Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 7 de abril de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 12


ap1compfig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Um percurso - com diacrónicas derivas na zona da praça de Carlos Alberto - a partir de um texto de Alberto Pimentel sobre uma pintura de António José da Costa 3

Continuação do percurso a partir do texto de Alberto Pimentel Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa)  publicado no seu livro Fitas de Animatographo.


O teatro Carlos Alberto [1]

No seu texto Alberto Pimentel refere então o Teatro Carlos Alberto.

Mas a maior de todas as suas modernisações, que nem sequer poderia lembrar como hipothese aos velhos portuenses, foi a construcção de um theatro no antigo jardim do visconde da Trindade.

O teatro foi construído no Palacete do Visconde da Trindade que pela rectaguarda (já na rua das Oliveiras) tem um jardimzinho, cercado de grades de ferro [2], por iniciativa de Manuel da Silva Neves, sendo inaugurado no dia 14 de Outubro de 1897.

ap72fig. 93 - Manoel da Silva Neves. Theatro Carlos Alberto. Entrada Principal. Approvado em Câmara 29 de Setembro de 1910. AHMP.

ap73compfig. 94 - Theatro Carlos Alberto. Fachada. Aprovado em Comissão Executiva 5 de Agosto de 1915. AHMP.

ap75compfig. 95 – Uma fotografia do Teatro Carlos Alberto na época da sua abertura.

ap74compfig. 96 – A entrada do Teatro Carlos Alberto.Foto: Centro de Documentação do TNSJ.


O Teatro de Carlos Alberto foi remodelado em 2001 segundo um projecto do arquitecto Nuno Lacerda Lopes.


ap76compfig. 97 – A entrada do teatro em Março de 2018.


fig. 98 – O corpo central do Teatro em Março de 2018.


Na altura da sua construção Alberto Pimentel exclama então a novidade de um teatro na rua das Oliveiras.

O' bellas almas puritanas de nossos pães e avós, crêde-o, se o podeis saber no outro mundo, e ainda que vos custe a crêl-o: funcciona um theatro authentico na rua das Oliveiras, onde tudo outrora era silencio e quietação depois de haver tocado na Sé o sino dos mariolas, chave sonora com que se fechavam morigeradamente as patuscadas nocturnas.


No próximo dia 9 de Abril comemora-se o centenário da batalha de La Lys e a 11 de Novembro o do Armistício .


Na fotografia de Paz dos Reis de 1916, data do início da demolição dos Paços do Concelho para a abertura da Avenida das Nações Aliadas, pode ver-se uma faixa que publicita a revista O Diabo a Quatro em representação no Teatro Carlos Alberto.

ap78compfig. 99 - Aurélio Paz dos Reis (1862-1931), vista da praça de D. Pedro com o edifício da Câmara em demolição 1916. CPF/ DGARQ/APR3570.

A revista O Diabo a Quatro cujos autores são Ernesto Rodrigues, João Bastos e Felix Bermudes, estreou no Éden Teatro em 1915 e em 1916 foi levada à cena no Teatro Carlos Alberto no Porto.

Nesse tempo da I Grande Guerra apresentava um quadro Pátria Amada onde se declamava:

Se Portugal honrar as armas de Inglaterra
Também o meu rapaz tem de partir p’ra guerra.
Mas eu não vou chorar por causa disso, oh não!
Hei-de calar cá dentro a voz do coração!
Meu filho, se morrer, morre no seu lugar.
Mil filhos que eu tivesse, havia de os mandar
Honrar a Pátria qu’rida até morrer por ela…


[1] Ver http://cinemasparaiso.blogspot.pt/2013/10/teatro-carlos-alberto-mais-um-cinema.html

[2] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.497).


O Monumento aos Mortos da Grande Guerra [1]

A praça de Carlos Alberto é marcada desde esses anos pelo Monumento aos Mortos da Grande Guerra.

Logo no final da Grande Guerra a Junta Patriótica do Norte iniciou uma campanha para que em todos os concelhos se erguesse um monumento comemorativo.

Após um concurso é inaugurado em 11 de Novembro de 1924 (data em que se comemora o Armistício de 1918) na praça de Carlos Alberto o monumento do escultor José de Oliveira Ferreira (1883-1942) que havia sido escolhido pelo júri.

ap130fig. 100 – O 1º Monumento aos Mortos da Grande Guerra de José de Oliveira Ferreira (demolido).AHMP.


