta popularisou-se, a ponto de começarem a funccionar, além da rolêta aristocratica da Assembleia, varias rolêtas pataqueiras e pelintras. Os puritanos, os caturras da jogatina repelliram a rolêta, e continuaram a frequentar a batota do high-life no Passeio Alegre; os encanzinados no vicio do jogo, ultra-viciosos, frequentavam a rolêta e a batota, - accumulavam.



O Casino High-life do Passeio Alegre, a que se refere o Alberto Pimentel, era na primeira casa à esquerda do postal.



fig. 132 - Postal. Foz do Douro-Passeio Alegre. A casa à esquerda de que se vê apenas o cunhal era o Casino High-life no Passeio Alegre.



Em 1911 foi destruído por um incêndio e na casa reconstruída funcionou entre 1931 e 1950 o conhecido Colégio Brotero.


 
fig. 133 – Num outro postal podemos ver o edifício onde se situava o Casino.



Havia ainda muitos outros locais onde se jogava como na Assembleia, junto à praia dos Ingleses, como previne Guilherme Braga numa paródia ao livro de Thomaz António Ribeiro Ferreira (1831-1901), A Delfina do Mal de1868, à época com algum sucesso teatral.

Ao chegardes á praia dos Inglezes,
cautela, se levaes a bolsa cheia,
cautela co'a Assemblêa!,.,
não entreis lá, meus timidos burguezes,
passae avante! Emfim, somos chegados
da Senhora da Luz ao alto monte:
sentae-vos nos rochedos escalvados
e ponde-vos a olhar...para defronte.
[3]





[1] Filinto Elysio (Francisco Manuel do Nascimento), Obras completas de Filinto Elysio 1817. Tomo 3, (pág. 240).

[2] Ramalho Ortigão Uma das Jogatinas, Novembro de 1882, in As Farpas 1 Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pag.52).


[3] Guilherme da Silva Braga (1845-1874), O Mal da Delfina, Paródia a Delfina do Mal por um Homem de Bem. Typographia Lusitana, Editora, 74, rua de Bellomonte Porto 1869. (pag.35).


CONTINUA



Na III Parte A Foz do lado do Mar, da Senhora da Luz a Matosinhos.






1 comentário:

  1. Excelente trabalho sobre a nossa Foz do Douro. Obrigado porpartilhar.

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