No entanto o monumento que pretendia evocar a estátua do Porto que tinha sido apeada do alto dos antigos Paços do Concelho (e que então se encontrava junto ao Paço Episcopal onde funcionava a Câmara Municipal), foi alvo de fortes críticas nas publicações da época e da população do Porto que lhe chamava o Portorrão.

Por isso a Câmara Municipal resolve demolir o Portorrão em 15 de janeiro de 1925 e lançar um novo concurso de que sai vencedor o projecto do escultor Henrique Moreira (1890 - 1979) com a colaboração do arquitecto Manoel Marques (1890-1956) e cuja primeira pedra é colocada em 11 de Novembro de 1927. Desta cerimónia é lavrado um Auto Comemorativo ilustrado por uma imagem de um soldado morto e coberto pela bandeira nacional.

ap142fig. 101 – Enio Machado, ilustração no Auto Comemorativo da colocação da Pedra Fudamental do Monumento aos Mortos da Grande Guerra. AHMP.

Em 9 de Abril do ano seguinte (data da comemoração dos 10 anos da batalha de La Lys), é então inaugurado o novo Monumento, que faz 90 anos no próximo dia 9.

ap130afig. 102 – O Monumento aos Mortos da Grande Guerra notando-se o primitivo desenho do pavimento.


Consiste na escultura em bronze de um soldado em posição de sentinela junto a um padrão onde figuram os símbolos da Pátria e encimado pela Cruz de Cristo.

Na base do pedestal onde estão esculpidas balas e também vários motivos florais. Aos pés do soldado uma coroa de flores em bronze simbolizando uma perene homenagem.

(Esta coroa e outros motivos florais desapareceram quando o monumento foi retirado para a construção do parque subterrâneo e não mais foram restituídas mutilando assim o monumento).

Em letras as datas da 1ª Guerra Mundial e Aos Mortos da Grande Guerra. A Cidade do Porto.

O desenho do pavimento dirige-se para o monumento que organiza todo o espaço da praça.

O monumento ganhou entretanto um significado mais abrangente de homenagem aos que em diversos conflitos armados deram a vida pela Pátria.


ap140fig. 103 – Foto de Teófilo Rego anos 60. AHMP.


[1] Ver: José Guilherme Pinto de Abreu, A Escultura do Espaço Público do Porto no Século XX. Publicacions de la Universitat de Barcelona. Centre de Recerca Polis, e-polis. Barcelona 2005.



O Animatographo que dá o título ao livro

Prossegue Alberto Pimentel referindo o teatro mecânico.

Viera ha mais de meio século ao Porto um «theatro mechanico», e installou-se n'um barracão armado no meio da Praça de Carlos Alberto.

Foram vêlo as tresentas pessoas que tiveram a coragem de sacrificar o rheumatismo á distracção. Outras tresentas pessoas fizeram-se representar pelos filhos e pelos criados. Os actores nem comiam nem bebiam, porque eram authomatos. Mas, ainda asssim, o empresário resolveu mudar de paiz, para não fallir.

O Porto já não tinha mais gente theatravel.


Alberto Pimentel refere ainda em O Porto há Trinta Annos o theatro mechanico que Fez as delicias de uma noute da minha infância. A enchente não podia ser maior, mas só a minha alegria teria bastado para encher o theatro. [1]

E retomando o seu texto Outros Tempos Pimentel refere o animatographo.

Pois agora, além do theatro permanente da rua das Oliveiras, funccionam três animatógraphos nos arredores da Praça de Carlos Alberto: o «Salão Pathé», na rua de D. Carlos, o «Salão Chiado» na Galeria de Pariz e o «Salão High Life» na Cordoaria.

Aspectos da envolvente

E Alberto Pimentel referindo as transformações da envolvente.

Eu estou certamente a falar grego às bellas almas immoveis de nossos paes e avós. Ellas não sabem que a rua de D. Carlos communica a rua da Conceição com a Praça de Santa Thereza, e que os Ferros Velhos, de ferrugenta memoria, foram varridos em nome da civilisação para dar logar a uma galeria que se não sabe bem porque é de Pariz e, sobretudo, porque não é galeria.

Talvez o futuro possa justificar um dia a pompa, aliás um pouco pretenciosa, do onomástico.

[Nota - A Rua de D. Carlos, com a República passou a chamar-se de rua de José Estêvão. A rua da Galeria de Paris foi aberta em 1903 e de facto nunca se tornou galeria. A praça de Santa Thereza é agora a praça de Guilherme Gomes Fernandes].


ap80compfig. 104 – A Galeria de Paris. Postal Le Temps Perdu. Colecção: Porto Desaparecido, 44. 1914.


A Praça de Santa Thereza, depois praça Guilherme Gomes Fernandes

ap81compfig. 105 - Aurélio da Paz dos Reis Dia de feira 1908. Praça dos Voluntários da Rainha (praça de Gomes Teixeira) e praça de Santa Teresa ou da Feira do Pão (praça de Guilherme Gomes Fernandes).


Na imagem seguinte vê-se ao fundo a Casa Barroso Pereira um edifício atribuído a Nasoni e onde estava instalado a Fotografia Perez.

ap81bcompfig. 106 – Postal. A praça de Santa Teresa e a Feira do Pão.


Pinho Leal descreve o mercado dos Ferros Velhos demolidos em 1904

Ferros-Velhos — encostado á parede E., do campo que foi cêrca das freiras carmelitas(o que está destinado para novo mercado). Consta dos mesmos e variadíssimos objectos, que ás terças feiras se vendem na célebre feira da Ladra, no campo de Santa Anna, em Lisboa. É porém permanente; mas muito mais concorrido ás terças feiras e sabbados— o que acontece a todos os mais estabelecimentos commerciaes do Porto.

Já ha muitos annos que a camará municipal projecta remover isto d'aqui; mas, ou a falta de sitio próprio, ou certas influencias, teem estorvado esta mudança, que era bem necessária, visto que a feira de ferros velhos, farrapos, cacos, botas e sapatos, novos e velhos, etc, etc , torna aquella rua soberanamente triste e desagradável. [2]


E Pinho Leal nos Ferros Velhos assinala o Teatro das Variedades.

Theatro das Variedades — construido há annos. É de madeira, e nada tem de notável.

Está dentro de um quintal, que formou parte da cérea das freiras carmelitas. Tem a frente para a calçada das Carmelitas, ficando lhe ao E. o mercado dos Ferros Velhos. No chão occupado agora por este theatro, construíram os irmãos Dallots um teatro barracão, para saltimbancos, que foi incendiado.

Tornaram os mesmos emprezarios a construir outro, que teve egual fim, durando pouco mais de um anno. Deus dê melhor sorte ao actual theatro. É theatro de declamação, o seu empresário, o sr. Francisco Alves Rente, primoroso e laureado violinista. [3]

Alberto Pimentel no seu Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, também o refere.

Theatro de Variedades — Na calçada das Carmelitas. Este theatro começou por uma pequena barraca de saltimbancos. Incendiou-se, e foi reconstruido com maiores dimensões. Tornou a incendiar-se, e reappareceu transformado, melhor diriamos improvisado n'um grande theatro de madeira, muito frequentado, e onde funcciona actualmente uma companhia de declamação, composta de actores que haviam trabalhado nos theatros Baquet e Principe Real. [4]

ap84compfig. 107 – Postal. Porto-Ferros Velhos. AHMP.


[1] Alberto Pimentel, O Porto ha Trinta Annos, Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Porto 1893. (pág. 58).

[2] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág. 488).

[3] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.394).

[4] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes. Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita – Editor, Rua de D. Pedro, 87. Porto 1877. (pág.129).



Os estabelecimentos comerciais na frente ocidental da praça de Carlos Alberto

ap117fig. 108 - Pormenor de uma vista aérea da Foto Beleza c.1940.

Segundo Alberto Pimentel:

A transformação hodierna da Praça de Carlos Alberto completa-se não só pelos estabelecimentos de luxo, installados nos baixos do hospital do Carmo, mas também pelo ajardinamento da Praça, onde as flores municipaes desdobram agora um duplo tapete de côr e aroma sobre a memoria prosaica dos antigos ferradores e caixoteiros.

Na figura seguinte o espaço é designado como Praça e Jardim Carlos Alberto.

ap146fig. 109 – Postal. Porto-Praça e Jardim Carlos Alberto.


Alguns estabelecimentos instalados nos baixos do hospital do Carmo

ap117afig. 110 – A frente ocidental com os comércios nos baixos do Hospital c.1970. AHMP.


Farmácia Lemos

A Farmácia Lemos é a mais antiga do Porto já que foi fundada em 1780 como botica dos frades Carmelitas.

Em 1801 com a fundação do Hospital do Carmo passou a ser propriedade da Ordem Terceira de N.ª S.ª do Carmo.
Em 1862 Joaquim B. de Lemos adquiriu-a, ficando portanto seu proprietário.

Pinho Leal refere a botica da ordem no seu Portugal Antigo e Moderno:

No edificio que defronta com a praça de Carlos Alberto (Feira das Caixas) está o rico hospital da ordem terceira do Carmo, no pavimento superior. Nos baixos, está a botica da ordem, e ricas lojas de commercio. [1]

Em 1889 os seus filhos António e Joaquim tornaram-se sócios, e em 1892 por falecimento do pai ficaram só os dois filhos.

Durante muitos anos a Farmácia Lemos foi conhecida por publicitar e vender a Fosfiofoglicina.

ap95a

fig. 111 – Anuncio da Fosfiodoglicina de Lemos & Filhos  in Brasil & Portugal n.º78, 16 de Abril de 1902


ap95

fig. 112 – Anúncio publicado no jornal O Alarme, Diário Republicano da tarde n.º11, rua das Flores 178. Porto 12 de Novembro de 1904.


ap93

fig. 113 - Anuncio de 1918

Em requerimento datado de 23 de Dezembro de 1922, escreve-se que A firma Lemos & Filhos, com farmácia na Praça de Carlos Alberto, 20 a 31, desejando mandar transformar uma das vitrines do seu estabelecimento, em harmonia com o projecto junto, que está indicada a carmim e com a letra A – vem pedir a V. Excia, se digne conceder a indispensável licença para fazer a referida transformação. 23 de Dezembro de 1922.

ap90compfig. 114 - Planta de Alinhamento localização. Processo AHMP



ap91compfig. 115 - Alçado. Processo AHMP



ap92fig. 116 - Anúncio da Fosfiodoglicina de Lemos & Filhos do início do século XX.


Em 1928 a Farmácia ficou a ser dirigida pelo sócio António Baptista A. de Lemos e pelo Gerente Técnico J.J. Fernandes Pinto.

ap95bcompfig. 117 – Cartaz da fosfiodoglicina de Lemos & Filhos de 1928.


Em 1931, por falecimento de António Baptista A. de Lemos, ficou seu director Augusto de Lemos.

Em 30 de Outubro de 1933, o então proprietário Rodrigues de Lemos requer modificar a fachada, segundo um projecto do arquiteto António Maria Cândido de Brito (1904-1989).

A Farmácia Lemos na actualidade.

ap96fig. 118 – A Farmácia Lemos na frente do Hospital do Carmo.


fig. 119 – A Farmácia Lemos em Março de 2018.


A Casa Lopo Xavier & C.a L.a

É um dos poucos estabelecimentos comerciais que ainda permanece.

Em 6 de Outubro de 1934 o proprietário requer a alteração da fachada segundo um projecto do arquitecto Aucíndio Ferreira dos Santos.


ap99fig. 120 - Desenho do alçado in Luis Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 1, Edições Afrontamento Porto 2009.


No interior conservam-se dois baixo-relevos de Henrique Moreira, alusivos ao trabalho familiar que o negócio da firma pretende promover.


ap99aap99bfig. 121 - Henrique Moreira, relevos coloridos no interior da loja Lopo Xavier & C.a L.a in Luis Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 1, Edições Afrontamento Porto 2009.


ap99e

fig. 122 - Anúncio em Fitados de Letras, Queima das Fitas da Universidade do Porto. 1970.


fig. 123 - O estabelecimento na actualidade. Março 2018.


Casa Damas

A Casa Damas foi fundada em 1833.

Em 1908 é apresentado na Câmara um requerimento por José Domingues Faria dos Santos mestre d’obras, em que Manoel José Ferreira & Filhos, inquilinos do prédio n.os 3 e 4 da Praça de Carlos Alberto, pretendendo guarnecer de madeira convenientemente moldurada e pintada a frente do referido prédio, conforme indicam a tinta carmim no desenho junto, assumindo o abaixo assignado, mestre d’obras a responsabilidade da mencionada obra para efeitos do regulamento de segurança dos operários.

ap147fig. 124 – José Domingues Faria dos Santos mestre d’obras. Projecto apresentado à CMP. Porto 22 de Julho de 1908. AHMP.


ap148c

fig. 125 – Anúncio da Casa Damas in Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 1, Edições Afrontamento. Porto 2009.

A Casa Damas foi modernizada em 1933 e demolida em 1956.


Casa Cypriano & C.ª

A Casa Cypriano de Bernardino d’Almeida & Silva L.da estabelecimento de venda de mobiliário instalou-se em 1916 na praça de Carlos Alberto n.os 39 a 44.


ap150ap149

fig. 126 - Anúncios in Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 2, Edições Afrontamento Porto 2009.


Em 1930 o arquitecto Leandro Moraes (1883-?) projecta uma fachada arte nova.

ap101cfig. 127 - Leandro Moraes projecto de fachada. 12 de Setembro de 1930. In Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 2, Edições Afrontamento. Porto 2009.

Nos anos 80 instala-se aqui uma agência bancária do BPI, que se mantem.

ap101acompfig. 128 – A fachada da agência do BPI na praça de Carlos Alberto


Coutinho & Comandita

No prédio vizinho n.os 47 e 48 em 1918 a firma Coutinho & Comandita pretendeu colocar uma marquise em ferro e vidro, na altura do 1º andar da frente do referido estabelecimento.

ap151fig. 129 – Projecto de uma marquise.1918. AHMP.



ap152fig. 130 – Desenho da fachada de Coutinho & C.ta in Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, volume 1, Edições Afrontamento. Porto 2009.

Foi demolida nos finais dos anos 50.


Nos anos 30 do século XX, também nesta frente ocidental da praça de Carlos Alberto se concretizaram projectos em que os arquitectos ensaiaram o uso de uma linguagem senão moderna pelo menos modernizante.

Andrade, Meias e Miudezas

Como exemplo a loja Andrade, Meias e Miudezas situada no n.º 25 da praça de Carlos Alberto com um projecto de 1940 assinado pelo arquitecto Homero Ferreira Dias (1904-1960) e pela Ars. Arquitectos (Cunha Leão. Morais Soares. Fortunato Cabral).


ap134cfig. 131 – Desenho da nova fachada da loja Andrade. 1940. AHMP.


O projecto visava alterar a fachada então existente.


ap135fig. 132 – Foto do processo. AHMP


ap136

fig. 133 – Foto do processo. AHMP.


A fachada foi totalmente alterada e na actualidade no n.º25 está uma loja de roupa Popygum com uma insípida fachada.

ap137fig. 134 – O n.º2 5 da praça de Carlos Alberto em Março de 2018.


A frente do Hospital do Carmo com os estabelecimentos comerciais nos anos 60.

ap114cfig. 135 –O Hospital do Carmo na praça de Carlos Alberto nos anos 60 do século XX. Foto in Guido de Monterey, O Porto, Origem, Evolução e Transportes. Edição do autor 1972.


[1] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.302).


A frente norte da praça de Carlos Alberto

Em 1838 é apresentada pelo arquitecto Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864) na Câmara Municipal uma alternativa para o desenho da frente norte da praça de Carlos Alberto., com dois methodos. Foi Approvado o segundo methodo da planta. Porto. Paços do Con.lho 13 de Janeiro de 1838.

ap119fig. 136 – Fachadas alternativas para a frente norte da praça de Carlos Alberto 1838.AHMP.

Na legenda inferior salienta-se que em ambos os methodos a Casa da esquina com a rua de Cedofeita é a geradora da fachada sendo que a primeira solução é simétrica o que não acontece com a segunda que no entanto foi aprovada.

Em ambos estes projectos se vê conservada como actualmente existe a Casa do angulo X. por ser elegante e bastante moderna e muito mais por que existindo no angulo representa o fim do prospecto da rua de Cedofeita sobre a qual esta Casa tem outra frente e para a Praça dos Ferradores basta que a Casa que lhe fica em correspondência do lado do Nascente da praça lhe seja igual como se vê nas plantas…

Casa dos Óculos

Dos diversos projectos da frente norte da praça de Carlos Alberto ( Junta de Freguesia da Vitória, Escola Primária, etc.) apenas escolhemos o edifício do cunhal entre a rua de Cedofeita e a praça de Carlos Alberto.

ap121acfig. 137 – A localização da antiga Casa dos Óculos.


Na casa da esquina com a rua de Cedofeita, entretanto revestida a azulejo, instalou-se a Casa dos Óculos, com aberturas para ambas as fachadas e caracterizada pelo lettering Art-Déco.

ap121compfig. 138 – A Casa dos óculos nos finais do século XX.

A intervenção da Porto 2001 provocou uma difícil situação para os estabelecimentos da praça de Carlos Alberto, e na imagem seguinte repare-se no ar desolado do comerciante que parece adivinhar o destino da Casa dos Óculos.

ap122fig. 139 – A Casa dos Óculos durante as obras da Porto 2001.


De facto hoje está aí instalada uma loja de vestuário de nome Equivalenza – Cedofeita com uma inócua e rotineira fachada.


O largo do Coronel Pacheco

Regressando ao texto de Alberto Pimentel refere-se este ao Largo do Coronel Pacheco.

O largo do Coronel Pacheco, povoado de bons prédios, também se alindou de canteiros floridos, os quaes vantajosamente substituem as legiões de garotos, que antigamente jogavam ali a pedrada com o maior denodo guerreiro em absoluta impunidade.

Na planta de 1816 embora se chame já de Praça do Mirante o espaço é apenas um largo irregular onde se localiza a quinta  do Braga mas ainda sem edificação periférica.

A edificação apenas existe ao longo da Rua de S.to Ovidio (Mártires da Liberdade).

É proposta a regularização da praça com um traçado que prolonga a rua do Mirante e a regularização a norte da Travessa da Sovella (hoje Travessa de S. Carlos).

ap131cfig. 140 – Planta do actual alinhamento que tem a praça do Mirante e as propriedades circundantes. 1816. AHMP.

A Quinta do Braga

Francisco Ferreira Barbosa no Elucidario do Viajante no Porto refere a quinta do Braga, no largo do Coronel Pacheco. [1]

E Pinho Leal do mesmo modo refere a quinta do sr.Braga, no largo do Mirante (hoje do Coronel Pacheco). [2]

Em 1892 na planta de Telles Ferreira a Praça do Coronel Pacheco está cartografada com o ajardinamento central, e practicamente edificada em todo o seu perímetro.

ap156fig. 141 – A praça do Coronel Pacheco. Pormenor da quadrícula 255 da Carta da Cidade do Porto de Telles Ferreira de 1892.


ap104fig. 142 - Postal. Porto-Praça do Coronel Pacheco c.1903. AHMP.


A Igreja Evangélica

No Largo do Coronel Pacheco sobressai o templo da Igreja Evangélica Metodista fundada em 25 de Março de 1877, como se pode ler na placa que ainda hoje ostenta.

fig. 143 – Placa da Igreja Evangélica Metodista. Março de 2018.


E Pinho Leal confirma esta fundação ao assinalar os Templos protestantes.

Em 25 de março de 1877, se inaugurou no largo do Coronel Pacheco que até 1834 se chamou largo do Mirante — um novo templo protestante, anglicano. [3]



fig. 144 – A Igreja Evangélica Metodista. Março de 2018.


O Colégio Santa Maria (Almeida Garrett)


Pinho Leal afirma que aqui esteve instalado o Liceu Particular—no largo do Coronel Pacheco (antigo largo do Mirante.)—Ensinam se todas as disciplinas que constituem o curso dos lyceus, para o que tem professores portuguezes e estrangeiros, competentemente habilitados. [4]

Em 1894 instalou-se o Colégio do Sagrado Coração de Maria, conhecido como Collegio de Santa Maria.

ap109


fig. 145 – O Collegio de S.ta Maria em 1908.AHMP.



ap109afig. 146 – Anuncio no Guia Illustrado do Porto 1910.


E em 1913 torna-se Colégio Almeida Garrett.

Em 1934 é apresentado um projecto de José Júlio de Brito

ap110fig. 147 – Licença de Obra n.º 1562/1935. AHMP.


E em 1938 é apresentado um novo projecto para a construção de um pavilhão.

ap103bfig. 148 – Implantação do edifício 1938. AHMP.



ap103acompfig. 149 – Júlio de Brito, Projecto a que se refere o Requerimento do Colégio Almeida Garrett. 1938.AHMP.

No mesmo ano o Colégio requereu aumentar um piso no edifício voltado para a rua do Mirante segundo um projecto de Júlio José de Brito. Na planta podemos ver a implantação do Colégio na praça do Coronel Pacheco.

ap103fig. 150 - Licença de Obra n.º 32/39.AHMP.


ap102compfig. 151 – A entrada do antigo Colégio Almeida Garrett.


O Colégio Almeida Garrett tornou-se propriedade da Universidade do Porto que aí instalou alguns serviços da FEUP e posteriormente a Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) e o Teatro Universitário do Porto (TUP). Em 2017 foi vendido em hasta pública para aí instalar uma unidade hoteleira. Esta venda causou então alguma polémica e contestação.


Junto à praça do Coronel Pacheco, na travessa do mesmo nome não podemos deixar de referenciar um prédio com uma arquitectura de gosto parisiense.

Em 1923 Benjamim de menezes Antunes de Lemos, médico e proprietário, requer construir um prédio no n.º3 da Travessa do Coronel Pacheco, para o que apresenta o respectivo projecto.

ap118fig. 153 – Projecto da fachada do prédio. AHMP.


fig. 154 – O Edifício em Março de 2018. Repare-se que em relação ao projecto foi alterada a mansarda.


[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidario do Viajante no Porto. Imprensa da Universidade Coimbra 1864. (pág.106).

[2] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág. 502).

[3] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.423).

[4] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág. 439).


E Alberto Pimentel termina esta primeira parte do seu texto com uma espécie de introdução à segunda parte, elencando as figuras representadas na pintura de António José da Costa - que na II parte do seu texto desenvolverá - e referindo que embora tenha partido para Lisboa em 1873, não esqueceu o Porto a terra em que nasceu.

Do scenario de ha quarenta annos pouco resta no logar em que o pintor nos faz assistir á passagem do regimento, que vem marchando garbosamente peia rua da Sovella abaixo e obliquando militarmente para entrar na rua das Oliveiras.

Este é, como disse, o pretexto do quadro, porque a intenção do artista foi marcar uma época, pondo em acção figuras e costumes que a sua memoria saudosa de bairrista lhe suggeriu fielmente.

ap2compfig. 155 – António José da Costa, Outros Tempos.


Os porta-machados do Regimento n.º18

Um dos pormenores mais característicos d'este interessante esboço — para mim duplamente interessante — é a resurreição pictural dos porta-machados que constituíam, com o tambor-mór, a vanguarda, belamente mavortica, dos regimentos portuguezes.

ap111fig. 156 – Porta-Machado de 1834.

Homens altos, musculosos e barbaçudos, elles foram destinados a abrir caminho, rompendo as multidões pelo terror e as trincheiras pelo machado; e pelo seu brilho decorativo levavam os corações das criadas de servir, que os admiravam das janellas, presos ternamente aos longos cabellos de suas barbas fluctuantes.

Eram a bem dizer um cataclismo culinário, porque no dia em que elles passassem, debaixo de forma, por uma rua da cidade, o jantar não prestava em nenhuma casa d'essa rua.

Sentia-se na falta ou no excesso de sal, na incúria da mão de tempero a funda perturbação que os porta-machados haviam produzido nos corações da cozinha.

Creio que foi algum ministro da guerra gastrónomo que fez substituir esses imponentes soldadões de longa barba pelos modernos corpos de sapadores, sem aparato de equipamento, nem grandeza hercúlea. (1)

(1) Nota de A.P. A verdade é que os porta-machados foram extinctos pelo artigo 248 do decreto de 30 de outubro de 1884, que reformou o nosso exercito.


E Alberto Pimentel de seguida elenca as outras personagens que figuram no quadro.

Posto isto, vamos à restante figuração do quadro de António Costa.

Por cima do desfile das tropas na varanda da casa o pai de Alberto Pimentel.

Por agora apenas quero dizer que o homem de óculos escuros, mãos apoiadas sobre a varanda de ferro, que assiste á passagem do regimento, no prédio que separava as ruas dos Martires da Liberdade e do Coronel Pacheco, era meu pae, antigo medico portuense.

O artista reproduziu-o com inteira exactidão, tanto na expressão phisionomica, como no corte do fato, e na altitude observadora.

E' um retrato perfeito, que eu muito agradeço ao sr. António Costa.

Assinalado com o n.º4 na imagem o Dr. Fortunato Augusto Pimentel (1808-1889), médico-cirurgião da côrte de D. Miguel. Cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo. Juiz de Paz em Cedofeita. Casou, em segundas núpcias com Ana Olímpia Bragante de Almeida mãe de Alberto Pimentel.

ap2ncompfig. 157 – António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada.

Legenda das figuras citadas no texto.
1 Rua do Mirante
2 Rua da Sovella
3 Casa onde nasceu Alberto Pimentel
4 O pai de Alberto Pimentel 5 o regimento n.º18
………………..
7 Um Cadeirinha
8 Um frade de pedra


[Os outros números serão referenciados na II Parte]

De seguida Alberto Pimentel descreve as figuras que estão representadas à direita na rua, cujas personalidades, mais adiante, irá desenvolver.

E também são retratos, igualmente fieis, muitas das outras figuras do quadro: á direita, no plano da rua, Pedro de Amorim Vianna, por antonomásia o «Newton»; Francisco José Rezende, Manuel José Carneiro, João Correia, professores da Academia de Bellas Artes, e uma celebridade das ruas, o “José das Desgraças”, protagonista do romance Annel misterioso; á esquerda, presenceando o desfile do alto da sua “charrette”, o glorioso avô dos «sportmen» portuenses, Ricardo de Glamouse Brown.

Para além destes que serão retratados um a um por Alberto Pimentel na II Parte do texto algumas figuras populares no Porto dos meados do século XIX.

Além d'estes retratos, que valorisam historicamente o quadro, foram pelo sr. António Costa agrupados, no conjunto da figuração, diversos representantes anónimos de classes populares, algumas das quaes já o tempo supprimiu, como a velha de mantilha, que procura acalmar o neto espavorido com a presença dos porta-machados, e o “cadeirinha” de capote listrado e chapéu alto, já hoje precioso exemplar archeologico de uma classe morta ou pelo menos agonisante.

ap143fig. 158 - A cadeirinha 1888.

Júlio César Machado contemporâneo de Alberto Pimentel lembra também as cadeirinhas

Subsistam embora as cadeirinhas! É por ellas que um paiz floresce, quando os animaes que as pu­xam — digo animaes no sentido de homens! — são de um temperamento rijo e sadio!... Â cadeirinha é o pa­lanque da edade media, accommodado às exigências do tempo! Nenhum pagem de chapéo de plumas; nenhum séquito de homens d'armas e vassallos! Unicamente, modestamente, simplesmente, dois valentes alarves de capote cor de pinhão! — que levam uma pessoa a pau e corda…- não, enganei-me; corda não há; levam uma pessoa…a pau, unicamente!
(...) E a cadeirinha vai andando, andando, n’um passo suave e harmónico, que offerece a quem vai dentro o somno mais mimoso, emquanto estes jumentos, homens é que eu queria dizer! – evitam com cautela encontrarem-se com os seus collegas das seges e carruagens, para não terem um conflicto, visto que – eis o que eu pude averiguar! – há, entre elles…e os cavallos, a maior animosidade…
[1]

Sobre as cadeirinhas no Porto de meados do século XIX escreveu A. de Magalhães Basto (1894 - 1960):

Junto do chafariz de que já falámos andavam sempre uns cavalheiros muito graves de chapéu alto, de oleado ou poli­mento, na cabeça, e cobertos, dos ombros até aos pés, de amplo capote azul, ou cor de pinhão, com vivos encarnados. Encarnada era também a fita da cartola. Estes senhores cha­mavam-se cadeirinhas e alugavam e … carregavam os veí­culos que lhes deram o nome.
Mas este modo de transporte era moroso, bom para ir dor­mindo e sonhando pelo caminho. Quem tivesse pressa de chegar aos confins da Aguardente ou Campanhã alugava um dos jericos — havia-os aparelhados para homem ou para se­nhora— que no mesmo local estacionavam: em coisa de uma hora (!) o viajante ia e voltava e fazia uma altíssima figura. (Este superlativo é pura retórica, esclareça-se...).
Mas continuemos o nosso passeio pelo Porto de 1850.
[2]

E conclui Alberto Pimentel descrevendo a segunda parte do seu texto.

No seguinte capitulo individuaremos, mais especificadamente, todas as personagens do quadro do sr. António Costa, com rigorosa propriedade intitulado “Outros tempos”, porque n'elle revive toda uma época afastada, cujas pessoas e aspectos eu me habituei a venerar religiosamente.

Ha trinta e cinco annos que levei para outra cidade o meu domicilio e a minha família, mas o Porto nunca deixou de ser para mim uma terra sagrada — a terra em que viveram e morreram meus paes, e em que eu próprio nasci…no tempo em que o Porto era como o sr. António Costa o pintou.


[1] Júlio Cesar Machado (1835-1890), Recordações do Porto in Scenas da minha terra, Editor José Maria Correa Seabra, rua dos Calafates, 110. Lisboa 1862. (pág. 156).

[2] Artur de Magalhães Basto (1894 - 1960) - O Porto do Romantismo, Imprensa da Universidade Coimbra 1932.


CONTINUA

com a II Parte do texto de Alberto Pimentel

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